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Atacadão lança ofensiva até 2030 e pode virar o jogo contra o Assaí (ASAI3)

por João Souza
19/02/2026 às 19h02
em Negócios
Atacadão - Gazeta Mercantil

Atacadão anuncia ofensiva até 2030 e amplia pressão sobre ASAI3

O Atacadão elevou o tom da disputa no atacarejo ao detalhar seu Plano Estratégico 2030 e sinalizar uma política agressiva de preços, expansão e fortalecimento de marcas próprias. O movimento, anunciado junto aos resultados do quarto trimestre de 2025, redesenha o equilíbrio competitivo do varejo alimentar brasileiro e amplia a pressão sobre o Assaí (ASAI3), principal concorrente no segmento.

Com o Ibovespa aos 188.534 pontos e o dólar cotado a R$ 5,22, o mercado acompanha com atenção a reconfiguração do setor. O atacarejo consolidou-se como o formato mais resiliente do varejo alimentar nos últimos anos, especialmente em períodos de renda pressionada e busca por eficiência no consumo. Nesse contexto, o Atacadão reforça sua estratégia de liderança em preço e escala operacional.

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Plano Estratégico 2030 coloca preço no centro da disputa

O Plano Estratégico 2030 do Atacadão estabelece como diretriz manter um índice de preços 1,5 ponto percentual abaixo do Assaí. A meta não é pontual, mas estrutural. A companhia pretende sustentar essa diferença como vantagem competitiva permanente, ancorada em ganho de escala, negociação com fornecedores e eficiência logística.

Em ambiente de deflação de alimentos, o foco em volume torna-se ainda mais relevante. Com preços médios pressionados, a expansão de receita depende de maior giro e aumento de tráfego nas lojas. O Atacadão aposta que a política agressiva de preços será capaz de capturar consumidores sensíveis ao custo e ampliar participação de mercado.

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Analistas avaliam que a estratégia desafia diretamente as frentes que o Assaí vinha destacando como prioritárias, como marcas próprias e serviços financeiros. Ao reforçar essas mesmas alavancas, o Atacadão amplia a complexidade do cenário competitivo.

Desempenho no 4T25 e sinais de inflexão

No quarto trimestre de 2025, o Atacadão registrou vendas em mesmas lojas (SSS) de -0,9%, com queda anual de 0,4%. Embora o resultado tenha ficado próximo das estimativas para o Assaí em novembro e dezembro, foi a primeira vez desde o primeiro trimestre de 2024 que o Atacadão apresentou desempenho inferior ao concorrente.

A administração da companhia, porém, sinaliza melhora gradual no ritmo de vendas, com aceleração já observada em janeiro. O mercado agora monitora os próximos trimestres para avaliar se o Atacadão conseguirá converter a estratégia de preço em recuperação consistente de volume e rentabilidade.

Para investidores institucionais, a equação envolve não apenas receita, mas preservação de margem e disciplina de capital. Em um setor de margens estreitas, qualquer desvio na execução pode afetar projeções de Ebitda e valuation.

Pressão sobre ASAI3 e revisão de estimativas

A ofensiva do Atacadão ocorre em momento delicado para ASAI3. Após a divulgação dos resultados, analistas revisaram para baixo as projeções de Ebitda ajustado da companhia, com corte aproximado de 5%. A combinação de receita líquida abaixo do esperado e pressão em despesas operacionais levou a ajustes nas estimativas.

O preço-alvo para ASAI3 foi mantido em R$ 9,50 para dezembro de 2026, o que implica potencial de queda de cerca de 5% em relação às cotações atuais. A recomendação underweight reflete percepção de assimetria risco-retorno menos favorável diante da intensificação da concorrência.

Nesse cenário, o avanço do Atacadão adiciona uma variável estrutural ao horizonte do setor. A disputa deixa de ser episódica e passa a integrar o planejamento estratégico até o fim da década.

PIS/Cofins e monetização de créditos

Outro ponto de atenção envolve a tese de créditos de PIS/Cofins sobre bebidas, que pode gerar alívio de caixa ao Assaí. O mercado, contudo, já incorporou parte relevante dessa monetização nos preços das ações após a divulgação dos resultados.

Especialistas observam que, se o benefício fiscal não se traduzir em expansão estrutural de rentabilidade, o impacto tende a ser pontual. Nesse ambiente, a estratégia do Atacadão baseada em preço, escala e expansão física ganha ainda mais relevância como diferencial competitivo.

Expansão acelerada até 2030

O Atacadão anunciou a abertura de mais de 70 novas lojas até 2030, o que representa média superior a 14 unidades por ano. Caso o plano seja executado integralmente, a rede poderá ultrapassar 455 lojas no Brasil.

Atualmente, o Assaí opera cerca de 312 unidades e reduziu o ritmo de expansão no curto prazo para aproximadamente cinco inaugurações anuais. A diferença de cadência reforça o potencial de ganho de capilaridade do Atacadão, especialmente em regiões onde o atacarejo ainda apresenta espaço para consolidação.

A expansão do Atacadão também amplia sua capacidade de diluição de custos fixos e fortalece o poder de barganha com fornecedores. Em um ambiente macroeconômico ainda desafiador, eficiência operacional e escala tornam-se fatores críticos de sucesso.

Marca própria e diferenciação estratégica

Como parte da estratégia, o Atacadão anunciou o lançamento da marca própria Bulnez no Brasil. A iniciativa amplia o portfólio de produtos e reforça a capacidade da companhia de capturar margens superiores em itens selecionados.

Marcas próprias são tradicionalmente instrumentos de fidelização e diferenciação no varejo alimentar. Ao investir nesse segmento, o Atacadão sinaliza intenção de fortalecer sua proposta de valor além da guerra de preços, criando uma base mais robusta de rentabilidade no médio e longo prazo.

Setor entra em nova fase competitiva

O atacarejo brasileiro passa por uma fase de maturidade, com consolidação regional e maior sofisticação estratégica. O Atacadão, ao anunciar metas claras até 2030, assume protagonismo na definição dos próximos movimentos do setor.

Com o IFIX aos 3.854 pontos e investidores atentos ao comportamento do consumo doméstico, o desempenho do Atacadão será acompanhado como termômetro do varejo alimentar. A capacidade de executar expansão, sustentar preços competitivos e preservar margens determinará o equilíbrio entre crescimento e rentabilidade.

A guerra de preços tende a se intensificar nos próximos trimestres. Para o mercado, o avanço do Atacadão representa não apenas uma disputa comercial, mas um redesenho estrutural do atacarejo no Brasil. O desfecho dessa estratégia poderá influenciar valuations, recomendações e o fluxo de capital para o setor ao longo dos próximos anos.

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