A BlackRock projeta manter em 2027 um crescimento de cerca de 30% na base de ativos administrados no Brasil, segundo Bruno Barino, Country Manager da gestora no país. A expectativa ocorre depois de um avanço estimado entre 30% e 35% em 2026, ritmo que, caso se confirme, representará uma aceleração significativa ante os cerca de 12% registrados em 2025. O executivo atribui parte relevante desse movimento à maior procura dos brasileiros por investimentos internacionais, enquanto a expansão dos ETFs amplia o mercado doméstico de produtos indexados.
A projeção significa que a BlackRock pode repetir no próximo ano uma expansão equivalente a pelo menos 2,5 vezes o ritmo observado em 2025. No limite superior da faixa indicada para 2026, de 35%, a velocidade de crescimento seria quase 2,9 vezes a verificada no ano anterior. Barino não informou o volume absoluto de recursos administrados especificamente pela operação brasileira, mas afirmou que aproximadamente 90% da base local está aplicada em ativos offshore.
O cenário ocorre em um momento de expansão do mercado de ETFs no Brasil. Dados da B3 mostram que o número de pessoas físicas com esses produtos na carteira passou de 639 mil em junho de 2025 para 862 mil em junho de 2026, aumento de 34%. No mesmo período, o valor sob custódia dessas pessoas físicas avançou 62%, de R$ 26,9 bilhões para R$ 35,1 bilhões. Em agosto, a base total de participantes em ETFs chegou a 929 mil e o patrimônio da indústria alcançou R$ 142 bilhões.
Dinheiro brasileiro no exterior sustenta expansão
A concentração dos ativos brasileiros da BlackRock em aplicações offshore ajuda a explicar por que o crescimento da operação pode ocorrer mesmo sem depender diretamente da expansão da economia doméstica. Segundo Barino, a mudança de comportamento dos investidores brasileiros, com maior diversificação geográfica das carteiras, abre espaço para a gestora ampliar sua participação sem necessariamente depender de uma aceleração do Produto Interno Bruto.
A lógica representa uma mudança importante na composição da demanda por produtos financeiros no país. Em vez de a expansão depender exclusivamente da entrada de recursos em ativos brasileiros, parte do crescimento pode vir da migração de patrimônio já pertencente a investidores locais para mercados estrangeiros.
A tendência também aparece na própria estrutura do mercado de ETFs. A B3 encerrou junho de 2026 com 204 fundos de índice listados, contra 175 em dezembro de 2025 e 131 em junho do ano anterior. O estoque financeiro dos ETFs atingiu R$ 126 bilhões em junho, praticamente o dobro dos R$ 64 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.
Para a BlackRock, o movimento amplia o espaço para produtos que permitam ao investidor brasileiro acessar ativos internacionais sem necessariamente operar diretamente em uma corretora estrangeira. A própria gestora mantém no mercado brasileiro o IVVB11, ETF que oferece exposição ao S&P 500 por meio de uma estrutura listada na B3.
A expansão desse tipo de produto ocorre paralelamente ao crescimento da indústria local. Em junho, os investidores institucionais responderam por 55,3% do volume negociado em ETFs, enquanto investidores não residentes representaram 26,7% e pessoas físicas, 14,9%. O BOVA11, administrado pela BlackRock, foi o ETF mais negociado naquele mês, com volume médio diário de R$ 530,2 milhões e participação de 35,8% no giro total da categoria.
BOVA11 mostra escala alcançada pela gestora
O BOVA11 foi constituído em 28 de novembro de 2008 e busca acompanhar o Ibovespa. Em setembro de 2026, o fundo tinha patrimônio líquido superior a R$ 15,4 bilhões, de acordo com dados divulgados pela BlackRock, e reunia mais de 80 milhões de cotas em circulação em diferentes momentos do mês.
O tamanho do produto ajuda a dimensionar a presença da gestora no mercado brasileiro de ETFs. A BlackRock também mantém outros fundos listados voltados à exposição internacional, renda variável local e diferentes segmentos do mercado.
O crescimento desse segmento, entretanto, não se limita à BlackRock. A B3 registrou aumento de 16,6% no número de ETFs listados apenas no primeiro semestre, enquanto o volume financeiro médio diário negociado pela classe chegou a R$ 1,85 bilhão no período, alta de 16% sobre o primeiro semestre de 2025.
A expansão da indústria cria, portanto, duas frentes diferentes para a gestora: a captação vinculada a produtos internacionais e o avanço da participação em instrumentos negociados na própria bolsa brasileira. O mercado doméstico passa a funcionar simultaneamente como canal de distribuição para ativos brasileiros e como porta de acesso dos investidores locais a mercados estrangeiros.
Infraestrutura entra na disputa pelo capital global
O segundo eixo identificado por Barino está fora do mercado de ETFs. Para o executivo, a capacidade de o Brasil atrair recursos internacionais de longo prazo dependerá da criação de condições para grandes projetos de infraestrutura e da estabilidade dos marcos regulatórios.
A avaliação envolve um tipo de capital diferente daquele captado em produtos de mercado. Investimentos em portos, aeroportos, energia e infraestrutura digital exigem horizontes mais longos, maior previsibilidade regulatória e estruturas capazes de sustentar desembolsos elevados durante vários anos.
A BlackRock já mantém uma visão global de que infraestrutura pode se beneficiar da necessidade de modernização de cadeias logísticas, energia e ativos digitais. Em sua análise de investimentos, a gestora destaca portos, aeroportos, serviços públicos e infraestrutura energética como segmentos relevantes para investimentos de longo prazo.
No Brasil, Barino acrescenta a essa lista a infraestrutura necessária para a expansão da inteligência artificial, especialmente a cadeia de data centers. A tese parte da necessidade de grandes volumes de energia, conectividade e capacidade computacional para atender à expansão de serviços baseados em inteligência artificial.
A própria perspectiva de investimentos da BlackRock para o segundo semestre de 2026 aponta que a expansão da inteligência artificial aumenta a demanda por energia, memória, chips e data centers, criando uma relação cada vez mais direta entre tecnologia e infraestrutura física.
Energia e data centers ampliam a agenda
A possibilidade de o Brasil se tornar um polo regional de infraestrutura para inteligência artificial está relacionada principalmente à disponibilidade de energia e ao tamanho do mercado consumidor. Para a gestora, essa oportunidade ainda está aberta, mas exige decisões de investimento em ritmo compatível com a competição internacional por capital e capacidade instalada.
A questão energética é particularmente relevante porque data centers têm consumo elevado e exigem estabilidade do fornecimento. O avanço da inteligência artificial, portanto, transforma a disponibilidade de energia em um componente da política de atração de investimentos tecnológicos, além de uma questão tradicional de infraestrutura.
Nesse contexto, a competição por capital internacional não se limita à capacidade de oferecer projetos. Também envolve previsibilidade regulatória, regras fiscais, licenciamento, contratos de longo prazo e mecanismos de remuneração que permitam aos investidores estimar o retorno dos projetos.
A avaliação de Barino é que o resultado eleitoral, isoladamente, não determina a trajetória dos investimentos. Na visão do executivo, a profundidade das reformas fiscais e das medidas destinadas a aumentar a competitividade terá peso maior para a capacidade brasileira de disputar recursos internacionais de longo prazo.
Crescimento brasileiro contrasta com escala global
A diferença entre a dimensão da BlackRock no mundo e sua presença brasileira também ajuda a explicar o espaço identificado pela companhia para crescer. No segundo trimestre de 2026, a gestora informou ter alcançado US$ 15,3 trilhões em ativos sob gestão globalmente, após receber US$ 868 bilhões em entradas líquidas nos 12 meses anteriores. A empresa também registrou US$ 321 bilhões em entradas líquidas no primeiro semestre, com contribuição de ETFs, mercados privados, renda fixa ativa e estratégias sistemáticas de ações.
No Brasil, a operação tem escala muito menor do que a plataforma global, o que, segundo Barino, deixa espaço para aumentar a participação em diferentes áreas do mercado. A estratégia local passou a envolver não apenas gestão de recursos, mas também tecnologia e serviços de advisory, ampliando o campo de atuação da empresa junto a clientes institucionais.
Esse posicionamento coincide com a transformação do mercado brasileiro de capitais. O aumento da quantidade de ETFs, do patrimônio da indústria e do número de investidores indica uma ampliação do conjunto de produtos disponíveis, enquanto a demanda por diversificação internacional cria uma conexão maior entre a poupança doméstica e os mercados globais.
Para a BlackRock, a combinação dos dois movimentos pode sustentar a expansão esperada para 2027: de um lado, o aumento da utilização de ETFs e produtos internacionais pelos investidores brasileiros; de outro, a possibilidade de participar de projetos de infraestrutura que dependem de capital estrangeiro de longo prazo. A execução dessa estratégia estará vinculada à capacidade de transformar o interesse por esses ativos e projetos em fluxos efetivos de recursos.
Fontes:
Reuters – entrevista com Bruno Barino sobre crescimento da operação brasileira da BlackRock, investimentos offshore e perspectiva para 2027
BlackRock – informações institucionais sobre Bruno Barino, Country Manager da operação brasileira
BlackRock – resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 e dados globais de ativos sob gestão
BlackRock – dados e características do ETF BOVA11 e do IVVB11
BlackRock Investment Institute – Perspectiva Global para o segundo semestre de 2026, com análise sobre inteligência artificial, energia e data centers
B3 – análise da evolução dos investidores em ETFs no segundo trimestre de 2026
B3 – dados sobre a expansão da indústria de ETFs, patrimônio, investidores e volume negociado no primeiro semestre de 2026









