A SLC Agrícola (SLCE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 245,1 milhões, crescimento de 75,3% em relação aos R$ 139,8 milhões registrados no mesmo período do ano anterior. A receita líquida somou R$ 2,18 bilhões, alta de 16,8% na comparação anual, enquanto o resultado bruto alcançou R$ 941,2 milhões, avanço de 43,5%. O desempenho marca uma inflexão relevante após um primeiro trimestre de queda e reflete a combinação de maiores volumes faturados de algodão e soja com melhora de rentabilidade unitária nessas duas culturas.
O resultado operacional atingiu R$ 677,4 milhões no trimestre, crescimento de 49,4% sobre o 2T25, com margem operacional passando de 24,3% para 31,1%, elevação de 6,8 pontos percentuais. A margem bruta evoluiu de 35,2% para 43,3%, ganho de 8,1 pontos, o maior salto entre os indicadores de rentabilidade do período. O movimento foi parcialmente compensado pela pressão sobre o Ebitda ajustado e pelo fluxo de caixa ainda negativo, característico da sazonalidade de desembolsos com insumos.
A companhia, uma das maiores produtoras de grãos e fibras do país, colheu no 2T26 os efeitos da recuperação de produtividade da safra 2024/25, após perdas associadas ao El Niño na temporada anterior, e de uma estratégia de comercialização mais concentrada em algodão em pluma. A administração destacou que algodão e soja permaneceram como os principais vetores de geração de valor.
Receita cresce 16,8% e margem bruta avança 8,1 pontos
A receita líquida de R$ 2,18 bilhões representa acréscimo de aproximadamente R$ 313 milhões frente à base de cerca de R$ 1,86 bilhão registrada um ano antes. O crescimento foi sustentado pelo aumento de volumes em três culturas principais e pela melhora de preço médio em algodão e soja, mesmo com ambiente ainda volátil para commodities agrícolas.
O resultado bruto de R$ 941,2 milhões, ante cerca de R$ 656 milhões no 2T25, explica a maior parte da expansão do lucro. A margem bruta de 43,3% reflete não apenas preço, mas também diluição de custos fixos e ganho de produtividade por hectare. No primeiro trimestre de 2026, a empresa havia reportado receita de R$ 2,267 bilhões, com recuo de 2,7%, e lucro de R$ 236,1 milhões, queda de 53,8%, o que reforça o caráter de recuperação do segundo trimestre.
O resultado operacional de R$ 677,4 milhões mostra que a melhora bruta foi preservada após despesas operacionais. A margem operacional de 31,1% evidencia controle de despesas de vendas, gerais e administrativas mesmo com ampliação de área. A SLC vem expandindo seu potencial produtivo, com quase 60 mil hectares adicionais para a safra 2024/25 por meio de joint venture com a Agropecuária Rica e arrendamentos no Piauí, além de contrato de aquisição de 39.987 hectares físicos em São Desidério, na Bahia, vinculados à Fazenda Paladino.
Ebitda ajustado sobe 4,3%, mas margem recua para 26,7%
O Ebitda ajustado totalizou R$ 580,6 milhões no 2T26, avanço de 4,3% sobre os R$ 556,6 milhões registrados no mesmo trimestre do ano anterior. Apesar do crescimento absoluto de R$ 24 milhões, a margem Ebitda ajustada recuou 3,2 pontos percentuais, de 29,9% para 26,7%.
A divergência entre receita e Ebitda indica que parte do ganho bruto foi absorvida por efeitos de variação de valor justo de ativos biológicos, despesas de arrendamento e maior custo com fretes e beneficiamento de algodão. No 2T25, o Ebitda ajustado havia mais que dobrado em relação ao 2T24, com alta de 115,6%, o que elevava a base de comparação. A companhia também registrou no trimestre passado um ambiente de projeções conservadoras: estimativas de mercado apontavam Ebitda próximo a R$ 560 milhões e receita de R$ 1,895 bilhão para o período, números superados no resultado divulgado em 12 de agosto.
Para leitura econômica, a queda de margem de Ebitda não anula a melhora operacional, mas sinaliza que a conversão de receita em geração operacional ainda depende de preços de insumos, logística e da contabilização de ativos biológicos, que tem efeito não caixa relevante no agronegócio.
Algodão e soja concentram geração de valor no trimestre
As vendas de algodão em pluma cresceram 21,9%, para 93.055 toneladas, enquanto as vendas de soja avançaram 9,8%, para 568.272 toneladas. O algodão manteve o papel de cultura de maior valor agregado, com resultado bruto unitário de R$ 3.634 por tonelada, alta de 9,3% na comparação anual. A soja apresentou resultado bruto unitário de R$ 530 por tonelada, crescimento de 4,3%.
O desempenho reflete dois fatores combinados. De um lado, produtividade maior na safra 2024/25, que permitiu maior disponibilidade de produto para faturamento no segundo trimestre, período em que tradicionalmente se concentra a comercialização da fibra e parte da oleaginosa. De outro, preços médios sustentados por demanda externa e por prêmios de qualidade, especialmente no algodão. A SLC tem ampliado participação em algodão justamente pela margem superior e pela possibilidade de integração com beneficiamento.
O milho segunda safra também apresentou salto de volume, com 103.460 toneladas vendidas, alta de 69,5% sobre o 2T25. A cultura, porém, tem margem menor e maior sensibilidade a preços internos, o que explica parte da pressão sobre indicadores consolidados.
Milho e caroço de algodão pressionam rentabilidade unitária
Nem todas as linhas contribuíram positivamente. O resultado bruto unitário do milho segunda safra caiu 37,5%, para R$ 222 por tonelada. O caroço de algodão, subproduto do beneficiamento, recuou 53,6%, para R$ 221 por tonelada. Os dois movimentos indicam compressão de spreads, seja por queda de preços de venda, seja por aumento de custo de produção e armazenagem.
No caso do milho, o mercado brasileiro enfrentou no primeiro semestre de 2026 maior oferta da safrinha e preços pressionados no mercado interno, além de custos logísticos mais elevados. Para o caroço, a menor demanda da pecuária e a maior disponibilidade de farelos substitutos limitaram a recomposição de preços. Como esses produtos representam menor parcela da receita, o impacto foi absorvido, mas explica por que o Ebitda cresceu menos que o resultado bruto.
A leitura para os próximos trimestres envolve o equilíbrio entre mix de culturas. Quanto maior a participação de algodão em pluma, maior tende a ser a margem consolidada. A empresa tem sinalizado alocação de área privilegiando algodão em regiões de maior aptidão, como Bahia e Mato Grosso, onde mantém fazendas próprias e arrendadas.
Pecuária amplia vendas em 52,3% e melhora margem por cabeça
No segmento pecuário, a SLC Agrícola vendeu 12.794 cabeças de gado no 2T26, avanço de 52,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado bruto unitário avançou 19,9%, para R$ 1.225 por cabeça, indicando melhora de preço e de eficiência na recria e engorda em áreas de integração lavoura-pecuária.
Embora a pecuária represente parcela minoritária da receita, o segmento funciona como ferramenta de manejo de solo e de monetização de áreas de rotação. O crescimento de volume reflete maior desmame e maior giro de animais em fazendas onde a companhia intensificou o sistema de integração, estratégia que também contribui para melhoria de matéria orgânica do solo e redução de custos de reforma de pastagem.
Fluxo de caixa segue negativo em R$ 805,3 milhões por sazonalidade
O fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 805,3 milhões no 2T26, piora de 28,6% frente ao fluxo negativo de R$ 626,1 milhões registrado um ano antes. O consumo adicional de R$ 179,2 milhões é compatível com a sazonalidade do primeiro semestre, período de maior desembolso com insumos, defensivos e arrendamentos da safra em desenvolvimento.
No agronegócio, o primeiro semestre concentra pagamentos de fertilizantes e sementes para a safra subsequente, enquanto a geração de caixa mais forte ocorre no segundo semestre, com a entrega de grãos e fibras. A empresa também ampliou investimentos relacionados à aquisição de terras e à estrutura de armazenagem, incluindo o contrato de compra de imóveis rurais em São Desidério. Em relatórios anteriores, a administração já indicava queima de caixa no primeiro semestre, com projeção de consumo próximo a R$ 1,3 bilhão em trimestres de pico de capital de giro.
A posição de caixa e a alavancagem não foram detalhadas no material-base, mas a evolução do fluxo indica necessidade de acompanhamento da dívida líquida e do custo financeiro, em um contexto de juros ainda elevados no Brasil. A capacidade de reversão do fluxo no segundo semestre dependerá do ritmo de faturamento e do recebimento de vendas já contratadas.
Contexto setorial favorece base de comparação
O resultado do 2T26 se beneficia de uma base de comparação afetada por clima e por preços. Em 2024, o El Niño provocou perdas de produtividade em soja no Centro-Oeste, reduzindo margens. A safra 2024/25, colhida entre o final de 2024 e o primeiro semestre de 2025, apresentou recuperação de rendimentos, o que elevou a disponibilidade de produto para comercialização em 2025 e 2026.
Além disso, a SLC Agrícola passou por reorganização societária com aquisição de participação minoritária na SLC LandCo em outubro de 2024 e ampliação de joint ventures, o que aumentou a área sob gestão. A empresa avalia seu portfólio de terras em R$ 13,5 bilhões, conforme fato relevante divulgado em julho, e tem destacado aquisições com desconto que se pagam com geração própria, como no caso das áreas da Radar.
No ambiente macro, o câmbio médio mais depreciado no segundo trimestre favoreceu receitas de exportação de algodão e soja, enquanto os custos de fertilizantes, embora ainda altos, apresentaram acomodação em relação ao pico de 2022-2023. A margem bruta de 43,3% é a mais elevada dos últimos trimestres e se aproxima de patamares históricos quando o mix pende para algodão.
Próximos pontos de atenção para o mercado
O mercado deve monitorar agora três frentes. Primeiro, a teleconferência de resultados e a divulgação completa das demonstrações financeiras na CVM, com detalhamento de dívida líquida, alavancagem, capex e geração de caixa operacional, além de efeitos de ativos biológicos. Segundo, o guidance para a safra 2025/26, especialmente a alocação de área entre soja, algodão primeira e segunda safra e milho, e as expectativas de produtividade.
Terceiro, a política de retorno ao acionista. A companhia tem histórico de distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio vinculados à geração de caixa do segundo semestre. A confirmação de pagamento e o cronograma de assembleias serão relevantes após a apuração anual.
A ação SLCE3 encerrou junho cotada a R$ 12,90, com desempenho negativo no acumulado do ano, refletindo correção de commodities e juros. O balanço do 2T26, com lucro 75,3% maior e avanço de margens brutas, tende a ser lido como sinal de recuperação operacional, mas a queda de margem de Ebitda e o fluxo de caixa negativo reforçam a necessidade de acompanhar conversão em caixa nos próximos trimestres.










