As ações da Embraer (EMBJ3) voltaram a ocupar a ponta positiva do Ibovespa nesta quarta-feira, 12 de agosto, prolongando a reação do mercado aos resultados do segundo trimestre e, principalmente, às novas projeções financeiras apresentadas pela fabricante de aeronaves. Por volta das 16h20, os papéis avançavam 3,85%, cotados a R$ 96,04, em uma sessão na qual a companhia se destacava entre as maiores altas do principal índice da B3.
O movimento ocorre dois dias depois de a Embraer apresentar um trimestre marcado por recordes operacionais e uma revisão relevante das expectativas para 2026. A companhia registrou US$ 2,235 bilhões em receita entre abril e junho, crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior faturamento já alcançado pela empresa em um segundo trimestre. Além da expansão das vendas, a geração de caixa melhorou e a administração elevou a faixa projetada para a margem operacional neste ano.
A combinação entre receita crescente, carteira de pedidos recorde, maior volume de entregas e revisão das metas financeiras ajuda a explicar por que o desempenho da ação voltou a chamar a atenção. Ao mesmo tempo, os próprios números divulgados pela Embraer mostram que parte da melhora das projeções para 2026 está associada a fatores extraordinários, especialmente créditos tributários e uma redução do impacto esperado de tarifas nos Estados Unidos, o que exige cautela ao extrapolar integralmente o desempenho do trimestre para os próximos períodos.
Receita da Embraer bate recorde no segundo trimestre
A receita consolidada de US$ 2,235 bilhões representou uma expansão expressiva sobre os US$ 1,819 bilhão registrados no segundo trimestre do ano passado. Todas as principais unidades de negócio apresentaram crescimento de faturamento, embora com desempenhos diferentes em margens e rentabilidade.
Na Aviação Executiva, a receita chegou a US$ 725 milhões, avanço de 32% em um ano, beneficiada por maiores volumes e por uma composição mais favorável das vendas. A margem EBIT ajustada da divisão subiu de 14,5% para 23,4%, resultado que também recebeu contribuição de um crédito tributário extraordinário reconhecido durante o trimestre. Retirados os efeitos desse crédito e das tarifas norte-americanas, a companhia calculou margem de 16,1% para a unidade.
Serviços & Suporte, um negócio relevante por gerar receitas recorrentes ao longo da vida útil das aeronaves, alcançou faturamento de US$ 565 milhões, crescimento de 24% sobre um ano antes. A margem EBIT ajustada ficou em 18,7%, contra 15,5% no segundo trimestre de 2025. A companhia vem ampliando a estrutura dessa divisão, incluindo investimentos em manutenção de motores e expansão da capacidade de atendimento nos Estados Unidos.
Defesa & Segurança registrou receita de US$ 304 milhões, aumento de 38%, sustentado principalmente pelo reconhecimento de receitas relacionadas ao KC-390 Millennium. A margem EBIT ajustada avançou de 9,2% para 11,9%, apoiada pela maior alavancagem operacional.
Aviação Comercial cresce, mas contratos antigos pressionam margem
A Aviação Comercial também aumentou o faturamento, mas apresentou um quadro mais desafiador em rentabilidade. A divisão registrou receita de US$ 625 milhões, crescimento de 8% na comparação anual, impulsionada principalmente pelo aumento dos volumes.
A margem bruta, porém, recuou de 10,1% para 8,4%, enquanto a margem EBIT ajustada caiu de 4,3% para 2,9%. Segundo a Embraer, a redução está relacionada à composição dos clientes e à presença de contratos antigos, firmados sob condições econômicas menos favoráveis do que aquelas observadas nos negócios mais recentes.
Esse efeito ajuda a explicar por que a renovação gradual da carteira de pedidos pode ser importante para a rentabilidade futura da fabricante. À medida que contratos anteriores são executados e novos pedidos passam a representar parcela maior das entregas, preços, custos e condições comerciais mais recentes tendem a ganhar peso na estrutura de receitas. O processo, entretanto, depende do ritmo de produção e da capacidade de converter a carteira contratada em aeronaves entregues.
No segundo trimestre, a Embraer entregou 65 aeronaves, número 7% superior às 61 unidades do mesmo período de 2025 e o melhor resultado para um segundo trimestre em 16 anos. Foram 20 jatos comerciais e 45 executivos. No acumulado do primeiro semestre, as entregas chegaram a 109 aeronaves, aproximadamente 20% acima das 91 unidades entregues na primeira metade do ano passado.
Carteira de pedidos chega ao recorde de US$ 34,5 bilhões
Outro ponto que fortaleceu a percepção de visibilidade para os próximos anos foi o avanço do backlog. A carteira firme de pedidos encerrou junho em US$ 34,5 bilhões, novo recorde histórico da Embraer e crescimento de 16% em comparação com o segundo trimestre de 2025.
O crescimento não ficou concentrado em apenas um segmento. A carteira de Defesa & Segurança avançou 42% em um ano, enquanto a de Aviação Comercial cresceu 15%. Serviços & Suporte registrou expansão de 12% e Aviação Executiva, de 5%, mostrando que a demanda permanece distribuída entre as diferentes atividades da fabricante.
Uma carteira elevada proporciona maior previsibilidade de receitas, mas não representa faturamento imediato. Para transformar esses contratos em resultados, a Embraer precisa manter o aumento da produção, assegurar disponibilidade de componentes na cadeia de fornecedores e cumprir cronogramas de entrega. Esse ponto ganha importância porque a indústria aeroespacial opera com ciclos longos de fabricação e permanece exposta a gargalos logísticos e industriais.
A empresa tem buscado elevar a cadência produtiva ao mesmo tempo em que investe na expansão de algumas áreas. Somente no segundo trimestre, a Embraer realizou US$ 120,8 milhões em investimentos, acima dos US$ 97,5 milhões desembolsados no mesmo período de 2025. Quando considerada também a Eve, o volume total investido chegou a US$ 151 milhões.
Margem projetada para 2026 sobe para até 10,6%
A alteração mais relevante nas projeções anuais ocorreu na rentabilidade. A Embraer passou a estimar margem EBIT ajustada entre 10% e 10,6% em 2026, acima da faixa anterior, que variava de 8,7% a 9,3%.
A empresa manteve, por outro lado, sua projeção de receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões. Também foram preservadas as metas operacionais: de 80 a 85 entregas na Aviação Comercial e entre 160 e 170 aeronaves na Aviação Executiva ao longo do ano.
A manutenção das metas de receita e entregas, combinada com a elevação da margem esperada, indica que a principal mudança ocorreu na perspectiva de rentabilidade e geração de caixa. O fluxo de caixa livre ajustado, excluindo a Eve, agora deverá alcançar US$ 400 milhões ou mais em 2026, o dobro do piso anterior de US$ 200 milhões.
No segundo trimestre, a geração de caixa livre ajustada sem a Eve atingiu US$ 401 milhões, frente a uma saída de US$ 161,6 milhões registrada um ano antes. A melhora refletiu o desempenho operacional, recebimentos antecipados relacionados a vendas e também o efeito do crédito tributário extraordinário reconhecido no período.
Crédito tributário teve peso relevante na revisão das projeções
A própria Embraer detalhou que a revisão do guidance não decorreu integralmente de uma melhora estrutural das operações. O aumento de aproximadamente US$ 110 milhões no ponto médio do EBIT ajustado projetado para 2026 inclui componentes extraordinários e mudanças nas premissas comerciais.
Segundo a companhia, cerca de US$ 68 milhões desse incremento estão relacionados a um crédito tributário extraordinário. Outros US$ 38 milhões refletem a isenção de tarifas diretas de importação nos Estados Unidos durante o segundo semestre, enquanto aproximadamente US$ 4 milhões decorrem de uma perspectiva operacional mais favorável para os negócios.
Essa decomposição é relevante para a avaliação do resultado porque mostra que a maior parte da revisão veio de fatores que não necessariamente se repetirão nos próximos exercícios. A Embraer informou ainda que continua sujeita a aproximadamente US$ 12 milhões em tarifas indiretas de importação nos Estados Unidos em bases anuais.
No próprio segundo trimestre, a margem EBIT ajustada consolidada alcançou 13,3%, contra 10,5% um ano antes. Excluídos tanto o crédito tributário extraordinário quanto os efeitos das tarifas norte-americanas, a companhia calculou que a margem teria sido de 10,6%, nível ainda elevado, mas consideravelmente abaixo do indicador ajustado divulgado para o período.
Lucro e geração de caixa avançam
O EBIT ajustado da Embraer somou US$ 296,9 milhões no segundo trimestre, acima dos US$ 191,8 milhões registrados um ano antes. O lucro líquido ajustado chegou a US$ 218,6 milhões, contra US$ 158 milhões no mesmo intervalo de 2025.
A empresa atribuiu a melhora do lucro principalmente ao desempenho operacional mais forte e à redução das despesas financeiras líquidas, parcialmente compensados pelo aumento dos impostos. Já o lucro atribuível aos acionistas da Embraer atingiu US$ 212,6 milhões, comparado a US$ 78,6 milhões no segundo trimestre do ano anterior.
A estrutura financeira também apresentou melhora em alguns indicadores. A relação entre dívida líquida e Ebitda recuou, enquanto o aumento de adiantamentos relacionados a vendas contribuiu para o capital de giro no trimestre. O desempenho reforça a capacidade da companhia de financiar investimentos e aumentar a produção sem depender exclusivamente de endividamento adicional.
Próximos trimestres testarão a sustentabilidade das margens
Depois da reação das ações e da revisão das metas financeiras, o principal ponto de acompanhamento passa a ser a capacidade da Embraer de preservar margens elevadas à medida que acelera as entregas previstas para o restante do ano. A sazonalidade do setor costuma concentrar uma parcela relevante das entregas nos meses finais, o que aumenta a necessidade de execução industrial no segundo semestre.
A carteira recorde de US$ 34,5 bilhões fornece visibilidade de demanda, enquanto o crescimento de Serviços & Suporte, Aviação Executiva e Defesa amplia a diversificação do resultado. Em sentido contrário, a rentabilidade mais baixa na Aviação Comercial e a contribuição relevante de efeitos extraordinários para o guidance atualizado permanecem entre os pontos que precisam ser observados.
Com as projeções de receita e entregas mantidas, a confirmação do novo patamar de rentabilidade dependerá da execução operacional durante os próximos meses. O desempenho das ações nesta quarta-feira mostra que o mercado incorporou uma percepção mais favorável sobre a companhia, mas os resultados seguintes terão de demonstrar quanto da melhora observada no segundo trimestre pode permanecer depois que os efeitos extraordinários forem retirados.
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