O JPMorgan elevou de neutra para acima da média a recomendação de crédito da Kraft Heinz (KHC), em uma avaliação voltada principalmente aos títulos de dívida emitidos pela fabricante de alimentos. O banco considerou que o resultado do segundo trimestre, a geração de caixa e a disciplina na administração do endividamento reduziram parte dos riscos associados à estratégia de recuperação da companhia.
A mudança de recomendação não equivale, necessariamente, a uma indicação de compra das ações da Kraft Heinz. A análise concentra-se na relação entre o risco de crédito da empresa e o retorno oferecido por seus títulos, além da possibilidade de redução dos spreads — a diferença entre a remuneração dos papéis corporativos e a dos títulos públicos americanos considerados de menor risco.
Segundo a avaliação atribuída ao JPMorgan, os títulos da Kraft Heinz oferecem remuneração atrativa diante de empresas com classificação de crédito semelhante. O banco também destacou que a companhia aumentou os investimentos em marcas sem permitir uma deterioração imediata de sua alavancagem financeira.
A recomendação foi divulgada um dia depois de a Kraft Heinz apresentar seus resultados referentes ao trimestre encerrado em 27 de junho de 2026. A companhia informou vendas líquidas de US$ 6,262 bilhões, queda de 1,4% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas orgânicas, que excluem efeitos cambiais, aquisições e desinvestimentos, recuaram 1,3%.
Resultado supera temores, mas vendas continuam em queda
A retração das vendas foi concentrada principalmente na América do Norte, maior mercado da companhia. A receita da região caiu 2,7%, para US$ 4,626 bilhões, enquanto o volume e o mix de produtos tiveram impacto negativo de 3,8 pontos percentuais. Os reajustes de preços contribuíram com 1,1 ponto percentual, mas não foram suficientes para compensar a redução das quantidades comercializadas.
Nos mercados internacionais desenvolvidos, as vendas recuaram 3,5%, para US$ 865 milhões, embora a queda orgânica tenha ficado limitada a 0,7%. O principal desempenho positivo ocorreu nos mercados emergentes, onde a receita avançou 10,4%, para US$ 771 milhões, e o crescimento orgânico atingiu 8,5%.
O resultado consolidado mostrou que a Kraft Heinz ainda enfrenta dificuldades para recuperar volumes em suas categorias tradicionais, especialmente nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o desempenho nos mercados emergentes e a melhora de algumas marcas reduziram o risco de uma retração mais intensa das receitas durante o restante do ano.
A margem bruta contábil caiu 2 pontos percentuais, para 32,4%. Em termos ajustados, porém, a margem permaneceu em 34,1%, mesmo nível registrado um ano antes. A estabilidade da margem ajustada foi considerada um sinal favorável porque ocorreu em um período de aumento dos investimentos comerciais e de custos relacionados à estratégia de recuperação.
O lucro operacional ajustado caiu 18,4%, para US$ 1,041 bilhão. Pela contabilidade oficial, a companhia registrou prejuízo operacional de US$ 6,431 bilhões, influenciado por perdas contábeis de US$ 7,4 bilhões relacionadas à redução do valor recuperável de marcas, ativos intangíveis e outros negócios. Esses ajustes não representaram saída imediata de caixa, mas indicaram que ativos registrados no balanço estavam avaliados acima das expectativas atualizadas de geração de resultados.
Geração de caixa sustenta avaliação positiva do crédito
O principal elemento favorável à análise de crédito foi a geração de caixa. Nos seis primeiros meses de 2026, o caixa proveniente das atividades operacionais cresceu 8,2%, para US$ 2,088 bilhões. Depois de descontados US$ 429 milhões em investimentos de capital, o fluxo de caixa livre alcançou US$ 1,659 bilhão, aumento de 10,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A conversão de fluxo de caixa livre atingiu 123%, ante 96% no primeiro semestre de 2025. O indicador compara o caixa livre com o lucro líquido ajustado e mostra quanto do resultado contábil efetivamente se transforma em recursos disponíveis para pagar dívidas, distribuir dividendos, recomprar ações ou financiar investimentos.
A Kraft Heinz elevou de aproximadamente 100% para 110% sua previsão de conversão de caixa livre para todo o exercício. A melhora aumenta a capacidade financeira da companhia em um momento no qual a administração pretende elevar despesas de marketing, pesquisa, desenvolvimento e inovação.
A empresa informou ainda que distribuiu US$ 949 milhões em dividendos no primeiro semestre, mas não realizou recompras de ações. A decisão de preservar o programa de dividendos e evitar recompras indica prioridade para investimentos internos e redução de dívida, em vez da ampliação imediata do retorno de capital aos acionistas.
Essa combinação foi considerada positiva para os credores. Para detentores de títulos, a retenção de caixa e a redução do endividamento tendem a ser mais relevantes do que recompras, porque aumentam os recursos disponíveis para o cumprimento das obrigações financeiras.
Companhia aumenta investimentos para US$ 700 milhões
A administração decidiu ampliar em US$ 100 milhões o programa incremental de investimentos da Kraft Heinz, elevando o total previsto para aproximadamente US$ 700 milhões em 2026. Os recursos serão direcionados principalmente a marketing, inovação, desenvolvimento de produtos e fortalecimento das marcas.
Segundo o presidente-executivo Steve Cahillane, o desempenho observado nas marcas que receberam investimentos adicionais deu à administração confiança para acelerar o programa. A estratégia procura recuperar participação de mercado e interromper a queda dos volumes, especialmente na operação de varejo dos Estados Unidos.
O aumento das despesas, no entanto, terá impacto sobre o lucro de curto prazo. A Kraft Heinz prevê agora uma queda de 16% a 18% no lucro operacional ajustado em moeda constante durante 2026. A estimativa anterior variava entre recuo de 14% e 18%.
A revisão mostra que a administração decidiu aceitar uma pressão maior sobre os resultados do exercício para financiar a recuperação comercial. Para os acionistas, isso significa menor rentabilidade imediata. Para os credores, o efeito dependerá da capacidade de transformar os investimentos em aumento de vendas e geração de caixa sem elevar excessivamente a dívida.
A projeção de lucro ajustado por ação foi estreitada para uma faixa entre US$ 2,03 e US$ 2,09. A previsão anterior ia de US$ 1,98 a US$ 2,10. A companhia também reduziu a estimativa de despesas financeiras para aproximadamente US$ 890 milhões, ante US$ 920 milhões anteriormente.
Projeção de vendas melhora, mas ainda indica contração
A Kraft Heinz revisou para cima sua previsão de vendas orgânicas para 2026. A companhia espera agora uma retração entre 0,5% e 2%, contra uma estimativa anterior de queda entre 1,5% e 3,5%.
A atualização reduz o risco de uma contração mais severa, mas não representa ainda uma retomada do crescimento. Mesmo no limite mais favorável da projeção, a companhia encerraria o ano com vendas orgânicas menores do que em 2025.
A recuperação depende da capacidade de conter a perda de volumes na América do Norte. No segundo trimestre, o efeito negativo de volume e mix foi de 2,6 pontos percentuais para o conjunto da companhia, superando o impacto positivo de 1,3 ponto percentual proveniente dos preços.
Essa composição é relevante porque reajustes de preços podem proteger a receita durante determinado período, mas não substituem indefinidamente o crescimento das quantidades vendidas. Uma empresa de alimentos com volumes persistentemente menores corre o risco de perder participação de mercado, escala de produção e poder de negociação com varejistas.
A administração afirmou que pretende alcançar crescimento sustentável e liderado por volume. O objetivo, porém, permanece condicionado ao desempenho dos investimentos comerciais, à reação dos consumidores e à capacidade da companhia de competir em categorias nas quais marcas próprias e produtos de menor preço ganharam espaço.
Alavancagem pode atingir pico de 3,3 vezes
O JPMorgan avaliou que a alavancagem líquida da Kraft Heinz deverá atingir um pico próximo de 3,3 vezes antes de retornar à meta de longo prazo de aproximadamente 3 vezes. A métrica relaciona a dívida líquida ao resultado operacional e é utilizada para medir a capacidade de pagamento da companhia.
Quanto maior o indicador, maior tende a ser a sensibilidade do balanço à queda de lucros ou ao aumento dos juros. A estabilidade em torno de 3 vezes, mesmo durante o período de elevação dos investimentos, é um dos argumentos utilizados para sustentar a avaliação mais favorável dos títulos.
O balanço de 27 de junho mostrava US$ 2,419 bilhões em caixa e equivalentes, abaixo dos US$ 2,615 bilhões registrados no fim de 2025. A redução ocorreu ao mesmo tempo em que a empresa manteve o pagamento de dividendos, realizou investimentos e administrou vencimentos da dívida.
A Kraft Heinz registrou formalmente o resultado do segundo trimestre em relatório enviado à Securities and Exchange Commission, a reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos. O documento confirma que as informações financeiras foram divulgadas em 5 de agosto e se referem ao período encerrado em 27 de junho.
Moody’s mantém classificação sob revisão
Um dos potenciais catalisadores identificados pelo JPMorgan é a possibilidade de a Moody’s encerrar sua revisão para rebaixamento e restabelecer uma perspectiva estável para a Kraft Heinz. A agência mantém as notas Baa2 e P-2 da companhia sob análise depois da suspensão do plano de separação dos negócios e do anúncio de novas iniciativas de recuperação.
Uma conclusão favorável da Moody’s poderia reduzir a percepção de risco e contribuir para a valorização dos títulos. Caso a agência decida rebaixar a classificação, o custo de captação da Kraft Heinz poderá aumentar, especialmente em novas emissões de dívida.
A S&P Global Ratings mantém nota BBB para a companhia, com perspectiva negativa desde fevereiro. A agência relacionou a revisão à continuidade da queda do lucro e à necessidade de investimentos adicionais para recuperar o desempenho operacional.
A Fitch Ratings também mantém a Kraft Heinz no grau de investimento, com classificação BBB e perspectiva negativa. Em sua avaliação, a agência considera a força das marcas e a escala global da companhia, mas acompanha a pressão sobre as vendas e o risco de a alavancagem permanecer elevada por mais tempo.
Venda de ativos pode acelerar redução da dívida
O JPMorgan também apontou possíveis desinvestimentos como fator capaz de fortalecer o balanço. A venda de marcas ou operações consideradas menos estratégicas permitiria à Kraft Heinz levantar recursos para reduzir dívida e concentrar investimentos nas categorias com maior potencial de crescimento.
A companhia já declarou que mantém uma política de administração ativa do portfólio. Esse processo pode incluir aquisições, licenciamento de marcas e alienação de ativos, desde que as operações contribuam para melhorar o crescimento, as margens ou a estrutura de capital.
Desinvestimentos, entretanto, não produzem automaticamente criação de valor. O efeito dependerá do preço obtido, da rentabilidade dos ativos vendidos, do uso dos recursos e da capacidade de evitar uma redução excessiva da escala do grupo.
No mercado acionário, a reação aos resultados permaneceu negativa. Por volta das 13h29 desta quinta-feira, no horário de Brasília, as ações KHC eram negociadas a US$ 24,97, queda próxima de 3% em relação ao fechamento anterior. Os papéis haviam aberto a US$ 25,87 e chegaram à mínima intradiária de US$ 24,64.
A queda mostra que a percepção dos acionistas continua mais cautelosa do que a leitura do mercado de crédito. Enquanto os credores podem se beneficiar da preservação de caixa, da prioridade dada à dívida e da manutenção do grau de investimento, os acionistas dependem de uma recuperação mais efetiva das vendas, das margens e do lucro.
A melhora do fluxo de caixa e a revisão das projeções reduziram parte dos riscos de curto prazo, mas a Kraft Heinz ainda precisa demonstrar que os US$ 700 milhões em investimentos adicionais serão capazes de reverter a queda dos volumes. Até que essa recuperação apareça de forma consistente, a companhia continuará dividida entre um balanço considerado administrável e uma operação que ainda não retomou o crescimento.









