O Bitcoin voltou a operar na região de US$ 80 mil nesta terça-feira (25), em meio a uma recuperação que coincidiu com mudanças relevantes no mercado de títulos públicos dos Estados Unidos e com nova atenção dos investidores à trajetória do dólar e dos juros americanos. O CME CF Bitcoin Real Time Index, referência calculada a partir de mercados de Bitcoin em grandes corretoras, registrava US$ 79.185,95 às 18h33 GMT, depois de uma sessão marcada por forte volatilidade e pelo retorno da criptomoeda à região dos US$ 80 mil.
A alta ocorreu poucos dias depois de o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciar que ampliará, a partir de 9 de setembro, o tamanho das operações de recompra destinadas a dar suporte à liquidez dos títulos nominais de prazo mais longo. O limite atual de US$ 2 bilhões por operação nos segmentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos passará para pelo menos US$ 4 bilhões. A mudança ficará em vigor até 4 de novembro, encerramento do atual trimestre de refinanciamento.
O anúncio ganhou relevância em um momento de pressão sobre a parte longa da curva americana. Dados do Tesouro mostram que o rendimento do título de 30 anos chegou a 5,31% em 17 de agosto, passou a 5,28% no dia 18 e caiu para 5,17% em 19 de agosto, data da comunicação sobre as recompras.
Tesouro dobra recompras nos vencimentos mais longos
O programa de recompra não é novo. No refinanciamento trimestral anunciado em 5 de agosto, o Tesouro já previa adquirir até US$ 38 bilhões em títulos fora das emissões de referência ao longo do trimestre para fins de suporte à liquidez, além de até US$ 25 bilhões no segmento de um mês a dois anos para administração de caixa. A decisão de 19 de agosto elevou especificamente o limite das operações concentradas nos vencimentos mais longos.
Segundo o Tesouro, a ampliação decorre da intenção de oferecer maior suporte à liquidez justamente nos segmentos em que há forte participação de investidores e volume relevante de ofertas nas operações anteriores. O departamento afirmou ainda que divulgará posteriormente um cronograma atualizado das recompras. Até esse documento ser publicado, estão confirmados o novo piso de pelo menos US$ 4 bilhões por operação, o início em 9 de setembro e a vigência até 4 de novembro.
A distinção entre esse programa e uma operação de flexibilização quantitativa é importante. As recompras são executadas pelo Tesouro como parte da gestão da dívida e da liquidez do mercado. Elas não representam, por si só, expansão do balanço do Federal Reserve. No programa atual, o Tesouro recompra determinados papéis enquanto administra suas necessidades de financiamento com emissões e caixa.
Ainda assim, uma presença maior do Tesouro como comprador de títulos longos pode alterar a composição da oferta disponível no mercado secundário. Em um ambiente de juros elevados, mudanças na estratégia de financiamento são rapidamente incorporadas aos preços de diversos ativos.
Caixa do Tesouro amplia atenção sobre estratégia de financiamento
O quadro de financiamento americano ajuda a explicar por que a mudança recebeu tanta atenção. No início de agosto, o Tesouro informou que pretendia emitir US$ 125 bilhões em títulos de três, dez e trinta anos para refinanciar cerca de US$ 96,3 bilhões em papéis privados que venceriam em 15 de agosto. A operação acrescentaria aproximadamente US$ 28,7 bilhões em caixa novo captado junto a investidores privados.
O mesmo comunicado estimou um saldo de caixa de US$ 950 bilhões ao fim de setembro e indicou que a Treasury General Account, a conta do governo mantida no Federal Reserve, poderia atingir um pico de US$ 1,05 trilhão, com margem de US$ 50 bilhões para cima ou para baixo, no fim de outubro. O Tesouro atribuiu essa projeção à sua política de caixa e a desembolsos sazonais esperados para o período.
As recompras, portanto, não podem ser analisadas isoladamente da estratégia de emissão. Enquanto retira determinados títulos do mercado secundário, o governo continua financiando vencimentos e necessidades de caixa por meio de leilões regulares. A composição das emissões determina quanto risco de duração o setor privado precisa absorver.
Para o Bitcoin, essa discussão é relevante porque a criptomoeda vem sendo negociada cada vez mais como um ativo sensível às condições globais de liquidez. Uma redução das taxas de longo prazo ou um enfraquecimento do dólar tende a diminuir o custo de oportunidade de ativos que não pagam juros. O efeito, porém, não é automático: períodos de aversão intensa ao risco também podem gerar vendas de Bitcoin, especialmente quando investidores reduzem posições alavancadas.
Mercado de derivativos aumenta a velocidade dos movimentos
A estrutura do mercado cripto também ajuda a explicar por que movimentos aparentemente modestos em variáveis macroeconômicas podem produzir oscilações muito maiores no preço do Bitcoin. Contratos futuros e perpétuos permitem que investidores assumam posições compradas ou vendidas com alavancagem. Quando o preço se move rapidamente contra essas posições, as bolsas podem encerrá-las compulsoriamente para proteger a margem.
A CoinGlass mantém uma base agregada de liquidações por moeda e por bolsa e disponibiliza séries históricas de posições compradas e vendidas encerradas dessa forma. O mecanismo cria um efeito de retroalimentação: em uma alta rápida, posições vendidas liquidadas precisam ser fechadas, o que adiciona demanda ao mercado; em uma queda, posições compradas alavancadas podem ser forçadas a sair, aumentando a oferta.
As liquidações não determinam a direção de médio prazo do Bitcoin; funcionam sobretudo como amplificadores de movimentos já em curso. A sustentação da valorização depende de demanda à vista, fluxo institucional, condições de crédito, política monetária e percepção de risco.
O BRTI, da CF Benchmarks, é calculado a cada segundo a partir de mercados Bitcoin-dólar de bolsas que atendem aos critérios da instituição. Em 25 de agosto, a leitura de US$ 79.185,95 mostrava que o ativo permanecia próximo da barreira dos US$ 80 mil mesmo após oscilações intradiárias.
Fed mantém juros em 3,5% a 3,75%
O próximo elemento relevante para a formação de preços vem da política monetária. O Federal Open Market Committee manteve, em 29 de julho, a faixa-alvo dos Fed Funds entre 3,5% e 3,75%. A decisão foi aprovada por nove votos a três. Os três dissidentes preferiam elevar os juros em 0,25 ponto percentual, sinal de que a discussão dentro do comitê continua marcada pelo risco de inflação.
A ata da reunião mostra que os participantes avaliaram que a atividade econômica seguia em expansão em ritmo sólido, enquanto a inflação permanecia acima da meta de 2%. O documento também registrou que os rendimentos nominais dos Treasuries haviam subido de 25 a 30 pontos-base no período entre reuniões, movimento explicado principalmente pelo avanço das taxas reais. Naquele momento, o mercado chegou a embutir integralmente uma alta de 0,25 ponto percentual até a reunião de setembro.
Essa informação altera de forma substancial o quadro em relação a ciclos anteriores. O juro básico americano já não está na faixa de 5,25% a 5,50%; a referência oficial desde o início de 2026 permanece em 3,5% a 3,75%. Portanto, a reação do Bitcoin às próximas comunicações do Fed dependerá menos de expectativas de cortes a partir de níveis extremamente altos e mais da possibilidade de o banco central voltar a apertar a política monetária caso considere que as pressões inflacionárias persistem.
Jackson Hole coloca inovação financeira no centro do debate
O simpósio de Jackson Hole de 2026 começa nesta quinta-feira (27) e segue até sábado (29), em Wyoming. O tema definido pelo Federal Reserve Bank de Kansas City é “Financial Innovation: Implications for Payments and Policy”, ou “Inovação financeira: implicações para pagamentos e política”. A escolha coloca sistemas de pagamento, novos instrumentos financeiros e seus efeitos sobre a política econômica no centro das discussões.
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, fará o discurso principal na sexta-feira (28), às 10h no horário informado pelo conselho do Fed. A fala será acompanhada de perto por investidores porque será uma das principais oportunidades de avaliar como a atual liderança do banco central interpreta a combinação entre inflação ainda elevada, atividade econômica sólida, juros longos altos e novas tecnologias financeiras.
Para o mercado de criptomoedas, o evento ocorre em um momento especialmente sensível. O Bitcoin voltou à região de US$ 80 mil ao mesmo tempo em que o Tesouro alterou sua estratégia de recompra de títulos longos e o FOMC mantém aberta a possibilidade de ajustes futuros na taxa básica. A próxima decisão formal de juros está marcada para 15 e 16 de setembro, poucos dias depois do início das recompras ampliadas do Tesouro. O departamento, por sua vez, informou que voltará a detalhar o tamanho futuro do programa no próximo anúncio trimestral de refinanciamento, em 4 de novembro.









