Blairo Maggi, um dos empresários mais influentes da história recente do agronegócio brasileiro, fez nesta quinta-feira, 10 de setembro, um alerta que vai muito além das divergências partidárias. Para o ex-ministro da Agricultura e acionista da Amaggi, o Brasil cometeu um erro ao transformar a relação com a China em elemento da disputa ideológica com os Estados Unidos durante o governo de Jair Bolsonaro. Na avaliação do empresário conhecido como “Rei da Soja”, o agronegócio brasileiro tem interesse econômico em preservar liberdade para negociar com as duas maiores potências, sem se prender automaticamente a nenhum dos lados.
A declaração foi feita durante o Agro Summit do Bradesco BBI, em São Paulo. Ao analisar como os mercados internacionais deverão enxergar o Brasil na próxima década, Maggi afirmou que Bolsonaro e a diplomacia brasileira erraram quando confrontaram Pequim numa tentativa de aproximação política com Washington. Sua defesa é de uma política externa essencialmente comercial: se Estados Unidos e China disputam influência, tecnologia, segurança e comércio, o Brasil deveria tentar permanecer no meio dessa competição vendendo para ambos.
O diagnóstico ganha peso porque vem de um empresário cuja trajetória está diretamente ligada à expansão brasileira no mercado internacional de grãos. A Amaggi comercializa atualmente cerca de 18 milhões de toneladas de grãos e fibras por ano no mundo, segundo informações da própria companhia, e mantém presença em países como China, Argentina, Paraguai, Holanda, Noruega, Singapura e Suíça. Maggi também conhece a relação bilateral por dentro do governo: comandou o Ministério da Agricultura entre 2016 e 2018 e participou de sucessivas missões comerciais à Ásia para negociar abertura de mercados.
A questão, segundo ele, não é escolher politicamente a China em lugar dos Estados Unidos. É justamente evitar que o Brasil tenha de escolher.
China concentra mais de um terço das vendas externas do agro
Os dados comerciais ajudam a dimensionar o tamanho do risco apontado pelo ex-ministro. No primeiro semestre de 2026, a China comprou US$ 30,54 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro, segundo estatísticas oficiais compiladas a partir dos dados de comércio exterior. O montante correspondeu a 35,1% de todas as exportações do setor no período.
Nenhum outro mercado se aproxima desse peso. A União Europeia ficou com participação de 14,5%, enquanto os Estados Unidos responderam por 5,7% das exportações brasileiras do agronegócio no primeiro semestre.
A concentração se torna ainda mais evidente quando se observa aquilo que os chineses compram. O complexo soja respondeu por 66,3% do valor das importações chinesas de produtos agropecuários brasileiros no período. Carnes representaram outros 18,8%.
Em outras palavras, aproximadamente dois de cada três dólares obtidos pelo agro brasileiro em suas vendas para a China vieram do complexo da soja.
É essa dependência que transforma diplomacia em variável econômica. Uma deterioração mais grave das relações entre Brasília e Pequim poderia atingir diretamente tradings, produtores rurais, empresas de logística, esmagadoras, cooperativas e indústrias que participam da cadeia da oleaginosa.
O impacto não ficaria necessariamente restrito às exportações. Uma mudança significativa na demanda chinesa poderia alterar preços internos, prêmios nos portos, margens de comercialização e decisões de plantio no Brasil.
Maggi vê risco em obrigar Brasil a escolher um bloco
A preocupação apresentada pelo empresário está ligada à crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. O confronto que inicialmente ganhou visibilidade por meio de tarifas comerciais avançou para áreas como semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, minerais estratégicos, energia e segurança nacional.
Agricultura também faz parte dessa disputa.
A China é o maior importador mundial de soja e utiliza o grão principalmente como matéria-prima para a produção de farelo destinado à alimentação de suínos e aves. Brasil e Estados Unidos são seus dois principais fornecedores e, por isso, alterações na política comercial entre Washington e Pequim têm capacidade de redistribuir bilhões de dólares em compras agrícolas.
Para Maggi, seria perigoso o Brasil transformar essa disputa em alinhamento político rígido. Sua visão é que o país deve preservar relações comerciais estáveis com os dois lados e aproveitar as oportunidades produzidas pela concorrência entre eles.
A posição não significa ignorar diferenças diplomáticas ou estratégicas. O argumento é econômico: para um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, limitar voluntariamente mercados seria contrário ao interesse do setor produtivo.
Relação de Bolsonaro com Pequim teve momentos de tensão e aproximação
A crítica de Maggi também remete à política adotada durante o governo Bolsonaro. Ainda na campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro fez declarações críticas à presença econômica chinesa no Brasil e chegou a dizer que a China não estava apenas comprando produtos brasileiros, mas estaria “comprando o Brasil”.
Depois de assumir a Presidência, o governo adotou uma postura mais pragmática. Bolsonaro visitou Pequim em 2019, recebeu o presidente Xi Jinping durante a cúpula do Brics em Brasília e passou a defender a ampliação das relações comerciais.
Isso não impediu novos momentos de tensão. Durante a pandemia, integrantes do governo e aliados do então presidente fizeram declarações que provocaram reações da diplomacia chinesa. Também houve atritos relacionados à Huawei e à disputa tecnológica entre Pequim e Washington.
Apesar das turbulências políticas, o comércio bilateral continuou sendo enorme. A China permaneceu como principal destino das exportações brasileiras e a soja foi um dos pilares dessa relação.
A avaliação de Maggi é que um país com essa exposição comercial não deveria correr o risco de permitir que afinidades políticas momentâneas com Washington comprometessem uma relação construída ao longo de décadas com Pequim.
China quer produzir mais comida dentro de casa
Existe, porém, um segundo problema que preocupa Maggi e que independe da política brasileira: a própria estratégia chinesa para aumentar sua segurança alimentar.
Pequim trabalha há anos para elevar a produtividade agrícola, aumentar estoques, desenvolver sementes, melhorar infraestrutura rural e reduzir vulnerabilidades externas em produtos considerados estratégicos. Nesta semana, autoridades chinesas voltaram a anunciar medidas para ampliar o financiamento destinado à produção rural e à segurança alimentar até 2030.
Maggi considera possível que a China reduza substancialmente sua dependência internacional em algumas proteínas animais. Aves e suínos estão entre os segmentos nos quais o país dispõe de escala para ampliar a produção doméstica.
O obstáculo aparece antes do frigorífico: os animais precisam ser alimentados.
É nesse ponto que a soja brasileira continua tendo importância estratégica. A expansão da produção chinesa de carnes exige grandes quantidades de farelo de soja, e a capacidade doméstica de Pequim para cultivar a oleaginosa é limitada pelas características de sua agricultura.
Para produzir muito mais soja, a China teria de deslocar terras atualmente ocupadas por outros cultivos ou elevar significativamente a produtividade. Como o grão pode ser comprado internacionalmente de grandes produtores como Brasil e Estados Unidos, existe também uma decisão econômica sobre até que ponto a autossuficiência compensaria.
Por isso, Maggi acredita que a China continuará necessitando de fornecedores externos, mesmo enquanto tenta diminuir vulnerabilidades.
Soja brasileira continua crescendo nas exportações
Os números mais recentes mostram que o Brasil mantém forte presença internacional na oleaginosa. Em agosto, as exportações brasileiras de soja chegaram a aproximadamente 9,8 milhões de toneladas, alta de 5,2% em relação ao mesmo mês de 2025.
A receita atingiu US$ 4,41 bilhões, crescimento de cerca de 14% na comparação anual, favorecida também por preços médios superiores aos registrados um ano antes.
Entre janeiro e julho, os embarques brasileiros de soja já haviam crescido 7,8% sobre igual período do ano passado, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento.
O desempenho reforça a posição do Brasil como fornecedor estrutural do mercado internacional. Mas também evidencia por que mudanças nas compras chinesas têm capacidade de produzir efeitos rapidamente na economia brasileira.
Pequim não é apenas mais um destino. É o principal comprador do produto que ocupa o centro da pauta agrícola brasileira.
Compras americanas mostram como geopolítica pode redirecionar soja
Um acontecimento desta própria semana ilustra o alerta feito por Maggi. Empresas chinesas voltaram a comprar volumes relevantes de soja dos Estados Unidos em meio à aproximação entre Donald Trump e Xi Jinping.
Negociadores estimaram compras chinesas de cerca de 1 milhão de toneladas de soja americana nesta semana, enquanto empresas estatais de Pequim continuam executando compromissos de importação negociados com Washington.
Esse movimento não significa perda automática de espaço para o Brasil. Os calendários agrícolas dos dois países são parcialmente complementares: a safra brasileira domina determinadas épocas do ano, enquanto o produto norte-americano ganha importância em outras.
Mas mostra como decisões políticas podem alterar rapidamente a origem das compras.
Se Washington oferece condições comerciais mais atraentes ou incorpora a agricultura a uma negociação mais ampla com Pequim, parte da demanda pode migrar para produtores americanos. Se a relação sino-americana se deteriora e surgem tarifas adicionais, o Brasil tende a ganhar competitividade relativa.
O produtor brasileiro, portanto, pode ser beneficiado ou prejudicado por decisões tomadas a milhares de quilômetros de suas propriedades.
É esse jogo que Maggi quer que Brasília observe com pragmatismo.
Trump é “imprevisível”, diz Maggi
Questionado durante o evento sobre Donald Trump, o empresário chamou o presidente americano de “doidão” e imediatamente explicou o sentido da expressão: considera Trump muito imprevisível.
A imprevisibilidade é particularmente relevante para o agronegócio porque políticas tarifárias podem modificar mercados em poucas semanas. A agricultura esteve no centro da guerra comercial iniciada durante o primeiro mandato de Trump, quando a China retaliou tarifas americanas impondo barreiras a produtos agrícolas dos Estados Unidos.
Naquele período, produtores brasileiros de soja foram beneficiados pela migração de parte da demanda chinesa.
Esse benefício, contudo, não é permanente. Se Pequim e Washington fecham acordos que incluem compromissos chineses de compra de produtos agrícolas americanos, o fluxo pode novamente se deslocar.
Para o Brasil, a situação ideal seria manter acesso aos dois mercados e evitar transformar uma oportunidade comercial temporária em uma dependência política.
Diversificar compradores também é parte da solução
Maggi não defende, por outro lado, que o Brasil simplesmente aceite uma dependência crescente da China. O empresário argumenta que o país precisa continuar abrindo novos mercados para reduzir riscos.
Essa diversificação não é simples. Cada novo destino exige negociações sanitárias, fitossanitárias, ambientais e comerciais, muitas vezes prolongadas por anos.
Durante sua passagem pelo Ministério da Agricultura, Maggi participou diretamente desse processo. Em 2016, por exemplo, uma missão liderada por ele percorreu China, Índia, Vietnã, Coreia do Sul, Mianmar, Tailândia e Malásia buscando abrir mercados e ampliar vendas brasileiras.
O ex-ministro também chama atenção para o uso crescente de requisitos ambientais e sanitários como instrumentos de proteção comercial. Países podem estabelecer padrões legítimos de segurança e sustentabilidade, mas essas mesmas regras podem funcionar, na prática, como barreiras para dificultar a entrada de concorrentes estrangeiros.
Para Maggi, o Brasil precisará se adaptar às novas exigências em vez de acreditar que as vantagens que permitiram ao agro conquistar mercados nas últimas décadas serão suficientes no futuro.
Uma disputa que chega diretamente à fazenda
A mensagem apresentada pelo “Rei da Soja” é que política externa, segurança alimentar e agricultura passaram a fazer parte de uma mesma equação.
A China precisa garantir alimentos para uma população de mais de 1 bilhão de pessoas e tenta reduzir vulnerabilidades. Os Estados Unidos utilizam seu peso agrícola nas negociações comerciais. O Brasil, por sua vez, é um dos poucos países capazes de aumentar a oferta global de soja, milho, carnes e outras commodities em escala significativa.
Essa posição representa uma vantagem estratégica, mas também cria dependências.
No primeiro semestre deste ano, mais de um terço de tudo o que o agronegócio brasileiro exportou teve a China como destino. Esse número explica por que, para Maggi, uma escolha política entre Pequim e Washington teria consequências que poderiam chegar rapidamente ao produtor rural.
A recomendação do empresário é simples na formulação, embora difícil na diplomacia: não transformar o Brasil em extensão da disputa entre as duas potências.
Para um setor que depende de compradores em dezenas de países, a melhor posição, segundo ele, é continuar vendendo para todos.
Fontes: Blairo Maggi, em participação no Agro Summit do Bradesco BBI; Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; Comex Stat; Ministério da Agricultura e Pecuária; Companhia Nacional de Abastecimento; Amaggi; Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China.









