As ações da Alpargatas (ALPA4) figuraram entre as maiores altas da Bolsa nesta sexta-feira, 7 de agosto de 2026, depois que a dona da Havaianas apresentou forte expansão do lucro e das margens no segundo trimestre. Por volta das 11h50, os papéis avançavam cerca de 11%, para R$ 13,61, em reação aos números divulgados pela companhia.
A Alpargatas encerrou o período entre abril e junho com lucro líquido de R$ 169,7 milhões, alta de 95,1% sobre os R$ 87 milhões registrados um ano antes. A receita líquida cresceu 11,3%, para R$ 1,226 bilhão, enquanto o Ebitda ajustado avançou 48,5%, de R$ 192,6 milhões para R$ 286 milhões.
Mais do que o crescimento nominal do resultado, o balanço mostrou aumento relevante da rentabilidade. A margem Ebitda ajustada passou de 17,5% para 23,3%, avanço de 5,8 pontos percentuais. A margem líquida subiu de 7,9% para 13,8%, enquanto a margem bruta aumentou 1,6 ponto, para 56,3%.
O resultado combinou crescimento de vendas no Brasil, recuperação da operação europeia, redução das despesas internacionais e mudança do modelo comercial nos Estados Unidos. A companhia vendeu 53,3 milhões de pares no trimestre, 9% acima dos 48,8 milhões registrados no mesmo período de 2025.
Margem cresce mais rápido que a receita
O lucro bruto alcançou R$ 690,8 milhões no segundo trimestre, avanço de 14,6% em relação aos R$ 602,8 milhões apurados um ano antes. Como o crescimento foi superior ao aumento de 11,3% da receita, a margem bruta passou de 54,7% para 56,3%.
A melhora se propagou pelo resultado operacional. O Ebitda sem ajustes atingiu R$ 269,1 milhões, crescimento de 54,1%, e sua margem saiu de 15,9% para 21,9%. Na operação Havaianas, o Ebitda chegou a R$ 283,1 milhões, alta de 44,9%, com margem de 23,3%.
As despesas operacionais consolidadas diminuíram 2,9%, para R$ 482,3 milhões, mesmo com o crescimento do faturamento. Quando excluídos itens extraordinários, as despesas recorrentes caíram 2,8%, para R$ 465,4 milhões, e passaram a representar 38% da receita, ante 43,5% no segundo trimestre de 2025.
A combinação entre maior receita e menor peso relativo das despesas ampliou a alavancagem operacional. A própria companhia atribui a evolução ao ganho de eficiência, disciplina de gastos e recuperação de escala, especialmente fora do Brasil.
O EBIT praticamente dobrou, passando de R$ 106,2 milhões para R$ 208,5 milhões. Mesmo com resultado financeiro negativo de R$ 16,5 milhões, o lucro antes de impostos chegou a R$ 192 milhões, mais que o dobro dos R$ 90,9 milhões do mesmo trimestre do ano anterior.
Brasil vende 45,6 milhões de pares
O Brasil permaneceu como principal operação da companhia. As vendas de Havaianas no mercado doméstico chegaram a 45,6 milhões de pares, crescimento de 8,6% em 12 meses.
A receita líquida brasileira aumentou 16,7%, de R$ 693,7 milhões para R$ 809,2 milhões. O faturamento médio por par avançou 7,5%, de R$ 16,53 para R$ 17,76, movimento atribuído pela administração à melhora do mix de produtos e canais.
O lucro bruto da operação brasileira cresceu 22,2%, para R$ 387,2 milhões, enquanto a margem bruta passou de 45,7% para 47,9%. O Ebitda atingiu R$ 165,7 milhões, alta de 19,9%, com margem de 20,5%, ante 19,9% um ano antes.
A evolução ocorreu apesar de um trimestre com investimento mais elevado em publicidade. As despesas de marketing representaram aproximadamente 10% da receita líquida brasileira, cerca de três pontos percentuais acima do segundo trimestre de 2025, principalmente por causa das ações relacionadas à Copa do Mundo.
A companhia informou que o sell-out — venda realizada pelos canais ao consumidor final — cresceu 13% no período. A participação da Havaianas no canal alimentar alcançou 79,7%, com ganho de 2,1 pontos percentuais em 12 meses.
O resultado indica que o crescimento não ficou restrito à transferência de mercadorias para distribuidores e varejistas. A evolução do sell-out foi superior à alta de 8,6% do volume vendido pela Alpargatas, fator relevante para o equilíbrio dos estoques ao longo da cadeia.
Europa acelera recuperação da operação internacional
A principal mudança estrutural do trimestre apareceu fora do Brasil. A operação internacional vendeu 7,7 milhões de pares, alta de 11,9%, e registrou receita líquida de R$ 405,8 milhões, crescimento de 2,3%.
Embora a receita tenha avançado de forma moderada, a rentabilidade deu um salto. O Ebitda internacional passou de R$ 57,2 milhões para R$ 117,4 milhões, crescimento de 105,2%. A margem Ebitda praticamente dobrou, de 14,4% para 28,9%.
A margem bruta internacional chegou a aproximadamente 73%, com expansão próxima de três pontos percentuais. Ao mesmo tempo, as despesas operacionais da divisão caíram 18,7%, para R$ 196 milhões.
A Europa foi o principal motor da recuperação. O volume vendido alcançou 4,4 milhões de pares, avanço de 20,9% sobre o segundo trimestre de 2025. A receita europeia cresceu 20,6%, de R$ 255,8 milhões para R$ 308,5 milhões.
O trimestre coincide com a temporada de verão no Hemisfério Norte, período de maior relevância sazonal para a marca na Europa. A administração relacionou o avanço à melhora da execução comercial, recuperação do nível de serviço e recomposição da relação com os clientes.
Os mercados atendidos por distribuidores — grupo que inclui operações na América Latina, Ásia, Oriente Médio e África — venderam 2,8 milhões de pares, crescimento de 12,1%. O desempenho da América Latina e da Ásia compensou impactos negativos relacionados aos conflitos no Oriente Médio.
Novo modelo muda comparação dos Estados Unidos
Os Estados Unidos apresentaram números distintos do restante da operação internacional. As vendas trimestrais caíram 30%, para cerca de 600 mil pares, enquanto a receita recuou 66,9%, de R$ 66,8 milhões para R$ 22,1 milhões.
A Alpargatas atribui o movimento principalmente à alteração do modelo de distribuição e à mudança do perfil sazonal das vendas. No segundo trimestre de 2025, a empresa ainda operava diretamente no mercado americano; agora, a distribuição passou a ocorrer em uma estrutura diferente e mais enxuta.
Por isso, a companhia considera o acumulado semestral uma base de comparação mais adequada. Entre janeiro e junho, o volume vendido nos Estados Unidos aumentou 40,2%, de 1,2 milhão para 1,8 milhão de pares.
A nova estrutura também ajudou a reduzir despesas internacionais. Segundo a Alpargatas, a mudança nos Estados Unidos responde por parcela relevante da expansão de 14,5 pontos percentuais da margem Ebitda internacional.
No primeiro semestre, o Ebitda internacional atingiu R$ 179,6 milhões, praticamente o dobro dos R$ 90,2 milhões registrados no mesmo intervalo de 2025. A margem aumentou de 13,4% para 25,2%.
Rothy’s ainda limita contribuição ao resultado
O desempenho da Rothy’s mostrou uma trajetória diferente. A Alpargatas detém 48,8% da companhia americana de calçados, cujo resultado não é consolidado integralmente no balanço do grupo e entra por equivalência patrimonial.
A Rothy’s registrou receita de US$ 61,2 milhões no segundo trimestre, queda de 2,9%. A companhia atribuiu o recuo principalmente à menor venda no comércio eletrônico durante o processo de redução da dependência de descontos.
O lucro bruto aumentou 6%, para US$ 41 milhões, e a margem bruta avançou 5,7 pontos percentuais, para 67%. Parte da melhora decorreu de um reembolso do governo dos Estados Unidos relacionado a tarifas cobradas sobre produtos importados da China no ano anterior.
As despesas operacionais, entretanto, cresceram 11,9%, para US$ 34,4 milhões. O Ebitda caiu 17%, para US$ 6,5 milhões, enquanto o lucro líquido recuou 51,5%, para US$ 2,9 milhões.
A empresa americana encerrou o período com 39 lojas, dez a mais que um ano antes. A participação das unidades físicas na receita aumentou de 22,2% para 27%, enquanto os clientes recorrentes passaram a responder por 54,2% do faturamento, ante 43,7%.
O desempenho menor da investida ajudou a reduzir o resultado de equivalência patrimonial da Alpargatas, que caiu de R$ 12,3 milhões para R$ 3,2 milhões no trimestre.
Caixa cresce, mas companhia termina com dívida líquida
A Alpargatas gerou R$ 74 milhões em caixa no segundo trimestre e R$ 463 milhões nos 12 meses encerrados em junho. Ao mesmo tempo, terminou o período com posição de dívida líquida de R$ 532,2 milhões.
Um ano antes, a empresa apresentava caixa líquido de R$ 194 milhões. Apesar dessa mudança, a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado permaneceu em 0,5 vez pelo segundo trimestre consecutivo.
A dívida financeira bruta chegou a R$ 1,266 bilhão, dos quais R$ 424,9 milhões no curto prazo e R$ 841 milhões no longo prazo. Caixa e aplicações financeiras somavam R$ 733,7 milhões.
A posição líquida foi afetada durante o trimestre pelo pagamento de R$ 106 milhões em juros sobre capital próprio, equivalente a R$ 91 milhões líquidos de impostos, além de R$ 64 milhões referentes a uma parcela da aquisição da Ioasys realizada em 2021.
As principais contas de capital de giro consumiram R$ 47 milhões. A companhia também registrou gastos relacionados ao pagamento de bônus aos funcionários, movimento característico do segundo trimestre.
Apesar do aumento da dívida líquida, o retorno sobre o capital investido alcançou 18% nos últimos 12 meses, alta de 11 pontos percentuais em relação à mesma referência de 2025.
Investimentos somam R$ 54,1 milhões
A Alpargatas investiu R$ 54,1 milhões no trimestre. O orçamento de capital aprovado para 2026 prevê R$ 243 milhões em desembolsos.
Do total aplicado entre abril e junho, R$ 23,2 milhões foram destinados a projetos de crescimento, outros R$ 23 milhões à sustentação das operações e R$ 7,9 milhões a iniciativas de otimização.
A disciplina de investimentos ocorre simultaneamente à recuperação das margens e da geração operacional. No primeiro semestre, o lucro líquido acumulado atingiu R$ 332,5 milhões, avanço de 66,8% sobre R$ 199,4 milhões registrados entre janeiro e junho de 2025.
A receita semestral cresceu 11,9%, para R$ 2,456 bilhões. O Ebitda ajustado chegou a R$ 585,5 milhões, aumento de 46,9%, com margem de 23,8%, ante 18,2% um ano antes.
Segundo semestre testa recuperação internacional
Os números do segundo trimestre colocam a operação internacional no centro da evolução recente da Alpargatas. O Ebitda da divisão mais que dobrou em 12 meses, enquanto a margem chegou a 28,9%, acima inclusive dos 20,5% registrados no negócio brasileiro.
A continuidade dessa melhora dependerá da manutenção da recuperação europeia, da consolidação do novo modelo americano e da evolução dos mercados atendidos por distribuidores. O comportamento da Rothy’s também permanece relevante por sua influência sobre o resultado de equivalência patrimonial.
No Brasil, os principais indicadores a acompanhar são volume, preço por par, participação de mercado e capacidade de preservar margens após o aumento dos investimentos em marketing realizado durante a Copa do Mundo.
O balanço do 2T26 mostrou, até aqui, crescimento da receita acompanhado de expansão mais rápida do lucro e do Ebitda. A reação de alta de dois dígitos das ações nesta sexta-feira reflete essa combinação de crescimento operacional, ganho de eficiência e recuperação internacional, enquanto dívida, Rothy’s e execução nos Estados Unidos permanecem entre os pontos a serem acompanhados nos próximos trimestres.










