A crise de endividamento do agronegócio brasileiro começou a transformar uma das relações mais tradicionais do sistema financeiro. Diante de aproximadamente R$ 48 bilhões em crédito rural inadimplente, bancos passaram a executar garantias, assumir propriedades e criar estruturas para administrar ou vender terras entregues por produtores que deixaram de pagar seus financiamentos. O movimento coloca instituições como Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) diante de um problema incomum: além de administrar carteiras de crédito, precisam encontrar uma maneira eficiente de recuperar valor em ativos rurais.
O estoque de operações rurais em atraso chegou a aproximadamente R$ 48 bilhões em junho de 2026, segundo levantamento realizado a partir dos dados do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central. Cinco anos antes, o valor girava em torno de R$ 2 bilhões. A taxa de inadimplência passou de 0,54% para 5,63% no período, uma deterioração particularmente expressiva para um segmento que durante anos figurou entre os melhores pagadores do sistema financeiro.
A maior parcela do problema está concentrada justamente nos produtores de maior renda. Cerca de R$ 29 bilhões do estoque inadimplente estão associados a esse grupo. Além dos empréstimos que já ultrapassaram os critérios tradicionais de atraso, há mais de R$ 72 bilhões classificados como crédito problemático, categoria que inclui operações com risco elevado de não pagamento.
O avanço dos calotes alterou rapidamente a política de risco das instituições financeiras. Hipotecas tradicionais vêm cedendo espaço à alienação fiduciária, mecanismo que transfere ao credor a propriedade resolúvel do imóvel enquanto a dívida estiver aberta e facilita a execução da garantia caso o produtor deixe de cumprir o contrato.
Bancos passam a assumir propriedades rurais
O fenômeno já deixou de ser apenas uma mudança contratual. Fazendas estão efetivamente entrando no patrimônio ou em estruturas financeiras controladas pelos credores.
Um dos casos revelados recentemente envolve uma propriedade rural em Peixe, no sul do Tocantins, avaliada em R$ 9,6 milhões. Depois de sucessivos financiamentos e renegociações, o produtor não conseguiu liquidar a dívida e a propriedade dada em garantia foi retomada. A gestão do ativo deverá ser conduzida por uma estrutura financeira especializada, com alternativas que podem incluir arrendamento da própria área antes de uma venda definitiva.
A decisão de não vender imediatamente uma propriedade retomada tem lógica econômica. Uma grande quantidade de fazendas colocada simultaneamente no mercado, justamente durante uma crise financeira do setor, pode pressionar preços e transformar a execução da garantia em uma perda adicional para o banco.
Administrar, arrendar ou manter temporariamente a terra pode preservar seu valor enquanto o ciclo agrícola melhora. É nesse sentido econômico, e não propriamente operacional, que bancos começam a assumir um papel semelhante ao de grandes proprietários rurais.
As instituições não necessariamente passam a plantar soja ou criar gado diretamente. O mais comum é contratar gestores especializados, utilizar fundos ou arrendar as propriedades, mantendo o ativo até que exista uma oportunidade adequada de monetização.
BBAS3 está no centro da deterioração do crédito rural
Nenhum grande banco brasileiro está tão exposto ao problema quanto o Banco do Brasil. A instituição encerrou março de 2026 com R$ 418,4 bilhões em sua carteira de agronegócios, equivalente a aproximadamente um terço de sua carteira de crédito expandida.
A deterioração dessa carteira já chegou diretamente ao balanço.
O BB registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, contra R$ 7,4 bilhões no mesmo período do ano anterior. O resultado representa queda superior a 50%.
O custo do crédito atingiu R$ 18,9 bilhões no trimestre. A inadimplência acima de 90 dias da carteira total chegou a 5,05%.
O banco reconheceu formalmente que o risco do agronegócio permaneceu mais deteriorado do que previa e revisou suas projeções para o ano. O intervalo esperado para o lucro líquido ajustado caiu para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, enquanto a estimativa de custo do crédito subiu para R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões.
O problema também mudou a forma como o BB aceita imóveis rurais como garantia.
Na safra 2024/25, apenas uma pequena parcela das operações com grandes produtores utilizava alienação fiduciária da terra. Na safra seguinte, a participação desse tipo de garantia aumentou fortemente, mostrando como o banco passou a buscar maior proteção patrimonial diante da escalada das recuperações judiciais e dos atrasos.
Em 2026, o Banco do Brasil iniciou procedimentos para retomada definitiva de mais de uma centena de imóveis rurais vinculados a operações com esse tipo de garantia.
Alienação fiduciária muda relação entre produtor e banco
A alienação fiduciária dá ao credor uma proteção maior do que a hipoteca tradicional.
Pela legislação, o devedor transfere ao credor a propriedade resolúvel do imóvel como garantia da obrigação. Enquanto o financiamento está sendo pago normalmente, o produtor permanece utilizando a propriedade. Se a dívida for quitada, a propriedade plena retorna ao devedor.
Se houver inadimplência e forem cumpridas as etapas legais de cobrança, a propriedade poderá ser consolidada em favor do credor.
A estrutura tornou-se especialmente relevante no campo porque o número de pedidos de recuperação judicial disparou.
O agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025 considerando produtores pessoas físicas, produtores pessoas jurídicas e empresas da cadeia, segundo a Serasa Experian. O número foi 56,4% superior ao de 2024 e o maior desde o início da série histórica da companhia.
Os produtores pessoas físicas responderam por 853 pedidos, enquanto produtores organizados como pessoas jurídicas fizeram outros 753.
Para os bancos, o crescimento das recuperações judiciais aumentou a importância de garantias capazes de oferecer maior proteção em uma eventual insolvência.
Bradesco e Santander também reforçam garantias
A mudança não está restrita ao Banco do Brasil.
No Bradesco, a alienação fiduciária passou a ser utilizada em praticamente todos os novos financiamentos concedidos a determinados grandes produtores, segundo informações do mercado. O objetivo é reduzir o risco de que uma instituição fique anos tentando executar uma propriedade por meio de disputas judiciais.
O Santander também começou a estruturar ativos rurais retomados dentro de veículos financeiros. Parte das propriedades pode ser organizada em fundos ligados ao agronegócio, permitindo uma gestão profissional dos imóveis enquanto o banco busca recuperar o dinheiro emprestado.
Essa estratégia revela uma segunda transformação.
Durante o ciclo de expansão, os bancos disputavam clientes do agronegócio e aumentavam rapidamente as carteiras. Agora, parte do trabalho está concentrada em renegociar empréstimos antigos, reforçar garantias e administrar ativos recebidos de devedores.
A prioridade declarada pelas instituições continua sendo a renegociação. Executar uma fazenda raramente é o resultado desejado por um banco, porque administrar terra exige competências muito diferentes da concessão de crédito e ainda envolve custos tributários, jurídicos e operacionais.
Quando a negociação fracassa, porém, a garantia passa a ser a principal forma de recuperação do capital.
Como o agro chegou a R$ 48 bilhões em calotes
A atual crise começou a ser construída durante um período que, paradoxalmente, foi extremamente favorável para o agronegócio.
Entre 2020 e 2023, preços elevados de commodities, juros historicamente baixos e margens robustas levaram produtores a ampliar áreas, comprar máquinas, adquirir terras e assumir novos financiamentos.
O crédito rural cresceu rapidamente.
Parte dessas decisões foi tomada sob a expectativa de que preços e margens permaneceriam em níveis excepcionais. A realidade mudou a partir de 2023.
Cotações de importantes produtos agrícolas recuaram. Insumos permaneceram caros. Eventos climáticos afetaram a produtividade em diversas regiões. Paralelamente, a Selic subiu e aumentou o custo financeiro das operações contratadas a taxas de mercado.
Produtores que haviam aumentado significativamente a alavancagem passaram então a enfrentar uma combinação adversa: receita menor, custo maior e dívida mais cara.
Esse quadro ajuda a explicar por que grandes produtores concentram hoje parcela tão relevante da inadimplência. Foram justamente as operações de maior porte realizadas durante a fase de expansão que produziram os maiores saldos devedores quando o ciclo se inverteu.
Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Minas concentram problema
A deterioração também apresenta forte concentração geográfica. Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Minas Gerais respondem por aproximadamente metade do saldo inadimplente rural.
Cada região enfrenta fatores específicos, mas há elementos comuns: endividamento elevado, maior custo de capital, oscilações nos preços agrícolas e eventos climáticos que afetaram diferentes safras.
O aumento das dificuldades financeiras produz efeitos além dos bancos.
Produtores inadimplentes encontram maior dificuldade para contratar recursos para uma nova safra. Instituições financeiras, por sua vez, endurecem os critérios de concessão justamente porque observam maior probabilidade de perdas.
Forma-se um ciclo no qual a deterioração do crédito reduz a oferta de financiamento e a falta de financiamento dificulta a recuperação do próprio produtor.
O impacto chega também a fabricantes de máquinas, revendas de insumos, tradings, cooperativas e prestadores de serviços.
Governo cria linhas para renegociar dívidas
A dimensão da crise levou o governo e o Conselho Monetário Nacional a criar mecanismos destinados à composição e renegociação de dívidas rurais.
Em agosto, o CMN ajustou as condições de uma linha específica destinada à liquidação ou amortização de operações rurais e permitiu maior utilização de diferentes fontes de recursos pelos bancos.
A política tenta dar prazo adicional a produtores economicamente viáveis que sofreram perdas, evitando que operações potencialmente recuperáveis se transformem definitivamente em calote.
Existe, porém, uma preocupação com risco moral. Uma renegociação excessivamente abrangente pode criar incentivo para que produtores com condições financeiras suficientes deixem de pagar esperando condições melhores no futuro.
Por isso, as linhas exigem critérios de elegibilidade e comprovação de perdas.
BB mantém R$ 210 bilhões para a nova safra
Mesmo diante da deterioração da carteira, o Banco do Brasil continua ampliando sua presença no financiamento agrícola.
Para a safra 2026/27, a instituição anunciou aproximadamente R$ 210 bilhões em recursos em todo o país. Desse montante, cerca de R$ 40 bilhões são destinados aos pequenos e médios produtores e R$ 170 bilhões à agricultura empresarial.
Somente em São Paulo, o banco reservou R$ 33 bilhões. São R$ 2,55 bilhões para pequenos e médios produtores e R$ 30,45 bilhões para agricultura empresarial.
A estratégia demonstra o dilema enfrentado pelos bancos.
Reduzir drasticamente a concessão de crédito poderia proteger o balanço no curto prazo, mas também agravaria a crise e deixaria produtores sem recursos para plantar, comprometendo a capacidade futura de pagamento. Continuar financiando exige, por outro lado, controles de risco muito mais rígidos.
A resposta vem sendo combinar concessão de crédito com garantias mais fortes, avaliação mais criteriosa e renegociação das operações existentes.
Crise rural vira risco para bancos e para a economia
A transformação dos bancos em proprietários temporários de fazendas é, portanto, consequência visível de uma mudança mais profunda no ciclo de crédito do agronegócio.
O salto da inadimplência de aproximadamente R$ 2 bilhões para R$ 48 bilhões em cinco anos mostra que o problema deixou de ser pontual. A existência de mais de R$ 72 bilhões classificados como crédito problemático indica ainda que a deterioração pode não ter chegado ao fim.
Para investidores, o efeito mais evidente aparece no Banco do Brasil (BBAS3), cuja exposição ao agronegócio é muito superior à dos concorrentes e já obrigou a administração a rever suas projeções de lucro e custo de crédito.
Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) também enfrentam o problema, mas utilizam uma combinação de alienação fiduciária, renegociação e estruturas de gestão de propriedades retomadas para limitar eventuais perdas.
A capacidade de recuperar esses créditos sem realizar grandes prejuízos será uma das variáveis mais importantes para os resultados dos bancos nos próximos trimestres.
O desafio é particularmente complexo porque nenhuma instituição financeira deseja transformar execução de garantia em atividade permanente. Fazenda é garantia de crédito, não negócio bancário.
Mas enquanto dezenas de bilhões de reais permanecerem em atraso e produtores continuarem sem capacidade de liquidar empréstimos, bancos terão de conviver com uma realidade que até poucos anos atrás parecia improvável: além de financiar o agronegócio, precisarão administrar as terras que receberam daqueles que não conseguiram pagar.










