A redução da Selic para 13,75% ao ano mudou pouco, por enquanto, a principal característica do mercado brasileiro de renda fixa: aplicações conservadoras continuam oferecendo retornos nominais elevados. O corte de 0,25 ponto percentual decidido pelo Comitê de Política Monetária nesta quarta-feira, 16 de setembro, diminui a remuneração de títulos pós-fixados, mas ainda deixa Tesouro Selic, CDBs e outros instrumentos ligados ao CDI em patamares que exigem atenção antes de assumir riscos maiores apenas em busca de rentabilidade.
A comparação, porém, não pode ser feita apenas olhando a taxa bruta. Com o CDI em aproximadamente 13,65% ao ano, um CDB que pague 100% do indicador não entrega esse percentual integralmente ao investidor depois do Imposto de Renda. Ao mesmo tempo, uma LCI ou LCA pagando um percentual menor do CDI pode gerar resultado líquido superior porque continua isenta de IR para pessoas físicas.
Os títulos atrelados ao IPCA cumprem outra função. Em vez de acompanhar diretamente os juros de curto prazo, eles permitem contratar uma taxa real acima da inflação por vários anos. A contrapartida é a oscilação do preço antes do vencimento, que pode transformar uma aplicação destinada ao longo prazo em prejuízo caso seja vendida antecipadamente em momento desfavorável.
Não existe, portanto, um único vencedor entre Selic, CDI e IPCA+. A resposta muda conforme prazo, necessidade de liquidez, tributação, risco do emissor e possibilidade de manter o dinheiro investido até o vencimento.
R$ 10 mil a 100% do CDI podem virar cerca de R$ 11,1 mil em um ano
O CDI passou a girar perto de 13,65% ao ano depois da decisão do Copom. Essa taxa funciona como referência para grande parte dos CDBs e de outros investimentos pós-fixados oferecidos pelos bancos.
Uma simulação simples ajuda a mostrar quanto o imposto altera o resultado.
Considerando uma aplicação de R$ 10 mil em um CDB que pague exatamente 100% do CDI, com CDI mantido hipoteticamente em 13,65% durante um ano, o ganho bruto seria de aproximadamente R$ 1.365.
Como uma aplicação mantida por período entre 361 e 720 dias está sujeita a uma alíquota de 17,5% de Imposto de Renda sobre o rendimento, cerca de R$ 238,88 seriam recolhidos.
O saldo final ficaria próximo de R$ 11.126, ou ganho líquido de aproximadamente 11,26%.
É uma simplificação: o CDI varia diariamente e a taxa básica pode sofrer novos cortes nas próximas reuniões do Banco Central. O exercício serve para mostrar a diferença entre rentabilidade bruta e líquida.
No Tesouro Selic, a lógica é semelhante. O título acompanha a taxa básica por meio de sua estrutura de remuneração e tende a sofrer muito menos oscilação que títulos públicos prefixados ou indexados à inflação. Por isso, costuma ser utilizado quando liquidez e baixa volatilidade são prioridades.
LCI de 95% do CDI pode superar CDB de 100% do CDI
A comparação muda de forma relevante quando entram em cena investimentos isentos.
LCIs e LCAs continuam isentas de Imposto de Renda para pessoas físicas em 2026. Uma proposta apresentada em 2025 pretendia alterar a tributação desses papéis, mas a medida provisória perdeu validade sem ser convertida em lei.
Supondo novamente CDI de 13,65%, uma LCI ou LCA pagando 95% do CDI teria rendimento anual aproximado de 12,97%.
Como não há IR para a pessoa física, uma aplicação de R$ 10 mil chegaria a aproximadamente R$ 11.296,75 depois de um ano, desconsiderando eventuais particularidades contratuais.
Na mesma simulação, o CDB a 100% do CDI terminaria próximo de R$ 11.126 depois do imposto.
Ou seja: mesmo oferecendo apenas 95% do CDI, o título isento produziria cerca de R$ 171 a mais no período.
A diferença demonstra por que comparar apenas expressões como “100% do CDI” e “95% do CDI” pode induzir a uma escolha equivocada.
LCI de 95% do CDI equivale a CDB de 115% do CDI em um ano
É possível transformar essa comparação em uma taxa equivalente.
Para um investimento sujeito a 17,5% de IR, um CDB precisaria pagar aproximadamente 115,15% do CDI para entregar, depois do imposto, o mesmo rendimento de uma LCI ou LCA pagando 95% do CDI.
O percentual muda conforme o prazo porque a alíquota do Imposto de Renda é regressiva.
Até 180 dias, quando o IR é de 22,5%, uma aplicação isenta pagando 95% do CDI equivale aproximadamente a um investimento tributado de 122,6% do CDI.
Entre 181 e 360 dias, com imposto de 20%, a equivalência cai para cerca de 118,8% do CDI.
Entre 361 e 720 dias, passa a 115,2%.
Acima de 720 dias, quando a alíquota chega ao piso de 15%, uma LCI ou LCA de 95% do CDI equivale a aproximadamente 111,8% do CDI em uma aplicação tributada.
Esse cálculo não transforma automaticamente uma LCI ou LCA na alternativa mais adequada. Carência, vencimento e risco do emissor continuam sendo determinantes.
IPCA+ pode travar juro real por vários anos
Os títulos indexados ao IPCA apresentam outra lógica.
No Tesouro IPCA+, o investidor contrata a inflação do período acrescida de uma taxa real. Uma remuneração de IPCA mais 7,5% ao ano, por exemplo, não significa simplesmente somar 4,9% com 7,5%.
Como as taxas são compostas, uma inflação de 4,9% combinada a um juro real de 7,5% produz retorno nominal aproximado de 12,77% no período.
O valor efetivo dependerá da inflação que realmente ocorrer.
A vantagem estrutural do título está na preservação do poder de compra. Mantido até o vencimento, o papel entrega a variação do IPCA mais a taxa real contratada, antes de impostos e custos aplicáveis.
Isso permite fixar hoje um retorno real por anos ou décadas, algo particularmente relevante quando as taxas reais negociadas no mercado estão elevadas.
O risco aparece quando o investidor precisa sair antes.
Tesouro IPCA+ pode cair mesmo quando a inflação sobe
Títulos públicos negociados no Tesouro Direto têm preços atualizados diariamente. Essa marcação a mercado afeta principalmente papéis com vencimentos mais longos.
Se as taxas exigidas pelo mercado subirem depois da compra, o preço de um Tesouro IPCA+ já emitido tende a cair. Quem precisar vender nesse momento pode receber menos do que esperava e, dependendo da intensidade do movimento, até menos do que investiu.
O inverso também ocorre. Se as taxas de mercado caírem, títulos antigos que pagam juros reais maiores tornam-se mais valiosos e seus preços sobem.
Esse mecanismo explica por que o IPCA+ pode ser adequado para compromissos de longo prazo, mas inadequado para dinheiro que talvez precise ser usado em poucos meses.
A garantia da taxa contratada depende de levar o papel até o vencimento.
Inflação em 4,22% mantém juro real brasileiro elevado
O IPCA acumulado em 12 meses desacelerou para 4,22% em agosto, depois de queda mensal de 0,32%.
Com a Selic em 13,75%, a diferença simples entre juros nominais e inflação corrente supera nove pontos percentuais. A medida correta de juro real utiliza composição, e não simples subtração, mas o contraste mostra que a política monetária brasileira continua restritiva mesmo após cinco cortes consecutivos.
As expectativas também importam. O mercado vinha projetando inflação próxima de 4,9% para 2026, enquanto o Banco Central continua perseguindo uma meta de 3%.
Para o investidor, isso significa que os pós-fixados ainda oferecem retorno relevante, mas esse ganho deve diminuir gradualmente caso o Copom continue cortando a Selic.
CDB com taxa maior pode carregar risco maior
A busca pelo maior percentual do CDI também exige cautela.
CDBs são dívidas emitidas por instituições financeiras. Quando um banco oferece 120%, 125% ou 130% do CDI, a taxa maior pode refletir necessidade de captar recursos e risco de crédito superior ao de instituições maiores.
CDB, LCI e LCA estão entre os produtos elegíveis à garantia ordinária do Fundo Garantidor de Créditos. A cobertura, entretanto, tem limites.
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado financeiro, considerando principal e rendimentos. Há ainda um limite global de R$ 1 milhão em pagamentos de garantias por período de quatro anos nos casos previstos pelo regulamento.
O episódio do Banco Master reforçou a importância prática de analisar o emissor e de não interpretar a existência do FGC como autorização para ignorar risco.
O Tesouro Direto não é coberto pelo FGC porque os títulos são dívidas da União, e não de bancos privados.
Liquidez pode valer mais do que alguns pontos de rentabilidade
A maior taxa não necessariamente resulta no investimento mais útil.
Para recursos que podem ser necessários rapidamente, liquidez diária e baixa oscilação costumam assumir maior importância. Um CDB pagando 120% do CDI, mas com dinheiro bloqueado durante dois anos, não cumpre a mesma função de um investimento que permita resgate diário.
LCIs e LCAs também podem ter carências e vencimentos que impedem retirada antecipada.
O mesmo problema aparece no IPCA+. Embora o Tesouro Nacional ofereça recompra dos títulos em dias úteis, o valor recebido antes do vencimento depende do preço de mercado daquele momento.
Essa diferença separa liquidez operacional de estabilidade do valor. Poder vender um título a qualquer momento não significa conseguir resgatá-lo sem oscilação.
Selic, CDI e IPCA+ cumprem funções diferentes
Com a Selic a 13,75%, a divisão entre os principais tipos de renda fixa fica mais clara.
Tesouro Selic e CDBs pós-fixados de boa liquidez concentram características adequadas para dinheiro de curto prazo e recursos que precisam permanecer disponíveis.
CDBs com percentuais elevados do CDI podem aumentar a rentabilidade, desde que o investidor considere prazo, emissor e cobertura do FGC.
LCIs e LCAs podem superar CDBs com taxas brutas aparentemente maiores porque a isenção tributária altera o resultado líquido.
Tesouro IPCA+ oferece uma combinação diferente: proteção contra inflação e possibilidade de contratar juros reais elevados por longo prazo, em troca de maior volatilidade antes do vencimento.
A queda da Selic de 14% para 13,75% não eliminou nenhuma dessas alternativas. O que mudou foi o ponto de partida da comparação. Enquanto o ciclo de redução dos juros prosseguir, aplicações vinculadas ao CDI tendem a perder rendimento gradualmente. Títulos que já travaram taxas reais ou prefixadas, por outro lado, podem se valorizar se as taxas futuras continuarem caindo — e também podem perder preço caso o mercado volte a exigir juros maiores.
Por isso, a pergunta mais útil deixa de ser simplesmente qual aplicação “rende mais”. Com juros ainda elevados, prazo, tributação, liquidez e risco podem produzir uma diferença maior no resultado final do que alguns pontos percentuais mostrados na oferta do investimento.
Fontes:
Banco Central do Brasil – decisão do Copom de setembro de 2026, trajetória da Selic e informações sobre política monetária
Banco Central do Brasil – séries de taxas de juros e referências do mercado interfinanceiro utilizadas na comparação com o CDI
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IPCA de agosto de 2026 e inflação acumulada em 12 meses
Tesouro Direto – regras de tributação, funcionamento dos títulos Tesouro Selic e Tesouro IPCA+ e efeitos da venda antes do vencimento
B3 – informações sobre tributação de LCI e LCA para pessoas físicas em 2026
Fundo Garantidor de Créditos – produtos elegíveis, cobertura de R$ 250 mil por instituição ou conglomerado e limite global de garantias
Receita Federal – regras aplicáveis à tributação dos rendimentos de aplicações financeiras









