O Carrefour (CA) reverteu o prejuízo registrado um ano antes e encerrou o primeiro semestre de 2026 com lucro líquido de € 30 milhões atribuível aos acionistas do grupo, diante de uma perda de € 401 milhões no mesmo período de 2025. O resultado divulgado na quinta-feira, 23 de julho, foi sustentado pelo crescimento das operações na França, Espanha e Brasil, pela redução de custos e pela queda das despesas com a dívida, embora o varejista ainda enfrente pressão sobre margens, consumo e geração de caixa.
As vendas do Carrefour, incluindo impostos, alcançaram € 43,79 bilhões entre janeiro e junho, com crescimento comparável de 2,1%. A receita líquida, que exclui tributos incidentes sobre as vendas, somou € 39,43 bilhões.
O lucro ajustado, que retira efeitos extraordinários e permite uma comparação mais direta com o desempenho operacional, cresceu 26,8%, de € 272 milhões para € 345 milhões. O lucro ajustado por ação avançou 18,3%, passando de € 0,41 para € 0,49.
O resultado operacional recorrente aumentou 4%, para € 757 milhões, enquanto o Ebitda — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — subiu 2,5%, para € 1,87 bilhão.
A recuperação reforçou a estratégia do Carrefour de concentrar investimentos em seus três principais mercados: França, Espanha e Brasil. Somadas, as operações nesses países elevaram o resultado operacional recorrente em 9% no semestre.
Brasil volta a crescer após queda no primeiro trimestre
A operação brasileira apresentou recuperação gradual em um ambiente ainda marcado por juros elevados, restrição de crédito e menor poder de compra das famílias.
Depois de uma queda comparável de 0,8% nas vendas durante o primeiro trimestre, o Carrefour Brasil voltou ao campo positivo entre abril e junho, com expansão de 0,4%. No acumulado do semestre, as vendas comparáveis ainda ficaram praticamente estáveis, com recuo de 0,1%.
A recuperação foi acompanhada por melhora da rentabilidade. O resultado operacional recorrente no Brasil cresceu 5,8%, de € 340 milhões para € 359 milhões.
A margem operacional recorrente aumentou nove pontos-base e atingiu 4%. O percentual brasileiro foi superior às margens registradas pela França e pela Espanha, consolidando o país como uma das principais fontes de resultado operacional do grupo.
O desempenho ocorreu apesar da pressão exercida pelos juros sobre o consumo. O Carrefour afirmou que as taxas elevadas continuaram reduzindo a capacidade de compra dos clientes e mantendo os volumes do mercado varejista em terreno negativo.
Para enfrentar esse cenário, a companhia ajustou o sortimento, ampliou marcas próprias, revisou despesas e concentrou esforços em operações com maior rentabilidade.
Atacadão recupera vendas no segundo trimestre
O Atacadão, principal negócio do grupo no Brasil, registrou crescimento comparável de 0,5% no segundo trimestre, revertendo a queda de 1% observada nos primeiros três meses do ano.
No acumulado do semestre, as vendas comparáveis da bandeira recuaram 0,2%. Ainda assim, o Carrefour informou que o desempenho do Atacadão superou o mercado de atacarejo e que os volumes começaram a apresentar estabilização.
O formato permanece estratégico por combinar preços baixos, grande variedade de embalagens e atendimento a consumidores finais, pequenos comerciantes, bares, restaurantes e prestadores de serviços.
A recuperação do Atacadão é relevante porque a bandeira representa parcela expressiva das vendas e da geração de resultado do Carrefour no país. Alterações no fluxo de clientes, na inflação dos alimentos ou no custo de reposição de estoques têm impacto direto sobre o desempenho consolidado da operação brasileira.
No varejo tradicional, as vendas comparáveis recuaram 0,6% entre abril e junho. O resultado continuou pressionado pela desaceleração das vendas digitais de produtos não alimentares.
A companhia afirmou ter priorizado a rentabilidade do comércio eletrônico, mesmo que isso implicasse menor volume de vendas. A estratégia busca reduzir operações com margens insuficientes e custos logísticos elevados.
Hipermercados e supermercados ganham volume
Dentro do varejo alimentar, os hipermercados registraram crescimento comparável de 2,5% no segundo trimestre. Os supermercados avançaram 5,5%.
As vendas de alimentos aumentaram 1,7%, sustentadas por volumes que, segundo a companhia, ficaram acima da média do mercado.
O desempenho mostra que a recuperação brasileira não ficou restrita ao atacarejo. Os formatos tradicionais conseguiram ampliar as vendas de produtos alimentares mesmo em um ambiente de menor disponibilidade de renda.
A companhia também avançou na reformulação de sua oferta. A marca própria Bulnez alcançou cerca de 200 produtos cadastrados, enquanto o programa Nosso Clube passou a reunir diferentes bandeiras do grupo em uma única estrutura de fidelidade.
O objetivo é estimular consumidores do Atacadão a comprarem também em hipermercados e unidades do Sam’s Club, além de ampliar o uso cruzado dos serviços financeiros e dos canais digitais.
O Sam’s Club manteve desempenho positivo, com alta comparável de 3,1% no segundo trimestre e de 4,4% no semestre. O modelo baseado em associação continuou apresentando crescimento superior ao registrado pelas demais operações de varejo do grupo.
Serviços financeiros ampliam carteira de crédito
Os serviços financeiros também contribuíram para o resultado brasileiro.
A carteira de crédito cresceu 13% no segundo trimestre, enquanto o volume faturado avançou 8%. O segmento inclui cartões, financiamento de compras e outros produtos oferecidos aos clientes das diferentes bandeiras.
O avanço da carteira pode ampliar receitas com juros e serviços, mas também exige atenção à inadimplência. Em períodos de juros altos e renda pressionada, o crescimento do crédito precisa ser acompanhado por critérios mais rigorosos de concessão e cobrança.
O negócio financeiro permite ao Carrefour aprofundar o relacionamento com os clientes e aumentar a frequência de compras. Ao mesmo tempo, expõe a companhia a riscos de crédito que não estão presentes com a mesma intensidade no varejo alimentar.
No resultado global, as despesas financeiras líquidas apresentaram leve aumento, de € 275 milhões para € 284 milhões. A composição, porém, mostrou uma redução importante no custo da dívida.
O custo líquido do endividamento caiu de € 201 milhões para € 121 milhões, beneficiado principalmente pelo refinanciamento das obrigações externas do Carrefour Brasil realizado no segundo semestre de 2025.
A melhora foi parcialmente compensada pelo aumento dos juros relacionados aos contratos de aluguel e pela ausência de receitas extraordinárias reconhecidas no Brasil no ano anterior.
Corte de custos chega a € 490 milhões
O Carrefour alcançou € 490 milhões em economias durante o primeiro semestre, praticamente metade da meta anual de € 1 bilhão.
Os ganhos vieram de negociações de compras realizadas por meio da aliança Concordis, revisão de processos, automação, integração de operações e controle das despesas administrativas.
A companhia também reduziu o peso dos custos de distribuição. Essas despesas representaram 14,7% da receita líquida, melhora de 30 pontos-base em relação ao primeiro semestre de 2025.
O efeito ajudou a compensar a redução da margem bruta, que passou de 19,3% para 19,1% da receita líquida.
A queda de 28 pontos-base na margem bruta refletiu investimentos em preços mais competitivos e mudanças na participação de lojas próprias e franqueadas dentro do negócio.
A estratégia indica que o Carrefour está aceitando parte da pressão sobre a margem comercial para preservar fluxo de clientes, volumes e participação de mercado. A redução de custos operacionais torna-se, portanto, essencial para que os descontos não comprometam o resultado final.
França lidera crescimento do resultado operacional
A França, maior mercado do Carrefour, apresentou crescimento comparável de 1% no segundo trimestre e de 1,1% no semestre.
O resultado operacional recorrente no país avançou 13,8%, de € 264 milhões para € 300 milhões. A margem aumentou 16 pontos-base, para 1,5%.
O desempenho foi impulsionado pela recuperação das antigas lojas Cora e Match, incorporadas ao grupo. As vendas comparáveis dessas unidades cresceram 4,6% no segundo trimestre, depois de uma alta de 2,6% nos três meses anteriores.
O Carrefour manteve a meta de alcançar € 130 milhões em sinergias com a integração até 2027.
A companhia também realizou três rodadas nacionais de redução de preços na França, em março, abril e junho. Cada campanha incluiu mais de 500 produtos, com descontos médios de 8%.
As iniciativas ajudaram a ampliar volumes, mas exigiram compensação por meio de economias, integração das lojas adquiridas e expansão dos formatos de proximidade.
Espanha mantém margem acima de 3%
Na Espanha, as vendas comparáveis cresceram 2,2% no segundo trimestre e 2,7% no acumulado do semestre.
O resultado operacional recorrente aumentou 7,3%, alcançando € 177 milhões. A margem avançou 14 pontos-base, para 3,3%.
O desempenho espanhol foi sustentado pelo crescimento dos produtos frescos, dos formatos de proximidade e do comércio eletrônico.
O programa de fidelidade Carrefour Club ultrapassou 11 milhões de integrantes, com a entrada de 500 mil novos membros durante o semestre.
A Espanha apresentou uma combinação de aumento de volumes e inflação moderada, cenário mais favorável que o observado no Brasil.
O resultado reforçou a importância dos mercados centrais no plano Carrefour 2030, lançado para elevar margens, acelerar a expansão de formatos rentáveis e ampliar o uso de tecnologia e dados.
Lucro contábil ainda reflete efeitos extraordinários
A diferença entre o lucro líquido de € 30 milhões e o resultado ajustado de € 345 milhões mostra que o balanço continuou afetado por despesas e efeitos não recorrentes.
As perdas não recorrentes somaram € 165 milhões, contra € 39 milhões no primeiro semestre de 2025.
A comparação anual também foi influenciada por ganhos extraordinários registrados no período anterior, como vendas de participações e ativos imobiliários.
No primeiro semestre de 2025, o Carrefour reconheceu ainda ajustes monetários positivos sobre créditos tributários no Brasil após decisões judiciais favoráveis. Esse efeito não se repetiu em 2026.
Por essa razão, o resultado ajustado oferece uma visão mais favorável da evolução operacional do que o lucro líquido contábil.
Para os investidores, a qualidade da recuperação dependerá da capacidade de converter o avanço do resultado operacional em geração recorrente de caixa, sem depender de vendas de ativos ou itens extraordinários.
Fluxo de caixa permanece negativo no semestre
O fluxo de caixa livre líquido ficou negativo em € 1,99 bilhão, ante uma saída de € 2,08 bilhões no mesmo período de 2025.
Embora ainda negativo, o indicador apresentou melhora de € 95 milhões.
O primeiro semestre costuma concentrar consumo de caixa no varejo por causa da sazonalidade do capital de giro, da recomposição de estoques e do pagamento de obrigações acumuladas no fim do ano anterior.
Em 2026, a geração foi beneficiada pelo aumento do Ebitda, pela redução dos impostos pagos, pela venda da operação italiana e por menores custos da dívida.
Em sentido contrário, o aumento dos estoques na França e a redução das vendas de imóveis pressionaram o indicador.
Os investimentos somaram € 526 milhões, ligeiramente abaixo dos € 542 milhões registrados no primeiro semestre do ano anterior.
O Carrefour manteve a projeção de elevar o fluxo de caixa livre em 2026 sobre os € 1,57 bilhão registrados em 2025.
Dívida líquida cai € 1,14 bilhão
A dívida financeira líquida do grupo foi reduzida em € 1,14 bilhão em 12 meses.
O endividamento passou de € 6,99 bilhões em junho de 2025 para € 5,85 bilhões ao fim de junho de 2026.
A redução refletiu a geração de caixa nos últimos 12 meses, a venda de ativos e a reorganização do portfólio internacional.
O grupo concluiu em junho a venda de suas operações na Romênia. A transação faz parte de uma revisão estratégica que concentrou o Carrefour em França, Espanha e Brasil.
A companhia também emitiu € 1,25 bilhão em títulos vinculados a metas de sustentabilidade durante o primeiro semestre. As operações foram realizadas com vencimentos em 2034 e 2035 e cupom anual de 3,875%.
O portfólio de títulos totalizava € 8,85 bilhões ao fim de junho, com prazo médio de vencimento de 4,1 anos.
A classificação de crédito do grupo permanecia em BBB, com perspectiva estável, segundo a Standard & Poor’s.
Carrefour mantém metas para 2026
A administração confirmou as projeções financeiras para o ano.
O Carrefour espera crescimento do resultado operacional recorrente e aumento superior a 25 pontos-base na margem operacional em comparação com 2025.
A companhia também prevê expansão do fluxo de caixa livre e crescimento do lucro ajustado por ação na faixa alta de um dígito.
A meta de economias permanece em € 1 bilhão, dos quais € 490 milhões já foram alcançados no primeiro semestre.
O cumprimento das projeções dependerá do comportamento do consumo, da inflação de alimentos, dos custos de energia e transporte e da evolução dos juros nos principais mercados.
No Brasil, o desafio será sustentar a volta do crescimento do Atacadão e dos formatos de varejo sem comprometer preços e rentabilidade.
O balanço mostra que o Carrefour iniciou o segundo semestre com menor dívida, custos mais controlados e recuperação operacional nos três principais países. A margem bruta menor e o fluxo de caixa negativo, porém, mantêm a execução da estratégia no centro da avaliação dos investidores.










