A expansão da creator economy entrou na agenda do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, que reuniu criadores de conteúdo em Brasília, em 30 de junho, para discutir formalização, acesso a crédito, tributação, previdência e reconhecimento da atividade. O debate ocorre em um mercado que já sustenta negócios e equipes: somente o ecossistema criativo do YouTube contribuiu com mais de R$ 6 bilhões para o Produto Interno Bruto brasileiro em 2025 e apoiou mais de 150 mil ocupações equivalentes a tempo integral.
Os números fazem parte de estudo da Oxford Economics divulgado pela plataforma em junho de 2026. O levantamento registrou ainda mais de 45 mil canais brasileiros acima de 100 mil inscritos. Os dados não medem toda a economia dos criadores, porque se limitam às atividades relacionadas ao YouTube, mas oferecem uma referência recente sobre a dimensão econômica alcançada por uma parte do setor no país.
Ao mesmo tempo, uma pesquisa do IAB Brasil com a Offerwise mostra que a influência sobre o consumo não está restrita aos maiores perfis. O estudo #Publi 2025 apontou que oito em cada dez brasileiros já compraram produtos recomendados por criadores e que sete em cada dez consideram a autenticidade decisiva nessa relação. O resultado reforça o valor comercial das comunidades digitais, mas também amplia a exigência por transparência na publicidade.
O avanço econômico ainda convive com um enquadramento fragmentado. A Lei nº 15.325, sancionada em janeiro de 2026, reconheceu a profissão de multimídia e abrange tarefas de criação, produção, edição, gestão de redes sociais e distribuição de conteúdo digital. O governo, porém, passou a discutir a possibilidade de uma classificação econômica específica para influenciadores e criadores, tema que alcança registro empresarial, emissão fiscal e acesso a políticas voltadas aos pequenos negócios.
Estudo mede renda, fornecedores e trabalho gerado pelo YouTube
A estimativa de impacto econômico foi construída com três pesquisas realizadas entre janeiro e março de 2026. No Brasil, a Oxford Economics ouviu 5.200 criadores, 600 empresas e 3.000 usuários. A amostra de usuários foi ponderada por idade e gênero para refletir o público da plataforma, enquanto a pesquisa de criadores buscou reunir canais de diferentes tamanhos.
O cálculo inclui os chamados empreendedores criativos, empresas de mídia e música, funcionários contratados e agentes da cadeia de fornecedores. Também considera receitas obtidas diretamente na plataforma, como participação em publicidade, assinaturas e pagamentos dos usuários, e ganhos externos associados à presença do criador, entre eles vendas de produtos, contratos com marcas e apresentações.
Para estimar a contribuição ao PIB, o estudo subtraiu custos intermediários das receitas vinculadas à atividade e aplicou um modelo de insumo-produto para calcular efeitos indiretos sobre fornecedores e efeitos induzidos pelo consumo dos trabalhadores. A própria Oxford Economics ressalva que os resultados são brutos: não descontam a utilização alternativa dos recursos mobilizados pela produção de conteúdo.
A medida de trabalho também exige cautela. Uma ocupação equivalente a tempo integral não corresponde necessariamente a um empregado contratado. Ela pode representar um criador que trabalha 35 horas por semana ou a soma de duas pessoas com 17,5 horas cada. O modelo incluiu empreendedores criativos que dedicam ao menos oito horas semanais à plataforma, seus funcionários permanentes e os postos estimados nas cadeias direta e indireta.
Governo discute CNAE, crédito e enquadramento tributário
No encontro de junho, sete criadores, que juntos reúnem aproximadamente 10,6 milhões de seguidores e inscritos, apresentaram ao Ministério do Empreendedorismo obstáculos para transformar produção digital em empresa estruturada. A pauta incluiu formas de monetização, capacitação, tributação, cobertura previdenciária e instrumentos públicos que permitam ampliar a atividade sem perder a formalização.
Entre as propostas debatidas esteve a criação de um código específico na Classificação Nacional de Atividades Econômicas. A ausência de uma categoria exclusiva leva produtores digitais a recorrerem a enquadramentos relacionados à produção cinematográfica, de vídeos, programas de televisão, pós-produção e distribuição. Esses são os códigos atualmente relacionados pela Secretaria de Comunicação Social para produtores habilitados a participar de ações publicitárias do governo federal.
A regulamentação da publicidade oficial já impõe requisitos operacionais a esses profissionais. Para integrar o cadastro federal de mídia, o produtor deve apresentar tabela de preços, mídia kit, análises atualizadas de seguidores e relatórios de entregas. Também precisa informar publicamente o nome civil do responsável, manter canal para reclamações e identificar conteúdo publicitário quando houver acordo comercial ou troca de bens e serviços.
A Lei nº 15.325 criou uma referência profissional mais ampla ao definir o trabalhador multimídia como pessoa de nível técnico ou superior apta a atuar em diferentes etapas da produção digital. A norma preservou atribuições de outras categorias e incluiu gestão de redes sociais, plataformas, sites e canais digitais. Ela não criou, entretanto, um regime tributário próprio, um CNAE exclusivo ou acesso automático ao Microempreendedor Individual para todo criador.
Confiança do público sustenta publicidade e vendas
O estudo #Publi 2025 associa a capacidade de influência comercial à percepção de autenticidade. Além das compras já realizadas por recomendação, a pesquisa identificou pulverização entre perfis de grande alcance e microcriadores e diferenças geracionais no uso das plataformas. Vídeos curtos aparecem como formato relevante, mas a conexão entre público e criador continua sendo o ativo central para marcas e anunciantes.
Esse vínculo explica por que contratos diretos com empresas permanecem importantes, mesmo com a expansão de assinaturas, publicidade compartilhada, doações, venda de produtos e ferramentas de comércio eletrônico. Em projeção publicada em 2023, o Goldman Sachs Research estimou que os acordos com marcas correspondiam a cerca de 70% das receitas dos criadores no mercado global.
O mesmo estudo projetou que o mercado endereçável da creator economy poderia crescer de US$ 250 bilhões para US$ 480 bilhões até 2027, impulsionado por publicidade digital, marketing de influência e monetização de vídeos curtos. A projeção partia de uma base estimada em 50 milhões de criadores no mundo, com expansão anual entre 10% e 20% ao longo de cinco anos.
A distribuição de renda, contudo, era concentrada. O levantamento classificava apenas cerca de 4% dos criadores globais como profissionais com ganhos anuais superiores a US$ 100 mil. Embora o recorte não seja específico do Brasil e tenha sido elaborado antes dos dados nacionais de 2025, ele evidencia a diferença entre crescimento de audiência, geração ocasional de receita e consolidação de uma empresa sustentável.
Inteligência artificial reduz custos e aumenta exigência de transparência
A tecnologia amplia a capacidade de produção ao automatizar edição, análise de desempenho, organização de comentários, tradução e dublagem. Em junho, o YouTube liberou em português uma ferramenta que responde a perguntas sobre métricas e resume a reação da comunidade dentro do painel dos canais. A empresa apresenta o recurso como apoio à gestão, e não como substituto do trabalho criativo.
O uso dessas ferramentas pode permitir que equipes menores publiquem em mais formatos e alcancem públicos fora do país. Em sua carta de prioridades para 2026, o YouTube informou que mais de 1 milhão de canais utilizaram diariamente suas ferramentas de criação em dezembro de 2025. A companhia também declarou ter pago mais de US$ 100 bilhões a criadores, artistas e empresas de mídia no mundo durante os quatro anos anteriores.
O ganho de escala vem acompanhado de novos riscos. Pesquisa do IAB Brasil e da Nielsen sobre publicidade digital em 2026 apontou preocupações com autenticidade, homogeneização criativa e dependência funcional de sistemas de inteligência artificial. Para criadores que convertem identidade pessoal em ativo econômico, conteúdos excessivamente padronizados podem enfraquecer justamente a confiança que sustenta recomendações e contratos.
Transparência também se tornou uma obrigação prática. O YouTube exige identificação de conteúdos sintéticos realistas em determinadas situações e afirma aplicar rótulos a materiais produzidos por suas próprias ferramentas. No Brasil, as regras da publicidade federal orientam que acordos comerciais e permutas sejam identificados como publicidade, sempre que possível, aproximando a profissionalização do setor de deveres já aplicados a outros meios.
Dependência das plataformas limita previsibilidade de receita
A profissionalização não elimina a dependência de sistemas privados de distribuição. Mudanças em políticas de monetização, recomendação, alcance e formatos podem alterar rapidamente o desempenho de um canal. A diversificação possível inclui receitas da plataforma, publicidade direta, assinaturas, produtos, eventos, licenciamento e prestação de serviços.
O relatório da Oxford Economics incorpora essa diversidade ao contabilizar ganhos fora do YouTube que estão ligados à presença do criador. A metodologia mostra que o valor econômico não se resume ao pagamento por visualizações: inclui equipes, fornecedores, vendas, negócios de mídia e despesas que se espalham pela cadeia produtiva. Também exclui as operações próprias da plataforma e os benefícios obtidos por empresas com aumento de vendas decorrente de anúncios.
Essa delimitação impede que os R$ 6 bilhões sejam apresentados como tamanho total da creator economy brasileira. O indicador mede a contribuição de um ecossistema específico ao PIB e inclui efeitos diretos, indiretos e induzidos. Outras redes sociais, plataformas de cursos, newsletters, podcasts independentes e negócios digitais não vinculados ao YouTube permanecem fora dessa conta.
O próximo passo institucional ainda depende de decisões do governo. O Ministério do Empreendedorismo não anunciou prazo para criação de CNAE específico nem um programa exclusivo de crédito ou previdência para criadores. Enquanto essas definições não avançam, a atividade permanece distribuída entre a profissão de multimídia, códigos econômicos já existentes, contratos com plataformas e as regras gerais aplicáveis a trabalhadores autônomos e empresas digitais.
Fontes
- Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte — Encontro com criadores sobre formalização e fortalecimento da economia digital — 1º de julho de 2026
- YouTube Brasil — Google for Brasil: dados da Oxford Economics e lançamento do Pergunte ao Studio em português — 11 de junho de 2026
- Oxford Economics — YouTube’s Creator Economy Impact: metodologia das pesquisas e do modelo econômico — 2026
- IAB Brasil e Offerwise — Pesquisa #Publi 2025: identificação e autenticidade na Creator Economy — 2025
- Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República — Requisitos para produtores de conteúdo em plataformas digitais — atualizado em 10 de março de 2026
- Presidência da República — Lei nº 15.325, sobre o exercício da profissão de multimídia — 6 de janeiro de 2026
- IAB Brasil e Nielsen — Decodificando os Desafios da IA no Mercado de Publicidade Digital, edição 2026 — 2026
- YouTube — Carta do presidente-executivo sobre as prioridades da plataforma para 2026 — 21 de janeiro de 2026
- Goldman Sachs Research — The creator economy could approach half-a-trillion dollars by 2027 — 19 de abril de 2023









