O Bank of America elevou nesta quarta-feira, 15 de julho, a recomendação para a B3 (B3SA3) de neutra para compra e rebaixou Stone (STNE) e PagBank (PAGS) de compra para neutra, em uma revisão que reflete a expectativa de juros mais altos por um período prolongado no Brasil. Enquanto a operadora da Bolsa tende a preservar receitas com renda fixa, derivativos, dados e infraestrutura de mercado, as duas fintechs estão mais expostas ao encarecimento do funding, à desaceleração do crédito e ao aumento das perdas esperadas.
O preço-alvo para a B3 (B3SA3) foi elevado de R$ 20 para R$ 22 por ação. A nova projeção representava potencial de valorização de 43,5% sobre o fechamento da terça-feira. Durante o pregão desta quarta, o papel avançava 2,54%, a R$ 15,72, mesmo com o Ibovespa em queda próxima de 0,7%.
Na direção oposta, o BofA reduziu o preço-alvo do PagBank (PAGS) de US$ 12 para US$ 10 e cortou a estimativa para Stone (STNE) de US$ 23 para US$ 13. A revisão da fintech fundada por André Street foi a mais severa: a nova avaliação ficou cerca de 43% abaixo da anterior.
A mudança de posicionamento não significa que o banco tenha passado a recomendar a venda das duas companhias. A classificação neutra indica uma relação considerada mais equilibrada entre os riscos e o potencial de retorno, após a incorporação de premissas mais conservadoras para juros, custo de capital, expansão do crédito e inadimplência.
B3 (B3SA3) combina desconto e receitas menos dependentes do crédito
A preferência do Bank of America pela B3 (B3SA3) está relacionada à capacidade da companhia de gerar receitas em diferentes fases do ciclo econômico. A empresa não depende apenas da negociação de ações: sua infraestrutura abrange derivativos, renda fixa, crédito, câmbio, custódia, registro de ativos, dados financeiros e serviços tecnológicos.
Essa composição oferece proteção parcial em um ambiente de política monetária restritiva. Os juros elevados podem reduzir o apetite por ações e dificultar novas ofertas no mercado de capitais, mas, simultaneamente, aumentam o estoque e a negociação de instrumentos de renda fixa.
A volatilidade também impulsiona a demanda por contratos futuros e outros derivativos utilizados por empresas, bancos, fundos e investidores para proteger posições em juros, câmbio, índices e commodities.
Os resultados recentes ajudam a explicar a revisão. A B3 (B3SA3) registrou receita total de R$ 3,20 bilhões no primeiro trimestre de 2026, avanço de 20,5% sobre igual período do ano anterior e o maior resultado trimestral de sua história.
O Ebitda recorrente atingiu R$ 2,06 bilhões, com crescimento de 23,9%, enquanto a margem Ebitda recorrente subiu de 69,5% para 71,6%. O lucro líquido recorrente avançou 33,1%, para R$ 1,50 bilhão.
O resultado veio acompanhado de crescimento tanto nas receitas sensíveis ao ciclo financeiro quanto nas linhas de caráter recorrente. Os negócios ligados a mercados geraram R$ 2,15 bilhões, alta de 20,8%, enquanto soluções de dados, tecnologia, renda fixa e serviços de infraestrutura mantiveram expansão de dois dígitos.
Essa diversificação reduz a dependência de um único vetor de crescimento e sustenta a avaliação de que a B3 (B3SA3) pode atravessar um período prolongado de juros elevados com menor deterioração dos resultados.
Volatilidade e renda fixa sustentam volumes da operadora
No primeiro trimestre, o volume médio diário negociado em derivativos alcançou 13,2 milhões de contratos, crescimento de 16,4% em um ano. Nos contratos de juros em reais, a expansão chegou a 47,4%, impulsionada pela maior incerteza sobre a trajetória da Selic.
A negociação de ações também apresentou forte desempenho. O volume financeiro médio diário no mercado à vista somou R$ 34,8 bilhões, alta de 46%. O movimento foi favorecido pela entrada líquida de R$ 53,8 bilhões de capital estrangeiro durante o trimestre.
O estoque médio do Tesouro Direto avançou 45,5%, para R$ 216 bilhões, enquanto o número médio de investidores cresceu 12,7%, para 3,38 milhões. A ampliação da renda fixa favorece as receitas de registro, custódia e processamento da B3 (B3SA3).
A companhia também registrou crescimento de 16,8% no estoque médio de debêntures e de 18,9% nos instrumentos de captação bancária. Quanto maior o volume de títulos emitidos e mantidos em suas plataformas, maior tende a ser a base de receitas recorrentes da empresa.
Para o BofA, o desconto da ação acrescenta atratividade ao perfil operacional. A B3 (B3SA3) estaria sendo negociada a aproximadamente 11,2 vezes o lucro projetado para 2027, múltiplo próximo das mínimas históricas consideradas pelo banco.
O preço mais baixo, contudo, também reflete riscos. Entre eles estão a permanência dos juros em nível restritivo, a redução da atividade em ofertas de ações e a possibilidade de aumento da concorrência no mercado brasileiro de infraestrutura financeira.
A recomendação de compra parte da avaliação de que esses riscos já estariam amplamente incorporados à cotação, enquanto uma melhora do ambiente macroeconômico poderia gerar valorização adicional.
Stone (STNE) expande crédito, mas provisões avançam
A análise sobre Stone (STNE) parte de um quadro diferente. Além dos serviços de pagamento, a companhia vem ampliando sua atuação bancária e sua carteira de crédito para lojistas, o que aumenta a sensibilidade dos resultados ao custo do dinheiro e à qualidade dos empréstimos.
No primeiro trimestre, a receita e os demais rendimentos da Stone (STNE) somaram R$ 3,58 bilhões, alta anual de 6,5%. O lucro líquido ajustado das operações continuadas avançou 3,5%, para R$ 549,1 milhões.
Apesar do crescimento, os indicadores de margem e crédito mostraram maior pressão. O lucro bruto ajustado ficou praticamente estável em R$ 1,49 bilhão, enquanto a margem bruta recuou de 44,4% para 41,6% em um ano.
A própria companhia atribuiu a compressão da margem ao aumento das provisões para perdas com empréstimos, aos custos necessários para sustentar a operação e às despesas financeiras mais elevadas.
A carteira de crédito da Stone (STNE) atingiu R$ 3,22 bilhões em março, mais que o dobro dos R$ 1,45 bilhão registrados um ano antes. O crescimento foi de 122,5%, puxado principalmente pelas linhas destinadas aos comerciantes.
A receita de crédito chegou a R$ 297,1 milhões, expansão anual de 186,2%. A aceleração, porém, veio acompanhada de um aumento expressivo do risco.
As provisões para perdas alcançaram R$ 166,3 milhões no primeiro trimestre, ante R$ 34 milhões no mesmo período de 2025. O avanço foi de 389,2%. Na comparação com os três últimos meses do ano passado, quando as provisões haviam somado R$ 109,7 milhões, a alta foi de 51,6%.
Inadimplência torna crescimento da Stone mais caro
O custo de risco da Stone (STNE) subiu para 21,9%, ante 10,2% no primeiro trimestre de 2025. A inadimplência entre 15 e 90 dias passou de 2,61% para 4,97%, enquanto os atrasos superiores a 90 dias avançaram de 4,57% para 6,98%.
Os números indicam que a companhia está gerando mais receita com crédito, mas também precisa destinar uma parcela maior do resultado para absorver perdas esperadas. Esse movimento reduz o benefício líquido da expansão da carteira.
A Stone (STNE) informou que as provisões foram afetadas pelo crescimento dos empréstimos, por casos de inadimplência entre clientes de maior porte e por sinais iniciais de pior desempenho nas safras mais recentes de crédito.
Em um ambiente de juros elevados, pequenas e médias empresas enfrentam maior custo de capital de giro e menor flexibilidade financeira. Como esse público representa uma parcela central da base de clientes da Stone (STNE), a deterioração das condições econômicas pode aparecer rapidamente nos indicadores de atraso.
A carteira continua protegida por um índice de cobertura de 229%, considerado conservador pela própria companhia. Ainda assim, a piora da inadimplência explica por que o Bank of America passou a adotar uma posição mais cautelosa.
O corte do preço-alvo para US$ 13 incorpora estimativas menores de lucro para 2026 e 2027. Segundo o relatório, as novas projeções ficaram abaixo do consenso do mercado.
A baixa avaliação da Stone (STNE), contudo, impede uma visão ainda mais negativa. Parte dos riscos já estaria refletida na cotação, o que levou o banco a adotar recomendação neutra, e não de venda.
Funding pressiona operação de pagamentos do PagBank (PAGS)
O PagBank (PAGS) também apresentou crescimento de lucro no primeiro trimestre, mas sofreu pressão direta dos juros sobre sua operação de pagamentos.
O lucro líquido recorrente somou R$ 575 milhões, alta anual de 4%. A receita total, descontados determinados custos de transação, aumentou 6,4%, para R$ 3,34 bilhões.
O lucro bruto, entretanto, avançou apenas 0,8%, para R$ 1,89 bilhão. A margem bruta recuou de 59,8% para 56,6%, queda de 3,1 pontos percentuais.
O principal fator foi o custo financeiro, que subiu 13,8%, para R$ 1,34 bilhão. O PagBank (PAGS) informou que a taxa Selic média ponderada atingiu 14,96% no período, o nível mais elevado desde 2006.
A operação de pagamentos foi a mais atingida. O lucro bruto do segmento caiu 11,3%, para R$ 1,30 bilhão, e a margem passou de 57,4% para 51,6%.
O impacto ocorre porque empresas de meios de pagamento financiam a antecipação de recebíveis dos comerciantes. Quando um consumidor faz uma compra parcelada e o lojista solicita o dinheiro antes do vencimento de todas as parcelas, a instituição precisa financiar essa diferença de prazo.
Quanto mais elevada a Selic, maior o custo dos recursos utilizados na antecipação. As companhias podem tentar reajustar as taxas cobradas dos clientes, mas enfrentam concorrência de bancos, fintechs e outras adquirentes.
Crédito cresce no PagBank, mas exige mais capital e provisões
O segmento bancário do PagBank (PAGS) apresentou desempenho mais forte. O lucro bruto da vertical avançou 44,1%, para R$ 590 milhões, apoiado na expansão da carteira, no aumento das entradas de recursos e na maior utilização dos serviços financeiros.
A carteira de crédito chegou a R$ 5 bilhões, crescimento anual de 35,9%. As soluções de capital de giro avançaram 190,6%, tornando-se uma das principais frentes da estratégia da companhia.
Esse crescimento aumenta a capacidade de monetização da base de clientes, mas também eleva a exposição ao risco de crédito. As despesas com provisões passaram de R$ 21 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 60 milhões entre janeiro e março de 2026.
O Bank of America entende que o ambiente macroeconômico mais difícil pode limitar a execução da estratégia de crédito anunciada pelo PagBank (PAGS) em setembro do ano passado.
O banco recalibrou suas projeções de lucro para considerar menor velocidade de expansão, custos de funding mais altos e provisões adicionais. O preço-alvo foi reduzido para US$ 10.
Assim como no caso da Stone (STNE), o BofA considera que a avaliação do PagBank (PAGS) já é relativamente baixa. O desconto limita o potencial de queda, mas deixou de ser suficiente para sustentar a recomendação de compra diante dos novos riscos.
Inflação desacelera, mas expectativas seguem acima da meta
A revisão ocorre em um momento de sinais contraditórios na economia brasileira. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo avançou 0,16% em junho, depois de alta de 0,58% em maio.
Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,72% para 4,64%. O resultado ficou próximo do limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância estabelecido para a meta contínua de 3%.
O dado corrente mais favorável não eliminou a preocupação com a inflação futura. Na reunião de junho, o Comitê de Política Monetária informou que as expectativas apuradas pelo Boletim Focus estavam em 5,30% para 2026 e em 4,10% para 2027, ambas acima da meta.
O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, mas reiterou que o ritmo do ciclo dependerá da evolução dos preços, das expectativas e do balanço de riscos.
Para o mercado acionário, a questão central não é apenas se haverá novos cortes, mas a velocidade e a extensão do movimento. Uma redução lenta mantém elevado o custo de capital utilizado na avaliação das empresas e prolonga a pressão sobre operações de crédito.
Nesse ambiente, companhias com receita recorrente, baixa necessidade de financiamento e exposição limitada à inadimplência ganham preferência. É essa diferença que sustenta a escolha da B3 (B3SA3) em relação a Stone (STNE) e PagBank (PAGS).
Juros separam infraestrutura de mercado das fintechs de crédito
A revisão do Bank of America evidencia que empresas do mesmo sistema financeiro podem reagir de formas opostas ao ciclo monetário.
A B3 (B3SA3) oferece a infraestrutura pela qual são negociados, registrados e custodiados ativos financeiros. Mesmo quando investidores migram de ações para renda fixa, parte relevante das transações continua ocorrendo dentro das plataformas da companhia.
Stone (STNE) e PagBank (PAGS), por outro lado, combinam serviços de pagamento com operações financiadas por depósitos, captações e outros recursos sujeitos ao nível da Selic. O custo mais alto aparece diretamente na margem da antecipação de recebíveis e no retorno das carteiras de crédito.
A exposição aumenta quando a inadimplência acompanha a desaceleração da economia. Nesse caso, as companhias enfrentam simultaneamente funding mais caro, menor demanda por empréstimos e necessidade de reforçar provisões.
A recomendação de compra para a B3 (B3SA3) não elimina riscos relacionados à atividade da Bolsa, à competição ou ao ambiente regulatório. Tampouco os rebaixamentos de Stone (STNE) e PagBank (PAGS) significam deterioração inevitável das companhias.
A diferença está na assimetria projetada pelo BofA. A operadora da Bolsa combina desconto, crescimento dos resultados e maior resistência aos juros, enquanto as fintechs precisam provar que podem expandir o crédito sem comprometer margens e qualidade da carteira.
Os próximos balanços serão decisivos para testar essa leitura. Na B3 (B3SA3), investidores acompanharão volumes, receitas recorrentes e alavancagem operacional. Em Stone (STNE) e PagBank (PAGS), o foco estará no custo de funding, nas provisões, na inadimplência e na rentabilidade das novas concessões.










