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Déficit primário do setor público chega a R$ 55,3 bilhões e dívida bruta sobe a 81,9% do PIB

Resultado acumulado virou de superávit de R$ 22 bilhões no primeiro semestre de 2025 para déficit de R$ 80,2 bilhões em 2026; juros nominais atingiram R$ 110,7 bilhões em junho.

por Maria Helena Costa
04/08/2026 às 11h38
em Economia
Setor Público Registra Déficit De R$ 55,3 Bi Em Junho E Tem Maior Rombo Para O Mês Desde 2021-Gazeta Mercantil

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões em junho de 2026, acima dos R$ 47,1 bilhões apurados no mesmo mês do ano anterior. O resultado, divulgado pelo Banco Central em 31 de julho, reúne Governo Central, Estados, municípios, Banco Central e empresas estatais não financeiras, com exclusão de Petrobras e Eletrobras, e mede a necessidade de financiamento antes da apropriação dos juros da dívida.

A estatística é calculada pela ótica do financiamento, conhecida como metodologia abaixo da linha. Nessa abordagem, o Banco Central identifica a necessidade de recursos a partir da variação dos ativos e passivos líquidos do setor público. O indicador primário é apurado pelo critério de caixa, enquanto os juros nominais seguem o critério de competência, razão pela qual os dois componentes devem ser examinados separadamente antes da formação do resultado nominal.

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A abertura por esfera mostra que o Governo Central respondeu por déficit de R$ 47,2 bilhões. Os governos regionais tiveram saldo negativo de R$ 6,6 bilhões, enquanto as empresas estatais registraram déficit de R$ 1,5 bilhão. Em junho de 2025, os resultados negativos haviam sido de R$ 43,5 bilhões, R$ 954 milhões e R$ 2,6 bilhões, respectivamente.

A piora mensal foi de R$ 8,2 bilhões na comparação anual, equivalente a 17,4% em valores nominais. A deterioração não ficou restrita ao mês: os dados acumulados mostram uma inversão do sinal das contas públicas entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.

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Primeiro semestre passa de superávit a déficit de R$ 80,2 bilhões

De janeiro a junho de 2026, o setor público acumulou déficit primário de R$ 80,2 bilhões. No mesmo período de 2025, havia sido registrado superávit de R$ 22 bilhões. A diferença entre os dois resultados chega a R$ 102,2 bilhões, indicando que a combinação entre receitas e despesas primárias perdeu força ao longo de 12 meses.

O Governo Central acumulou déficit de R$ 93,4 bilhões no primeiro semestre. Os governos regionais ainda apresentaram superávit de R$ 22,1 bilhões, mas esse saldo foi inferior aos R$ 40,6 bilhões observados entre janeiro e junho de 2025. As empresas estatais passaram de déficit acumulado de R$ 6,2 bilhões para R$ 8,9 bilhões.

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A mudança também aparece no resultado em 12 meses. Até junho de 2025, o setor público mantinha superávit primário de R$ 17,9 bilhões, equivalente a 0,15% do Produto Interno Bruto. Um ano depois, o acumulado passou a déficit de R$ 157,2 bilhões, ou 1,19% do PIB.

O resultado primário exclui os juros nominais e funciona como uma medida da capacidade de governos e estatais de financiar despesas não financeiras com suas receitas. Um déficit significa que, mesmo antes dos juros, o conjunto do setor público precisou recorrer a financiamento adicional no período.

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Juros nominais chegam a R$ 110,7 bilhões no mês

A pressão fiscal tornou-se mais intensa quando os juros foram incorporados. Os juros nominais apropriados por competência somaram R$ 110,7 bilhões em junho, ante R$ 61 bilhões no mesmo mês de 2025. O aumento foi de R$ 49,7 bilhões, ou 81,5%.

O Banco Central atribuiu parte relevante da diferença ao comportamento das operações de swap cambial. Em junho de 2025, essas operações haviam produzido ganho de R$ 20,9 bilhões. No mesmo mês de 2026, houve perda de R$ 9,3 bilhões. A mudança entre os dois resultados teve impacto de R$ 30,2 bilhões sobre a despesa nominal de juros.

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No acumulado de 12 meses, os juros alcançaram R$ 1,1605 trilhão, equivalentes a 8,80% do PIB. No período encerrado em junho de 2025, somavam R$ 912,3 bilhões, ou 7,41% do PIB segundo a série atualizada utilizada pelo Banco Central. O aumento nominal foi de R$ 248,2 bilhões.

Com a soma do déficit primário e dos juros, o resultado nominal ficou negativo em R$ 166 bilhões em junho. Em 12 meses, o déficit nominal atingiu R$ 1,3178 trilhão, correspondente a 9,99% do PIB, com elevação de 0,38 ponto percentual em relação ao acumulado até maio.

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Dívida bruta sobe para 81,9% do PIB

A Dívida Bruta do Governo Geral encerrou junho em R$ 10,8 trilhões, ou 81,9% do PIB. O indicador avançou 0,9 ponto percentual em apenas um mês e ficou 5,3 pontos acima dos 76,6% registrados em junho de 2025. Em valores nominais, o estoque aumentou aproximadamente R$ 1,4 trilhão em 12 meses.

Segundo o Banco Central, a elevação mensal foi explicada principalmente pelos juros nominais, que acrescentaram 0,8 ponto percentual à relação dívida/PIB, e pelas emissões líquidas de títulos e outras obrigações, com impacto de 0,6 ponto. O crescimento do PIB nominal reduziu o indicador em 0,5 ponto percentual.

No acumulado de 2026, a dívida bruta aumentou 3,3 pontos percentuais do PIB. A incorporação dos juros respondeu por acréscimo de 4,9 pontos e as emissões líquidas, por 1,3 ponto. O crescimento do PIB nominal e a valorização cambial atenuaram a alta, com efeitos redutores de 2,7 e 0,2 pontos percentuais, respectivamente.

A Dívida Líquida do Setor Público também subiu. O indicador alcançou R$ 9 trilhões, equivalentes a 68,5% do PIB, após avanço mensal de 0,6 ponto percentual. Em junho de 2025, a dívida líquida correspondia a 62,9% do PIB e somava R$ 7,7 trilhões.

Meta fiscal tem centro de R$ 34,3 bilhões e tolerância até zero

A deterioração do resultado consolidado não pode ser comparada diretamente com a meta fiscal do Governo Central. O número do Banco Central abrange diferentes esferas e é calculado pela metodologia abaixo da linha, que identifica o resultado a partir da variação do endividamento. A gestão orçamentária também utiliza dados acima da linha, formados pelos fluxos de receitas e despesas.

A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 fixou meta central de superávit primário de R$ 34,265 bilhões para o Governo Central. O intervalo de tolerância permite resultado entre zero e superávit de R$ 68,529 bilhões. Assim, um resultado ajustado não negativo é suficiente para que a execução fique dentro da banda legal, embora permaneça abaixo do centro da meta.

No relatório de avaliação referente ao terceiro bimestre, o Ministério do Planejamento e Orçamento projetou superávit ajustado de R$ 10,765 bilhões para 2026. O cálculo considera receitas e despesas estimadas, bloqueios orçamentários e abatimentos autorizados pela Constituição e por leis complementares. Com esse valor, o governo não identificou necessidade de novo contingenciamento para atendimento do limite inferior da meta.

A avaliação, entretanto, manteve R$ 17,938 bilhões de despesas discricionárias bloqueadas para adequação ao limite anual de gastos. O montante ficou R$ 5,741 bilhões abaixo do bloqueio de R$ 23,679 bilhões definido no segundo bimestre, após revisão para baixo das projeções de algumas despesas obrigatórias.

Abatimentos separam resultado observado da apuração da meta

O relatório bimestral considera R$ 55,707 bilhões de precatórios que podem ser retirados da verificação da meta em 2026. Também ficam fora do cálculo R$ 2,5 bilhões destinados a projetos estratégicos de defesa nacional e R$ 3,547 bilhões de despesas temporárias de saúde financiadas com recursos do Fundo Social.

Outro abatimento, de R$ 1,025 bilhão, está relacionado ao ressarcimento de descontos indevidos em benefícios previdenciários, conforme decisões judiciais e créditos extraordinários descritos no documento. Essas exclusões ajudam a explicar por que o resultado efetivamente observado nas estatísticas fiscais pode ser mais negativo do que o saldo utilizado formalmente para avaliar o cumprimento da meta.

O mecanismo não elimina a necessidade de financiamento nem reduz automaticamente a dívida. Ele altera o conjunto de despesas considerado na comparação com a meta legal. Por isso, a leitura fiscal exige separar o resultado primário cheio, a apuração ajustada da meta e o limite de despesas do regime fiscal.

Segundo semestre começa com dívida e juros em alta

O quadro ao fim de junho combina três movimentos: déficit primário crescente, custo de juros superior ao do ano anterior e aumento das dívidas bruta e líquida em proporção do PIB. A melhora parcial do bloqueio orçamentário no terceiro bimestre reduz a restrição sobre despesas discricionárias, mas não altera os resultados já registrados pelo Banco Central.

Para o restante de 2026, a execução terá de conciliar a meta central de superávit com a banda que admite resultado zero, além do limite de R$ 2,39 trilhões para as despesas primárias. As avaliações bimestrais poderão rever receitas, gastos obrigatórios, bloqueios e eventual necessidade de contingenciamento conforme a arrecadação e a execução do Orçamento.

A próxima divulgação das Estatísticas Fiscais, referente a julho, está prevista pelo Banco Central para 31 de agosto. O dado mostrará se o déficit acumulado continua aumentando e como os juros, as emissões de dívida e o crescimento nominal da economia influenciaram a trajetória da dívida pública no início do segundo semestre.

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