A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo — Sabesp (SBSP3) — encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido consolidado de R$ 1,464 bilhão, queda de 31,4% em relação aos R$ 2,136 bilhões registrados entre abril e junho do ano passado. O recuo ocorreu apesar do crescimento da receita e da estabilidade do resultado operacional reportado, em um trimestre marcado pelo aumento das despesas financeiras, pela expansão de custos e pelo avanço do programa de investimentos destinado à universalização dos serviços de água e esgoto no Estado de São Paulo.
A receita líquida consolidada alcançou R$ 10,209 bilhões, crescimento de 13,9% na comparação anual, enquanto a receita líquida de serviços de saneamento avançou 12,1%, para R$ 6,593 bilhões. O Ebitda reportado somou R$ 3,906 bilhões, praticamente estável diante dos R$ 3,890 bilhões do segundo trimestre de 2025, com alta de 0,4%. A margem Ebitda, entretanto, recuou de 43% para 38%, refletindo uma expansão de custos mais rápida do que a geração operacional.
Os números ajustados mostram pressão mais evidente. Excluídos margem de construção, atualização do ativo financeiro, efeitos relacionados à EMAE e R$ 68 milhões de custos não recorrentes principalmente associados ao incidente de Jaguaré, o Ebitda ajustado foi de R$ 3,503 bilhões, queda de 3,2% em um ano. O lucro líquido ajustado caiu 41,2%, de R$ 1,956 bilhão para R$ 1,150 bilhão, enquanto o lucro ajustado por ação passou de R$ 0,57 para R$ 0,33, já considerando o desdobramento acionário de cinco para uma ação aprovado em abril.
Resultado financeiro pesa sobre lucro da Sabesp
A principal pressão abaixo da linha operacional veio do resultado financeiro. A Sabesp registrou despesa financeira líquida de R$ 1,017 bilhão no segundo trimestre, ante R$ 118 milhões negativos no mesmo período de 2025, uma deterioração de aproximadamente R$ 898 milhões. Com isso, o lucro antes de impostos recuou 33,3%, para R$ 2,151 bilhões, mesmo com o Ebitda reportado praticamente estável.
A própria companhia relacionou esse movimento ao aumento de seu endividamento líquido, que chegou a aproximadamente R$ 34 bilhões no fim do segundo trimestre de 2026, ante R$ 23 bilhões um ano antes. A expansão ocorre simultaneamente à aceleração do programa de obras, elevando a necessidade de financiamento enquanto uma parcela relevante dos projetos ainda está em fase de implantação e, portanto, antecede a geração plena de receitas decorrentes da ampliação da infraestrutura.
O balanço consolidado mostra empréstimos e financiamentos de R$ 5,29 bilhões no passivo circulante e R$ 46,37 bilhões no não circulante ao fim de junho. Ao mesmo tempo, a companhia mantinha R$ 4,24 bilhões em caixa e equivalentes e R$ 13,20 bilhões em aplicações financeiras. A estrutura financeira, portanto, combina aumento do endividamento bruto com uma posição relevante de liquidez para suportar o cronograma de investimentos.
Em fevereiro, o conselho de administração já havia aprovado a 38ª emissão de debêntures da Sabesp, em montante total de R$ 6,292 bilhões, dividida em até cinco séries e destinada a investidores profissionais. A operação integra o esforço da empresa para compatibilizar fontes de longo prazo com um ciclo de Capex substancialmente superior ao observado antes da desestatização.
Receita cresce, mas custos avançam 24,5%
Na operação de saneamento, a receita ajustada líquida atingiu R$ 6,013 bilhões, alta de 6,7% sobre o segundo trimestre de 2025. A companhia atribuiu o desempenho a um efeito positivo de 8,7% em preço líquido e de 1,1% em volume, parcialmente compensados por impacto negativo de 3,1% decorrente da mudança no mix de clientes e faixas de consumo. O volume faturado consolidado aumentou 0,8%, de 1,099 bilhão para 1,108 bilhão de metros cúbicos.
A expansão da receita, porém, encontrou custos mais elevados. Em base ajustada, custos e despesas administrativas e comerciais totalizaram R$ 2,528 bilhões, aumento de 24,5% ante os R$ 2,030 bilhões do segundo trimestre de 2025. As despesas com serviços cresceram 39%, para R$ 848 milhões, influenciadas por iniciativas relacionadas ao atendimento ao cliente, novas lojas, reformas, central de atendimento e outros projetos operacionais.
Os gastos com materiais de tratamento praticamente dobraram, avançando 97,2%, de R$ 86 milhões para R$ 169 milhões. Segundo a Sabesp, houve pressão inflacionária sobre matérias-primas utilizadas no tratamento de água em um ambiente de instabilidade geopolítica e interrupções nas cadeias globais de suprimentos. As despesas gerais passaram de R$ 15 milhões para R$ 157 milhões, diferença explicada sobretudo pela base de comparação do segundo trimestre de 2025, quando decisões judiciais favoráveis e encerramentos de processos haviam gerado efeito positivo próximo de R$ 200 milhões.
A companhia terminou junho com 8.914 empregados, redução de 3% em relação aos 9.190 funcionários existentes um ano antes. A média de empregados no trimestre recuou 3,7%, embora parte do efeito financeiro da diminuição do quadro tenha sido compensada por um reajuste salarial de 4,4%. As despesas com salários, encargos, benefícios e obrigações previdenciárias ficaram praticamente estáveis, em R$ 677 milhões.
Investimentos chegam a R$ 7,46 bilhões no semestre
A aceleração dos investimentos permanece como um dos principais elementos da estratégia da Sabesp. O Capex atingiu R$ 3,731 bilhões no segundo trimestre, aumento de 3,6% em relação aos R$ 3,601 bilhões aplicados um ano antes. No acumulado de janeiro a junho, os investimentos chegaram a R$ 7,458 bilhões, avanço de 15,6% sobre os R$ 6,452 bilhões do primeiro semestre de 2025.
A maior parcela dos recursos do semestre foi destinada ao esgotamento sanitário, com R$ 5,165 bilhões, crescimento de 7,8%. Os investimentos em abastecimento de água somaram R$ 2,293 bilhões, expansão de 38,2% na comparação anual. A administração manteve a expectativa de investir aproximadamente R$ 20 bilhões em 2026, o que exigirá uma aceleração dos desembolsos durante a segunda metade do exercício para que a previsão seja alcançada.
O programa está associado às obrigações estabelecidas após a desestatização da companhia, concluída em julho de 2024. A legislação estadual fixou como diretriz a antecipação das metas de universalização para 31 de dezembro de 2029, quatro anos antes do horizonte de 2033 previsto pelo Marco Legal do Saneamento para as metas nacionais. O planejamento divulgado pelo Governo de São Paulo prevê cerca de R$ 70 bilhões em investimentos até 2029 para ampliar a cobertura e a capacidade dos sistemas.
A Sabesp afirma permanecer confiante no cumprimento das metas do chamado Fator-U estabelecidas para 2026. Os indicadores divulgados pela companhia até junho mostram avanço nos projetos de novas unidades atendidas por água, coleta de esgoto e tratamento, embora esses resultados ainda estejam sujeitos à validação da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo e da entidade verificadora prevista no modelo de concessão.
Tarifa e modelo regulatório sustentam expansão de receita
O ciclo de investimentos é acompanhado por uma estrutura tarifária reformulada após a desestatização. Para 2026, a Arsesp autorizou atualização de 6,11% nas tarifas da URAE-1, correspondente à variação acumulada do IPCA entre julho de 2024 e outubro de 2025. O reajuste entrou em vigor em janeiro e, segundo o modelo regulatório estabelecido para a concessão, não representou aumento real acima da inflação considerada no período.
O contrato também incorporou mecanismos destinados a relacionar remuneração tarifária aos investimentos efetivamente realizados, com certificação das obras e acompanhamento regulatório. O Fundo de Apoio à Universalização do Saneamento, o Fausp, funciona paralelamente como instrumento para auxiliar na modicidade tarifária durante o período de investimentos mais intensos, sendo alimentado por recursos originados no processo de desestatização e pela participação remanescente do Estado na companhia.
A estrutura acionária atual também exige uma distinção em relação ao modelo anterior. A Equatorial é investidora de referência da Sabesp e possui 15% das ações, mas não detém isoladamente o controle acionário da empresa. Em 31 de julho, o Governo do Estado de São Paulo possuía 18% do capital, incluindo a ação preferencial especial conhecida como golden share, enquanto 66,5% estavam nas mãos de outros acionistas, além de 0,5% em tesouraria.
A configuração decorre da oferta pública concluída em julho de 2024, na qual o Estado reduziu sua participação e a Sabesp deixou de ser controlada pelo governo paulista. A Equatorial adquiriu o bloco destinado ao investidor de referência, enquanto a parcela restante foi distribuída a investidores do mercado. O novo arranjo de governança acompanha o contrato de concessão que estabelece metas antecipadas de universalização e mecanismos específicos de regulação.
Segundo semestre terá Capex e custos no centro das atenções
A combinação entre crescimento da receita, estabilidade do Ebitda reportado e queda do lucro deixa dois vetores principais para a segunda metade do ano. De um lado, a Sabesp precisa acelerar os investimentos para se aproximar da previsão anual de R$ 20 bilhões e continuar avançando nas metas contratuais de universalização. De outro, a empresa enfrenta maior despesa financeira e pressão de custos em serviços e materiais de tratamento, elementos que reduziram a conversão da receita em lucro no segundo trimestre.
No primeiro semestre completo, o lucro líquido consolidado somou R$ 3,213 bilhões, retração de 11,2% em comparação com R$ 3,618 bilhões no mesmo período de 2025. O Ebitda reportado, por outro lado, cresceu 9,2%, para R$ 7,987 bilhões, enquanto a receita líquida acumulada avançou 16%, atingindo R$ 20,174 bilhões. Os números reforçam que a pressão mais relevante sobre o resultado final está abaixo da geração operacional, especialmente no resultado financeiro.
A próxima etapa formal de comunicação com o mercado será a teleconferência de resultados marcada pela Sabesp para 13 de agosto, às 10h, no horário de Brasília. A administração deverá detalhar a evolução de custos, endividamento, investimentos e metas operacionais depois de um trimestre em que a receita continuou crescendo, mas o maior custo financeiro e as despesas operacionais impediram que esse avanço fosse convertido em expansão do lucro.









