A Visa (V) assinou em 3 de agosto um acordo definitivo para comprar a BioCatch, empresa israelense de inteligência comportamental aplicada à prevenção de fraudes, por US$ 2,4 bilhões em dinheiro. A operação, anunciada em San Francisco e Tel Aviv, prevê transferir à companhia de pagamentos uma plataforma que tenta identificar golpes, invasões de contas e uso de contas-laranja antes que o dinheiro seja movimentado. O fechamento depende de autorizações regulatórias e de outras condições usuais e é esperado até o fim do segundo trimestre fiscal de 2027 da Visa.
A aquisição amplia a atuação da Visa para etapas anteriores ao processamento de uma transação. Em vez de examinar somente o pagamento já iniciado, a tecnologia da BioCatch acompanha sinais produzidos durante a abertura de uma conta, o acesso a aplicativos bancários, a navegação e a preparação de transferências. A empresa afirma proteger 1,8 bilhão de dispositivos e 760 milhões de usuários, além de atender mais de 350 instituições financeiras em 21 países, entre elas mais de 100 dos maiores bancos do mundo.
O movimento concentra duas frentes que passaram a se sobrepor no setor financeiro: autenticação digital e prevenção de fraude. Senhas, códigos temporários e reconhecimento do aparelho continuam relevantes, mas podem ser insuficientes quando o criminoso convence a própria vítima a autorizar uma operação ou obtém controle remoto de um dispositivo legítimo. A BioCatch procura acrescentar a esse conjunto uma leitura contínua da intenção do usuário, baseada no modo como ele interage com a sessão bancária.
A Visa informou que a compra complementa suas soluções de cibersegurança, risco e proteção contra crimes financeiros. A companhia cita como alvos prioritários as tomadas de conta, os golpes de engenharia social, as contas usadas para movimentar recursos ilícitos e as fraudes cometidas durante pedidos de abertura de relacionamento bancário.
Tecnologia observa a sessão, não apenas a senha
A BioCatch coleta milhares de sinais de aplicação, comportamento, dispositivo, rede e transação. Entre os exemplos estão a cadência de digitação, os gestos em telas sensíveis ao toque, a movimentação do mouse, a forma de segurar o aparelho, a sequência de navegação e a presença de ferramentas de acesso remoto. Esses elementos são processados por modelos de inteligência artificial e aprendizado de máquina para comparar a atividade observada com padrões legítimos, suspeitos ou associados a coação.
O método não depende apenas de reconhecer uma pessoa por uma característica fixa. A análise é realizada ao longo da jornada digital e pode atribuir fatores de risco, indicadores de ameaça e pontuações que ajudam as equipes dos bancos a decidir se uma sessão deve prosseguir, passar por verificação adicional ou ser interrompida. A plataforma também reúne instrumentos de investigação e visualização para que áreas de fraude, crime financeiro e segurança cibernética examinem os sinais antes da transferência de recursos.
Esse desenho é especialmente relevante em golpes nos quais não há invasão técnica clássica. Uma vítima pode estar conectada ao próprio aparelho, usar a senha correta e confirmar a operação, mas agir sob orientação de um criminoso por telefone ou aplicativo de mensagens. Alterações na navegação, pausas incomuns, chamadas ativas, uso de acesso remoto ou padrões diferentes de digitação podem indicar que a transação aparentemente autorizada ocorre em um contexto de manipulação.
A plataforma BioCatch Connect foi estruturada para cobrir abertura de contas, tomada de controle de contas existentes, fraudes autorizadas, detecção de contas-laranja e outras modalidades de crime financeiro. Segundo a empresa, o sistema processa bilhões de sessões mensais e transforma os sinais coletados em alertas que podem ser integrados às regras e aos fluxos de decisão das instituições clientes.
Compra reforça estratégia de serviços de segurança
A transação se insere na expansão dos serviços de valor agregado da Visa, área que oferece produtos além da conexão e do processamento de pagamentos. A companhia afirmou ter investido mais de US$ 13 bilhões em tecnologia e infraestrutura nos últimos cinco anos para proteger o ecossistema de pagamentos e reduzir índices de fraude. A BioCatch deverá integrar esse portfólio com ferramentas voltadas à identificação de ameaças em uma etapa anterior à autorização do pagamento.
A estratégia já incluía a Featurespace, desenvolvedora de tecnologia de proteção de pagamentos em tempo real adquirida pela Visa e incorporada ao negócio de soluções de risco e identidade em dezembro de 2024. A Featurespace analisa eventos transacionais para identificar padrões de fraude e crime financeiro. A BioCatch acrescenta uma camada baseada em comportamento e dispositivo, com observação do usuário durante a sessão digital e antes que a operação chegue ao momento de execução.
A combinação pode ampliar o volume de dados disponível para os modelos de risco, mas a integração dependerá de decisões técnicas e comerciais posteriores ao fechamento. A Visa não detalhou no anúncio quais produtos serão combinados, em quais mercados a oferta conjunta começará nem se haverá mudanças imediatas nos contratos mantidos pela BioCatch com bancos e parceiros.
Andrew Torre, presidente de serviços de valor agregado da Visa, afirmou que a meta é impedir a fraude antes que ela alcance o ponto de pagamento. Segundo o executivo, invasões de contas e golpes causam mais de US$ 1 trilhão em perdas anuais na economia mundial, enquanto o uso de inteligência artificial permite ampliar a escala dos ataques. O valor foi apresentado pela companhia no comunicado da aquisição.
BioCatch acelerou receita e base de clientes
A BioCatch encerrou 2025 com receita recorrente anual superior a US$ 185 milhões, após adicionar mais de US$ 20 milhões em novos contratos recorrentes somente no quarto trimestre. A empresa informou ter conquistado 90 clientes naquele ano e elevado sua base global para 340 instituições financeiras. Em julho de 2026, segundo a Permira, o total já havia superado 350 instituições.
Tomando como referência o indicador de receita recorrente divulgado no fim de 2025, o preço de US$ 2,4 bilhões corresponde a aproximadamente 13 vezes esse valor. A comparação é apenas indicativa, porque a empresa não publicou demonstrações financeiras completas, e o montante pago reflete ativos, tecnologia, contratos, perspectivas de crescimento e condições negociadas entre compradores e vendedores.
A expansão também aparece nos indicadores operacionais. No balanço de realizações de 2025, a BioCatch dizia analisar mais de 17 bilhões de sessões por mês, proteger 660 milhões de pessoas e operar em 1,6 bilhão de dispositivos. A Permira informou que, em julho de 2026, esses números haviam avançado para mais de 19 bilhões de sessões mensais, 760 milhões de consumidores e 1,8 bilhão de dispositivos.
A gestora investiu inicialmente na BioCatch em 2023, com uma posição minoritária, e assumiu o controle em 2024. Durante o período do investimento, a receita da companhia quase triplicou e o lucro bruto cresceu mais de três vezes, de acordo com a Permira. A expansão foi atribuída a novos contratos, retenção de clientes, crescimento dentro da base existente e desenvolvimento de produtos como a rede de compartilhamento de inteligência BioCatch Trust e a ferramenta de identificação de dispositivos DeviceIQ.
Estrutura será mantida após a aquisição
O presidente-executivo da BioCatch, Gadi Mazor, afirmou que a companhia continuará operando com a atual equipe de liderança e a mesma estrutura de reporte depois da conclusão. A empresa passará a fazer parte da organização de serviços de valor agregado da Visa, mantendo o atendimento às instituições financeiras e as equipes de engenharia de soluções, análise de ameaças e suporte especializado.
Para a BioCatch, o alcance comercial da compradora abre uma frente de distribuição maior. Em mensagem publicada após o anúncio, Mazor afirmou que a Visa opera em mais de 200 países e territórios, trabalha com quase 14.500 instituições financeiras e mantém mais de 5 bilhões de credenciais de pagamento aceitas em mais de 175 milhões de estabelecimentos. No período de um ano citado pelo executivo, os portadores realizaram mais de 329 bilhões de transações, com volume superior a US$ 17 trilhões.
A operação também aproxima dados de comportamento bancário de uma das maiores redes globais de pagamentos, o que aumenta a relevância de controles de governança, privacidade, segurança e uso de informações. Os comunicados não apresentaram mudanças nas políticas de tratamento de dados da BioCatch nem indicaram que as bases de clientes serão automaticamente compartilhadas. Qualquer integração deverá observar contratos, regras locais e as autorizações regulatórias aplicáveis.
A BioCatch afirma coletar mais de 3.000 pontos de dados anonimizados durante a interação dos usuários com plataformas bancárias. A empresa usa esses sinais para produzir inteligência comportamental e de dispositivo, e não para substituir isoladamente os mecanismos tradicionais de autenticação. O objetivo declarado é fornecer contexto adicional para distinguir o usuário legítimo, o fraudador e a pessoa que realiza uma operação sob influência ou coerção.
Fechamento depende de aprovações regulatórias
O acordo prevê pagamento integral em dinheiro aos fundos assessorados pela Permira e aos demais acionistas. A Visa não informou como a aquisição será financiada, não apresentou estimativa pública de impacto imediato sobre lucro ou receita e não divulgou eventuais compromissos de integração de produtos. A Permira classificou a venda como a realização integral de seu investimento.
Até a conclusão, as duas empresas permanecem juridicamente separadas e a BioCatch segue operando sob sua estrutura atual. O cronograma anunciado estabelece o fim do segundo trimestre fiscal de 2027 da Visa como limite esperado para o fechamento, desde que as autoridades competentes concedam as aprovações necessárias e as demais condições previstas no contrato sejam cumpridas.









