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Cesta básica cai em 26 capitais em julho, mas sobe em todas no acumulado do ano

Pesquisa do Dieese mostra recuo mensal disseminado, liderado por Natal, enquanto São Paulo segue com a cesta mais cara do país.

por Maria Helena Costa
12/08/2026 às 13h00
em Economia
Cesta Básica - Gazeta Mercantil

O custo da cesta básica recuou em 26 das 27 capitais brasileiras em julho de 2026, na comparação com junho, segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgada nesta terça-feira pelo Dieese em parceria com a Conab. A principal queda foi registrada em Natal, onde o conjunto de alimentos ficou 7,95% mais barato no mês. Na direção oposta, São Luís foi a única capital a apresentar aumento, ainda que modesto, de 0,30%.

O resultado mensal indica um alívio disseminado nos preços dos alimentos básicos, depois de um primeiro semestre marcado por pressões relevantes sobre o custo de vida. As reduções foram expressivas em diferentes regiões do país e atingiram tanto capitais do Nordeste quanto do Centro-Sul. Depois de Natal, os maiores recuos ocorreram em Maceió, com 7,87%, Belo Horizonte, com 7,44%, Palmas, com 7,38%, e Rio de Janeiro, com 7,12%.

Também houve quedas superiores a 6% em Brasília, João Pessoa, Salvador, Fortaleza, Florianópolis e Cuiabá. O movimento ajuda a explicar a redução do peso da alimentação sobre o orçamento das famílias em julho, ainda que o alívio de curto prazo não tenha sido suficiente para reverter a alta acumulada no ano em todas as capitais pesquisadas.

O levantamento do Dieese mostra, portanto, um quadro de trégua mensal, mas não de normalização completa. Quando a comparação deixa de ser feita apenas com junho e passa a considerar períodos mais longos, a pressão sobre o custo da cesta básica continua evidente. Na comparação com julho de 2025, os preços subiram em 22 capitais e recuaram em apenas cinco. No acumulado de janeiro a julho de 2026, todas as 27 capitais registraram aumento, com variações que foram de 4,28% em Campo Grande a 15,68% em Porto Velho.

São Paulo continua com a cesta básica mais cara

Mesmo com queda de 5,23% em julho, São Paulo permaneceu como a capital com a cesta básica mais cara do país. O conjunto de alimentos essenciais passou a custar R$ 915,01 na capital paulista, preservando uma distância relevante em relação às cidades com os menores valores pesquisados.

Na sequência do ranking apareceram Cuiabá, onde a cesta custou R$ 881,27, Florianópolis, com R$ 860,73, e Rio de Janeiro, com R$ 855,37. O resultado reforça uma característica recorrente da pesquisa: capitais do Centro-Sul costumam concentrar os maiores custos absolutos da cesta básica, embora isso não impeça quedas mensais relevantes em determinados momentos do ano.

No outro extremo, Aracaju registrou o menor valor do país em julho, com cesta de R$ 594,07. Em seguida vieram Maceió, com R$ 618,60, Natal, com R$ 631,51, e João Pessoa, com R$ 644,04. Esses números refletem, em parte, diferenças regionais de preços, de estrutura de consumo e também da própria metodologia da pesquisa.

A composição da cesta básica do Dieese não é idêntica em todo o território nacional. Nas capitais do Norte e do Nordeste, por exemplo, a quantidade de carne considerada é menor, a farinha de mandioca substitui a farinha de trigo e a batata não integra a cesta pesquisada. Essa distinção metodológica é importante para interpretar os valores absolutos e evitar comparações simplificadas entre regiões com hábitos de consumo diferentes.

Queda mensal não apaga a pressão no ano

Embora o recuo de julho tenha sido amplo, o comportamento dos preços em 2026 continua pressionando o orçamento das famílias quando se observa o acumulado do ano. Todas as capitais pesquisadas encerraram os sete primeiros meses com alta da cesta básica, o que indica que a redução recente representa mais um alívio pontual do que uma reversão estrutural do encarecimento dos alimentos.

Na comparação interanual, a situação também continua desafiadora. Em relação a julho de 2025, a cesta básica ficou mais cara em 22 capitais. Esse dado mostra que, apesar da melhora observada em julho deste ano, o custo dos alimentos essenciais segue mais elevado para a maior parte da população brasileira do que há um ano.

Para o consumidor, isso significa que o alívio de um mês não elimina a perda de poder de compra acumulada ao longo dos meses anteriores. Em outras palavras, o resultado de julho oferece um fôlego importante, mas ainda insuficiente para dissipar a percepção de encarecimento da alimentação básica nas famílias de renda mais baixa e na classe média assalariada.

A leitura econômica do levantamento vai justamente nessa direção. Movimentos de queda podem ser influenciados por fatores sazonais, como avanço de safras, melhora da oferta e ganhos momentâneos de produtividade, enquanto a trajetória anual costuma refletir um quadro mais complexo, associado à dinâmica do clima, dos custos logísticos, do comportamento das commodities agrícolas e da inflação de alimentos como um todo.

Peso sobre o salário mínimo diminui em julho

A redução dos preços em quase todas as capitais teve efeito direto sobre o comprometimento da renda do trabalhador que recebe salário mínimo. Em média, um empregado remunerado pelo piso nacional precisou destinar 49,34% de sua renda líquida para adquirir a cesta básica em julho. Em junho, essa proporção era de 52,02%.

A melhora também apareceu no tempo de trabalho necessário para comprar os alimentos essenciais. Em julho, foram exigidas em média 100 horas e 24 minutos de trabalho, abaixo das 105 horas e 51 minutos registradas no mês anterior. O número também ficou inferior ao observado em julho de 2025, quando eram necessárias 103 horas e 40 minutos.

Ainda assim, a fotografia permanece desafiadora. O fato de praticamente metade da renda líquida do salário mínimo ser consumida apenas pela compra da cesta básica evidencia o quanto a alimentação ainda pesa no orçamento das famílias. Trata-se de um comprometimento elevado para um país em que boa parte da população precisa dividir a renda entre comida, moradia, transporte, energia, saúde e educação.

O Dieese também calcula mensalmente o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas, considerando os gastos constitucionais básicos. Em julho, essa estimativa foi de R$ 7.687,01, o equivalente a 4,74 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. Em junho, o valor estimado havia sido ainda maior, de R$ 8.110,92. A queda mensal foi relevante, mas o número continua mostrando uma distância expressiva entre a renda formal mínima e o custo de vida efetivo das famílias.

Batata e tomate puxaram o movimento de queda

Entre os produtos que mais contribuíram para o recuo da cesta básica em julho, a batata teve destaque nas capitais do Centro-Sul onde é pesquisada. O item ficou mais barato em todas as cidades dessa região, com quedas que variaram de 15,55% em Cuiabá a 31,12% em Brasília. Segundo o Dieese, a maior oferta provocada pela intensificação da safra de inverno e pela melhora da produtividade pressionou os preços para baixo.

O tomate também exerceu papel central nesse alívio. O produto ficou mais barato em praticamente todo o país, com exceção de São Luís, onde houve alta de 0,28%. Nas demais capitais, as quedas variaram de 2,99% em Macapá a expressivos 51,88% em Maceió. O avanço da produtividade e a ampliação da oferta aparecem entre os principais fatores para essa forte acomodação dos preços.

O café em pó também registrou redução em 23 capitais, com as maiores quedas em Campo Grande, de 5,19%, e Aracaju, de 3,74%. Ainda assim, o produto subiu em quatro capitais: Rio de Janeiro, Palmas, Goiânia e Recife. Isso mostra que, embora o movimento nacional tenha sido predominantemente de queda, alguns itens continuaram sujeitos a oscilações regionais específicas.

O açúcar, por sua vez, ficou mais barato em 20 capitais. Já a carne bovina de primeira apresentou comportamento mais dividido: caiu em 14 capitais, subiu em 12 e ficou estável em Porto Alegre. O quadro reforça que a desaceleração da cesta em julho não decorreu de um único fator, mas da combinação de movimentos distintos entre diferentes alimentos.

Alguns itens continuaram pressionando o orçamento

Mesmo com a queda generalizada do custo da cesta básica, alguns produtos seguiram na direção contrária e continuaram pressionando o orçamento das famílias. O feijão ficou mais caro em 17 capitais e mais barato em 10, o que revela um comportamento menos uniforme que o observado em itens como batata e tomate.

O leite integral também avançou em grande parte do país. Houve alta em 21 capitais, com variações de 0,25% em Belém a 6,27% em Boa Vista. Trata-se de um item de consumo amplo e recorrente, o que faz com que mesmo elevações moderadas tenham impacto perceptível sobre o orçamento doméstico, especialmente entre as famílias com crianças.

Esse comportamento misto entre os produtos ajuda a entender por que uma queda importante da cesta básica em julho não deve ser interpretada como um fim da pressão inflacionária sobre os alimentos. O que ocorreu foi, sobretudo, uma compensação temporária entre itens que cederam bastante e outros que seguiram em trajetória de alta.

Na prática, o consumidor sentiu alívio em vários produtos hortifrutigranjeiros e em alguns industrializados, mas continuou enfrentando custos elevados ou crescentes em outros componentes relevantes da alimentação diária. O resultado agregado foi positivo, mas a recomposição do poder de compra ainda depende da continuidade dessa tendência ao longo dos próximos meses.

Alívio no mês, mas custo de vida segue elevado

A leitura final da pesquisa do Dieese é de que julho trouxe uma melhora importante, mas ainda parcial, para o bolso do consumidor. O fato de 26 capitais terem registrado queda no custo da cesta básica é um sinal claro de acomodação dos preços em curto prazo e tende a ser sentido com mais intensidade pelas famílias que destinam grande parte da renda à alimentação.

Ao mesmo tempo, a alta acumulada em todas as capitais ao longo de 2026 mostra que o custo de vida continua elevado e que o alívio recente precisa ser analisado com cautela. Em um cenário de renda comprimida e elevada sensibilidade da população aos preços de alimentos, a evolução da cesta básica permanece como um dos indicadores mais importantes para medir a percepção concreta da inflação no dia a dia.

Se o comportamento de julho se repetir nos próximos meses, a tendência é de redução da pressão sobre o orçamento das famílias e melhora gradual dos indicadores de poder de compra. Por ora, no entanto, o dado mais consistente é o de que houve uma trégua relevante nos preços, sem que isso apague o encarecimento acumulado da alimentação básica em 2026.

Fontes:

Dieese – Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos
Relatório da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos – julho de 2026
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)

Tags: alimentaçãocesta básicaConabcusto de vidaDieeseEconomiainflação dos alimentosNatalpreçossalário mínimoSão Paulo

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