As ações ligadas ao agronegócio voltaram a ganhar espaço nas recomendações de grandes instituições financeiras, depois de um período marcado por preços mais fracos de commodities, pressão sobre margens e aumento da cautela dos investidores. São Martinho (SMTO3), MBRF (MBRF3) e SLC Agrícola (SLCE3) aparecem entre as companhias com avaliação favorável em relatórios recentes de XP Investimentos, Bank of America e BTG Pactual.
As três teses têm pontos de partida diferentes. Na São Martinho, a aposta está concentrada na melhora das perspectivas para açúcar e etanol. Para a MBRF, o principal vetor é a expectativa de recuperação do negócio de carne bovina nos Estados Unidos, acompanhada de redução dos investimentos e avanço do fluxo de caixa. Na SLC Agrícola, a avaliação combina expansão da área cultivada com possível recuperação dos preços de soja, algodão e outras commodities agrícolas.
O movimento não significa que os riscos desapareceram. Condições climáticas, câmbio, custos agrícolas, evolução dos preços internacionais e endividamento permanecem entre as variáveis capazes de alterar rapidamente as projeções. As recomendações refletem cenários traçados pelos analistas e não representam garantia de valorização das ações.
Entre os três casos, a mudança mais explícita de recomendação ocorreu na São Martinho. A XP elevou o papel de neutro para compra e aumentou seu preço-alvo de R$ 14,80 para R$ 22,40 por ação, apoiada principalmente na avaliação de que o balanço entre oferta e demanda de açúcar e etanol se tornou mais favorável.
São Martinho ganha aposta em açúcar e etanol
A São Martinho está diretamente exposta a dois mercados que atravessam um momento de reavaliação: açúcar e etanol. Segundo a XP, problemas climáticos em regiões produtoras da Ásia e perspectivas mais desafiadoras para a moagem de cana no Brasil podem restringir a oferta global e sustentar preços maiores.
A instituição também passou a adotar uma visão mais favorável para o etanol no curto prazo. A combinação entre recuperação da demanda e mudanças no mix de produção das usinas pode contribuir para melhorar a formação de preços, embora a relação entre açúcar e etanol continue sendo determinante para as decisões industriais das companhias do setor.
A XP calcula que a São Martinho ainda negocia abaixo do valor considerado adequado pelos seus analistas. A avaliação da instituição considera particularmente a safra 2027/28, período em que estima um múltiplo de aproximadamente 8,6 vezes o indicador EV/Ebit, usado para relacionar o valor de uma companhia com sua capacidade operacional de geração de resultado.
A empresa, entretanto, segue sujeita a variáveis agrícolas que podem alterar esse cenário. A produtividade da cana é uma delas. O desenvolvimento de um episódio mais forte de El Niño também está entre os fatores monitorados porque mudanças relevantes no regime de chuvas podem afetar produtividade, qualidade da matéria-prima e ritmo de moagem.
O câmbio constitui outro componente da equação. Como açúcar é uma commodity negociada internacionalmente, movimentos do real frente ao dólar podem produzir efeitos sobre preços realizados, receitas e operações de proteção financeira. A São Martinho utiliza instrumentos de hedge justamente para reduzir parte dessa volatilidade.
Apesar dessas incertezas, a XP considera que a melhora projetada para os fundamentos de açúcar e etanol supera, neste momento, os riscos incorporados à avaliação da empresa. O preço-alvo de R$ 22,40 representa uma revisão expressiva frente aos R$ 14,80 adotados anteriormente.
MBRF depende de virada no negócio de carne bovina dos EUA
Na MBRF, a tese está menos ligada ao ciclo de grãos e mais à geração de caixa da companhia e à expectativa de normalização das margens da operação de carne bovina nos Estados Unidos.
O Bank of America elevou a recomendação das ações de neutra para compra e definiu preço-alvo de R$ 26. A avaliação considera a possibilidade de melhora relevante no fluxo de caixa livre da empresa a partir de 2027, após um período de investimentos elevados.
Pelas projeções atribuídas ao banco, os desembolsos anuais com investimentos podem recuar de aproximadamente R$ 5 bilhões para algo entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões em 2027. A queda do capex liberaria recursos para outras prioridades financeiras e poderia contribuir para a desalavancagem da companhia.
O fluxo de caixa livre projetado avançaria de cerca de R$ 390 milhões para R$ 1,9 bilhão. Para uma empresa com operações de grande escala e endividamento relevante, a transformação do lucro operacional em caixa tem peso importante na avaliação do mercado, porque determina a velocidade com que a dívida pode ser reduzida ou refinanciada.
O Bank of America também espera recuperação das margens de carne bovina nos Estados Unidos depois de 2026. O mercado norte-americano passou por um ciclo de menor disponibilidade de gado, situação que pressiona o custo da matéria-prima para frigoríficos e reduz a rentabilidade das plantas.
A possível ampliação da oferta de animais provenientes do México aparece como uma das variáveis capazes de ajudar a normalizar esse ambiente. O fechamento de capacidade industrial por concorrentes também pode modificar a distribuição de volumes no mercado e abrir espaço para fabricantes com unidades disponíveis absorverem parte da demanda.
As projeções de Ebitda mencionadas para a MBRF são de R$ 12,8 bilhões em 2026 e R$ 12,9 bilhões em 2027. O avanço pequeno entre os dois anos mostra que a tese não depende apenas de expansão do resultado operacional, mas principalmente de sua conversão em caixa e de uma menor necessidade de investimentos.
A companhia resultou da combinação dos negócios da Marfrig e da BRF e reúne operações em diferentes segmentos de alimentos e proteínas. Essa diversificação reduz a dependência de apenas um produto, mas também aumenta a quantidade de fatores operacionais, cambiais e geográficos que precisam ser considerados na análise da empresa.
SLC Agrícola combina expansão com recuperação das commodities
A terceira ação apontada é a SLC Agrícola. O BTG Pactual manteve recomendação de compra para SLCE3 e aumentou o preço-alvo de R$ 20 para R$ 23 por ação.
Considerando a cotação de referência utilizada no relatório, próxima de R$ 15,15, o valor projetado correspondia a potencial de valorização da ordem de 52%. Esse percentual, entretanto, varia diariamente à medida que o preço da ação se movimenta na Bolsa.
A avaliação positiva tem como ponto de partida a expansão realizada pela SLC nos últimos anos. A companhia aumentou sua área plantada, mas o efeito dessa expansão sobre resultados foi parcialmente neutralizado pela redução dos preços de commodities agrícolas, especialmente soja e algodão.
Em um negócio agrícola de larga escala, a expansão de área gera maior potencial de produção, mas não assegura crescimento proporcional de resultado. Receita e margem dependem da produtividade obtida por hectare, preço realizado, custos com fertilizantes e defensivos, arrendamento de terras, fretes, câmbio e resultado das operações de hedge.
O BTG trabalha com a hipótese de que a recuperação das commodities permita à empresa começar a capturar financeiramente uma parcela maior da capacidade construída nos últimos anos. A expectativa é de que 2027 possa marcar a primeira expansão da margem operacional da companhia em três anos.
A avaliação também incorpora a possibilidade de maior geração de caixa e consequente redução da alavancagem. A própria SLC calcula seu valor líquido de ativos em R$ 13,824 bilhões, considerando base de 31 de março de 2026 e avaliação divulgada em junho. O indicador inclui terras, infraestrutura, estoques, ativos biológicos, caixa e outros componentes, descontadas obrigações financeiras e operacionais.
O valor líquido informado corresponde a R$ 27,70 por ação. Esse cálculo não deve ser confundido com preço-alvo de mercado, porque utiliza metodologia patrimonial própria e não incorpora necessariamente os mesmos critérios usados em modelos de fluxo de caixa descontado ou múltiplos adotados por instituições financeiras.
Clima continua sendo o principal fator de risco
Apesar do ambiente mais favorável apontado pelos analistas, o clima continua sendo um dos principais elementos de incerteza para as três teses, sobretudo para São Martinho e SLC Agrícola.
Um El Niño mais intenso pode modificar padrões de precipitação em diferentes regiões produtoras. O impacto, entretanto, não é uniforme: excesso de chuvas pode prejudicar determinadas culturas e regiões, enquanto déficit hídrico pode afetar outras. Por isso, projeções agrícolas precisam considerar localização das propriedades, calendário de plantio e colheita e estágio de desenvolvimento das lavouras.
No caso da SLC, investimentos em tecnologia, irrigação, monitoramento das lavouras e diversificação geográfica funcionam como instrumentos de mitigação, mas não eliminam o risco de perdas agrícolas. Na São Martinho, além da produtividade dos canaviais, qualidade da cana e teor de açúcar influenciam diretamente a eficiência da operação.
As commodities também permanecem sujeitas à dinâmica internacional. Estoques globais, safras nos principais países produtores, política de biocombustíveis, importações chinesas, oferta de açúcar na Índia e produção norte-americana podem modificar as curvas de preços utilizadas nos modelos de avaliação.
Para a MBRF, os riscos são diferentes, mas igualmente relevantes. Preços do gado, capacidade de processamento nos Estados Unidos, desempenho das operações internacionais, câmbio, custos logísticos e velocidade da redução do endividamento podem determinar se a geração de caixa projetada para 2027 será efetivamente alcançada.
A próxima confirmação objetiva das teses virá dos resultados operacionais e financeiros divulgados pelas próprias companhias. São Martinho terá de demonstrar que a melhora esperada para açúcar e etanol chega às margens; a SLC precisará converter expansão e preços agrícolas em maior rentabilidade; e a MBRF terá de mostrar redução dos investimentos, recuperação das operações de carne bovina e avanço consistente do fluxo de caixa.










