O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a manutenção da taxa Selic em patamar contracionista é necessária para reequilibrar oferta e demanda na economia brasileira, em um contexto de pleno emprego e consumo ainda acima da capacidade de produção. A declaração foi feita nesta segunda-feira, 17 de agosto, em São Paulo, durante a 27ª Conferência Anual do Santander.
Segundo Galípolo, o atual ciclo da política monetária tem explicação predominantemente interna. A avaliação é que o crescimento recente foi sustentado por renda, ocupação e crédito, o que mantém pressões sobre os preços, sobretudo em serviços. Para o Banco Central, esse quadro exige juros restritivos por período prolongado, mesmo após o início do ciclo de cortes.
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual no dia 5 de agosto, de 14,25% para 14% ao ano, em decisão unânime. Foi o quarto corte consecutivo de mesma magnitude desde março, totalizando redução de 1 ponto percentual desde janeiro, quando a taxa estava em 15%. Mesmo com a flexibilização gradual, o BC manteve a mensagem de que seguirá com restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.
Galípolo afirmou que o Brasil convive com pleno emprego há algum tempo e que esse fator altera a dinâmica tradicional de discussão sobre crescimento. Quando a taxa de desocupação está em mínimas históricas e a demanda supera a oferta, o risco de repasse para inflação aumenta. Nesse cenário, o papel da política monetária, na avaliação apresentada, é conter excessos de demanda até que a oferta possa se expandir de forma sustentada.
Juros altos refletem descompasso interno, não cenário externo
O presidente do Banco Central disse que o nível elevado da Selic está mais relacionado a questões endógenas do que ao ambiente internacional. Embora reconheça que a disputa por liquidez global voltou a crescer, com Estados Unidos, Alemanha e Japão demandando mais recursos, o diagnóstico central é doméstico.
Na visão exposta na conferência, a economia brasileira cresceu puxada por consumo e não por ganhos de produtividade. Esse tipo de expansão tende a pressionar preços porque aumenta a procura por bens e serviços sem ampliação correspondente da capacidade produtiva. A resposta do Banco Central, segundo o discurso, é posicionar a taxa de juros em nível contracionista para desacelerar a demanda e dar tempo para que a oferta se ajuste.
Galípolo ressaltou que não existe trajetória de crescimento sustentado com demanda sistematicamente acima da oferta. Sem aumento de produtividade, o avanço da atividade esbarra em gargalos, eleva custos e gera inflação. A alternativa, apontada como determinante para os próximos anos, seria um modelo de crescimento baseado em eficiência, investimento e ampliação da produção.
O Banco Central projeta, em seu cenário de referência, inflação de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante para a política monetária. O número está 0,2 ponto percentual acima da meta contínua de 3%, mas dentro do intervalo de tolerância de 1,5% a 4,5%. A projeção indica convergência lenta e reforça a necessidade de cautela na calibragem dos juros.
A Selic nominal de 14% ao ano, diante de um IPCA de 4,64% em 12 meses até junho, implica juro real próximo de 8,9% ao ano, um dos mais elevados entre as principais economias. O cálculo próprio, feito a partir da fórmula de juro real ex-post, mostra que a taxa básica mantém poder de contenção sobre crédito, consumo e investimentos financiados.
Mercado de trabalho em nível histórico limita queda da inflação
O diagnóstico de pleno emprego apresentado por Galípolo encontra respaldo nos dados do mercado de trabalho. A taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor nível para o período desde o início da série histórica em 2012. Em comparação com o mesmo trimestre de 2025, quando estava em 6,2%, houve recuo de 0,6 ponto percentual.
No quarto trimestre de 2025, a taxa havia atingido 5,1%, mínima histórica para qualquer trimestre. A sequência de resultados abaixo de 6% desde o início de 2026 indica ocupação elevada e renda sustentada, fatores que mantêm o consumo resiliente. Esse comportamento explica, em parte, a resistência da inflação de serviços, que responde mais lentamente aos juros.
Serviços representam parcela relevante do IPCA e são sensíveis a salários. Quando as empresas enfrentam custos de mão de obra em alta e mantêm capacidade de repasse, a desinflação ocorre de forma gradual. O Banco Central tem citado esse canal como um dos motivos para manter a postura conservadora e dependente de dados.
O IPCA de junho avançou 0,16%, após alta de 0,58% em maio, e acumulou 4,64% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,5%. A prévia de julho, o IPCA-15, subiu 0,06% e acumulou 4,52% em 12 meses, praticamente no limite da banda. As medidas subjacentes, que excluem itens mais voláteis, também desaceleraram, mas seguem ligeiramente acima do centro da meta.
Crédito caro e inadimplência entram no radar do BC
Além do debate sobre juros, Galípolo classificou como preocupante a evolução do mercado de crédito. Na avaliação apresentada, há aumento do endividamento e da inadimplência, com efeito de exponencialidade quando taxas elevadas se combinam com comprometimento de renda crescente.
O ponto de atenção destacado foi o uso de linhas mais caras, especialmente rotativo do cartão de crédito e crédito sem garantia. Segundo dados do Banco Central, o rotativo opera com taxas entre 428% e 440,5% ao ano, com registro de 438,4% ao ano em levantamentos recentes. A diferença para a Selic de 14% ao ano chega a 424 pontos percentuais, o equivalente a mais de 31 vezes o nível da taxa básica.
A jornada do consumidor também foi citada. Em outros países, o tomador costuma migrar de linhas com garantia e juro menor para linhas emergenciais quando sua situação se deteriora. No Brasil, parte dos clientes entra diretamente nas modalidades emergenciais, tratando o limite do cartão como extensão de renda. Esse padrão amplia o risco de inadimplência e reduz a capacidade de consumo futuro.
As estatísticas de crédito mostram endividamento das famílias em patamar elevado. O indicador, que relaciona saldo de dívidas e renda acumulada em 12 meses, ficou em 49,3% em outubro, com alta de 0,2 ponto no mês e de 1,2 ponto em 12 meses. Sem o financiamento imobiliário, o índice foi de 30,9%. Levantamentos mais recentes apontam recorde de 49,9%, nível que o Banco Central monitora por potencial impacto em provisões bancárias e oferta de empréstimos.
A inadimplência acima de 90 dias foi de 3,8% em novembro, sendo 4,7% nas operações com pessoas físicas e 2,3% com pessoas jurídicas. No rotativo, a inadimplência chegou a 63,5% em janeiro para pessoas físicas em algumas bases de dados, refletindo a dificuldade de quitação integral da fatura e a incidência de juros sobre juros.
Galípolo afirmou que o ritmo de crescimento do crédito segue historicamente elevado, apesar das condições financeiras restritivas. Em comunicados recentes, a autarquia destacou que a combinação de juro contracionista, inadimplência, comprometimento de renda e endividamento exige cautela e diligência adicionais na concessão.
Corte de agosto mantém cautela e deixa setembro em aberto
A decisão de 5 de agosto manteve o padrão de calibragem fina. O ciclo atual começou em março, quando a Selic caiu de 15% para 14,75%, seguido por cortes para 14,50% em abril e 14,25% em junho. Antes disso, a taxa permaneceu em 15% entre junho de 2025 e janeiro de 2026, após cinco manutenções consecutivas.
O comunicado do Copom evitou sinalizar os próximos passos e afirmou que manterá a restrição adequada para garantir a convergência da inflação. A estratégia preserva liberdade para cortar novamente, pausar ou ajustar o ritmo conforme a evolução de inflação, expectativas, atividade, emprego, crédito e câmbio.
A autoridade monetária também destacou incerteza externa elevada. Conflitos no Oriente Médio afetam petróleo e fretes, com potencial repasse para combustíveis e custos industriais. Juros elevados em economias avançadas aumentam a atratividade de ativos em moeda forte, pressionam fluxos para emergentes e podem provocar desvalorização cambial, o que encarece importados e insumos.
A redução de 0,25 ponto tem efeitos graduais sobre o custo do dinheiro. Linhas de crédito para famílias e empresas não acompanham a Selic de forma imediata ou proporcional, pois incorporam risco de crédito, despesas administrativas, impostos, garantias e margens. Em operações longas, como imobiliário e investimento, a trajetória esperada dos juros futuros pode ser tão relevante quanto a taxa corrente.
Para companhias com dívida pós-fixada, a queda diminui marginalmente despesas financeiras ao longo do tempo. Para consumidores, o reflexo tende a aparecer lentamente em consignado, pessoal e financiamento de veículos. Aplicações vinculadas ao CDI e títulos pós-fixados continuam com remuneração nominal elevada, embora o retorno líquido dependa de tributação e prazo.
Próximos passos dependem de produtividade e dados de inflação
Na conferência, questionado sobre recomendações ao governo, Galípolo afirmou que não cabe ao Banco Central dar conselhos ao presidente da República e que o papel da instituição é defender suas atribuições. A declaração foi feita durante conversa com Gilson Finkelsztain, presidente executivo do Santander.
A próxima reunião do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro. Até lá, o colegiado acompanhará novas leituras de inflação, mercado de trabalho, atividade e expectativas. A ata da reunião de agosto deve detalhar os argumentos discutidos e a avaliação sobre riscos altistas, que permanecem com peso maior no balanço do comitê.
O ponto central para a continuidade do ciclo será a comprovação de que a desaceleração dos preços é sustentável e de que a inflação caminha de forma consistente para a meta contínua de 3%. O comportamento do emprego, a evolução do crédito e a dinâmica externa sobre câmbio e commodities também entrarão no cálculo.
Galípolo reforçou que o crescimento liderado por produtividade é a via para ampliar a oferta sem gerar inflação. Sem esse avanço, a economia tende a operar próxima de limites, com demanda pressionando preços e exigindo juros restritivos por mais tempo. A mensagem mantém o foco na necessidade de reequilibrar oferta e demanda antes de acelerar a flexibilização monetária.
Fontes:
Gazeta Mercantil – decisão do Copom de 5 de agosto de 2026 e comunicado sobre ciclo de cortes e projeção de inflação
Banco Central do Brasil – decisões do Comitê de Política Monetária e comunicados sobre taxa Selic e restrição adequada
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – PNAD Contínua e taxa de desemprego trimestral
Banco Central do Brasil – estatísticas de crédito, endividamento das famílias e taxas do rotativo do cartão de crédito









