A presença de personal trainers nas academias brasileiras, historicamente tratada como uma questão operacional ou uma fonte acessória de receita, começa a ganhar uma lógica diferente. Plataformas de tecnologia estão tentando transformar cada treino realizado dentro das unidades em uma transação mensurável, substituindo cobranças mensais fixas dos profissionais por modelos vinculados à atividade efetivamente registrada.
Uma das empresas que aposta nessa mudança é a Treinify, plataforma brasileira que conecta alunos, profissionais de educação física e academias. A companhia criou um programa no qual estabelecimentos parceiros podem receber uma participação financeira vinculada aos treinos realizados em suas dependências, enquanto o personal trainer deixa de pagar uma taxa mensal fixa para acessar a unidade.
A mudança parece apenas uma alteração na forma de cobrança, mas envolve uma transformação mais ampla do modelo econômico das academias. O treino acompanhado deixa de representar somente o uso da estrutura por um profissional externo e passa a gerar informações sobre frequência, ocupação, presença do personal, recorrência do aluno e quantidade de sessões realizadas.
Esses dados podem ser usados para calcular receitas, avaliar horários ociosos e identificar quanto da movimentação dentro da unidade está associada a profissionais independentes. Ao mesmo tempo, a discussão ocorre enquanto uma proposta em tramitação no Senado pretende assegurar ao personal trainer acesso gratuito à academia na qual seu aluno esteja regularmente matriculado.
Taxa cobrada do personal trainer entra no debate regulatório
A cobrança feita por academias para que profissionais independentes atendam clientes dentro dos estabelecimentos não possui um único padrão nacional. Há unidades que não cobram, outras adotam mensalidades e existem operações que estabelecem diferentes formas de credenciamento.
A discussão chegou ao Congresso por meio do Projeto de Lei 4.717/2020, apresentado pelo senador Jorge Kajuru. O texto pretende alterar a legislação que regulamenta a profissão de Educação Física para assegurar ao profissional que presta serviço personalizado acesso sem ônus às academias e estabelecimentos semelhantes durante o atendimento de alunos matriculados.
O projeto continua em tramitação. Depois de passar pela Comissão de Esporte, onde recebeu parecer favorável com emenda, foi encaminhado para análise da Comissão de Assuntos Econômicos. Na consulta do Senado, a proposição aparece pronta para a pauta da comissão desde 2 de abril de 2025. Depois dessa etapa, a matéria ainda deverá seguir para a Comissão de Assuntos Sociais, à qual foi atribuída decisão terminativa. Portanto, a proposta ainda não é lei.
A justificativa original do projeto sustenta que a cobrança imposta ao profissional pode funcionar como uma forma indireta de arrecadação e limitar a escolha do aluno pelo personal trainer de sua confiança. Durante a tramitação, porém, também surgiram argumentos contrários: uma das emendas apresentadas no Senado argumentou que academias investem em estrutura, atração de clientes e controle de profissionais e que a possibilidade de cobrar pelo acesso pode integrar seu próprio modelo de negócios.
O debate evidencia um conflito econômico que vai além da simples cobrança de uma mensalidade: quem deve capturar o valor produzido pelo encontro entre aluno, personal trainer e infraestrutura da academia?
Treino passa a ser tratado como unidade econômica
O modelo proposto pela Treinify tenta responder a essa questão utilizando o treino realizado como unidade econômica.
Em vez de uma cobrança fixa desvinculada da quantidade de atendimentos, a plataforma registra as sessões e permite que a academia participe financeiramente dos treinos concluídos no estabelecimento. Segundo a empresa, a própria unidade continua podendo determinar quais profissionais estão autorizados a atuar no local.
A diferença financeira entre os dois sistemas pode ser relevante.
Em um modelo tradicional, um personal trainer que realiza dez sessões mensais e outro que realiza cem podem pagar exatamente a mesma taxa à academia. Para o profissional de menor movimento, o custo efetivo por atendimento é elevado. Para aquele com agenda cheia, diminui proporcionalmente.
Quando a cobrança acompanha a quantidade de sessões, o custo se torna variável.
Para a academia, entretanto, o resultado depende de uma equação diferente. A receita deixa de ser previsível apenas pelo número de profissionais credenciados e passa a depender de três variáveis principais: quantidade de personal trainers ativos, número médio de atendimentos de cada profissional e valor capturado por sessão.
Isso significa que o modelo pode superar a receita de uma mensalidade fixa quando produz aumento relevante do volume de treinos, mas também pode gerar menos receita em unidades onde o número de sessões seja reduzido. Não existe, portanto, uma vantagem financeira automática: o resultado depende da movimentação efetivamente criada.
Personal trainer também pode funcionar como canal de aquisição
Existe outro componente na conta. Um personal trainer não leva necessariamente para a academia apenas trabalho adicional ou ocupação dos equipamentos. Ele também pode levar clientes.
Um profissional que já possui uma carteira própria pode escolher a academia onde realizará os atendimentos. Dependendo das regras do estabelecimento, os alunos trazidos por ele podem contratar planos ou passar a utilizar outros serviços da unidade.
Nesse cenário, o personal trainer deixa de ser analisado exclusivamente como alguém que utiliza uma estrutura de terceiros. Ele pode se transformar em um canal descentralizado de aquisição de clientes.
Essa lógica explica por que reduzir barreiras de entrada para profissionais pode fazer sentido para determinadas academias. A Treinify afirma que um dos objetivos de seu programa é justamente permitir a entrada de mais profissionais e, consequentemente, aumentar o número de alunos circulando pelas unidades. A empresa também apresenta o potencial de conversão de alunos externos em matrículas como parte de sua proposta comercial.
O resultado, contudo, depende de controle. Se o aumento de profissionais ocorrer nos mesmos horários em que a academia já opera próxima da capacidade máxima, mais treinos podem significar congestionamento dos equipamentos e deterioração da experiência dos demais clientes. Em horários ociosos, a mesma movimentação pode representar melhor aproveitamento de uma estrutura que permaneceria subutilizada.
É justamente nesse ponto que os dados ganham importância.
O ativo deixa de ser apenas o espaço físico
Uma academia tradicional conhece principalmente matrículas, cancelamentos, pagamentos e acessos. Quando sessões de personal trainers passam a ser registradas individualmente, surge uma camada adicional de informação operacional.
É possível, em tese, identificar quantos treinos acompanhados acontecem por dia, quais horários concentram maior utilização, quantos profissionais estão efetivamente ativos e qual volume de sessões cada unidade recebe.
A Treinify afirma que seu sistema permite acompanhar treinos, ocupação, desempenho e resultados, além de organizar pagamentos e atividades realizadas entre alunos e profissionais. A plataforma também oferece aos personal trainers ferramentas para venda de planos e organização de agenda.
Essa transformação aproxima a academia de negócios cuja gestão é baseada em utilização, e não apenas em assinaturas.
Uma unidade pode ter milhares de clientes matriculados e ainda assim desconhecer com precisão como sua infraestrutura é utilizada durante o dia. Ao transformar cada atividade em um registro, o gestor passa a conseguir relacionar receita à ocupação.
O desafio é não confundir quantidade de dados com melhoria automática da gestão. A informação precisa resultar em decisões como redistribuição de horários, políticas comerciais, dimensionamento de equipamentos e gestão da capacidade física.
Dados também criam novas responsabilidades
A digitalização dos treinos produz outro efeito: aumenta a quantidade de dados que precisam ser administrados.
Informações sobre agenda, pagamentos, atividade física e eventualmente condições relacionadas ao treinamento podem envolver dados pessoais e, dependendo de seu conteúdo, informações submetidas a níveis mais elevados de proteção.
Na política de privacidade atualmente publicada pela Treinify, a companhia afirma que dados relacionados a saúde, atividade física, condicionamento ou bem-estar não são vendidos e que o compartilhamento ocorre quando necessário para prestação dos serviços, integrações autorizadas, cumprimento de obrigações legais ou proteção de direitos. A empresa também declara empregar recursos como criptografia, controle de acesso e auditoria de registros.
Para academias que adotem sistemas desse tipo, a governança dessas informações passa a fazer parte da operação, juntamente com questões como autorização de profissionais e segurança dos usuários.
A legislação brasileira estabelece que o exercício das atividades profissionais de Educação Física é prerrogativa dos profissionais regularmente registrados nos respectivos Conselhos Regionais. Os Crefs também possuem competência para registrar profissionais e fiscalizar o exercício da atividade.
Assim, aumentar o número de personal trainers utilizando uma academia exige simultaneamente mecanismos eficientes de identificação e controle.
Cobrança por sessão não encerra discussão jurídica
A migração da mensalidade fixa para uma remuneração baseada em atividade também precisa ser analisada com cautela do ponto de vista regulatório.
O texto do PL 4.717/2020 fala em assegurar acesso “sem ônus” ao personal trainer durante o atendimento de seu aluno matriculado. Caso uma proposta dessa natureza seja transformada em lei, a forma jurídica e econômica utilizada para remunerar a academia poderá se tornar relevante.
Simplesmente substituir o nome de uma taxa de acesso por cobrança vinculada à sessão não significa, por si só, que qualquer modelo estará automaticamente fora do alcance de uma eventual restrição legal. A interpretação dependerá do desenho contratual, de quem suporta economicamente a cobrança e do texto definitivo que eventualmente for aprovado.
O modelo por atividade deve ser entendido, portanto, como uma inovação comercial em desenvolvimento, e não como solução jurídica definitiva para a discussão sobre taxas cobradas dos profissionais.
Academias começam a medir movimento, não apenas matrícula
Durante décadas, o indicador central do setor de academias foi relativamente simples: número de alunos matriculados. A expansão de sistemas digitais permite acompanhar uma operação muito mais granular.
Matrículas continuam fundamentais, mas começam a dividir espaço com frequência de utilização, cancelamento, horários de pico, recorrência, utilização de equipamentos, sessões acompanhadas e permanência dos clientes.
Nesse ambiente, o personal trainer ocupa uma posição incomum. Ele pode elevar a frequência do aluno, utilizar a estrutura da academia, gerar receita adicional e também trazer novos consumidores para dentro do estabelecimento.
A disputa econômica passa a ser menos sobre quanto cobrar para que esse profissional entre na unidade e mais sobre como distribuir o valor gerado quando ele efetivamente trabalha ali.
A Treinify aposta que registrar cada sessão e dividir parte dessa movimentação com a academia pode substituir o modelo de mensalidade cobrada do profissional. Para os estabelecimentos, a decisão dependerá dos números de cada unidade: capacidade disponível, volume de personal trainers, distribuição dos treinos ao longo do dia e potencial de conversão dos alunos trazidos pelos profissionais.
Se essa lógica ganhar escala, a transformação mais relevante poderá não ser a criação de uma nova taxa. Será a conversão de uma atividade que durante anos ocorreu de maneira pouco mensurada dentro das academias em uma operação digital na qual cada treino passa a gerar dados — e potencialmente receita.










