Governo envia ao Congresso o projeto antifacção para endurecer combate às facções criminosas
Brasília – Em novo impulso à política de segurança pública, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou nesta sexta-feira (31/10) ao Congresso Nacional o projeto antifacção, dedicado ao enfrentamento de grupos criminosos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A iniciativa aparece poucos dias após uma megaoperação das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro que resultou em ao menos 121 mortes, e visa acelerar a tramitação de uma lei-de-base para endurecimento das penas e das investigações contra facções.
Prioridade legislativa no Congresso
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), determinou que o texto tenha prioridade na pauta de votação. A movimentação demonstra que o Executivo e o Legislativo alinharam esforços para aprovação rápida da proposta, que está sendo apresentada como mais célere do que a antiga PEC da Segurança Pública. O ministro da Secretaria de Comunicação do Planalto, Sidônio Pereira, teria orientado que o governo assumisse protagonismo para um retorno mais célere do que o previsto na atuação legislativa habitual.
O que muda com o projeto antifacção
O projeto antifacção introduz inovações relevantes na legislação penal e processual, tanto para o combate direto às organizações criminosas quanto para o aparato de investigação e execução penal:
-
Cria a modalidade qualificada do crime de facção, tornando-o hediondo, o que o torna inafiançável e sem possibilidade de indulto.
-
Facilita o trânsito de ações penais contra empresas utilizadas pelo crime organizado como instrumento de lavagem ou fachada empresarial.
-
Regula expressamente a gravação de conversas entre presos e advogados quando houver comunicação com facções e planejamento de atividades criminosas.
-
altera dispositivos da Lei de Execução Penal para endurecer medidas contra os envolvidos, acelerar procedimentos de investigação, ampliar meios de bloqueio patrimonial e intensificar a repressão à lavagem de dinheiro.
-
Institui pena de 12 a 30 anos de prisão para homicídio praticado a mando de facção.
Repercussão da megaoperação no Rio
A operação que motivou o envio da proposta envolveu as polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro e teve como alvo principal a facção CV, resultando em ao menos 121 mortos. A mobilização foi vista pelo governo como momento oportuno para dar maior visibilidade à agenda antifacção, e reforçar a narrativa de que o país não pode tolerar a impunidade institucionalizada das organizações criminosas.
Nesse contexto, a proposição legislativa busca responder ao clamor público por maior segurança e trazer uma resposta legislativa robusta ao crescimento das facções.
Estratégia de tramitação acelerada
A articulação entre Executivo e Legislativo demonstra que o governo pretende dar tratamento de urgência ao projeto antifacção. A prioridade dada por Hugo Motta indica que a comissão especial ou mesmo a votação em plenário poderá ocorrer em prazos curtos, conforme pactuado.
O ministro Sidônio Pereira reforçou que o objetivo é superar os trâmites normais, urgindo que o projeto seja analisado com velocidade superior à da PEC da Segurança Pública, considerada até então a medida-estratégica no combate ao crime organizado.
Impactos esperados no sistema de segurança pública
A aprovação do projeto antifacção poderá alterar de forma significativa o panorama do enfrentamento das facções no Brasil. Entre os impactos esperados:
-
Ampliação do poder investigativo e de repressão estatal frente a grupos armados organizados;
-
Maior proteção à sociedade, ao estabelecer penas mais severas e dificultar a atuação de empresas-fachada;
-
Potencial redução das campanhas de recrutamento e expansão das facções ao elevar os custos legais e operacionais;
-
Pressão sobre estados e municípios para ajustem seus mecanismos de cooperação e integração de dados para operação conjunta.
Riscos e desafios na implementação
Embora apresente avanços, o projeto antifacção também traz desafios importantes para sua implementação e eficácia real. Entre os pontos de atenção:
-
A necessidade de robusta estrutura institucional para garantir o cumprimento das normas, incluindo tecnologia, capacitação e coordenação entre esferas federais, estaduais e municipais;
-
Resistência de facções, que já atuam de forma transnacional e diversificada, o que pode exigir estratégias adaptativas;
-
Possíveis questionamentos constitucionais e de direitos humanos quanto à gravação de conversas advogado-cliente e à tipificação de empresas – o que pode gerar debates no judiciário;
-
A necessidade de engrenar políticas preventivas, pois a repressão isolada pode não conter o processo de recrutamento e mobilização das facções.
Reações políticas e institucionais
A articulação para aprovação do projeto antifacção motivou manifestação de partidos de oposição e entidades ligadas à segurança pública. Alguns parlamentares questionam a amplitude da proposta e ressaltam que endurecer penas não substitui políticas de prevenção e ressocialização. Já no Executivo, predomina o discurso de que “medida dura” é necessária diante da escalada de violência atribuída às facções criminosas.
Estados com elevada presença das organizações criminosas acompanham de perto a tramitação, visto que poderão receber incremento no apoio federal ou ajustes na cooperação operacional caso o projeto seja aprovado.
Horizonte para aprovação e expectativas
Com o governo empenhado e a Câmara comprometida, as expectativas são de que o projeto antifacção avance ainda este ano. A análise em comissão especial, seguida de votação em plenário, poderá se concretizar rapidamente se os líderes partidários mantiverem o ritmo de cooperação.
A aprovação representaria marco na legislação brasileira de segurança pública, ao elevar o status jurídico das facções, endurecer as penas e ampliar os instrumentos para ação estatal.
Se for aprovado, o projeto deverá entrar em vigor em prazo breve após sanção presidencial, produzindo efeitos já no curto e médio prazo no combate às organizações criminosas.
A vigência da nova norma criará cenário regulatório distinto, no qual as empresas utilizadas por facções, a lavagem de dinheiro e as comunicações entre presos, advogados e organizações criminosas estarão sob nova prismática de risco legal.
Esse conjunto de mudanças configura um divisor de águas para o enfrentamento do crime organizado no país, reforçando a narrativa de que a segurança pública do Brasil exige ação firme e articulada da União, dos estados e dos municípios.






