Analistas e instituições participantes do Sistema Expectativas de Mercado do Banco Central reduziram as projeções para a inflação e a taxa Selic no fim de 2026, segundo o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (3). A mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu de 5,12% para 5,03%, enquanto a estimativa para os juros recuou de 14% para 13,75% ao ano. A revisão foi apurada na semana encerrada em 31 de julho e antecede a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).
O movimento altera a trajetória esperada para a política monetária. Com a Selic atualmente em 14,25% ao ano, depois do corte realizado em junho, a pesquisa passou a incorporar meio ponto percentual adicional de redução até dezembro. A distribuição das respostas por reunião indica uma taxa de 14% após o encontro de agosto, manutenção nesse nível em setembro, novo corte para 13,75% em novembro e estabilidade em dezembro.
A projeção mais baixa para o IPCA reforça a percepção de alívio recente dos preços, mas não elimina a desancoragem. A estimativa de 5,03% continua 2,03 pontos percentuais acima da meta contínua de 3% e 0,53 ponto acima do limite superior de 4,5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional. Portanto, mesmo com a queda semanal, o consenso ainda prevê inflação fora do intervalo de tolerância no fechamento de 2026.
O Focus reúne previsões de instituições cadastradas. As medianas não representam projeções próprias do Banco Central nem antecipam a decisão do Copom, mas sintetizam o cenário predominante entre os participantes.
Mercado passa a prever dois cortes adicionais em 2026
A mudança mais relevante ocorreu na Selic de dezembro. Na pesquisa anterior, com data-base de 24 de julho, a mediana indicava juros de 14% ao ano no encerramento de 2026. Uma semana depois, a projeção caiu para 13,75%, com 152 respostas consideradas na base acumulada dos últimos 30 dias.
A curva por reuniões detalha como o mercado distribui essa redução. A mediana para o encontro de agosto está em 14%, o que corresponde a um corte de 0,25 ponto ante a taxa vigente. Para a reunião seguinte, a previsão permanece em 14%. A estimativa baixa para 13,75% na reunião posterior e se mantém nesse patamar no último encontro do ano.
Esse desenho aponta para uma condução gradual, com pausas entre os cortes, em lugar de uma sequência contínua de flexibilização. A diferença é relevante porque o Copom declarou em junho que a magnitude total do ciclo dependeria de novas informações e que as incertezas em torno das projeções permaneciam acima do habitual. A comunicação também destacou expectativas desancoradas, inflação elevada e pressões persistentes no mercado de trabalho.
Para os anos seguintes, o Focus não alterou os números apresentados com duas casas decimais. A Selic projetada para dezembro de 2027 permaneceu em 12%; para 2028, ficou em 10,50%; e, para 2029, em 10%. Esses níveis indicam que o mercado ainda espera juros nominais elevados por um período prolongado, mesmo com o ciclo de cortes iniciado.
IPCA de 2026 cai nove centésimos, mas permanece acima do teto
A estimativa para o IPCA de 2026 recuou aproximadamente 0,09 ponto percentual em uma semana, de 5,12% para 5,03%. O dado confirma uma melhora na margem após indicadores recentes mostrarem desaceleração, mas a projeção anual continua incompatível com o intervalo de 1,5% a 4,5% que cerca a meta de 3%.
Para 2027, a mediana permaneceu em 4,22% quando arredondada a duas casas decimais. A base do Banco Central registra pequena variação interna, de 4,2154% para 4,2194%, insuficiente para alterar o número publicado no relatório. As previsões para 2028 e 2029 também ficaram estáveis, em 3,80% e 3,50%, respectivamente.
O horizonte mais longo mostra convergência lenta. A expectativa para 2027 ainda supera a meta em 1,22 ponto percentual, e a de 2028 permanece 0,80 ponto acima. Apenas a projeção de 2029, em 3,50%, se aproxima mais do centro perseguido pelo Banco Central, embora continue meio ponto acima dele.
Os números mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ajudam a explicar a redução da estimativa de curto prazo. O IPCA subiu 0,16% em junho e acumulou 4,64% em 12 meses. Já o IPCA-15 avançou apenas 0,06% em julho, ante 0,41% em junho, e desacelerou de 4,80% para 4,52% no acumulado de 12 meses. A prévia ficou apenas 0,02 ponto acima do teto de tolerância.
Banco Central ainda projeta inflação de 5,2% no fim do ano
O cenário de referência apresentado pelo Banco Central no Relatório de Política Monetária de junho é mais adverso do que a mediana atual do Focus. A autoridade monetária projetou inflação de 5,2% no quarto trimestre de 2026, com alta ao longo do segundo semestre depois de o índice ter recuado para 4,1% no primeiro trimestre.
Naquele relatório, o Banco Central estimou em 79% a probabilidade de a inflação superar 4,5% no último trimestre do ano. A instituição atribuiu a revisão das projeções à surpresa com os preços correntes, ao hiato do produto mais elevado, à alta do petróleo e de outras commodities e à deterioração das expectativas. Juros mais altos e apreciação cambial atuaram no sentido contrário, limitando parte da pressão.
A projeção oficial é condicionada a hipóteses para a Selic, o câmbio e outras variáveis e foi construída com informações disponíveis até a reunião do Copom de junho. Por isso, não incorpora integralmente o alívio observado nas expectativas até 31 de julho. A diferença entre os 5,2% do cenário do Banco Central e os 5,03% do Focus atual não constitui divergência metodológica direta, porque os dois números foram calculados em datas distintas e por processos diferentes.
O dado decisivo para o Copom continuará sendo a trajetória prospectiva, e não apenas a inflação anual isolada. Desde 2025, a meta de 3% é apurada de forma contínua, com verificação mensal do IPCA acumulado em 12 meses. O regime considera a meta descumprida quando a inflação permanece fora da faixa de tolerância por seis meses consecutivos.
PIB de 2026 permanece em 1,99%, mas 2027 perde força
Na atividade econômica, a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto em 2026 ficou em 1,99%. A alteração interna foi pequena, de 1,9861% para 1,9850%, e desaparece quando o resultado é apresentado com duas casas decimais. A estabilidade aproxima o consenso da projeção de 2% divulgada pelo próprio Banco Central no relatório de junho.
Para 2027, porém, a estimativa caiu de 1,60% para 1,57%, na segunda redução consecutiva. A revisão sugere que os efeitos dos juros elevados e da moderação esperada da demanda devem permanecer visíveis no próximo ano. Para 2028 e 2029, as medianas ficaram em 2%.
O Banco Central elevou em junho sua própria projeção de crescimento para 2026 de 1,6% para 2%. A mudança foi justificada pelo avanço de 1,1% do PIB no primeiro trimestre, pela melhora das perspectivas para a agropecuária e a indústria extrativa e por sinais de maior dinamismo da demanda interna. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária afirmou que a atividade seguia em trajetória de desaceleração no acumulado do ano.
Essa combinação impõe uma dificuldade adicional à política monetária. Uma economia que cresce perto de 2%, com mercado de trabalho resiliente e inflação acima da meta, reduz o espaço para cortes rápidos. Por outro lado, a queda da projeção para 2027 sinaliza que a manutenção prolongada de juros restritivos pode produzir desaceleração mais intensa adiante.
Dólar fica em R$ 5,20 em 2026 e sobe para R$ 5,39 em 2029
No mercado de câmbio, a mediana para o dólar no fim de 2026 permaneceu em R$ 5,20, com 122 respostas na base dos últimos 30 dias. Para 2027, houve ajuste de R$ 5,29 para R$ 5,28. A previsão de 2028 seguiu em R$ 5,30.
A mudança mais distante ocorreu em 2029, quando a estimativa subiu de R$ 5,37 para R$ 5,39. A série oficial do Banco Central mostra que o valor anterior era R$ 5,3673 antes do arredondamento. A revisão, embora pequena, interrompe a estabilidade observada nos horizontes mais próximos.
Decisão do Copom testará nova trajetória das expectativas
A redução simultânea das projeções para IPCA e Selic não significa que a política monetária tenha deixado de ser restritiva. Mesmo em 13,75% no fim de 2026, os juros permaneceriam muito acima da inflação esperada e da taxa considerada neutra pelo Banco Central. O Relatório de Política Monetária estimou uma taxa real neutra de 5%, inferior aos juros reais projetados ao longo de todo o horizonte analisado.
O primeiro teste da nova trajetória ocorrerá na reunião de agosto. A mediana do Sistema de Expectativas aponta redução da Selic de 14,25% para 14%, mas a decisão cabe exclusivamente aos membros do Copom. O comitê poderá confirmar o cenário, manter a taxa ou adotar outro ritmo caso avalie que o balanço de riscos mudou.
A distância das expectativas de inflação em relação à meta seguirá no centro da discussão. O Focus mostra melhora para 2026, porém conserva projeções acima de 3% em todos os anos até 2029. A permanência desse desvio em horizontes longos é um dos elementos que limita a velocidade de redução dos juros.
O Copom encerra a reunião nesta quarta-feira (5), quando divulgará a nova taxa e os fundamentos da decisão. A ata, prevista para a semana seguinte, deverá detalhar como o comitê avaliou o recuo do IPCA esperado, a atividade próxima de 2%, o comportamento do câmbio e a necessidade de conduzir a inflação de volta à meta contínua.
Fontes
- Banco Central do Brasil — Sistema Expectativas de Mercado, expectativas anuais com data-base de 31 de julho de 2026
- Banco Central do Brasil — Sistema Expectativas de Mercado, trajetória da Selic por reunião com data-base de 31 de julho de 2026
- Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária de junho de 2026
- Banco Central do Brasil — Comunicados do Copom — junho de 2026
- Banco Central do Brasil — Metas para a inflação
- IBGE — IPCA fica em 0,16% em junho — 10 de julho de 2026
- IBGE — IPCA-15 é de 0,06% em julho — 28 de julho de 2026









