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GWM recebe terreno de 1,74 milhão de m² em Aracruz e vai investir R$ 4,6 bilhões em fábrica de 200 mil carros no ES

Nova fábrica no Espírito Santo quadruplica a capacidade da GWM no Brasil e integra plano de R$ 10 bilhões até 2032.

por Alice Nascimento
23/07/2026 às 15h18
em Negócios
Nova Fábrica No Espírito Santo Quadruplica A Capacidade Da Gwm No Brasil E Integra Plano De R$ 10 Bilhões Até 2032.-Gazeta Mercantil

O Espírito Santo doou uma área maior que 240 campos de futebol para tirar do papel o maior projeto industrial de sua história recente. A chinesa Great Wall Motors vai erguer em Aracruz, no norte capixaba, sua segunda fábrica no Brasil, num terreno de 1,74 milhão de metros quadrados às margens da ES-257, com investimento inicial de R$ 4,6 bilhões e capacidade para 200 mil veículos por ano quando estiver em plena operação.

O anúncio foi oficializado em cerimônia realizada em 30 de junho no próprio terreno, em Barra do Riacho, com a presença do governador capixaba Ricardo Ferraço e do CPO global da GWM, Xiangjun Meng. A nova planta integra um plano de investimentos de R$ 10 bilhões da montadora no Brasil ao longo de uma década e muda o eixo logístico e tributário da empresa no país, hoje concentrado em Iracemápolis, no interior de São Paulo.

Leia também: Tecnologia Híbrida para Carros Brasileiros Será Produzida em Pernambuco.

A operação em Aracruz está prevista para começar em 2029, com capacidade inicial de 100 mil unidades anuais, que deve chegar ao teto de 200 mil a partir de 2030. O primeiro modelo com produção confirmada na unidade capixaba é o Ora 5, SUV compacto elétrico lançado no mercado brasileiro em junho por R$ 159 mil. Segundo a companhia, a primeira etapa do projeto vai receber aporte de R$ 4,6 bilhões, dentro do pacote total de R$ 10 bilhões previsto para o país.

O terreno de 1,74 milhão e a engenharia jurídica da doação

A área foi declarada de utilidade pública pelo governo estadual em janeiro de 2026 e fica no Parque Industrial de Aracruz, integrada à estrutura do ParklogBR/ES. A Lei estadual nº 12.892, sancionada em 30 de junho de 2026, autoriza o Governo do Espírito Santo a doar a área à Great Wall Motors do Brasil para implantar o complexo automotivo, com destinação para produção, logística, infraestrutura de apoio e futuras ampliações.

O texto aprovado pela Assembleia Legislativa na segunda-feira anterior à cerimônia estabelece contrapartidas clássicas de projetos greenfield: implantação de ciclo completo, metas de emprego e de adensamento local. Não se trata de uma simples linha de montagem. A fábrica de Aracruz será do tipo greenfield, construída a partir de um terreno vazio, e adota o conceito que a GWM chama de multienergia, permitindo que veículos elétricos, híbridos e a combustão sejam montados na mesma linha de produção, sobre uma base industrial comum. Trata-se de um formato ainda inédito no país.

A fábrica ocupará 1,7 milhão de metros quadrados, contra 1,2 milhão de Iracemápolis. Mas o salto relevante está na industrialização. Enquanto a unidade paulista nasceu sem estamparia e com montagem parcial, Aracruz já nasce com estamparia, soldagem, pintura e montagem final. O secretário de Desenvolvimento do estado, Rogério Salume, detalhou que a unidade não será apenas uma linha de montagem final, mas sim uma fábrica de ciclo completo.

Do ponto de vista fiscal, a doação segue o modelo de distritos industriais capixabas: o estado entra com a terra e com a infraestrutura de acesso, a empresa assume licenciamento, terraplanagem, obras e metas de nacionalização. A prefeitura de Aracruz já havia sinalizado a cerimônia de lançamento em 30 de junho como marco institucional, mas o início efetivo das obras ainda depende de sondagens, topografia, licenciamento ambiental e da regularização de parte da área hoje vinculada à Suzano.

Por que Aracruz venceu cinco estados

A escolha não foi automática. Segundo o governo capixaba, o Espírito Santo disputou o investimento com outros cinco estados e também com outros países onde a GWM avalia expansão. Pesaram três fatores que, combinados, mudam a conta logística de uma montadora chinesa no Brasil.

O primeiro é porto. A futura fábrica ficará a cerca de 500 metros do Portocel, terminal especializado em celulose e carga geral, e próxima ao Porto da Imetame. Para uma empresa que ainda importa kits, baterias e componentes eletrônicos, e que pretende exportar para Argentina, México, Chile, Colômbia e Uruguai, a proximidade reduz custo de frete interno e tempo de trânsito. Só no ano passado, mais de 45 mil veículos da marca desembarcaram pelos portos capixabas.

O segundo é rodovia. O terreno fica às margens da ES-257, com conexão direta com a BR-101 e a 83 quilômetros de Vitória. A região de Barra do Riacho pode facilitar o transporte de insumos, veículos e componentes, além de favorecer futuras operações voltadas ao mercado nacional e internacional. A ligação rodoviária e a proximidade portuária foram apontadas pela companhia como decisivas para receber materiais e exportar produtos.

O terceiro é ambiente regulatório. O governo capixaba articula o projeto via Agência de Atração de Investimentos, Nova ES, e promete integração com o Parklog, distrito que já abriga operações da Suzano e cadeia de celulose. O governador Renato Casagrande tem repetido que a aposta é transformar o estado, historicamente dependente de commodities, em plataforma industrial. A montadora confirmou o que já era esperado pelo mercado automotivo e anunciou o lançamento da nova fábrica justamente por avaliar que a posição costeira e a ligação logística permitem escalar exportação.

Ciclo completo e conceito multienergia mudam patamar industrial

A diferença entre Iracemápolis e Aracruz não é só de tamanho. É de modelo produtivo.

A planta paulista, inaugurada em agosto de 2025 com presença do presidente Lula, foi adquirida da Mercedes-Benz em 2021, tem 94 mil m² de área construída e capacidade inicial de 50 mil veículos por ano. Hoje produz cerca de 40 mil veículos por ano, volume considerado insuficiente para atender à demanda brasileira pelos modelos da marca, segundo o próprio Xiangjun Meng. São cerca de 600 trabalhadores na linha, com previsão de chegar a 1 mil até o fim do ano.

Aracruz nasce quatro vezes maior em capacidade. A nova planta terá capacidade para produzir até 200 mil veículos por ano, volume quatro vezes maior que o da primeira fábrica da GWM no país. A operação paulista produz atualmente cerca de 40 mil veículos por ano, volume considerado insuficiente. Quando atingir o teto, a planta capixaba poderá ter capacidade cinco vezes maior que a atual operação paulista.

Mais importante que volume, o conceito multienergia permite produzir na mesma base um elétrico puro como o Ora 5, um híbrido plug-in como o Haval H6 e, eventualmente, um modelo a combustão flex adaptado ao mercado latino. Para a GWM, que está inscrita no programa Mover, política federal que concede incentivo fiscal a quem investe em nacionalização e P&D, isso significa acelerar índice de conteúdo local sem multiplicar linhas. A operação brasileira seguirá o sistema peça a peça, mais complexo que o CKD tradicional, com pintura de 100% dos veículos já no primeiro ano e incorporação de fornecedores nacionais como Basf, Bosch, Continental e Goodyear, 18 dos quais já participam da produção paulista.

R$ 4,6 bilhões agora, R$ 10 bilhões até 2032: de onde vem o dinheiro

O número de R$ 4,6 bilhões refere-se apenas à primeira etapa de Aracruz. Ele está dentro de um pacote maior: plano de R$ 10 bilhões em dez anos anunciado pela GWM em 2022, válido até 2032. Desse total, cerca de R$ 4 bilhões já foram aplicados na compra e reativação de Iracemápolis, no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento ao lado da fábrica e no lançamento da marca.

Na etapa seguinte, entre 2027 e 2032, estão programados mais de R$ 6 bilhões adicionais, que devem incluir cadeia de fornecedores, montagem de pacotes de baterias e nacionalização de eletrônica. A GWM confirmou que a fábrica de Iracemápolis recebeu R$ 4 bilhões em aportes e que o novo investimento faz parte da estratégia de expansão internacional da companhia, que inclui consolidar o Brasil como exportadora para a América Latina.

Para o Espírito Santo, a conta não é só privada. O estado entra com doação de área avaliada em centenas de milhões de reais a preço de mercado, com obras de acesso, energia e qualificação. Em contrapartida, estima arrecadação futura de ICMS sobre veículos, ISS sobre serviços industriais e royalties logísticos. O governo não divulgou renúncia fiscal específica para a GWM, mas o projeto foi enquadrado no Fundap e no Compete-ES, programas que diferem ICMS de importação e concedem incentivos para adensamento industrial.

A escolha do primeiro produto ajuda a explicar o retorno esperado. O Ora 5 chegou às concessionárias no fim de junho por R$ 159 mil, vendeu mais de 2 mil unidades em menos de 24 horas e já subiu para R$ 159.900 na versão única. É um SUV elétrico com motor de 204 cv, bateria de 58,3 kWh e autonomia de 349 km pelo Inmetro, posicionado abaixo do Haval H6 e mirando exatamente a faixa onde BYD Dolphin e os novos híbridos da Toyota disputam volume. Segundo a companhia, o primeiro lote foi vendido em 24 horas após o lançamento, sinal que ajudou a confirmar o modelo como cabeça de linha em Aracruz.

Empregos: da obra ao chão de fábrica

Os números de emprego foram apresentados em duas camadas pelo governo e pela empresa, o que exige leitura cuidadosa.

Durante a implantação, a expectativa é de geração de 1.500 a 3.500 vagas, segundo o secretário Rogério Salume, concentradas em construção civil, terraplanagem, montagem eletromecânica e infraestrutura. São postos temporários, mas com alta demanda por insumos: estimativa interna fala em 200 mil a 350 mil toneladas de concreto e 15 mil toneladas de aço estrutural na fase de obras.

Na operação plena, o complexo poderá gerar até 10 mil postos de trabalho diretos e indiretos, além de criar um novo polo automotivo na região e atrair fornecedores. A montadora estima a criação de 9 mil empregos diretos na região quando operar em dois turnos, com vagas para funções operacionais, técnicos industriais e engenheiros, em um projeto que também prevê formação profissional.

A Federação das Indústrias do Espírito Santo, Findes, avalia que o impacto real será no entorno. Barra do Riacho hoje tem cerca de 6 mil habitantes e depende de Suzano, Portocel e serviços portuários. A chegada de uma montadora com ciclo completo tende a puxar fornecedores de bancos, chicotes, plásticos, vidros e logística, além de demanda por cursos técnicos no Senai local. O risco, comum a greenfields desse porte, é a importação de mão de obra qualificada de fora do estado nos primeiros anos, enquanto a formação local não avança.

O que muda para o Espírito Santo e para o Brasil automotivo

Para o Espírito Santo, Aracruz representa a tentativa de diversificação mais ambiciosa desde a instalação da Aracruz Celulose nos anos 1970. O estado, que figura entre os maiores exportadores de celulose, petróleo e rochas ornamentais, tenta há duas décadas emplacar um polo industrial de maior valor agregado. A fábrica da GWM, se confirmada no cronograma de 2029, será a primeira montadora de veículos leves instalada em território capixaba e a segunda grande operação chinesa no estado, depois da BYD que avalia hub logístico em Cariacica.

Para o Brasil automotivo, o movimento confirma uma virada. As montadoras chinesas deixaram de tratar o país como mercado de teste e passaram a enxergar o país como base estratégica de produção. Depois de anos dominado por fabricantes tradicionais, o parque industrial brasileiro começa a ganhar um novo capítulo, agora puxado por novas marcas, como BYD e GWM. Com Iracemápolis operando e Aracruz em obras, a GWM terá capacidade nominal de 250 mil veículos até 2030, patamar que a coloca no mesmo pelotão de Honda e Renault em volume instalado.

O efeito competitivo é imediato. Uma planta de 200 mil unidades com estamparia própria reduz custo fixo por carro, permite nacionalizar chapas e aumenta poder de barganha para localizar baterias. Isso pressiona montadoras instaladas no Sudeste que ainda importam elétricos da China e dependem de incentivos do Mover para fechar a conta. Ao mesmo tempo, fortalece a tese do governo federal de usar o Espírito Santo como corredor exportador para o Mercosul, com veículos embarcados pelo Portocel para Argentina e Uruguai, mercados onde a GWM já estuda rede própria.

Riscos, licenciamento e o que observar agora

O projeto ainda está em fase inicial. As próximas etapas incluem levantamentos topográficos, sondagens, licenciamento ambiental e preparação do terreno. Segundo o governo, a área já foi declarada de utilidade pública, mas parte do terreno ainda depende de desapropriação vinculada à Suzano e de anuência ambiental para supressão e terraplanagem em zona industrial costeira.

Há também a questão do cumprimento de contrapartidas da doação. A Lei 12.892 prevê reversão em caso de não implantação no prazo, mas o texto não detalha multas por atraso de cronograma. Para a Gazeta Mercantil, o ponto central a monitorar nos próximos 12 meses será a obtenção da Licença Prévia pelo Iema e o início da terraplanagem, previstos para o segundo semestre de 2026, além da assinatura do protocolo de fornecedores locais.

O calendário oficial aponta inauguração em 2029, com ramp-up até 2030. Se mantido, Aracruz entra em operação no mesmo ano em que a BYD promete atingir 300 mil unidades em Camaçari e a Stellantis conclui seu ciclo de R$ 30 bilhões. Para investidores, a mensagem é clara: a disputa industrial no Brasil deixou de ser entre tradicionais e passou a ser entre quem consegue escalar eletrificados com conteúdo local e quem continua importando.

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