As apostas online passaram a ser utilizadas por mais de um terço dos moradores da cidade de São Paulo como uma tentativa de complementar a renda familiar, segundo levantamento divulgado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O estudo aponta que 35% dos paulistanos afirmam apostar com o objetivo de aumentar o orçamento doméstico, um avanço de dez pontos percentuais em relação à pesquisa realizada em 2024.
O crescimento ocorre em um cenário de elevado endividamento das famílias e de expansão acelerada das plataformas de apostas no país. Entre os entrevistados com renda mensal de até dois salários mínimos, equivalente a R$ 3.242, o percentual de pessoas que recorrem às apostas online em busca de renda extra sobe para 40%.
Nas famílias com renda superior a esse patamar, a proporção cai para 30%, indicando que as bets têm ganhado espaço sobretudo entre consumidores mais vulneráveis financeiramente.
Para a FecomercioSP, o dado evidencia uma mudança no comportamento de parte da população, que passou a enxergar as plataformas de apostas não apenas como uma atividade de entretenimento, mas também como uma alternativa para complementar a renda em um ambiente de restrição orçamentária.
A entidade classifica o fenômeno como preocupante, especialmente porque envolve pessoas em situação financeira mais delicada e em busca de soluções rápidas para equilibrar as contas domésticas.
Crescimento das bets avança entre consumidores de baixa renda
O levantamento mostra que as apostas online deixaram de ser uma atividade associada apenas ao lazer. Embora 37% dos entrevistados afirmem apostar por diversão e outros 16% apontem o entretenimento como principal motivação, a busca por ganhos financeiros passou a ocupar posição central na decisão de participar das plataformas.
Os dados revelam ainda que 7% dos entrevistados reconhecem apostar por estarem viciados, um percentual que reforça as preocupações sobre os impactos sociais e financeiros do crescimento do setor.
Em contrapartida, caiu o número de pessoas que classificam as apostas como uma forma de investimento. Em 2024, 9% dos entrevistados afirmavam enxergar as bets dessa maneira. Neste ano, o percentual recuou para 5%.
A mudança de percepção, contudo, não impediu a expansão da atividade. Pelo contrário. A combinação entre publicidade intensa, facilidade de acesso e promessas de ganhos rápidos contribuiu para a ampliação do número de apostadores.
Especialistas em finanças comportamentais observam que períodos de maior pressão econômica tendem a aumentar a procura por mecanismos de renda considerados alternativos, especialmente entre famílias com orçamento comprometido.
Modelo de negócios favorece as plataformas de apostas
Apesar da percepção de parte dos usuários de que as apostas podem gerar renda complementar, o modelo econômico das bets é estruturado para garantir rentabilidade às empresas operadoras.
As plataformas trabalham com cálculos estatísticos que determinam o valor das premiações e asseguram que, no conjunto de milhares ou milhões de apostas realizadas, a arrecadação com apostas perdedoras seja superior aos pagamentos feitos aos vencedores.
Esse mecanismo, comum na indústria global de jogos e apostas, faz com que a obtenção de ganhos consistentes pelos usuários seja estatisticamente improvável.
Mesmo assim, a frequência das apostas continua elevada.
Segundo a pesquisa da FecomercioSP, 14,5% dos entrevistados afirmam realizar apostas diariamente. Outros 23% jogam semanalmente, 13% apostam uma vez por mês e 49% dizem participar das plataformas apenas esporadicamente.
O percentual de usuários frequentes chama a atenção porque aumenta o risco de comprometimento da renda familiar e de agravamento de situações de endividamento.
Recursos destinados a contas e alimentação migram para as bets
Um dos dados mais sensíveis do levantamento é a identificação de quais despesas deixaram de ser priorizadas em razão das apostas online.
Segundo a pesquisa, 41% dos entrevistados afirmaram que o dinheiro gasto nas plataformas seria destinado originalmente a atividades de lazer.
Outros 20% disseram que os recursos seriam utilizados para pagamento de contas, enquanto 19% afirmaram que poupariam o dinheiro.
O estudo também mostra que 12% dos apostadores deixaram de destinar recursos à compra de alimentos, enquanto 9% deixaram de gastar com roupas e calçados.
O recorte de gênero revela diferenças importantes de comportamento.
Entre as mulheres, 18% afirmaram que o dinheiro utilizado em apostas seria empregado na compra de alimentos, percentual significativamente superior aos 11% registrados entre os homens.
As mulheres também declararam maior propensão a utilizar os recursos para pagamento de contas domésticas. Já entre os homens, a principal alternativa ao gasto com apostas seria a formação de poupança.
Para a FecomercioSP, os dados demonstram que o fenômeno das bets já produz impactos diretos sobre o orçamento das famílias e pode contribuir para o agravamento das condições de vulnerabilidade financeira.
Parte dos apostadores já recorre a empréstimos para continuar jogando
O levantamento também identificou um comportamento considerado alarmante pela entidade.
Segundo a pesquisa, 12% dos paulistanos já buscaram algum tipo de ajuda financeira para continuar apostando.
Desse grupo, 5% pediram dinheiro emprestado a amigos ou familiares, enquanto 4% recorreram a empréstimos bancários.
A federação afirma que esse é um dos indicadores mais preocupantes do estudo porque revela que uma parcela dos consumidores já enfrenta dificuldades financeiras diretamente associadas às apostas online.
O dado ganha relevância em um contexto de elevado comprometimento da renda das famílias.
Levantamento da própria FecomercioSP divulgado em abril apontou que 72,9% das famílias paulistanas estavam endividadas, o maior percentual registrado em três anos.
Além disso, 21% dos lares encontravam-se inadimplentes.
A combinação entre elevado endividamento e crescimento das apostas online aumenta as preocupações de economistas e entidades de defesa do consumidor quanto aos impactos sociais e econômicos do setor.
Pix e smartphones impulsionam expansão das plataformas
A pesquisa também identificou que a facilidade de acesso às plataformas de apostas tem sido um dos principais fatores de crescimento do mercado.
Segundo o levantamento, 96% dos apostadores utilizam o Pix como meio de pagamento das apostas.
A combinação entre pagamentos instantâneos, ampla oferta de aplicativos e forte presença das plataformas nas redes sociais reduziu significativamente as barreiras de entrada para novos usuários.
Além disso, a popularização dos smartphones permitiu que as apostas se tornassem uma atividade disponível a qualquer momento, ampliando o alcance das empresas do setor.
Para a FecomercioSP, o avanço das bets é resultado de uma combinação entre tecnologia, publicidade intensiva e fragilidade financeira de parte da população.
A entidade voltou a defender a adoção de políticas mais rigorosas de regulamentação e fiscalização do mercado, incluindo maior controle sobre plataformas não autorizadas e mecanismos de proteção aos consumidores.
Endividamento crescente amplia debate sobre regulação das apostas online
O avanço das apostas online em busca de renda extra coloca novas pressões sobre o debate regulatório no Brasil.
Os dados da FecomercioSP indicam que as bets deixaram de ser apenas uma modalidade de entretenimento para assumir papel relevante na dinâmica financeira de milhares de famílias, especialmente entre os grupos de menor renda.
A expansão do setor ocorre justamente em um momento em que o país ainda enfrenta elevados níveis de endividamento e dificuldades de recomposição da renda real de parte da população.
Nesse contexto, especialistas avaliam que a combinação entre vulnerabilidade financeira, acesso facilitado e promessa de ganhos rápidos pode ampliar riscos de inadimplência e de deterioração das condições econômicas das famílias, mantendo as apostas online no centro das discussões sobre proteção ao consumidor e regulação do mercado digital.









