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Academias adotam cobrança por treino de personal trainers enquanto Senado discute acesso gratuito

Modelo substitui taxas fixas por remuneração vinculada às sessões e transforma a atividade dos profissionais em receita e dados operacionais.

por Ana Luiza Farias
24/08/2026 às 15h14
em Negócios
Academias Adotam Cobrança Por Treino De Personal Trainers Enquanto Senado Discute Acesso Gratuito - Gazeta Mercantil

A presença de personal trainers nas academias brasileiras, historicamente tratada como uma questão operacional ou uma fonte acessória de receita, começa a ganhar uma lógica diferente. Plataformas de tecnologia estão tentando transformar cada treino realizado dentro das unidades em uma transação mensurável, substituindo cobranças mensais fixas dos profissionais por modelos vinculados à atividade efetivamente registrada.

Uma das empresas que aposta nessa mudança é a Treinify, plataforma brasileira que conecta alunos, profissionais de educação física e academias. A companhia criou um programa no qual estabelecimentos parceiros podem receber uma participação financeira vinculada aos treinos realizados em suas dependências, enquanto o personal trainer deixa de pagar uma taxa mensal fixa para acessar a unidade.

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A mudança parece apenas uma alteração na forma de cobrança, mas envolve uma transformação mais ampla do modelo econômico das academias. O treino acompanhado deixa de representar somente o uso da estrutura por um profissional externo e passa a gerar informações sobre frequência, ocupação, presença do personal, recorrência do aluno e quantidade de sessões realizadas.

Esses dados podem ser usados para calcular receitas, avaliar horários ociosos e identificar quanto da movimentação dentro da unidade está associada a profissionais independentes. Ao mesmo tempo, a discussão ocorre enquanto uma proposta em tramitação no Senado pretende assegurar ao personal trainer acesso gratuito à academia na qual seu aluno esteja regularmente matriculado.

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Taxa cobrada do personal trainer entra no debate regulatório

A cobrança feita por academias para que profissionais independentes atendam clientes dentro dos estabelecimentos não possui um único padrão nacional. Há unidades que não cobram, outras adotam mensalidades e existem operações que estabelecem diferentes formas de credenciamento.

A discussão chegou ao Congresso por meio do Projeto de Lei 4.717/2020, apresentado pelo senador Jorge Kajuru. O texto pretende alterar a legislação que regulamenta a profissão de Educação Física para assegurar ao profissional que presta serviço personalizado acesso sem ônus às academias e estabelecimentos semelhantes durante o atendimento de alunos matriculados.

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O projeto continua em tramitação. Depois de passar pela Comissão de Esporte, onde recebeu parecer favorável com emenda, foi encaminhado para análise da Comissão de Assuntos Econômicos. Na consulta do Senado, a proposição aparece pronta para a pauta da comissão desde 2 de abril de 2025. Depois dessa etapa, a matéria ainda deverá seguir para a Comissão de Assuntos Sociais, à qual foi atribuída decisão terminativa. Portanto, a proposta ainda não é lei.

A justificativa original do projeto sustenta que a cobrança imposta ao profissional pode funcionar como uma forma indireta de arrecadação e limitar a escolha do aluno pelo personal trainer de sua confiança. Durante a tramitação, porém, também surgiram argumentos contrários: uma das emendas apresentadas no Senado argumentou que academias investem em estrutura, atração de clientes e controle de profissionais e que a possibilidade de cobrar pelo acesso pode integrar seu próprio modelo de negócios.

O debate evidencia um conflito econômico que vai além da simples cobrança de uma mensalidade: quem deve capturar o valor produzido pelo encontro entre aluno, personal trainer e infraestrutura da academia?

Treino passa a ser tratado como unidade econômica

O modelo proposto pela Treinify tenta responder a essa questão utilizando o treino realizado como unidade econômica.

Em vez de uma cobrança fixa desvinculada da quantidade de atendimentos, a plataforma registra as sessões e permite que a academia participe financeiramente dos treinos concluídos no estabelecimento. Segundo a empresa, a própria unidade continua podendo determinar quais profissionais estão autorizados a atuar no local.

A diferença financeira entre os dois sistemas pode ser relevante.

Em um modelo tradicional, um personal trainer que realiza dez sessões mensais e outro que realiza cem podem pagar exatamente a mesma taxa à academia. Para o profissional de menor movimento, o custo efetivo por atendimento é elevado. Para aquele com agenda cheia, diminui proporcionalmente.

Quando a cobrança acompanha a quantidade de sessões, o custo se torna variável.

Para a academia, entretanto, o resultado depende de uma equação diferente. A receita deixa de ser previsível apenas pelo número de profissionais credenciados e passa a depender de três variáveis principais: quantidade de personal trainers ativos, número médio de atendimentos de cada profissional e valor capturado por sessão.

Isso significa que o modelo pode superar a receita de uma mensalidade fixa quando produz aumento relevante do volume de treinos, mas também pode gerar menos receita em unidades onde o número de sessões seja reduzido. Não existe, portanto, uma vantagem financeira automática: o resultado depende da movimentação efetivamente criada.

Personal trainer também pode funcionar como canal de aquisição

Existe outro componente na conta. Um personal trainer não leva necessariamente para a academia apenas trabalho adicional ou ocupação dos equipamentos. Ele também pode levar clientes.

Um profissional que já possui uma carteira própria pode escolher a academia onde realizará os atendimentos. Dependendo das regras do estabelecimento, os alunos trazidos por ele podem contratar planos ou passar a utilizar outros serviços da unidade.

Nesse cenário, o personal trainer deixa de ser analisado exclusivamente como alguém que utiliza uma estrutura de terceiros. Ele pode se transformar em um canal descentralizado de aquisição de clientes.

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Essa lógica explica por que reduzir barreiras de entrada para profissionais pode fazer sentido para determinadas academias. A Treinify afirma que um dos objetivos de seu programa é justamente permitir a entrada de mais profissionais e, consequentemente, aumentar o número de alunos circulando pelas unidades. A empresa também apresenta o potencial de conversão de alunos externos em matrículas como parte de sua proposta comercial.

O resultado, contudo, depende de controle. Se o aumento de profissionais ocorrer nos mesmos horários em que a academia já opera próxima da capacidade máxima, mais treinos podem significar congestionamento dos equipamentos e deterioração da experiência dos demais clientes. Em horários ociosos, a mesma movimentação pode representar melhor aproveitamento de uma estrutura que permaneceria subutilizada.

É justamente nesse ponto que os dados ganham importância.

O ativo deixa de ser apenas o espaço físico

Uma academia tradicional conhece principalmente matrículas, cancelamentos, pagamentos e acessos. Quando sessões de personal trainers passam a ser registradas individualmente, surge uma camada adicional de informação operacional.

É possível, em tese, identificar quantos treinos acompanhados acontecem por dia, quais horários concentram maior utilização, quantos profissionais estão efetivamente ativos e qual volume de sessões cada unidade recebe.

A Treinify afirma que seu sistema permite acompanhar treinos, ocupação, desempenho e resultados, além de organizar pagamentos e atividades realizadas entre alunos e profissionais. A plataforma também oferece aos personal trainers ferramentas para venda de planos e organização de agenda.

Essa transformação aproxima a academia de negócios cuja gestão é baseada em utilização, e não apenas em assinaturas.

Uma unidade pode ter milhares de clientes matriculados e ainda assim desconhecer com precisão como sua infraestrutura é utilizada durante o dia. Ao transformar cada atividade em um registro, o gestor passa a conseguir relacionar receita à ocupação.

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O desafio é não confundir quantidade de dados com melhoria automática da gestão. A informação precisa resultar em decisões como redistribuição de horários, políticas comerciais, dimensionamento de equipamentos e gestão da capacidade física.

Dados também criam novas responsabilidades

A digitalização dos treinos produz outro efeito: aumenta a quantidade de dados que precisam ser administrados.

Informações sobre agenda, pagamentos, atividade física e eventualmente condições relacionadas ao treinamento podem envolver dados pessoais e, dependendo de seu conteúdo, informações submetidas a níveis mais elevados de proteção.

Na política de privacidade atualmente publicada pela Treinify, a companhia afirma que dados relacionados a saúde, atividade física, condicionamento ou bem-estar não são vendidos e que o compartilhamento ocorre quando necessário para prestação dos serviços, integrações autorizadas, cumprimento de obrigações legais ou proteção de direitos. A empresa também declara empregar recursos como criptografia, controle de acesso e auditoria de registros.

Para academias que adotem sistemas desse tipo, a governança dessas informações passa a fazer parte da operação, juntamente com questões como autorização de profissionais e segurança dos usuários.

A legislação brasileira estabelece que o exercício das atividades profissionais de Educação Física é prerrogativa dos profissionais regularmente registrados nos respectivos Conselhos Regionais. Os Crefs também possuem competência para registrar profissionais e fiscalizar o exercício da atividade.

Assim, aumentar o número de personal trainers utilizando uma academia exige simultaneamente mecanismos eficientes de identificação e controle.

Cobrança por sessão não encerra discussão jurídica

A migração da mensalidade fixa para uma remuneração baseada em atividade também precisa ser analisada com cautela do ponto de vista regulatório.

O texto do PL 4.717/2020 fala em assegurar acesso “sem ônus” ao personal trainer durante o atendimento de seu aluno matriculado. Caso uma proposta dessa natureza seja transformada em lei, a forma jurídica e econômica utilizada para remunerar a academia poderá se tornar relevante.

Simplesmente substituir o nome de uma taxa de acesso por cobrança vinculada à sessão não significa, por si só, que qualquer modelo estará automaticamente fora do alcance de uma eventual restrição legal. A interpretação dependerá do desenho contratual, de quem suporta economicamente a cobrança e do texto definitivo que eventualmente for aprovado.

O modelo por atividade deve ser entendido, portanto, como uma inovação comercial em desenvolvimento, e não como solução jurídica definitiva para a discussão sobre taxas cobradas dos profissionais.

Academias começam a medir movimento, não apenas matrícula

Durante décadas, o indicador central do setor de academias foi relativamente simples: número de alunos matriculados. A expansão de sistemas digitais permite acompanhar uma operação muito mais granular.

Matrículas continuam fundamentais, mas começam a dividir espaço com frequência de utilização, cancelamento, horários de pico, recorrência, utilização de equipamentos, sessões acompanhadas e permanência dos clientes.

Nesse ambiente, o personal trainer ocupa uma posição incomum. Ele pode elevar a frequência do aluno, utilizar a estrutura da academia, gerar receita adicional e também trazer novos consumidores para dentro do estabelecimento.

A disputa econômica passa a ser menos sobre quanto cobrar para que esse profissional entre na unidade e mais sobre como distribuir o valor gerado quando ele efetivamente trabalha ali.

A Treinify aposta que registrar cada sessão e dividir parte dessa movimentação com a academia pode substituir o modelo de mensalidade cobrada do profissional. Para os estabelecimentos, a decisão dependerá dos números de cada unidade: capacidade disponível, volume de personal trainers, distribuição dos treinos ao longo do dia e potencial de conversão dos alunos trazidos pelos profissionais.

Se essa lógica ganhar escala, a transformação mais relevante poderá não ser a criação de uma nova taxa. Será a conversão de uma atividade que durante anos ocorreu de maneira pouco mensurada dentro das academias em uma operação digital na qual cada treino passa a gerar dados — e potencialmente receita.

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