O BB Investimentos fez apenas uma alteração em sua carteira fundamentalista para setembro: retirou Localiza (RENT3) e incluiu Direcional (DIRR3). O restante do portfólio permanece formado por Alupar (ALUP11), Axia Energia (AXIA3), Embraer (EMBJ3), Gerdau (GGBR4), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4), Tenda (TEND3), Vale (VALE3) e Vibra Energia (VBBR3).
A mudança coloca no portfólio justamente a ação com o pior desempenho em 2026 entre os dez nomes selecionados. DIRR3 acumulava queda de 21,2% até 31 de agosto, enquanto todas as outras nove ações escolhidas pelo banco permaneciam positivas no ano. Para o BB Investimentos, porém, a desvalorização abriu espaço para uma relação mais atraente entre preço e fundamentos.
A carteira chega a setembro depois de superar seu índice de referência em agosto. O portfólio avançou 0,92% no mês, enquanto o Ibovespa caiu 0,33%. A diferença favorável à seleção do banco foi, portanto, de 1,25 ponto percentual.
No acumulado de 2026, a vantagem também permanece. A carteira fundamentalista registra valorização de 11,69%, contra 10,11% do Ibovespa, diferença de 1,58 ponto percentual. Os números mostram que o ganho adicional foi construído em meio a uma forte dispersão entre as ações: somente em agosto, a distância entre a melhor e a pior posição do portfólio chegou a 19,03 pontos percentuais.
Direcional entra após queda de 21,2% em 2026
A inclusão da Direcional é o principal fato novo da carteira de setembro e também revela uma característica da estratégia adotada pelo BB: a escolha não foi baseada no desempenho recente das ações.
DIRR3 terminou agosto a R$ 11,12, depois de recuar 2% no mês e acumular perda de 21,2% desde o início do ano. Em vez de interpretar a queda apenas como sinal negativo, os analistas consideraram que a correção levou a companhia a negociar em um múltiplo preço/lucro projetado mais atraente na comparação com empresas semelhantes.
O argumento fundamentalista está apoiado no desempenho operacional da construtora. Segundo o relatório do BB Investimentos, a Direcional registrou no segundo trimestre crescimento de 20% da receita líquida em relação ao mesmo período do ano passado e avanço de 23% no lucro bruto.
A margem bruta chegou a 40%, aumento de 1,1 ponto percentual em um ano. O lucro líquido alcançou R$ 202 milhões, expansão de 10%.
A instituição também destaca a combinação de baixo endividamento e demanda sustentada pelos segmentos econômico e de médio padrão. Programas habitacionais e condições de financiamento destinadas a compradores dessas faixas de renda têm contribuído para preservar o ritmo de vendas.
A entrada de DIRR3, portanto, cria uma posição contrária ao movimento recente do mercado: o banco está adicionando à carteira uma empresa cujas ações caíram mais de um quinto no ano, mas cujos indicadores operacionais continuaram crescendo.
Localiza sai mesmo com lucro e receita em alta
A retirada da Localiza mostra o caminho inverso. A decisão não decorreu de deterioração abrupta dos resultados.
No segundo trimestre, a Localiza registrou receita líquida consolidada de R$ 12,3 bilhões, avanço de 24,5% na comparação anual. O Ebitda atingiu R$ 3,8 bilhões, alta de 14,1%, e o lucro líquido ficou em aproximadamente R$ 1 bilhão, crescimento de 30,6% sobre o resultado ajustado de igual período de 2025.
A preocupação do BB está concentrada principalmente na necessidade de capital para sustentar a expansão da frota e nos retornos que esse investimento precisará produzir.
Os dados da própria Localiza ajudam a dimensionar a questão. A companhia comprou 120.626 automóveis durante o segundo trimestre e vendeu 92.043, diferença de 28.583 veículos. O investimento líquido destinado à renovação e ao crescimento da frota chegou a R$ 4,45 bilhões.
A frota brasileira terminou junho em 670.446 veículos, 6,3% acima do nível registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, a empresa vem elevando tarifas para recompor retornos diante de um ambiente prolongado de juros altos.
O BB avalia que o crescimento mais intenso da frota aumenta a necessidade de investimento e torna mais importante a capacidade da locadora de elevar preços suficientemente para gerar retorno superior ao custo de capital.
Além disso, os analistas identificaram menor apetite dos investidores estrangeiros por RENT3, elemento que passou a pesar contra a ação no curto prazo.
Assim, a troca não contrapõe uma empresa com resultados ruins a outra com resultados bons. Ela reflete a avaliação de que a relação entre risco, crescimento e preço tornou-se mais favorável para Direcional do que para Localiza.
Petrobras, Tenda e Embraer lideraram ganhos em agosto
O desempenho da carteira no mês passado foi marcado por diferenças expressivas entre as dez posições.
Tenda (TEND3) liderou com valorização de 11,21%. Embraer (EMBJ3) avançou 7,60%, enquanto Petrobras (PETR4) ganhou 6,93%. Vale (VALE3) subiu 4,92%.
Também terminaram agosto no campo positivo Alupar, com alta de 1,04%, e Axia Energia, com avanço de 0,57%.
Do outro lado, Itaú Unibanco caiu 7,82%, pior desempenho do portfólio. Localiza recuou 6,75%, Vibra Energia perdeu 4,52% e Gerdau caiu 4%.
Apesar de quatro das dez ações terem encerrado o mês em queda, os ganhos das seis posições positivas foram suficientes para levar a carteira a uma valorização de 0,92%.
A diferença de 19,03 pontos percentuais entre Tenda, melhor papel, e Itaú, pior posição, evidencia a dispersão do mercado que o próprio BB identifica como uma das características do cenário atual.
Petrobras acumula alta de 55,3% em 2026
Quando o horizonte é ampliado para o acumulado do ano, Petrobras aparece como a principal vencedora entre as ações escolhidas para setembro.
PETR4 acumulava valorização de 55,3% até o fim de agosto. Vibra Energia vinha em seguida, com ganho de 39,5%, enquanto Tenda avançava 37,3%.
Gerdau acumulava 19,1%; Vale, 11,2%; Embraer, 5,9%; Axia Energia, 5%; Alupar, 4,6%; e Itaú Unibanco, 2,8%.
Direcional é a única ação da carteira de setembro no campo negativo em 2026, com a queda de 21,2%.
A composição mostra que o BB não concentrou a seleção apenas nas ações que já entregaram maior valorização. Ao lado de Petrobras e Vibra, que acumulam ganhos elevados, o portfólio incorpora uma construtora que atravessou forte correção.
Carteira combina energia, commodities, bancos e construção
A distribuição das dez ações também reduz a dependência de um único setor.
Alupar e Axia oferecem exposição ao segmento elétrico. Petrobras está diretamente vinculada a petróleo e gás, enquanto Vibra atua na distribuição de combustíveis e energia. Vale adiciona mineração e Gerdau, siderurgia.
Itaú é a exposição financeira do portfólio. Embraer acrescenta indústria e aviação. Direcional e Tenda formam a parcela vinculada à construção residencial, especialmente aos segmentos econômico e de média renda.
O próprio BB afirma estar mais favorável a empresas de commodities, energia e serviços financeiros, áreas nas quais identifica geração de caixa e avaliações atrativas. Em contrapartida, mantém postura mais cautelosa com negócios fortemente dependentes de crédito, renda doméstica e custo de capital.
Essa seletividade ocorre enquanto a taxa básica de juros permanece em 14% ao ano. Para empresas mais dependentes de financiamento, juros reais elevados afetam tanto a demanda quanto o custo de expansão.
BB vê Ibovespa em 205 mil pontos até dezembro
Embora a carteira tenha como objetivo selecionar empresas individualmente, o BB Investimentos mantém uma projeção positiva para o mercado acionário brasileiro.
O banco trabalha com preço-alvo de 205 mil pontos para o Ibovespa em dezembro de 2026. O índice encerrou 31 de agosto aos 177.419 pontos, o que representa potencial de valorização estimado em 15,5%.
Ao mesmo tempo, a instituição considera que setembro continuará marcado por volatilidade elevada. Entre os fatores citados estão as incertezas fiscais e políticas no Brasil, a proximidade das eleições, a política monetária dos Estados Unidos, os conflitos no Oriente Médio e a disputa internacional por capital.
A carteira fundamentalista tenta responder a esse ambiente combinando empresas com diferentes fontes de receita e sensibilidade econômica.
Tenda pode ganhar fluxo com nova composição do Ibovespa
Uma das ações mantidas na carteira, Tenda, terá outro evento relevante em setembro.
A B3 confirmou TEND3 na terceira prévia da nova composição do Ibovespa, ao lado da retirada de PetroReconcavo e SLC Agrícola. A carteira definitiva do principal índice da Bolsa está prevista para ser divulgada e entrar em vigor em 8 de setembro.
A eventual confirmação na composição definitiva tende a ampliar a relevância do papel para fundos e veículos de investimento que acompanham o Ibovespa, porque esses produtos precisam adequar suas posições à carteira teórica do índice.
Tenda já havia sido a melhor ação da carteira fundamentalista do BB em agosto, com alta de 11,21%, e acumulava valorização de 37,3% em 2026.
Para setembro, portanto, a seleção do BB Investimentos reúne Alupar (ALUP11), Axia Energia (AXIA3), Direcional (DIRR3), Embraer (EMBJ3), Gerdau (GGBR4), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4), Tenda (TEND3), Vale (VALE3) e Vibra Energia (VBBR3).
O principal teste da mudança estará em DIRR3: depois de cair 21,2% no ano e substituir RENT3, a ação precisará mostrar se a combinação de crescimento operacional, baixo endividamento e preço mais baixo identificada pelo BB será suficiente para transformar a correção acumulada em uma oportunidade de valorização.









