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Banco Central estuda filtros contra ameaças e ofensas enviadas pelo Pix

Grupo criado no Fórum Pix discute alternativas para impedir uso abusivo do campo de descrição; eventual mudança dependerá das conclusões do trabalho e ainda não tem regra definida

por Antônio Lima
19/08/2026 às 19h53
em Economia
Banco Central Estuda Restringir Mensagens No Pix Após Identificar Ofensas E Ameaças - Gazeta Mercantil

O Banco Central colocou na agenda de mudanças do Pix a criação de mecanismos para impedir que o campo de descrição das transferências seja usado para enviar ofensas, intimidações e ameaças. Entre as alternativas discutidas estão filtros e restrições sobre as mensagens digitadas pelo pagador, embora o formato que poderá ser adotado ainda não tenha sido definido.

A discussão consta de documentos oficiais do próprio BC. Na 28ª Reunião Plenária do Fórum Pix, realizada em 26 de março de 2026, a autoridade monetária reconheceu que o espaço destinado à identificação dos pagamentos vinha sendo utilizado de maneira indevida, principalmente em transferências de valores muito baixos. O diagnóstico menciona expressamente mensagens “ofensivas, intimidatórias ou ameaçadoras”.

A solução escolhida naquele momento foi criar um subgrupo de trabalho ligado ao GT Negócios do Fórum Pix, reunindo representantes do ecossistema de pagamentos para formular propostas. O objetivo não é simplesmente retirar a possibilidade de escrever uma descrição na transferência, mas encontrar uma maneira de dificultar abusos sem prejudicar quem usa o recurso para identificar compras, cobranças ou outros pagamentos legítimos.

O ponto mais relevante aparece nas premissas estabelecidas para esse grupo. O documento determina que o pagador seja informado previamente sobre eventuais “filtros ou restrições” aplicáveis ao campo de mensagem. Isso confirma que mecanismos desse tipo estão efetivamente entre as alternativas avaliadas. Não significa, porém, que já exista uma relação de termos proibidos ou que as instituições financeiras tenham recebido ordem para bloquear transferências em razão do texto digitado pelo cliente.

Documento do BC prevê filtros, mas não diz como funcionarão

A apresentação usada na reunião de março detalha os princípios que devem orientar qualquer solução. Além da possibilidade de filtros, o Banco Central prevê ações educativas para orientar o pagador sobre a finalidade correta do campo e admite que determinadas medidas possam levar em consideração o valor da transação.

Esse último ponto está diretamente relacionado à forma como o problema foi identificado. Segundo o BC, as mensagens inadequadas aparecem com frequência em Pix de valor irrisório. Uma transferência de poucos centavos pode, nesse contexto, ser realizada não pela intenção de movimentar dinheiro, mas como forma de fazer uma mensagem chegar ao destinatário.

O documento, no entanto, não estabelece qual valor seria considerado irrisório. Caso esse tipo de critério seja utilizado, caberá ao grupo apresentar parâmetros consensuados. Também não há definição pública sobre quais palavras poderiam ser atingidas, como um filtro identificaria uma ameaça ou em qual etapa tecnológica o tratamento do texto ocorreria.

A cautela é relevante porque uma mesma expressão pode ter significados diferentes dependendo do contexto. Um mecanismo excessivamente rígido poderia atingir descrições legítimas de pagamentos e cobranças, enquanto uma solução demasiadamente permissiva poderia deixar intacto o problema que motivou a discussão.

Há ainda uma diferença importante entre avaliar filtros e determinar que todos os bancos adotem exatamente a mesma ferramenta. O Banco Central orientou o grupo a distinguir as providências obrigatórias daquelas que poderiam ser facultativas. Assim, uma futura regulamentação pode combinar regras gerais para todos os participantes com soluções que cada instituição poderá adotar de acordo com suas próprias características.

Campo de descrição continuará existindo

Uma das hipóteses mais simples — eliminar inteiramente o espaço destinado à descrição da transferência — foi descartada pelo próprio Banco Central.

O material apresentado ao Fórum Pix estabelece que não estão no escopo propostas que eliminem ou inviabilizem o campo para situações legítimas. Também determina que nenhuma medida relacionada às mensagens poderá aumentar o tempo de liquidação do Pix ou criar uma nova etapa no fluxo da transferência.

Na prática, a eventual solução terá de funcionar sem alterar uma das características centrais do sistema: a transferência praticamente imediata do dinheiro. O tratamento do texto não poderá transformar o Pix em uma operação sujeita a uma nova confirmação ou a uma análise que retarde a liquidação.

Isso torna o problema mais complexo do que simplesmente bloquear determinadas palavras.

O campo de descrição possui usos cotidianos. Ele pode indicar a finalidade de uma transferência, identificar uma despesa dividida entre pessoas, associar o pagamento a uma compra ou ajudar uma empresa a reconhecer determinado recebimento. Esses usos precisam ser preservados.

O abuso ocorre quando o espaço deixa de ter relação com a movimentação financeira e passa a funcionar como um canal de comunicação. Uma pessoa que não consegue mais falar com determinado destinatário por aplicativos ou redes sociais, por exemplo, ainda pode tentar fazer contato por meio de uma transferência caso possua os dados necessários para enviar um Pix. Ao colocar um valor mínimo e preencher a descrição, consegue vincular uma mensagem à operação.

Foi justamente esse desvio de finalidade que levou o tema ao Fórum Pix.

Prazo para as propostas terminou em junho

O cronograma apresentado em março previa que a formação do subgrupo, as discussões técnicas e a elaboração conjunta das propostas ocorressem durante o primeiro semestre, com conclusão até 30 de junho.

A etapa seguinte foi reservada para o segundo semestre de 2026. Pelo calendário oficial, esse período seria dedicado à apresentação da proposta final, à avaliação pelo Banco Central, à eventual regulamentação e, posteriormente, à implementação da solução pelos participantes do Pix.

Quando anunciou a iniciativa, o BC explicou publicamente que as propostas seriam analisadas depois do prazo estabelecido e que eventual regulamentação dependeria dessa avaliação. A manifestação foi feita por Breno Lobo, chefe-adjunto do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro.

O término do prazo de junho, portanto, não produziu automaticamente uma nova obrigação para os usuários ou para as instituições financeiras.

O cruzamento do cronograma apresentado na reunião de março com as informações públicas mais recentes do Banco Central é justamente o que permite separar duas situações distintas: uma coisa são as soluções colocadas formalmente em estudo; outra é uma regra já aprovada e em vigor.

Até 20 de agosto, os materiais públicos do BC mantinham o tema dentro da agenda de evolução do Pix. A própria programação apresentada pelo órgão classifica a definição de regras para inibição e tratamento de mensagens com potencial ofensivo entre os ajustes planejados para o segundo semestre de 2026.

Isso torna precipitada a afirmação de que o Banco Central já esteja censurando palavras no Pix ou de que transferências estejam sendo bloqueadas automaticamente por causa do conteúdo escrito no campo de descrição.

O que existe até aqui é uma preparação regulatória documentada.

Bancos poderão receber regras diferentes

Outra pista sobre o desenho que poderá ser adotado está nas orientações dadas ao grupo responsável pelo assunto.

As propostas deverão informar quais medidas seriam mandatórias para os participantes e quais poderiam ser utilizadas de maneira facultativa. Também precisam ser viáveis para instituições de portes diferentes, sem impor investimentos considerados excessivos ou uma infraestrutura incompatível com participantes menores.

Esse cuidado decorre da própria estrutura do Pix. O serviço não funciona dentro de um único aplicativo administrado pelo Banco Central. A experiência do usuário ocorre nos sistemas de bancos, cooperativas de crédito, instituições de pagamento e outras empresas participantes do arranjo.

Uma regra geral pode, portanto, exigir adaptações tecnológicas em um conjunto amplo e heterogêneo de instituições.

O Banco Central também determinou que a experiência do usuário seja preservada. As medidas precisam minimizar fricções e manter a fluidez da transferência, ao mesmo tempo em que reduzem o incentivo ao uso abusivo do campo.

O desafio será encontrar uma solução suficientemente eficiente para tratar mensagens ofensivas sem transformar descrições comuns de pagamentos em falsos positivos.

BC não informou quantas ameaças foram identificadas

Apesar de reconhecer formalmente o uso inadequado do recurso, o Banco Central não apresentou na documentação divulgada uma estatística que permita dimensionar o fenômeno.

Não há, nos documentos analisados, número total de transferências utilizadas para transmitir ofensas ou ameaças, quantidade de reclamações recebidas por esse motivo ou proporção das operações do Pix que apresentam mensagens consideradas inadequadas.

O que está documentado é que a ocorrência foi considerada relevante o suficiente para dar origem a uma frente específica de trabalho dentro do Fórum Pix.

A escala do sistema ajuda a explicar por que qualquer mudança exige cautela. Dados divulgados pelo Banco Central indicam que mais de 170 milhões de pessoas físicas já utilizaram o Pix, o equivalente a aproximadamente 80% da população brasileira. Em maio de 2026, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 3 trilhões.

Em um sistema dessa dimensão, pequenas mudanças na jornada de pagamento podem alcançar milhões de pessoas e exigir ajustes em centenas de instituições.

O que já está definido e o que continua em aberto

Os documentos disponíveis permitem delimitar com relativa clareza até onde o Banco Central avançou.

Já está confirmado que a autoridade monetária reconheceu o uso do campo de descrição para mensagens ofensivas, intimidatórias ou ameaçadoras e que esse comportamento aparece frequentemente associado a transferências de valores irrisórios. Também está documentada a criação de uma estrutura específica para discutir soluções.

Filtros e restrições fazem parte das possibilidades consideradas, e eventual aplicação deverá ser comunicada previamente ao pagador. Há ainda espaço para ações educativas e para medidas relacionadas ao valor da transação.

Por outro lado, o BC já delimitou o que não pretende fazer. A solução não poderá acabar com o campo de descrição, tornar inviável seu uso legítimo, aumentar o tempo de liquidação ou introduzir uma nova etapa no fluxo do Pix.

Permanece em aberto o aspecto mais sensível da discussão: qual mecanismo será escolhido para distinguir uma mensagem legítima de uma mensagem abusiva e até que ponto essa solução será padronizada entre as instituições.

O calendário oficial colocou essa definição no segundo semestre de 2026. Até que o processo resulte em uma regulamentação específica, não há fundamento para tratar filtros de palavras como uma regra já implantada em todo o sistema. O que o Banco Central já tornou público é a intenção de fechar uma brecha que permitiu transformar uma ferramenta criada para descrever pagamentos em um meio alternativo para intimidação e ameaças.

 

Fontes

  • Banco Central do Brasil — 28ª Reunião Plenária do Fórum Pix, apresentação oficial
  • Banco Central do Brasil — Fórum Pix debate aperfeiçoamentos no serviço criado pelo BC
  • Banco Central do Brasil — Página oficial do Pix e dados de utilização — 2026

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