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Boletim Focus eleva projeção da inflação e da Selic para 2026 e amplia cautela do mercado

Mercado financeiro aumentou pela 14ª semana seguida a previsão para o IPCA e passou a projetar juros de 13,75% no próximo ano.

por Camila Braga
15/06/2026 às 10h04
em Economia
Boletim Focus Eleva Projeção Da Inflação E Da Selic Para 2026 E Amplia Cautela Do Mercado-Gazeta Mercantil

O mercado financeiro voltou a revisar para cima as expectativas para a economia brasileira em 2026. Dados divulgados nesta segunda-feira (15) pelo Banco Central, por meio do Boletim Focus, mostram que a projeção para a inflação oficial e para a taxa básica de juros subiu novamente, sinalizando uma deterioração das perspectivas econômicas e um ambiente de maior cautela entre analistas e investidores.

A estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,11% para 5,30%, marcando a 14ª alta consecutiva nas projeções para a inflação de 2026. Já a expectativa para a taxa Selic foi elevada de 13,50% para 13,75% ao ano.

Leia também: Multiplan (MULT3): Squadra amplia fatia e empresa detalha expansão para 2026; saiba o que muda nos dividendos.

As novas projeções surgem às vésperas de mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e indicam que o mercado passou a incorporar um cenário de juros elevados por mais tempo, diante da persistência das pressões inflacionárias e das incertezas relacionadas à política fiscal e ao ambiente político doméstico.

Mercado vê inflação mais resistente em 2026

A revisão do Boletim Focus evidencia uma mudança relevante na percepção dos agentes econômicos em relação ao comportamento dos preços no próximo ano.

A projeção de inflação de 5,30% permanece significativamente acima do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, e também supera o teto do intervalo de tolerância.

O movimento de alta das expectativas é acompanhado de perto pelo Banco Central, uma vez que as projeções futuras de inflação desempenham papel fundamental na definição da política monetária.

Quando as expectativas se afastam das metas oficiais, cresce a necessidade de manutenção de juros elevados como instrumento de contenção das pressões sobre os preços.

Para economistas, a persistência desse cenário sugere que o processo de desinflação deverá ser mais lento do que o inicialmente previsto pelo mercado.

Projeção da Selic sobe para 13,75% ao ano

A expectativa para a taxa Selic também foi revisada para cima e agora está em 13,75% ao ano.

O aumento das projeções para os juros reflete a percepção de que o Banco Central terá menor espaço para promover cortes na taxa básica ao longo dos próximos meses.

A economista-chefe da PICP, Ariane Benedito, avalia que ainda existe alguma margem para redução dos juros, mas que o ciclo de flexibilização monetária está próximo do limite.

Segundo ela, a atividade econômica segue apresentando resiliência, o que reduz a urgência de estímulos monetários adicionais.

Dados recentes reforçam essa percepção. A Pesquisa Mensal de Serviços referente a abril mostrou expansão de 1,2%, resultado superior às estimativas do mercado e que evidencia a capacidade de resistência de segmentos importantes da economia.

Um nível de atividade mais forte tende a sustentar a demanda e dificultar um processo mais rápido de desaceleração da inflação.

Dólar e crescimento econômico também foram revisados

Além das expectativas para inflação e juros, o Boletim Focus trouxe alterações em outras variáveis macroeconômicas relevantes.

A projeção para o dólar no fim de 2026 passou de R$ 5,15 para R$ 5,20, refletindo uma percepção de maior volatilidade nos mercados internacionais e incertezas relacionadas ao ambiente doméstico.

Por outro lado, a estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi levemente elevada, passando de 1,91% para 1,96%.

A revisão indica que os analistas ainda enxergam uma economia relativamente resiliente, apesar dos juros elevados e do ambiente fiscal mais desafiador.

A combinação de crescimento moderado com inflação persistente, no entanto, aumenta a complexidade do cenário para a política monetária.

Copom deverá adotar discurso cauteloso

As novas projeções chegam em um momento decisivo para o Banco Central, que se reúne nesta quarta-feira para definir os próximos passos da política monetária.

Embora parte do mercado ainda enxergue espaço para cortes adicionais na Selic, a deterioração das expectativas de inflação pode levar a autoridade monetária a adotar um discurso mais conservador.

O comportamento das expectativas é um dos principais elementos observados pelo Copom na condução da política de juros.

Caso as projeções continuem subindo nas próximas semanas, aumenta a possibilidade de manutenção de taxas elevadas por um período mais prolongado.

Esse cenário tende a afetar decisões de consumo, investimento e concessão de crédito em diversos setores da economia.

Cenário fiscal e eleições entram no radar dos investidores

Além dos fatores domésticos relacionados à inflação, o mercado também demonstra preocupação com o quadro fiscal brasileiro.

As discussões em torno do equilíbrio das contas públicas continuam sendo apontadas por analistas como um dos principais fatores de risco para o comportamento dos ativos nacionais.

A aproximação do calendário eleitoral também começa a influenciar as projeções para 2026.

Historicamente, períodos eleitorais aumentam a sensibilidade dos investidores a mudanças na condução da política econômica, especialmente em temas relacionados ao controle de gastos, reformas estruturais e trajetória da dívida pública.

Esse ambiente de maior incerteza contribui para a elevação dos prêmios de risco exigidos pelos investidores.

Acordo entre Estados Unidos e Irã reduz pressão sobre petróleo

No cenário internacional, o acordo anunciado entre Estados Unidos e Irã para a redução das tensões no Oriente Médio também entrou no radar dos analistas.

A normalização das operações no Estreito de Ormuz provocou uma queda nas cotações internacionais do petróleo, diminuindo parte das preocupações relacionadas aos preços de energia.

Apesar disso, especialistas avaliam que o impacto sobre a inflação global e doméstica deverá ocorrer de forma gradual.

Segundo Ariane Benedito, a retomada dos fluxos internacionais de petróleo demandará tempo, o que limita uma queda mais expressiva das cotações no curto prazo.

Para o Brasil, que é exportador líquido de petróleo, a redução dos preços da commodity gera efeitos mistos, beneficiando o controle inflacionário, mas diminuindo parte das receitas associadas ao setor de óleo e gás.

Juros elevados e incerteza fiscal mantêm economia sob vigilância

As revisões do Boletim Focus reforçam a percepção de que a economia brasileira continuará convivendo com juros elevados e um ambiente de incertezas ao longo de 2026.

A persistência da inflação acima da meta, a piora das expectativas e as preocupações com a situação fiscal indicam um cenário mais complexo para a condução da política econômica.

Ao mesmo tempo, a resiliência da atividade econômica e o desempenho das exportações seguem oferecendo algum suporte para o crescimento.

Nesse contexto, as próximas decisões do Banco Central e a evolução do debate fiscal serão determinantes para definir o comportamento da inflação, dos juros e da atividade econômica nos próximos meses, em um ambiente que continua exigindo cautela de empresas, consumidores e investidores.

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