O Bank of America atualizou sua carteira de ações para a América Latina e promoveu uma mudança direta entre duas empresas brasileiras: retirou a Localiza (RENT3) e incluiu a Motiva (MOTV3), antiga CCR, com peso de 3% no portfólio. Apesar de manter recomendação neutra para o mercado acionário brasileiro, o banco elevou a exposição a diversos papéis locais e continua concentrando parte relevante da carteira regional em companhias de grande capitalização, bancos, commodities, infraestrutura e empresas capazes de gerar caixa em um ambiente de juros ainda elevados.
A nova composição tem 15 ações brasileiras. Petrobras (PETR4) permanece como a maior posição do País, com peso de 8,5% na carteira latino-americana. Itaú Unibanco (ITUB4) e Vale (VALE3) aparecem em seguida, com 6,5% cada. Axia (AXIA3) responde por 4%, enquanto Bradesco (BBDC4) e B3 (B3SA3) têm participação de 3,5% cada.
Também integram a seleção Raia Drogasil (RADL3), Assaí (ASAI3), Rede D’Or (RDOR3), Motiva (MOTV3), Equatorial (EQTL3) e Totvs (TOTS3), todas com peso de 3%. JBS, por meio do BDR JBSS32, BTG Pactual (BPAC11) e Hypera (HYPE3) completam a lista, com 2,5% cada.
A Gazeta Mercantil calculou que os 15 ativos brasileiros representam, juntos, 58% da atual carteira regional divulgada pelo BofA. Na composição apresentada pelo banco em junho, os papéis brasileiros somavam 55,5%. O avanço de 2,5 pontos percentuais não significa que a instituição tenha elevado formalmente sua recomendação para o Brasil: o País continua classificado como marketweight, posição equivalente a neutra, porque a avaliação considera também o peso brasileiro no índice de referência e as demais alternativas disponíveis na América Latina.
A mudança revela uma postura seletiva. O BofA não está fazendo uma aposta ampla na Bolsa brasileira. Está aumentando a exposição a determinados nomes ao mesmo tempo em que mantém cautela com juros, resultados corporativos, política fiscal e o desfecho das eleições presidenciais.
Motiva entra e Localiza deixa a carteira
A principal alteração nominal foi a substituição de Localiza por Motiva. Segundo a avaliação do BofA, a saída de RENT3 ocorre diante da falta de catalisadores suficientes no horizonte considerado pelo banco, enquanto MOTV3 passa a integrar o portfólio por apresentar um valuation considerado mais atraente.
As duas empresas pertencem a negócios bastante diferentes. A Localiza está exposta ao aluguel de veículos, gestão de frotas e venda de seminovos, atividades sensíveis ao custo de capital, preço dos automóveis e dinâmica do crédito. A Motiva administra ativos de infraestrutura de mobilidade, incluindo concessões rodoviárias e sistemas de transporte sobre trilhos, com receitas associadas a contratos de longo prazo.
A entrada da Motiva ocorre depois de um segundo trimestre de expansão operacional e financeira. A própria companhia informou lucro líquido societário de R$ 1,413 bilhão no período, crescimento de 57,5% em comparação com o mesmo trimestre de 2025. O desempenho foi favorecido, segundo a empresa, pelo avanço do tráfego e pela contribuição de novas concessões.
Esses resultados não são apresentados pelo BofA como a causa direta da inclusão — o racional divulgado pelo banco destaca principalmente o valuation. Eles ajudam, porém, a contextualizar o momento da companhia escolhida para substituir Localiza.
A Motiva também se encaixa em uma estratégia que o próprio banco vinha defendendo ao longo do segundo semestre: preferência por empresas com ativos de infraestrutura e capacidade de atravessar um período de elevada incerteza política e monetária.
Petrobras, Itaú e Vale concentram 21,5% do portfólio regional
A distribuição dos pesos mostra que a seleção brasileira está longe de ser uniforme. Apenas Petrobras, Itaú e Vale somam 21,5% de toda a carteira latino-americana do BofA.
A Petrobras continua sendo, isoladamente, a maior posição brasileira, com 8,5%. O peso é o mesmo registrado na composição divulgada em junho. O tamanho da participação coloca PETR4 no centro da exposição do banco ao Brasil e reflete a importância de grandes companhias de commodities na representação brasileira dentro dos índices regionais.
Itaú passou de 6% para 6,5%, enquanto Vale recuou de 7,5% para 6,5%. O movimento reduz em um ponto percentual a participação da mineradora e, simultaneamente, eleva o peso do maior banco privado brasileiro.
Somadas, Petrobras e Vale representam 15% de toda a carteira latino-americana. Isso deixa uma parcela expressiva da exposição brasileira diretamente relacionada ao comportamento de petróleo, minério de ferro, câmbio e demanda internacional.
A concentração é relevante porque mostra que a recomendação neutra para o Brasil não elimina convicções específicas. O BofA continua atribuindo pesos elevados a empresas que possuem grande liquidez, geração de caixa e capacidade de absorver choques macroeconômicos.
Bancos ganham espaço na seleção
O setor financeiro é outro núcleo importante. Itaú, Bradesco e BTG Pactual representam juntos 12,5% da carteira. Quando a B3, infraestrutura do mercado de capitais, é adicionada à conta, esse grupo chega a 16%.
O BofA elevou de 6% para 6,5% o peso do Itaú e de 3% para 3,5% o do Bradesco. BTG Pactual permaneceu com 2,5%. A participação da B3 passou de 3% para 3,5%.
A preferência por bancos selecionados é explicada pela avaliação de que determinadas instituições estão mais preparadas para atravessar um ambiente de crédito desafiador e apresentam menor risco para os resultados mesmo com a Selic elevada.
Os juros básicos brasileiros estão atualmente em 14% ao ano. O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a taxa de 14,25% para 14% em agosto, a quarta diminuição consecutiva, mas ressaltou que a política monetária continua em território restritivo.
O BofA trabalha com a possibilidade de novo corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic a 13,75%. A instituição entende que dados mais benignos de inflação e a perda de força da atividade aumentaram as apostas em flexibilização adicional dos juros.
Mesmo assim, a estratégia não foi montada com base em uma queda rápida da taxa. O banco continua priorizando empresas que, em sua avaliação, conseguem gerar caixa mesmo se os juros permanecerem elevados por mais tempo.
Sete ações tiveram o peso elevado desde junho
Além da substituição de Localiza por Motiva, a comparação com a carteira divulgada em junho mostra uma série de ajustes menores que, somados, alteraram a exposição brasileira.
Assaí passou de 2,5% para 3%. Bradesco avançou de 3% para 3,5%. Itaú subiu de 6% para 6,5%. B3 foi de 3% para 3,5%. Rede D’Or aumentou de 2,5% para 3%. Axia passou de 3,5% para 4%, e Totvs avançou de 2,5% para 3%.
Cada aumento foi de meio ponto percentual. Em sentido contrário, Vale teve a maior redução entre os nomes mantidos, passando de 7,5% para 6,5%.
JBS, Raia Drogasil, Petrobras, BTG Pactual, Hypera e Equatorial mantiveram os mesmos pesos observados na composição anterior.
A soma dessas mudanças explica por que os papéis brasileiros passaram de 55,5% para 58% da carteira calculada a partir dos pesos divulgados, mesmo com a manutenção da classificação neutra para o Brasil.
Essa aparente contradição desaparece quando se considera que marketweight não significa exposição baixa ou ausência de ações recomendadas. Significa, em linhas gerais, que o estrategista não pretende manter uma aposta estrutural muito acima da participação que o mercado brasileiro já possui no universo usado como referência.
As 15 ações brasileiras escolhidas pelo BofA
A carteira atual do Bank of America para o Brasil dentro da seleção latino-americana está distribuída da seguinte maneira:
| Ação | Empresa | Peso |
|---|---|---|
| PETR4 | Petrobras | 8,5% |
| ITUB4 | Itaú Unibanco | 6,5% |
| VALE3 | Vale | 6,5% |
| AXIA3 | Axia | 4,0% |
| BBDC4 | Bradesco | 3,5% |
| B3SA3 | B3 | 3,5% |
| RADL3 | Raia Drogasil | 3,0% |
| ASAI3 | Assaí | 3,0% |
| RDOR3 | Rede D’Or | 3,0% |
| MOTV3 | Motiva | 3,0% |
| EQTL3 | Equatorial | 3,0% |
| TOTS3 | Totvs | 3,0% |
| JBSS32 | JBS | 2,5% |
| BPAC11 | BTG Pactual | 2,5% |
| HYPE3 | Hypera | 2,5% |
A lista mistura segmentos com características bastante distintas. Há exportadoras e commodities, bancos, saúde, varejo alimentar, tecnologia, infraestrutura, energia elétrica e mercado de capitais.
Essa diversificação é coerente com uma estratégia que procura reduzir a dependência de uma única tese macroeconômica. Parte das empresas pode se beneficiar de juros menores, enquanto outras possuem receitas mais resilientes ou exposição a preços internacionais.
Eleição e fiscal continuam limitando visão sobre Brasil
A seletividade do portfólio contrasta com a cautela do banco em relação à Bolsa brasileira como um todo. O BofA continua apontando a incerteza fiscal após as eleições como um dos principais fatores de risco para os ativos locais.
O processo eleitoral ganhou peso ainda maior no pregão desta quarta-feira. O Ibovespa avançou 3,05%, aos 185.205 pontos, enquanto o dólar caiu para a região de R$ 5,10 em uma sessão marcada pela reação dos investidores à nova pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial.
O movimento do mercado mostrou a velocidade com que as expectativas eleitorais passaram a ser incorporadas aos preços dos ativos. Para o BofA, resultados políticos considerados binários e a percepção sobre as propostas econômicas dos candidatos podem alterar a visão atualmente neutra para o País.
A preocupação fiscal se conecta diretamente à curva de juros. Uma deterioração das expectativas sobre dívida pública e resultado das contas do governo poderia dificultar cortes mais profundos da Selic, afetar os múltiplos das empresas e pressionar negócios com maior necessidade de financiamento.
É justamente nesse ambiente que a seleção de ações ganha importância. O banco busca empresas capazes de atravessar uma combinação de juros ainda altos, incerteza eleitoral e crescimento econômico mais moderado, sem abandonar completamente a possibilidade de capturar uma valorização caso o cenário melhore.
Carteira reforça estratégia de escolher empresas, não comprar o Brasil inteiro
A atualização do BofA deixa duas mensagens diferentes para o investidor. A primeira é macroeconômica: o banco ainda não considera o Brasil suficientemente atraente para elevar sua recomendação geral acima de neutra. A segunda é microeconômica: dentro desse mesmo mercado, continua identificando empresas que considera capazes de entregar desempenho superior.
A substituição da Localiza pela Motiva resume essa lógica. Não se trata de abandonar setores brasileiros, mas de trocar uma tese por outra diante da relação entre preço, catalisadores e risco. Os aumentos em Itaú, Bradesco, B3, Assaí, Rede D’Or, Axia e Totvs seguem o mesmo princípio de ajuste seletivo.
Ao mesmo tempo, o corte em Vale mostra que nem mesmo uma das maiores empresas da carteira está imune à revisão de exposição.
Com 58% do portfólio latino-americano distribuído entre 15 ativos brasileiros, a posição do BofA está longe de representar uma saída do País. O desenho atual é o de uma exposição relevante, porém disciplinada, concentrada em empresas grandes e líquidas e mantida sob a cautela de uma recomendação geral neutra.
A próxima mudança mais relevante poderá vir menos dos balanços individuais e mais do ambiente macro. O comportamento da inflação, os próximos passos do Banco Central e, sobretudo, as propostas econômicas apresentadas durante a reta final das eleições devem determinar se o Brasil continuará apenas com peso neutro na estratégia regional ou voltará a ocupar posição preferencial na carteira do banco.
Fontes:
Bank of America Global Research – carteira modelo de ações para a América Latina e estratégia regional de setembro de 2026
Banco Central do Brasil – comunicado da 280ª reunião do Copom e definição da taxa Selic em 14% ao ano
Motiva – resultados financeiros e operacionais do segundo trimestre de 2026
Localiza – Central de Resultados e informações para investidores do segundo trimestre de 2026









