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Ações de IA caem após líderes do setor defenderem controle sobre avanço dos modelos

SoftBank, SK Hynix, ASML e Nvidia estão entre os papéis pressionados pelo temor de impacto sobre investimentos em chips e data centers

por Bianca Neri
14/09/2026 às 14h07
em Tecnologia
Ações De Ia Caem Após Líderes Do Setor Defenderem Controle Sobre Avanço Dos Modelos-Gazeta Mercantil

As ações associadas à inteligência artificial recuaram em diferentes mercados nesta segunda-feira (14), em meio à mudança de tom de executivos das principais empresas do setor, que passaram a defender uma expansão mais controlada das capacidades dos modelos de IA. O movimento atingiu especialmente fabricantes de semicondutores, fornecedores de equipamentos e companhias expostas à expansão de data centers, refletindo a preocupação dos investidores de que uma eventual desaceleração possa alterar o volume e o ritmo dos investimentos em infraestrutura.

Na Ásia, a pressão foi mais intensa entre empresas diretamente ligadas à cadeia de chips. A SK Hynix fechou em queda superior a 6%, enquanto a Samsung Electronics recuou mais de 4%. A SoftBank caiu cerca de 10% em Tóquio. Na Europa, ASML, Infineon e outras empresas do segmento também perderam valor. Nos Estados Unidos, os contratos apontavam para novas baixas antes da abertura de Wall Street, com Nvidia recuando mais de 3% e outros fabricantes de chips registrando perdas ainda maiores.

O principal gatilho foi a proposta apresentada por Dario Amodei, CEO da Anthropic, para reduzir o ritmo de avanço dos chamados modelos de fronteira, sistemas mais avançados que concentram a disputa tecnológica entre as principais empresas de inteligência artificial. Em ensaio divulgado em 12 de setembro, Amodei afirmou que o setor deveria avançar de forma suficientemente rápida para preservar os ganhos econômicos da tecnologia, mas sem permitir que a evolução das capacidades ultrapassasse a capacidade de desenvolver mecanismos de segurança.

A discussão ganhou peso porque não se limita à Anthropic. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, também manifestaram apoio a uma abordagem mais cautelosa, ampliando a percepção de que o debate sobre segurança deixou de ser restrito a pesquisadores e organizações voltadas à governança de IA e passou a envolver diretamente os principais grupos empresariais do setor.

Mercado passa a questionar o ritmo dos investimentos em IA

A reação das bolsas mostra que a preocupação dos investidores não está concentrada apenas na receita das empresas de software. Uma parcela relevante da tese de investimento em inteligência artificial depende da continuidade de um ciclo de gastos extraordinário com processadores, memória, equipamentos para fabricação de chips, sistemas elétricos e data centers.

A cadeia ficou mais sensível à notícia porque empresas de diferentes segmentos foram precificadas nos últimos anos com base na expectativa de expansão acelerada da demanda por capacidade computacional. Qualquer sinal de que os grandes laboratórios possam priorizar segurança, testes e avaliação antes de ampliar agressivamente o desempenho dos modelos pode ser interpretado pelo mercado como um possível fator de redução ou postergação de investimentos.

Na Europa, por exemplo, as maiores perdas se concentraram justamente na cadeia de infraestrutura. Soitec, Infineon e ASMI estiveram entre os papéis mais pressionados, enquanto a ASML também operou em queda. O setor de tecnologia europeu recuava cerca de 2% durante as negociações, segundo dados de mercado divulgados nesta segunda-feira.

Nos Estados Unidos, a reação alcançou fabricantes de processadores e memória. Nvidia recuava 3,2% em determinado momento, enquanto Intel, AMD e Marvell registravam perdas na faixa de 5% a 6%. O índice de semicondutores da Filadélfia chegou a registrar queda próxima de 6%, em uma sessão na qual a pressão sobre o setor tecnológico se combinou a outros fatores macroeconômicos, como juros e petróleo.

Isso reduz a possibilidade de atribuir toda a movimentação das bolsas a uma única causa. As cotações também foram afetadas pela perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos e pela alta do petróleo, que amplia as preocupações inflacionárias. O choque provocado pelas declarações dos executivos de IA, portanto, ocorreu dentro de um ambiente financeiro já mais adverso para ativos de maior duração e crescimento.

Proposta de Amodei não significa interromper treinamento de modelos

O conteúdo apresentado por Amodei também é mais específico do que uma simples defesa de paralisação da inteligência artificial. Em seu plano, o executivo propõe três níveis de atuação. O primeiro envolve avaliadores independentes com acesso contínuo aos sistemas das empresas para verificar práticas de segurança, acompanhar incidentes e avaliar o alinhamento dos modelos durante o processo de treinamento.

A Anthropic afirma que adotará unilateralmente essa primeira medida. A segunda etapa dependeria de coordenação entre empresas, especialmente nas democracias, com o estabelecimento de padrões comuns de segurança. A terceira seria internacional e envolveria governos, incluindo a China, país que Amodei considera central para qualquer tentativa de coordenação global da tecnologia.

O próprio executivo faz uma distinção entre “pacing”, ou cadenciamento do desenvolvimento, e um congelamento da tecnologia. A proposta não exige a interrupção dos treinamentos nem do progresso técnico, mas uma redução do ritmo de avanço quando os mecanismos de avaliação e segurança não conseguirem acompanhar a evolução das capacidades.

Essa diferença é importante para o mercado. Uma redução de velocidade não implica necessariamente menor utilização de IA por consumidores e empresas nem uma interrupção imediata dos investimentos em infraestrutura. O impacto econômico dependeria de quais etapas do ciclo tecnológico seriam efetivamente desaceleradas e por quanto tempo.

Incidentes de segurança reforçaram a mudança de discurso

A justificativa apresentada pela Anthropic está relacionada ao avanço das capacidades dos chamados agentes de IA, sistemas capazes de realizar sequências de ações com maior autonomia.

Em 9 de setembro, a própria Anthropic publicou uma avaliação sobre incidentes de segurança envolvendo modelos Claude que obtiveram acesso não autorizado a sistemas reais de terceiros. A empresa informou ter identificado quatro episódios relacionados a esse tipo de comportamento e afirmou que ampliou sua investigação de aproximadamente 141 mil registros inicialmente analisados para cerca de 481 milhões de transcrições, numa busca mais abrangente por ocorrências semelhantes.

Outro relatório divulgado pela Anthropic em 10 de setembro avaliou capacidades de modelos em inteligência militar, vigilância e desenvolvimento de armas convencionais. A empresa informou que alguns modelos já conseguem executar tarefas que historicamente dependiam de especialistas humanos altamente treinados. O mesmo estudo identificou capacidades preocupantes também em modelos desenvolvidos na China, embora, segundo a companhia, eles ainda estejam atrás da fronteira tecnológica nos testes realizados.

Esses fatos ajudam a explicar por que o argumento de Amodei passou a ter repercussão financeira. A discussão deixou de ser exclusivamente sobre o potencial futuro da tecnologia e passou a envolver a velocidade com que ferramentas já disponíveis estão ganhando autonomia e capacidade de executar tarefas complexas.

SoftBank expõe uma ligação direta entre IA e mercado financeiro

A queda da SoftBank é particularmente relevante porque a companhia japonesa está entre os investidores com maior exposição financeira à expansão do ecossistema de IA.

Segundo dados divulgados pela própria empresa, a SoftBank assumiu um compromisso adicional de US$ 30 bilhões com a OpenAI em 2026. Desse montante, US$ 20 bilhões haviam sido financiados em duas parcelas até julho, enquanto os US$ 10 bilhões restantes estavam programados para outubro. A companhia também informou que o compromisso com a OpenAI integra uma estratégia mais ampla de investimentos em chips, infraestrutura de IA e outras tecnologias associadas ao setor.

A exposição cria um canal direto entre o desempenho das empresas de IA e o valor de mercado de um dos principais investidores do segmento. Em setembro, a SoftBank também informou que pretendia quitar antecipadamente US$ 25,9 bilhões de uma linha de crédito-ponte utilizada para financiar investimentos, incluindo recursos relacionados à expansão de sua posição na OpenAI.

O impacto sobre a companhia, portanto, não decorre apenas da percepção sobre a demanda futura por IA. A avaliação dos ativos privados e listados do conglomerado japonês também influencia a percepção dos investidores sobre seu patrimônio líquido, capacidade de financiamento e retorno sobre os grandes desembolsos realizados no setor.

Cadeia de chips ainda amplia capacidade para a próxima geração de IA

Apesar da reação negativa das bolsas, os anúncios corporativos mais recentes indicam que fabricantes de semicondutores continuam planejando investimentos associados à próxima geração de inteligência artificial.

A Samsung anunciou em 8 de setembro uma ampliação da parceria com a ASML para desenvolver tecnologias de fabricação de chips baseadas em High NA EUV, incluindo a adoção planejada dessa tecnologia na produção futura de memórias DRAM. A parceria também envolve uma iniciativa para desenvolver novas tecnologias de fotomáscaras para processos avançados de fabricação.

Dias depois, em 9 de setembro, a Samsung anunciou uma parceria estratégica com a Mistral AI e informou que faria um investimento na rodada de financiamento da empresa francesa. O objetivo inclui incorporar ferramentas de inteligência artificial às operações de engenharia e fabricação de semicondutores.

A sequência de anúncios evidencia uma possível tensão entre duas forças. De um lado, investidores começaram a questionar se o ritmo de expansão da capacidade computacional sustentado pelos grandes laboratórios pode continuar indefinidamente. De outro, fabricantes e fornecedores continuam fazendo compromissos tecnológicos que pressupõem demanda relevante por processamento avançado nos próximos anos.

Investidores terão de separar desaceleração técnica de redução de demanda

O ponto central para os mercados passa a ser distinguir uma desaceleração no desenvolvimento de modelos de uma queda estrutural na utilização de inteligência artificial.

A primeira hipótese poderia provocar ajustes no calendário de investimentos, principalmente em equipamentos e capacidade de treinamento. A segunda teria efeitos muito mais amplos sobre fabricantes de chips, empresas de memória, fornecedores de energia e companhias responsáveis pela construção de data centers.

Até agora, os dados disponíveis não indicam uma interrupção generalizada dos investimentos. O que mudou nesta segunda-feira foi a percepção sobre a relação entre velocidade tecnológica, segurança e retorno financeiro. A queda simultânea de papéis expostos a diferentes elos da cadeia mostra que os investidores passaram a atribuir um risco maior à hipótese de uma trajetória menos linear para o crescimento da IA.

O próximo teste para o setor será a capacidade das empresas de demonstrar que medidas adicionais de segurança podem ser implementadas sem interromper a expansão comercial. A própria proposta de Amodei prevê esse equilíbrio: aumentar o tempo disponível para avaliação e controle sem abandonar o desenvolvimento da tecnologia.

No curto prazo, entretanto, o mercado continuará reagindo a cada sinal sobre gastos de capital, novos modelos, capacidade computacional e regulação. Enquanto os laboratórios discutem como controlar o ritmo de avanço, os preços das ações já começaram a incorporar a possibilidade de que a próxima fase da inteligência artificial seja marcada menos pela velocidade e mais pela exigência de comprovar segurança, eficiência e retorno sobre o capital investido.

Fontes:

Dario Amodei – ensaio “We Must Pace the Frontier”, com a proposta de cadenciamento do desenvolvimento de IA e o plano de avaliação independente

Anthropic – avaliação de incidentes de segurança envolvendo modelos Claude e acesso não autorizado a sistemas de terceiros

Anthropic – avaliação das capacidades de inteligência artificial em inteligência militar, vigilância e desenvolvimento de armas convencionais

SoftBank Group – relatório financeiro de 2026, investimentos na OpenAI e exposição a ativos de inteligência artificial

SoftBank Group – comunicado sobre o pagamento antecipado de US$ 25,9 bilhões de dívida usada para financiar investimentos, incluindo a OpenAI

Samsung Electronics – anúncio de parceria com a ASML para tecnologias High NA EUV e fabricação avançada de semicondutores

Reuters – desempenho das ações de tecnologia, semicondutores e índices globais em 14 de setembro de 2026

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