O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões em junho de 2026, acima dos R$ 47,1 bilhões apurados no mesmo mês do ano anterior. O resultado, divulgado pelo Banco Central em 31 de julho, reúne Governo Central, Estados, municípios, Banco Central e empresas estatais não financeiras, com exclusão de Petrobras e Eletrobras, e mede a necessidade de financiamento antes da apropriação dos juros da dívida.
A estatística é calculada pela ótica do financiamento, conhecida como metodologia abaixo da linha. Nessa abordagem, o Banco Central identifica a necessidade de recursos a partir da variação dos ativos e passivos líquidos do setor público. O indicador primário é apurado pelo critério de caixa, enquanto os juros nominais seguem o critério de competência, razão pela qual os dois componentes devem ser examinados separadamente antes da formação do resultado nominal.
A abertura por esfera mostra que o Governo Central respondeu por déficit de R$ 47,2 bilhões. Os governos regionais tiveram saldo negativo de R$ 6,6 bilhões, enquanto as empresas estatais registraram déficit de R$ 1,5 bilhão. Em junho de 2025, os resultados negativos haviam sido de R$ 43,5 bilhões, R$ 954 milhões e R$ 2,6 bilhões, respectivamente.
A piora mensal foi de R$ 8,2 bilhões na comparação anual, equivalente a 17,4% em valores nominais. A deterioração não ficou restrita ao mês: os dados acumulados mostram uma inversão do sinal das contas públicas entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
Primeiro semestre passa de superávit a déficit de R$ 80,2 bilhões
De janeiro a junho de 2026, o setor público acumulou déficit primário de R$ 80,2 bilhões. No mesmo período de 2025, havia sido registrado superávit de R$ 22 bilhões. A diferença entre os dois resultados chega a R$ 102,2 bilhões, indicando que a combinação entre receitas e despesas primárias perdeu força ao longo de 12 meses.
O Governo Central acumulou déficit de R$ 93,4 bilhões no primeiro semestre. Os governos regionais ainda apresentaram superávit de R$ 22,1 bilhões, mas esse saldo foi inferior aos R$ 40,6 bilhões observados entre janeiro e junho de 2025. As empresas estatais passaram de déficit acumulado de R$ 6,2 bilhões para R$ 8,9 bilhões.
A mudança também aparece no resultado em 12 meses. Até junho de 2025, o setor público mantinha superávit primário de R$ 17,9 bilhões, equivalente a 0,15% do Produto Interno Bruto. Um ano depois, o acumulado passou a déficit de R$ 157,2 bilhões, ou 1,19% do PIB.
O resultado primário exclui os juros nominais e funciona como uma medida da capacidade de governos e estatais de financiar despesas não financeiras com suas receitas. Um déficit significa que, mesmo antes dos juros, o conjunto do setor público precisou recorrer a financiamento adicional no período.
Juros nominais chegam a R$ 110,7 bilhões no mês
A pressão fiscal tornou-se mais intensa quando os juros foram incorporados. Os juros nominais apropriados por competência somaram R$ 110,7 bilhões em junho, ante R$ 61 bilhões no mesmo mês de 2025. O aumento foi de R$ 49,7 bilhões, ou 81,5%.
O Banco Central atribuiu parte relevante da diferença ao comportamento das operações de swap cambial. Em junho de 2025, essas operações haviam produzido ganho de R$ 20,9 bilhões. No mesmo mês de 2026, houve perda de R$ 9,3 bilhões. A mudança entre os dois resultados teve impacto de R$ 30,2 bilhões sobre a despesa nominal de juros.
No acumulado de 12 meses, os juros alcançaram R$ 1,1605 trilhão, equivalentes a 8,80% do PIB. No período encerrado em junho de 2025, somavam R$ 912,3 bilhões, ou 7,41% do PIB segundo a série atualizada utilizada pelo Banco Central. O aumento nominal foi de R$ 248,2 bilhões.
Com a soma do déficit primário e dos juros, o resultado nominal ficou negativo em R$ 166 bilhões em junho. Em 12 meses, o déficit nominal atingiu R$ 1,3178 trilhão, correspondente a 9,99% do PIB, com elevação de 0,38 ponto percentual em relação ao acumulado até maio.
Dívida bruta sobe para 81,9% do PIB
A Dívida Bruta do Governo Geral encerrou junho em R$ 10,8 trilhões, ou 81,9% do PIB. O indicador avançou 0,9 ponto percentual em apenas um mês e ficou 5,3 pontos acima dos 76,6% registrados em junho de 2025. Em valores nominais, o estoque aumentou aproximadamente R$ 1,4 trilhão em 12 meses.
Segundo o Banco Central, a elevação mensal foi explicada principalmente pelos juros nominais, que acrescentaram 0,8 ponto percentual à relação dívida/PIB, e pelas emissões líquidas de títulos e outras obrigações, com impacto de 0,6 ponto. O crescimento do PIB nominal reduziu o indicador em 0,5 ponto percentual.
No acumulado de 2026, a dívida bruta aumentou 3,3 pontos percentuais do PIB. A incorporação dos juros respondeu por acréscimo de 4,9 pontos e as emissões líquidas, por 1,3 ponto. O crescimento do PIB nominal e a valorização cambial atenuaram a alta, com efeitos redutores de 2,7 e 0,2 pontos percentuais, respectivamente.
A Dívida Líquida do Setor Público também subiu. O indicador alcançou R$ 9 trilhões, equivalentes a 68,5% do PIB, após avanço mensal de 0,6 ponto percentual. Em junho de 2025, a dívida líquida correspondia a 62,9% do PIB e somava R$ 7,7 trilhões.
Meta fiscal tem centro de R$ 34,3 bilhões e tolerância até zero
A deterioração do resultado consolidado não pode ser comparada diretamente com a meta fiscal do Governo Central. O número do Banco Central abrange diferentes esferas e é calculado pela metodologia abaixo da linha, que identifica o resultado a partir da variação do endividamento. A gestão orçamentária também utiliza dados acima da linha, formados pelos fluxos de receitas e despesas.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 fixou meta central de superávit primário de R$ 34,265 bilhões para o Governo Central. O intervalo de tolerância permite resultado entre zero e superávit de R$ 68,529 bilhões. Assim, um resultado ajustado não negativo é suficiente para que a execução fique dentro da banda legal, embora permaneça abaixo do centro da meta.
No relatório de avaliação referente ao terceiro bimestre, o Ministério do Planejamento e Orçamento projetou superávit ajustado de R$ 10,765 bilhões para 2026. O cálculo considera receitas e despesas estimadas, bloqueios orçamentários e abatimentos autorizados pela Constituição e por leis complementares. Com esse valor, o governo não identificou necessidade de novo contingenciamento para atendimento do limite inferior da meta.
A avaliação, entretanto, manteve R$ 17,938 bilhões de despesas discricionárias bloqueadas para adequação ao limite anual de gastos. O montante ficou R$ 5,741 bilhões abaixo do bloqueio de R$ 23,679 bilhões definido no segundo bimestre, após revisão para baixo das projeções de algumas despesas obrigatórias.
Abatimentos separam resultado observado da apuração da meta
O relatório bimestral considera R$ 55,707 bilhões de precatórios que podem ser retirados da verificação da meta em 2026. Também ficam fora do cálculo R$ 2,5 bilhões destinados a projetos estratégicos de defesa nacional e R$ 3,547 bilhões de despesas temporárias de saúde financiadas com recursos do Fundo Social.
Outro abatimento, de R$ 1,025 bilhão, está relacionado ao ressarcimento de descontos indevidos em benefícios previdenciários, conforme decisões judiciais e créditos extraordinários descritos no documento. Essas exclusões ajudam a explicar por que o resultado efetivamente observado nas estatísticas fiscais pode ser mais negativo do que o saldo utilizado formalmente para avaliar o cumprimento da meta.
O mecanismo não elimina a necessidade de financiamento nem reduz automaticamente a dívida. Ele altera o conjunto de despesas considerado na comparação com a meta legal. Por isso, a leitura fiscal exige separar o resultado primário cheio, a apuração ajustada da meta e o limite de despesas do regime fiscal.
Segundo semestre começa com dívida e juros em alta
O quadro ao fim de junho combina três movimentos: déficit primário crescente, custo de juros superior ao do ano anterior e aumento das dívidas bruta e líquida em proporção do PIB. A melhora parcial do bloqueio orçamentário no terceiro bimestre reduz a restrição sobre despesas discricionárias, mas não altera os resultados já registrados pelo Banco Central.
Para o restante de 2026, a execução terá de conciliar a meta central de superávit com a banda que admite resultado zero, além do limite de R$ 2,39 trilhões para as despesas primárias. As avaliações bimestrais poderão rever receitas, gastos obrigatórios, bloqueios e eventual necessidade de contingenciamento conforme a arrecadação e a execução do Orçamento.
A próxima divulgação das Estatísticas Fiscais, referente a julho, está prevista pelo Banco Central para 31 de agosto. O dado mostrará se o déficit acumulado continua aumentando e como os juros, as emissões de dívida e o crescimento nominal da economia influenciaram a trajetória da dívida pública no início do segundo semestre.









