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Demanda por urânio pode mais que dobrar até 2040 com avanço da energia nuclear

Expansão de reatores, crescimento dos data centers e busca por segurança energética pressionam cadeia de combustível nuclear; necessidade global pode superar 150 mil toneladas anuais

por Sandro Dias
17/08/2026 às 12h35
em Economia
Urânio - Gazeta Mercantil

A demanda mundial por urânio pode mais que dobrar até 2040 à medida que governos, empresas de energia e grandes consumidores de eletricidade ampliam investimentos em geração nuclear. No cenário de referência da World Nuclear Association, a necessidade anual dos reatores deve passar das atuais 68,9 mil toneladas de urânio para pouco mais de 150 mil toneladas dentro de 14 anos.

A mudança ocorre enquanto a energia nuclear recupera espaço nas estratégias de segurança energética e descarbonização e ganha um novo vetor de demanda: o crescimento dos data centers associados à inteligência artificial. O consumo acelerado dessas instalações favorece fontes capazes de fornecer grandes volumes de eletricidade continuamente, característica que vem renovando o interesse por usinas nucleares.

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O avanço esperado é significativo. O relatório mais recente sobre combustível nuclear da World Nuclear Association estima que os reatores necessitaram de aproximadamente 68.920 toneladas de urânio em 2025. No cenário de referência, o consumo supera 150 mil toneladas em 2040, crescimento de aproximadamente 118%. No cenário mais favorável à expansão nuclear, a necessidade ultrapassa 204 mil toneladas anuais.

A expansão coloca o suprimento de combustível no centro do debate energético. O problema não está necessariamente na existência física de urânio no planeta, mas na velocidade com que novas minas, instalações de conversão, capacidade de enriquecimento e fábricas de combustível poderão ser colocadas em operação para acompanhar o crescimento da frota mundial de reatores.

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Mundo já tem 441 reatores nucleares em operação

A indústria nuclear entrou em um novo ciclo de expansão depois de um período marcado pelo fechamento de usinas em algumas economias desenvolvidas e pelo crescimento concentrado principalmente na Ásia.

Dados atualizados em 17 de agosto de 2026 mostram 441 reatores operáveis no mundo, com capacidade líquida conjunta de aproximadamente 404 gigawatts. Outros 79 reatores, que somam quase 86 gigawatts de capacidade bruta, estão em construção. Há ainda 124 unidades classificadas como planejadas e 331 propostas, embora uma parte dessas últimas possa nunca chegar à fase de implantação.

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A produção nuclear mundial alcançou aproximadamente 2.697 terawatts-hora em 2025, equivalente a cerca de 9% da geração global de eletricidade. Estados Unidos, China e França permanecem entre os principais mercados, enquanto a maior concentração de novos projetos está na Ásia.

O cenário de referência da World Nuclear Association prevê que a capacidade nuclear global alcance 746 gigawatts em 2040. O cenário superior chega a 966 gigawatts, enquanto mesmo a hipótese mais conservadora projeta 552 gigawatts. A referência utilizada no estudo era uma capacidade de 398 gigawatts em junho de 2025.

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O crescimento dos reatores produz um efeito direto sobre a cadeia do urânio. Diferentemente de fontes de geração cujo consumo de combustível pode variar rapidamente conforme preços ou demanda, uma usina nuclear construída tende a operar durante décadas e necessita de abastecimento de combustível de forma previsível e planejada.

Inteligência artificial aumenta pressão sobre sistemas elétricos

A corrida global pela construção de infraestrutura para inteligência artificial passou a adicionar outro elemento às projeções do setor nuclear.

A Agência Internacional de Energia (IEA) informou em abril de 2026 que a demanda de eletricidade dos data centers aumentou 17% somente em 2025, enquanto o consumo das instalações especificamente voltadas à inteligência artificial cresceu ainda mais rapidamente. A agência prevê que o consumo elétrico global dos data centers dobre até 2030, enquanto o das instalações direcionadas à IA pode triplicar.

A questão não envolve apenas a quantidade de eletricidade consumida. Grandes data centers precisam de fornecimento praticamente contínuo, com elevada confiabilidade e capacidade de sustentar cargas concentradas. Essa característica tem levado empresas de tecnologia a procurar fontes firmes de geração juntamente com energia renovável, armazenamento e expansão das redes.

A energia nuclear aparece nesse contexto porque consegue gerar eletricidade em grande escala com alta disponibilidade e baixas emissões operacionais de carbono. A IEA avalia que a tecnologia nuclear deve assumir papel crescente no atendimento à demanda dos data centers no fim desta década e durante os anos seguintes.

Um indicador dessa aproximação está nos pequenos reatores modulares, conhecidos pela sigla SMR. Segundo a IEA, o volume de acordos condicionais de compra de energia entre operadores de data centers e projetos de SMRs aumentou de 25 gigawatts no fim de 2024 para cerca de 45 gigawatts em abril de 2026. Os projetos ainda dependem, em diferentes graus, de licenciamento, financiamento, construção e comprovação comercial da tecnologia.

Oferta de urânio terá de acompanhar expansão dos reatores

A perspectiva de aumento da geração nuclear desloca a atenção para uma cadeia produtiva que levou anos trabalhando com capacidade limitada e ciclos prolongados de investimento.

A produção primária mundial de urânio estava em torno de 60 mil toneladas anuais em 2025, abaixo das 68.920 toneladas estimadas como necessidade dos reatores. A diferença pode ser complementada por estoques, materiais secundários e outras fontes do ciclo nuclear, mas a expansão projetada da demanda exigirá crescimento da mineração.

A World Nuclear Association calcula que, no cenário de referência, a necessidade de urânio ultrapassará 150 mil toneladas em 2040. No cenário superior, serão necessárias mais de 204 mil toneladas por ano. Mesmo no cenário inferior, que pressupõe atrasos na implantação de projetos nucleares, a demanda ficaria acima de 107 mil toneladas.

Isso significa que até a trajetória mais conservadora pressupõe necessidade significativamente superior à produção primária observada atualmente.

A associação avalia que existem recursos geológicos suficientes para sustentar a expansão prevista até 2040, inclusive no cenário superior. O desafio é converter recursos minerais em produção efetiva. Novas minas exigem investimentos, licenciamento ambiental, infraestrutura, contratos de longo prazo e anos de desenvolvimento antes de começar a entregar concentrado de urânio ao mercado.

Gargalo não termina na mineração

A disponibilidade de minério é apenas a primeira etapa da cadeia. Depois da extração e produção do concentrado, o material precisa passar por conversão, enriquecimento e fabricação antes de se transformar no combustível utilizado pelos reatores.

Por isso, uma expansão rápida da capacidade nuclear pode pressionar simultaneamente diferentes segmentos do ciclo. O relatório mundial de combustível nuclear destaca que fatores geopolíticos passaram a influenciar não apenas a oferta de urânio, mas também os serviços de conversão, enriquecimento e fabricação.

A reorganização dessas cadeias ganhou importância depois da invasão da Ucrânia pela Rússia e das medidas adotadas por diferentes países para reduzir dependências estratégicas. No setor nuclear, substituir um fornecedor pode ser mais complexo do que simplesmente comprar o mineral em outro país, porque diferentes etapas industriais possuem alto grau de especialização e capacidade concentrada.

Nesse ambiente, segurança de suprimento passa a ser tão relevante quanto preço. Operadores de usinas precisam garantir combustível durante vários anos, enquanto governos tratam determinadas etapas do ciclo nuclear como infraestrutura estratégica.

Brasil possui recursos relevantes de urânio

O novo ciclo global também aumenta a importância do Brasil, que dispõe de recursos minerais expressivos e domina diferentes etapas do ciclo do combustível nuclear.

A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) estima os recursos nacionais em aproximadamente 232,8 mil toneladas de urânio contido, distribuídos principalmente entre Bahia, Ceará e outras regiões. A estatal observa que menos de um terço do território brasileiro passou por pesquisas minerais voltadas ao elemento, o que mantém potencial para identificação de novos depósitos.

A única mineração de urânio atualmente em atividade no país fica em Caetité, na Bahia. A região possui recursos estimados em cerca de 87 mil toneladas. A capacidade indicada pela INB é de aproximadamente 400 toneladas anuais, com possibilidade de alcançar 800 toneladas mediante expansão da mineração e das instalações.

Em julho de 2026, a estatal anunciou uma nova etapa de pesquisas geológicas na Província Uranífera de Lagoa Real, onde fica Caetité. O planejamento trabalha inicialmente com produção de 200 toneladas de concentrado e avalia etapas posteriores de 450 e 800 toneladas por ano, acompanhadas de investimentos adicionais em estruturas de mineração e beneficiamento.

Outro projeto relevante está em Santa Quitéria, no Ceará. A jazida de Itataia reúne urânio associado ao fosfato e é objeto de parceria entre a INB e a Galvani. A projeção divulgada para o empreendimento prevê capacidade anual de 2.300 toneladas de concentrado de urânio, além da produção de fertilizantes fosfatados. O início efetivo da exploração, contudo, depende do avanço das etapas necessárias ao empreendimento.

China concentra parte importante da expansão nuclear

A geografia da demanda também está mudando. A China já possui 64 reatores operáveis, com capacidade próxima de 64 gigawatts, e outros 37 em construção, que acrescentariam mais de 42 gigawatts. O país demandou aproximadamente 13,9 mil toneladas de urânio em 2025.

Os Estados Unidos continuam sendo o maior mercado nuclear individual em capacidade instalada, com 94 reatores e quase 97 gigawatts. As necessidades norte-americanas de urânio foram estimadas em aproximadamente 19 mil toneladas em 2025. A França, com 57 unidades, demandou cerca de 8,4 mil toneladas.

Esses números mostram que a eventual duplicação da demanda não dependerá de um único projeto ou país. Ela resulta da combinação entre novas usinas, extensão da vida útil de reatores existentes, retomada de programas nucleares e entrada de novos consumidores intensivos em eletricidade.

O avanço também não será linear. Projetos nucleares enfrentam custos de capital elevados, períodos longos de construção, exigências regulatórias e riscos de atraso. Por isso, a projeção de 150 mil toneladas em 2040 deve ser entendida como um cenário, e não como uma demanda contratada.

Mercado de urânio entra em ciclo de investimentos de longo prazo

A principal mudança estrutural está na diferença entre o tempo necessário para expandir a demanda e o período exigido para colocar nova oferta em funcionamento.

Um reator aprovado hoje pode levar anos até começar a operar. Uma nova mina de urânio também depende de pesquisa, confirmação dos recursos, licenciamento, financiamento, construção e desenvolvimento da infraestrutura necessária. A cadeia de conversão e enriquecimento acrescenta outros pontos de capacidade que precisam crescer de maneira coordenada.

Por esse motivo, o mercado pode registrar períodos de oferta apertada mesmo sem uma escassez geológica do mineral. A existência de recursos suficientes não significa que eles estarão disponíveis na quantidade, no local e no momento necessários para abastecer os reatores.

Com a demanda de referência projetada acima de 150 mil toneladas anuais em 2040, contra menos de 70 mil toneladas necessárias atualmente, a próxima década será definida pela capacidade da indústria de transformar reservas e projetos em produção. Para países com recursos relevantes, como o Brasil, esse movimento amplia o peso estratégico do urânio justamente quando eletrificação, inteligência artificial e segurança energética recolocam a energia nuclear no planejamento mundial.

Fontes:

World Nuclear Association — World Nuclear Fuel Report 2025 e dados atualizados sobre reatores, capacidade nuclear e necessidades de urânio.

Agência Internacional de Energia — estudos de 2026 sobre inteligência artificial, data centers e demanda mundial de eletricidade.

Agência de Energia Nuclear da OCDE e Agência Internacional de Energia Atômica — Uranium 2024: Resources, Production and Demand.

Indústrias Nucleares do Brasil — informações sobre recursos nacionais, produção em Caetité e Projeto Santa Quitéria.

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