O balanço do Banco do Brasil (BBAS3) no segundo trimestre de 2026 mostrou uma combinação que exige cautela do investidor: a deterioração do agronegócio começa a perder velocidade, mas a qualidade do crédito ainda está longe de normalizar e uma nova fonte de pressão surgiu na carteira de pessoas físicas. O principal sinal de alerta veio do cartão de crédito, cuja inadimplência acima de 90 dias saltou para 14,58% em junho.
Ao mesmo tempo, o banco apresentou melhora sequencial do lucro. O lucro líquido ajustado alcançou R$ 3,908 bilhões no segundo trimestre, avanço de 13,9% sobre os R$ 3,431 bilhões registrados nos três primeiros meses do ano e alta de 3,3% ante igual período de 2025. O lucro líquido contábil ficou em R$ 3,175 bilhões, 2,7% maior na comparação trimestral.
Os números indicam que o Banco do Brasil conseguiu estabilizar parte de sua geração de resultados depois da forte pressão provocada pelo custo do crédito, especialmente no agronegócio. Mas a leitura da carteira mostra que estabilização não significa normalização: a inadimplência total acima de 90 dias avançou de 5,05% em março para 5,61% em junho, enquanto o índice de cobertura caiu de 158,4% para 148,5%.
Para quem acompanha BBAS3, a principal mudança de leitura está na origem do risco. O agro continua concentrando um volume elevado de créditos problemáticos, mas o fluxo de novas operações que entram em inadimplência diminuiu. Já entre pessoas físicas ocorreu o movimento contrário, com deterioração acelerada sobretudo no cartão.
Lucro melhora, mas custo do crédito continua elevado
A margem financeira bruta do Banco do Brasil atingiu R$ 27,5 bilhões no segundo trimestre, praticamente estável ante os três meses anteriores, com crescimento de 0,2%. No acumulado do primeiro semestre, a margem chegou a R$ 54,9 bilhões, expansão de 12,1% sobre igual período de 2025.
O problema continua sendo o tamanho da conta necessária para absorver perdas. O custo do crédito somou R$ 18,5 bilhões no trimestre. Apesar de representar uma redução de 2,1% frente ao primeiro trimestre, o valor ainda ficou 16,1% acima do registrado um ano antes. No primeiro semestre, o custo alcançou R$ 37,3 bilhões, alta de 43,3% na comparação anual.
A composição dessa despesa mostra por que a recuperação dos resultados ainda depende da qualidade dos ativos. Somente a perda esperada associada ao agronegócio ficou em aproximadamente R$ 8,35 bilhões no segundo trimestre. Na carteira de pessoas físicas, foram R$ 7,80 bilhões. Pessoas jurídicas responderam por cerca de R$ 2,77 bilhões.
Há, porém, um contraponto operacional. As receitas de prestação de serviços chegaram a R$ 9,125 bilhões no trimestre, alta de 3,4% ante o primeiro trimestre e de 4,2% em um ano. As despesas administrativas ficaram em R$ 10,076 bilhões, crescimento de apenas 0,6% no trimestre e 4,1% em 12 meses. Essa diferença entre o ritmo de expansão das receitas e das despesas ajuda o banco a preservar eficiência enquanto o custo do crédito permanece pressionado.
Agro ainda tem inadimplência alta, mas novos atrasos recuam
Os números do agronegócio mostram uma diferença importante entre o estoque de créditos inadimplentes e a formação de novos atrasos.
A carteira de crédito agro encerrou junho em R$ 421,6 bilhões, crescimento de 0,8% no trimestre e de 4,1% em 12 meses. A inadimplência acima de 90 dias, entretanto, ainda subiu marginalmente, de 6,22% em março para 6,27% em junho. Um ano antes, estava em 3,16%. Portanto, pelo indicador tradicional de inadimplência, a carteira rural ainda não apresentou uma reversão efetiva.
A melhora aparece quando se observa a formação de novos créditos problemáticos, o chamado New NPL. No agro, esse volume caiu de R$ 7,18 bilhões no primeiro trimestre para R$ 5,72 bilhões no segundo. Em relação à carteira, o indicador recuou de 1,77% para 1,37%, enquanto sua cobertura aumentou para 145,9%.
É essa dinâmica que sustenta a percepção de que o pior da deterioração rural pode estar perdendo força. O estoque de operações vencidas continua elevado porque incorpora problemas originados nos trimestres anteriores, mas uma quantidade menor de operações passou a ingressar nessa condição durante o período mais recente.
“Os novos atrasos que aconteceram seguiram reduzindo, ou seja, você tem um montante de atraso e tem aquele montante que continua atrasando mês a mês. Esse montante está minguando”, afirmou Malek Zein, analista CNPI da Suno, ao avaliar o resultado.
Mesmo dentro do agro, a fotografia permanece desigual. A inadimplência acima de 90 dias no custeio agropecuário recuou de 10,56% em março para 10,18% em junho, enquanto no Pronaf passou de 2,74% para 2,71%. Em contrapartida, operações de BNDES/Finame Rural tiveram alta de 5,58% para 5,99%.
Cartão de crédito se torna novo foco de risco
Se o fluxo de deterioração rural perdeu velocidade, a carteira de pessoas físicas caminhou na direção oposta.
A inadimplência acima de 90 dias da carteira PF chegou a 8,41% em junho, contra 6,82% em março e 5,59% um ano antes. Sem a linha de composição de dívidas, o Banco do Brasil informa que o indicador seria de 7,39%. O índice de cobertura da carteira caiu para 125,8%, ante 147,9% três meses antes.
O cartão de crédito explica uma parcela importante dessa deterioração. A inadimplência superior a 90 dias disparou de 7,12% em março para 14,58% em junho. Em junho de 2025, estava em 6,53%. Em apenas um trimestre, portanto, o indicador praticamente dobrou e, em 12 meses, mais do que duplicou.
O movimento ocorre em uma carteira relevante. O saldo de cartão de crédito era de R$ 69,9 bilhões em junho, crescimento de 15,1% em 12 meses, embora tenha recuado frente aos R$ 72,2 bilhões registrados em março. Também houve mudança na composição: operações à vista e parceladas sem juros diminuíram de 84,6% da carteira em junho de 2025 para 77,8% um ano depois, enquanto o rotativo passou de 9,9% para 13,5%.
A piora não ficou restrita ao estoque. A formação de inadimplência em pessoas físicas também avançou, reforçando a necessidade de acompanhar os próximos balanços antes de considerar o episódio do cartão uma distorção isolada.
“Como é muito fora da curva, é possível que seja um outlier, então aqui não dá para bater o martelo”, avaliou Zein.
Essa é uma das variáveis centrais para BBAS3 no segundo semestre. Se a inadimplência do cartão retornar rapidamente a níveis anteriores, parte da deterioração poderá ser tratada como um evento concentrado. Caso o índice permaneça em dois dígitos, o banco poderá enfrentar pressão adicional sobre provisões, cobertura e rentabilidade.
Empresas apresentam quadro mais controlado
A carteira de pessoas jurídicas apresenta uma situação comparativamente mais administrável, embora também exija acompanhamento.
A inadimplência acima de 90 dias ficou em 3,18% em junho. O indicador estava em 2,87% em março, mas permanecia abaixo dos 3,85% registrados em junho de 2025. A cobertura encerrou o trimestre em 166,7%.
A carteira de crédito PJ totalizou R$ 404,1 bilhões, crescimento de 2,7% frente a março. Outro sinal relevante está na distribuição por estágios de risco: 90,9% da carteira permanecia no estágio 1 em junho, ante 90,6% em março, enquanto a participação do estágio 2 caiu de 2,3% para 1,8%.
Nos créditos renegociados e reestruturados, a leitura também exige cuidado. O saldo final ficou em R$ 73,7 bilhões, 15% abaixo de um ano antes, mas 3,2% acima do primeiro trimestre. As novas reestruturações realizadas no período alcançaram R$ 6,9 bilhões, aumento de 45,8% na comparação trimestral. Portanto, a melhora anual dessa carteira não significa que o processo de renegociação tenha terminado.
O que o balanço muda para BBAS3
Para o investidor, o balanço do segundo trimestre altera a composição dos riscos de BBAS3, mas ainda não oferece elementos para considerar encerrado o ciclo de deterioração do crédito.
O avanço mais importante está no agro. A queda do New NPL de R$ 7,18 bilhões para R$ 5,72 bilhões mostra que menos créditos rurais entraram em deterioração durante o trimestre. É um sinal mais relevante para antecipar tendências do que observar isoladamente o estoque de inadimplência, que reage com atraso.
Ao mesmo tempo, o índice de inadimplência agro acima de 90 dias ainda permanece em 6,27%, praticamente no maior nível recente. Isso significa que o banco continua carregando uma quantidade elevada de operações problemáticas que precisam ser recuperadas, renegociadas ou provisionadas.
O segundo fator é a migração do risco para pessoas físicas. Uma inadimplência de 14,58% no cartão transforma essa carteira em variável relevante para os resultados dos próximos trimestres. A diferença será determinada pela persistência: uma reversão rápida reduziria o impacto sobre a tese de investimento; a manutenção do índice elevado ampliaria o risco de novas despesas de crédito.
Há ainda a questão da avaliação da ação. Ao fim de junho, o Banco do Brasil informava valor patrimonial de R$ 31,76 por ação e cotação de R$ 19,90, equivalente a aproximadamente 0,63 vez o patrimônio líquido. O múltiplo evidencia o desconto incorporado pelo mercado, mas esse desconto precisa ser lido em conjunto com a rentabilidade deprimida e com a incerteza sobre o custo do crédito.
Uma ação negociada abaixo do valor patrimonial não é automaticamente barata se a capacidade de gerar retorno sobre esse patrimônio estiver comprometida. Para BBAS3, a reprecificação depende principalmente de o banco demonstrar que o custo do crédito atingiu um pico, que o agro continuará apresentando redução na formação de inadimplência e que a piora observada entre pessoas físicas não se transformará em um novo ciclo de perdas.
“Na minha visão, foi um resultado neutro. Ninguém esperava uma grande melhoria nesse trimestre”, afirmou Zein.
O balanço do segundo trimestre, portanto, oferece um primeiro sinal de estabilização, mas não uma confirmação de recuperação plena. O Banco do Brasil entra no segundo semestre com o principal problema dos últimos trimestres — o agro — apresentando melhora no fluxo de novos atrasos, ao mesmo tempo em que o cartão de crédito cria uma nova fonte de incerteza.
Para BBAS3, os próximos resultados terão importância maior do que a fotografia isolada de junho. Será neles que o mercado poderá verificar se a redução do New NPL rural se transforma em queda efetiva da inadimplência e se o salto observado no cartão foi excepcional ou o início de uma deterioração mais ampla do crédito às famílias.
Fontes:
Banco do Brasil — Análise do Desempenho do segundo trimestre de 2026.
Banco do Brasil — Sumário do Resultado do segundo trimestre de 2026.










