A Amazon (AMZN; AMZO34) encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita de US$ 200,6 bilhões, crescimento de 20% sobre o mesmo período do ano anterior, e lucro líquido de US$ 62,6 bilhões. O resultado por ação diluída atingiu US$ 5,75, ante US$ 1,68 um ano antes, segundo o balanço referente aos três meses encerrados em 30 de junho e divulgado na quinta-feira (30).
O salto do lucro, porém, não decorreu apenas das operações de comércio eletrônico, publicidade e computação em nuvem. A companhia reconheceu US$ 53,4 bilhões em outras receitas não operacionais antes de impostos, principalmente associados à valorização contábil de seus investimentos na Anthropic. O efeito não representa ingresso equivalente de dinheiro no caixa e torna o lucro operacional uma referência mais direta para avaliar o desempenho recorrente do trimestre.
Nessa métrica, a Amazon também avançou. O lucro operacional subiu 43%, de US$ 19,2 bilhões para US$ 27,5 bilhões. A expansão foi liderada pela Amazon Web Services, que combinou aceleração de receita com aumento de margem. As operações da América do Norte e internacionais também cresceram, mas continuam apresentando rentabilidade muito inferior à da divisão de nuvem.
O balanço expõe, ao mesmo tempo, o custo financeiro da corrida por capacidade de inteligência artificial. As compras de propriedades e equipamentos alcançaram US$ 54,2 bilhões no trimestre, enquanto o fluxo de caixa operacional foi de US$ 45,4 bilhões. Nos doze meses até junho, o fluxo de caixa livre passou de uma entrada de US$ 18,2 bilhões para uma saída de US$ 7,6 bilhões.
AWS cresce 37% e concentra o lucro operacional
A receita da AWS aumentou de US$ 30,9 bilhões para US$ 42,2 bilhões, alta de 37% e o ritmo mais forte em dezoito trimestres. A divisão alcançou uma receita anualizada de aproximadamente US$ 169 bilhões. No primeiro semestre, as vendas somaram US$ 79,8 bilhões, crescimento de 33% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
O lucro operacional da unidade chegou a US$ 16,6 bilhões, frente a US$ 10,2 bilhões no segundo trimestre do ano passado. A margem calculada sobre a receita avançou de 32,9% para 39,4%. Embora tenha respondido por 21% das vendas consolidadas, a AWS entregou cerca de 61% do lucro operacional do grupo, proporção que evidencia seu peso na rentabilidade da Amazon.
A carteira de obrigações de desempenho ainda não reconhecidas, formada principalmente por contratos de longo prazo da AWS, atingiu US$ 496 bilhões em 30 de junho. O prazo médio remanescente desses compromissos era de 6,4 anos. O documento regulatório também registra expansões de contratos superiores a US$ 100 bilhões com a OpenAI, por oito anos, e com a Anthropic, por dez anos, vinculadas ao fornecimento de serviços de nuvem e ao desempenho dos chips da AWS.
A administração atribuiu a aceleração ao crescimento conjunto das cargas tradicionais de computação e dos serviços de inteligência artificial. Os negócios de IA e de chips próprios da AWS superaram, cada um, uma receita anualizada de US$ 25 bilhões, com expansão de três dígitos. Na conferência de resultados, o presidente-executivo Andy Jassy afirmou que a capacidade disponível continuará inferior à demanda esperada em 2026 e 2027.
Anthropic gera ajuste de US$ 50,5 bilhões
O Formulário 10-Q detalha que a linha de outras receitas líquidas somou US$ 53,4 bilhões no trimestre, ante US$ 1,1 bilhão um ano antes. Desse total, US$ 50,5 bilhões vieram de ajustes positivos em investimentos em empresas privadas, principalmente ações preferenciais sem direito a voto da Anthropic, após mudanças observáveis nos preços das rodadas de financiamento da companhia de inteligência artificial.
O lançamento é uma marcação contábil a valor justo. A Amazon atualiza o valor de determinados ativos privados quando transações observáveis fornecem uma nova referência de preço, utilizando ainda premissas sobre direitos das diferentes classes de ações, eventos de liquidez e desconto por falta de negociabilidade. O ganho é reconhecido no resultado, embora não corresponda a uma venda da participação nem a uma entrada de caixa.
Durante o segundo trimestre, a Amazon investiu US$ 10 bilhões na Anthropic: US$ 5 bilhões em ações preferenciais da Série G e outros US$ 5 bilhões na Série H. A empresa já havia aplicado US$ 8 bilhões em notas conversíveis entre o terceiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2025. Também estruturou uma facilidade de financiamento de até US$ 20 bilhões, da qual restavam US$ 15 bilhões após o aporte da Série H.
Ao fim de junho, as ações preferenciais sem voto da Anthropic estavam registradas por US$ 92,5 bilhões no balanço, ante US$ 14,8 bilhões em dezembro. As notas conversíveis tinham valor justo estimado de US$ 97,9 bilhões, incluindo US$ 92 bilhões de ganho não realizado reconhecido no patrimônio. A magnitude desses ajustes explica por que o lucro líquido e o lucro por ação precisam ser lidos separadamente do resultado operacional.
Investimento comprime a geração de caixa
As compras de propriedades e equipamentos consumiram US$ 54,2 bilhões entre abril e junho. Descontados US$ 1,1 bilhão obtidos com vendas de ativos e incentivos, o desembolso líquido ficou próximo de US$ 53,1 bilhões. Como as operações geraram US$ 45,4 bilhões no mesmo período, a diferença entre essas duas linhas foi negativa em aproximadamente US$ 7,7 bilhões.
Nos doze meses encerrados em junho, o fluxo de caixa operacional cresceu 33%, para US$ 161,4 bilhões. O avanço não foi suficiente para acompanhar os US$ 169 bilhões em compras líquidas de propriedades e equipamentos. Por essa definição, usada pela própria companhia, o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 7,6 bilhões, revertendo os US$ 18,2 bilhões positivos registrados um ano antes.
Na teleconferência, Jassy elevou de aproximadamente US$ 200 bilhões para US$ 220 bilhões a previsão de capex em dinheiro para 2026. A revisão foi atribuída principalmente ao encarecimento das memórias utilizadas na infraestrutura. O executivo afirmou que, mesmo com o orçamento maior, a empresa não deverá instalar capacidade suficiente para toda a demanda identificada neste ano e no próximo.
Dívida de longo prazo quase dobra no semestre
O financiamento externo acompanhou a expansão. A dívida de longo prazo passou de US$ 65,6 bilhões em dezembro de 2025 para US$ 128,9 bilhões ao fim de junho. A Amazon levantou US$ 67 bilhões com emissões de dívida de longo prazo no primeiro semestre, em dólares, euros, francos suíços e dólares canadenses. O valor de face das obrigações alcançou US$ 133 bilhões.
O aumento já aparece nas despesas financeiras. Os gastos com juros subiram de US$ 516 milhões no segundo trimestre de 2025 para US$ 1,3 bilhão neste ano. Depois do encerramento do período, a companhia emitiu mais US$ 25 bilhões em títulos denominados em dólares, com vencimentos entre 2029 e 2066 e taxas fixas de até 6,25% ao ano.
A liquidez permaneceu elevada. A empresa tinha US$ 78,2 bilhões em caixa e equivalentes e US$ 44,8 bilhões em títulos negociáveis, totalizando US$ 123 bilhões. Esse volume, somado à geração operacional, oferece proteção para o ciclo de investimentos, mas o avanço simultâneo da dívida, do capex e das despesas com juros aumenta a importância da conversão dos contratos de nuvem em receita e caixa.
Publicidade e varejo ampliam a receita
Fora da AWS, as vendas na América do Norte cresceram 16%, para US$ 116,2 bilhões, e o lucro operacional subiu 21%, para US$ 9,1 bilhões. A operação internacional faturou US$ 42,2 bilhões, avanço de 15%, com lucro operacional de US$ 1,7 bilhão. As margens ficaram em 7,9% e 4,1%, respectivamente, bem abaixo dos 39,4% registrados pela nuvem.
A receita de publicidade aumentou 26%, de US$ 15,7 bilhões para US$ 19,8 bilhões. Os serviços de assinatura, que incluem Prime e conteúdos digitais, cresceram 12%, para US$ 13,7 bilhões. As lojas online faturaram US$ 70,4 bilhões, enquanto os serviços prestados a vendedores terceiros geraram US$ 46,8 bilhões, ambos com expansão de dois dígitos.
A companhia atribuiu o desempenho das operações de varejo ao aumento das unidades vendidas, às vendas de publicidade, às assinaturas e aos serviços para comerciantes. O calendário também favoreceu a comparação do segundo trimestre, porque o Prime Day de 2026 ocorreu no período em vários dos maiores mercados da Amazon, enquanto o evento de 2025 havia sido realizado integralmente no terceiro trimestre.
Projeção indica desaceleração no terceiro trimestre
Para o terceiro trimestre, a Amazon projeta receita entre US$ 197 bilhões e US$ 202 bilhões, correspondente a crescimento de 9% a 12% sobre o mesmo período de 2025. A previsão considera impacto cambial desfavorável de aproximadamente 0,8 ponto percentual. O lucro operacional é estimado entre US$ 22,5 bilhões e US$ 26,5 bilhões, ante US$ 17,4 bilhões um ano antes.
A administração calcula que, sem a diferença de calendário do Prime Day nos dois anos, o crescimento da receita no terceiro trimestre seria quase quatro pontos percentuais maior. A orientação não incorpora novas aquisições, reestruturações ou acordos judiciais e está sujeita a riscos relacionados a câmbio, energia, tarifas, oferta de componentes, inflação, juros e demanda por serviços de nuvem.
O desempenho dos próximos períodos será determinado por três movimentos já visíveis no balanço: a capacidade de a AWS sustentar a aceleração e transformar os US$ 496 bilhões de compromissos contratuais em receita; o retorno produzido pelo capex de US$ 220 bilhões; e a evolução do caixa diante da maior dívida. A valorização da Anthropic elevou o lucro contábil, mas não substitui a geração operacional necessária para financiar essa expansão.









