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BMW corta 8 mil vagas na Alemanha até 2027 após queda de 30% na China

Programa voluntário foca administração e desenvolvimento, equivale a 5% do quadro global e ocorre junto a protestos na Audi contra fechamento de fábricas.

por Gabriel Monteiro
30/07/2026 às 00h51
em Empresas
Bmw Corta 8 Mil Vagas Na Alemanha Até 2027 Após Queda De 30% Na China-Gazeta Mercantil

A BMW anunciou nesta quarta-feira, 29 de julho, que vai reduzir cerca de 8 mil postos de trabalho até o final de 2027 por meio de um programa de desligamento voluntário na Alemanha. A medida, confirmada por um porta-voz da montadora em Munique, atinge áreas de administração e desenvolvimento e preserva as operações de produção. O grupo emprega cerca de 150 mil pessoas no mundo e 87,4 mil apenas na Alemanha, segundo balanço mais recente.

O fato novo foi o acordo fechado entre a diretoria e o conselho de trabalhadores após seis semanas de negociações. De acordo com pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas por agências internacionais, as saídas na Alemanha responderão pela maior parte dos cortes globais e começarão em outubro de 2026, com duração até o fim de 2027. A empresa também prepara enxugamento das camadas de gestão nos próximos meses como parte do esforço mais amplo de redução de custos.

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A decisão faz da BMW a mais recente montadora alemã a anunciar cortes estruturais em um setor pressionado por três fatores simultâneos: queda acentuada de vendas na China, custo da transição para veículos elétricos e tarifas dos Estados Unidos.

Programa voluntário começa em outubro e preserva produção em acordo com conselho

Segundo o porta-voz da empresa, o programa de indenização por rescisão foi acertado com o conselho de fábrica e prevê oferta direcionada a funcionários de funções corporativas, pesquisa, desenvolvimento, planejamento e outras atividades de escritório. Trabalhadores de chão de fábrica não são elegíveis nesta etapa.

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De acordo com a BMW, o modelo voluntário reflete as restrições legais para demissões na Alemanha, onde garantias trabalhistas exigem pacotes generosos e negociação com o sindicato IG Metall. Em seu relatório anual, a companhia já havia sinalizado leve queda no quadro de funcionários em 2025, tendência que deveria continuar em 2026. Na terminologia interna da montadora, redução leve é definida como até 5% do efetivo.

O número total de 8 mil vagas corresponde a cerca de um em cada cinco cargos de colarinho branco na Alemanha e a 5% do quadro global de 154.540 empregados em 31 de dezembro de 2025, conforme informado pela própria empresa no balanço do primeiro trimestre de 2026. O efetivo mundial já havia recuado 2,3% no ano anterior no país.

Representantes dos trabalhadores afirmaram que o acordo mantém os acordos coletivos vigentes. Segundo Horst Ott, integrante do IG Metall na Baviera e membro do conselho de supervisão da BMW, a companhia está respondendo ao colapso do mercado na China ao mesmo tempo em que busca fortalecer a competitividade das unidades alemãs.

Corte de 5% expõe queda de 30% nas vendas na China e pressão tarifária nos EUA

O anúncio ocorre seis semanas após um alerta de lucros que derrubou as ações da BMW para o menor nível em quase seis anos. Em junho, a montadora revisou a projeção de margem EBIT do segmento automotivo para 1% a 3% em 2026, ante faixa anterior de 4% a 6%. A empresa informou que o lucro antes de impostos deve cair de forma significativa em relação ao ano anterior, em queda mais acentuada que a retração moderada prevista antes.

De acordo com a BMW, a revisão foi motivada por desempenho abaixo do esperado na China, seu maior mercado individual, e pelos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre custos de energia e confiança do consumidor. No segundo trimestre, as vendas na China recuaram 30%, em um mercado total que encolheu 17,5% no período. A montadora acumula dois anos de queda no país e enfrenta concorrência de fabricantes locais como a BYD, sobretudo em elétricos.

O presidente-executivo Milan Nedeljkovic, que assumiu em maio no lugar de Oliver Zipse após comandar a área de produção, afirmou a funcionários que as regras que regem a indústria mudaram e alertou para um período desafiador, mas necessário para tornar a empresa mais lucrativa. Segundo ele, a montadora vai acelerar e intensificar esforços de redução de custos já em andamento.

A companhia também citou tarifas americanas como fator de pressão. No primeiro trimestre, as tarifas extras responderam por redução de 1,25 ponto percentual na margem EBIT automotiva, impacto maior que o registrado no mesmo período do ano anterior, quando incidiam apenas tarifas europeias sobre elétricos importados da China.

Setor automotivo alemão enfrenta maior reestruturação desde o pós-guerra com Audi e Volkswagen em greve

A decisão da BMW se soma a uma onda de cortes no setor automotivo alemão. Segundo levantamento de agências internacionais, Volkswagen, Mercedes-Benz, Porsche e Audi anunciaram programas que, somados, podem superar 60 mil vagas apenas em 2026.

A Volkswagen avalia, segundo fontes ouvidas pela Reuters, dobrar o plano inicial de 50 mil cortes para até 100 mil empregos em todo o mundo e encerrar produção em quatro fábricas alemãs: Hanover, Zwickau, Emden e a unidade da Audi em Neckarsulm. O fechamento colocaria mais de 45 mil postos em risco. Em 9 de julho, o conselho de supervisão discutiu o plano, considerado o maior da história do grupo, que emprega cerca de 650 mil pessoas globalmente.

Na mesma quarta-feira do anúncio da BMW, cerca de 6 mil trabalhadores da Audi protestaram em Neckarsulm contra o possível fechamento da planta. De acordo com o conselho de fábrica, a unidade emprega 15 mil pessoas e produz os modelos A5, A6 e A8, além do elétrico e-tron GT. Trabalhadores relataram temor de fechamento e pediram clareza à direção. O prefeito local afirmou que o encerramento seria um desastre com efeito dominó no estado de Baden-Württemberg, onde Mercedes-Benz, Porsche e a fornecedora Bosch também estão sob pressão.

A Audi já havia anunciado em 2025 plano para cortar até 7,5 mil vagas na Alemanha até 2029, principalmente em administração e desenvolvimento, com meta de economizar mais de 1 bilhão de euros por ano. A Porsche informou que eliminará cerca de um em cada cinco postos até 2035, totalizando 9 mil vagas.

Analistas avaliam que o setor enfrenta mudança estrutural. Não é mais possível sustentar margens elevadas vendendo veículos a combustão com alto valor agregado projetados na Alemanha para a China, onde rivais locais desenvolvem elétricos sofisticados em 18 meses, cerca de metade do tempo de montadoras tradicionais.

Resultados do primeiro trimestre mostram margem sob pressão e aposta na Neue Klasse

Os números do primeiro trimestre de 2026 ajudam a explicar a urgência. Segundo balanço divulgado pela BMW, as entregas globais somaram 565.780 veículos, queda de 3,5% em relação ao mesmo período de 2025. A marca BMW recuou 4,6%, para 496.006 unidades, enquanto a Mini cresceu 6%, para 68.503 unidades, com 35,1% de elétricos. A Rolls-Royce entregou 1.271 unidades, retração de 8%.

A receita do grupo totalizou 31,007 bilhões de euros, queda de 8,1%, ou 4,3% excluindo efeitos cambiais do renminbi e do dólar. O custo de vendas caiu 6,4% e as despesas administrativas e de vendas recuaram 5,1%. Os gastos com pesquisa e desenvolvimento caíram 11,5%, para 1,755 bilhão de euros, após pico em 2024, e os investimentos recuaram 38,9%, para 1,723 bilhão de euros.

O lucro antes de juros e impostos do segmento automotivo foi de 1,345 bilhão de euros, queda de 33,5%, com margem de 5%, dentro da faixa de orientação anual, mas 1,9 ponto abaixo do primeiro trimestre de 2025. O lucro antes de impostos do grupo foi de 2,348 bilhões de euros, recuo de 24,6%, com margem de 7,6%. O lucro líquido somou 1,672 bilhão de euros, queda de 23,1%. O fluxo de caixa livre automotivo avançou 88,1%, para 777 milhões de euros, impulsionado por menores investimentos.

Para 2026, a empresa projeta entregas no mesmo patamar do ano anterior e participação estável de elétricos, com potencial de crescimento na Europa e nos Estados Unidos e equilíbrio entre volume, preço e rentabilidade de concessionárias na China. A companhia mantém programa de recompra de ações de até 2 bilhões de euros autorizado em 2025, com segunda tranche de 625 milhões de euros em execução até 31 de agosto de 2026.

A aposta para retomada é a plataforma Neue Klasse. De acordo com a BMW, o iX3 já acumula mais de 50 mil pedidos desde a estreia em setembro de 2025, e a captação de pedidos na Europa atingiu recorde trimestral, com alta de mais de 60% em elétricos. A empresa investiu bilhões de euros na nova arquitetura e espera que os novos modelos ajudem a competir com Tesla e fabricantes chinesas.

O que vem a seguir para BMW e para os trabalhadores até o fim de 2027

O cronograma prevê início das adesões em outubro e desligamentos escalonados até dezembro de 2027. Segundo pessoas próximas ao plano, o efeito financeiro do programa deve melhorar a rentabilidade a partir de 2028, mas gerar custos pontuais no segundo semestre de 2026.

Para os trabalhadores, o modelo voluntário evita demissões compulsórias, mas concentra a redução em funções de maior qualificação. Estimativas internas indicam que a saída de 8 mil pessoas exigirá redistribuição de atividades e aceleração de digitalização em desenvolvimento.

Para o setor, o movimento da BMW confirma que cortes em massa deixaram de ser exceção. De acordo com consultoria Horváth, a indústria alemã pode perder até 100 mil empregos até o fim de 2026. A diferença entre montadoras está no ritmo da negociação. Enquanto a Volkswagen enfrenta meses de conversas tensas com representantes trabalhistas e debate sobre parcerias de defesa e produção de modelos chineses em fábricas ociosas, a BMW fechou acordo com relativamente pouco ruído.

O próximo marco será a divulgação dos resultados detalhados do segundo trimestre, prevista para esta quinta-feira, e o dia de mercado de capitais marcado para o fim de setembro, quando Milan Nedeljkovic deve detalhar a realocação de produção para América do Norte e China, além de medidas adicionais de corte de custos em materiais e desenvolvimento.

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