O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu nesta quarta-feira, 16 de setembro, a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, prolongando pelo quinto encontro consecutivo o ciclo de queda dos juros iniciado em março. A decisão foi unânime e manteve o ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual adotado desde o começo da flexibilização. Apesar da nova redução, o Copom evitou antecipar qual será sua decisão em novembro e afirmou que a extensão total do ciclo dependerá das informações que surgirem sobre inflação e atividade econômica.
Com o corte, a Selic acumula redução de 1,25 ponto percentual desde março. A taxa estava em 15% no início do ano, depois de permanecer nesse nível desde junho de 2025. O primeiro corte ocorreu em 18 de março, para 14,75%; seguiram-se reduções para 14,50% em abril, 14,25% em junho e 14% em agosto. A decisão desta quarta-feira leva os juros ao menor nível desde março de 2025, embora o grau de restrição monetária continue elevado.
O comunicado mostra que o Banco Central encontrou espaço para prosseguir com a redução diante da perda de força da atividade e da desaceleração recente dos índices de preços, mas ainda considera insuficiente o avanço para assumir previamente novos cortes. O Copom manteve a avaliação de que os riscos para a inflação estão acima do habitual e continuam inclinados para cima, enquanto as expectativas do mercado permanecem superiores à meta oficial.
Selic caiu 1,25 ponto desde o início do ciclo
A sequência de cinco reduções de 0,25 ponto alterou gradualmente a política monetária sem produzir uma flexibilização abrupta. Entre março e setembro, a Selic passou de 15% para 13,75% ao ano, uma redução equivalente a 8,3% do nível da taxa básica observado antes do início do ciclo.
O ritmo cauteloso contrasta com ciclos anteriores nos quais o Banco Central realizou cortes de 0,50 ou 0,75 ponto percentual por reunião. Desta vez, a estratégia adotada foi descrita pelo próprio Copom como um processo de “calibração”, no qual a taxa continua em território restritivo enquanto o comitê acompanha a resposta da inflação, das expectativas e da economia.
A trajetória das decisões ajuda a explicar essa postura. O Banco Central encerrou 2025 com a Selic em 15% e manteve o patamar também na reunião de janeiro. Somente em março iniciou a redução, depois de quase nove meses com os juros no maior nível do ciclo. Desde então, todas as reuniões terminaram com cortes de igual magnitude.
Mesmo após cinco reduções, a diferença entre a Selic nominal e a inflação esperada continua elevada. Considerando a projeção de 4,9% para o IPCA de 2026 registrada na pesquisa Focus, uma aproximação do juro real prospectivo a partir da taxa de 13,75% resulta em cerca de 8,4% ao ano. O cálculo não corresponde à medida completa utilizada pelo Banco Central para avaliar a política monetária, mas ajuda a dimensionar o nível ainda restritivo dos juros brasileiros.
Inflação caiu, mas expectativas continuam acima da meta
O principal argumento que abriu espaço para a continuidade dos cortes foi a melhora dos dados recentes de inflação. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto e desacelerou para 4,22% no acumulado de 12 meses. A queda mensal dos preços reforçou os sinais de moderação observados pelo Banco Central, embora parte do resultado tenha refletido fatores específicos e temporários.
O Copom afirmou que tanto a inflação cheia quanto a média das medidas subjacentes perderam força. Ainda assim, destacou que os núcleos e as expectativas permanecem incompatíveis com uma convergência rápida para o centro da meta.
Na pesquisa Focus mais recente, a mediana das projeções para o IPCA de 2026 caiu para 4,9%, enquanto a expectativa para 2027 está em 4,3%. As duas estimativas continuam acima da meta contínua de inflação de 3%. Para o primeiro trimestre de 2028, atualmente considerado o horizonte relevante da política monetária, o próprio Copom projeta inflação de 3,2% em seu cenário de referência.
A diferença entre a inflação corrente e as expectativas futuras é um dos motivos para o Banco Central continuar adotando linguagem cautelosa. O IPCA acumulado em 12 meses já está dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual ao redor da meta de 3%, mas as projeções para os próximos anos indicam que o processo de convergência ainda não está concluído.
Banco Central evita prometer novo corte em novembro
Ao contrário de momentos em que um banco central antecipa o provável movimento da reunião seguinte, o Copom optou por não oferecer indicação explícita sobre novembro. O comunicado afirma que a magnitude total do ciclo será determinada à luz das novas informações, vinculando qualquer decisão futura à evolução dos preços e às condições econômicas.
Na prática, a autoridade monetária preservou a possibilidade de continuar reduzindo os juros, interromper temporariamente os cortes ou alterar o ritmo, dependendo dos dados acumulados até a próxima reunião. O mercado financeiro chegou ao encontro desta quarta-feira com expectativa predominante de uma redução para 13,75%, e a decisão confirmou essa parte das projeções.
O Focus de 14 de setembro também apontava Selic de 13,75% no encerramento de 2026. Se essa projeção prevalecer, o corte desta quarta-feira terá encerrado a redução dos juros neste ano. A estimativa, porém, representa apenas a mediana das instituições consultadas e pode mudar diante de novos números de inflação, atividade, câmbio ou das condições financeiras internacionais.
O próximo encontro do Copom ocorrerá nos dias 3 e 4 de novembro. Antes disso, o mercado conhecerá novos indicadores de preços, atividade econômica e mercado de trabalho. A ata da reunião encerrada nesta quarta-feira está prevista para 22 de setembro e deverá detalhar a avaliação do colegiado sobre os fatores que justificaram a manutenção do ritmo de 0,25 ponto.
Atividade perde força enquanto mercado de trabalho segue aquecido
O Banco Central também identificou moderação gradual da economia brasileira, principalmente entre os setores mais sensíveis aos juros. A desaceleração é um dos efeitos buscados pela política monetária restritiva: crédito mais caro reduz a expansão do consumo e dos investimentos e, ao longo do tempo, diminui pressões sobre os preços.
O movimento, no entanto, não é uniforme. O Copom avaliou que a atividade ainda permanece resiliente e que o mercado de trabalho continua aquecido. Essa combinação limita a velocidade do afrouxamento monetário, porque emprego e renda sustentados podem manter a demanda em níveis capazes de dificultar a queda da inflação de serviços.
A pesquisa Focus publicada antes da decisão reduziu a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto em 2026 para 1,89%. O número reforça a expectativa de expansão mais fraca da economia, depois dos efeitos acumulados de um longo período de juros elevados.
Para famílias e empresas, a queda da Selic pode gradualmente aliviar o custo do dinheiro, mas não significa redução automática de 0,25 ponto nas taxas cobradas em empréstimos. O custo final do crédito depende também de risco de inadimplência, impostos, custos operacionais, prazos, garantias e margens das instituições financeiras.
Na outra ponta, investimentos pós-fixados cuja remuneração acompanha diretamente a Selic ou o CDI tendem a entregar retornos nominais menores conforme os juros caem. Tesouro Selic, CDBs pós-fixados e fundos ligados às taxas de curto prazo continuam beneficiados pelo nível elevado da taxa básica, mas a rentabilidade acompanha a direção do ciclo monetário.
Riscos fiscais, câmbio e petróleo continuam no radar
O Copom manteve uma lista extensa de fatores que poderiam interromper ou dificultar o processo de desinflação. Entre os riscos de alta aparecem a persistência das expectativas desancoradas, a resistência da inflação de serviços, uma taxa de câmbio mais depreciada e estímulos à demanda capazes de manter a economia crescendo acima de seu potencial.
O Banco Central voltou ainda a mencionar a política fiscal como uma variável relevante para a política monetária e para os preços dos ativos. Uma piora da percepção sobre as contas públicas pode pressionar juros de mercado e câmbio, afetando a inflação mesmo quando a atividade econômica está desacelerando.
Choques externos também ganharam importância. O Copom citou as incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos sobre petróleo, derivados e outros preços internacionais. Uma elevação persistente da energia pode chegar à inflação brasileira tanto diretamente, pelos combustíveis, quanto indiretamente, pelos custos de transporte e produção.
Do lado oposto, o Banco Central identificou fatores que poderiam produzir inflação menor que a prevista, entre eles uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, perda de força da economia mundial e redução dos preços internacionais das commodities.
Fed elevou juros enquanto Brasil manteve trajetória de cortes
A decisão brasileira ocorreu no mesmo dia em que o Federal Reserve elevou a faixa dos juros básicos dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4% ao ano. Foi a primeira alta promovida pelo banco central americano desde 2023, em resposta à persistência da inflação.
A combinação de alta dos juros americanos com queda dos juros brasileiros reduz, na margem, a diferença entre as taxas dos dois países. Esse diferencial é apenas um dos elementos considerados pelos investidores, mas pode afetar decisões de alocação de capital, câmbio e preços de ativos.
É justamente esse ambiente que ajuda a explicar a cautela do Banco Central brasileiro. Mesmo com melhora da inflação doméstica, mudanças nas taxas externas, no petróleo ou no apetite global por risco podem alterar rapidamente as condições financeiras de países emergentes.
Com a Selic agora em 13,75%, a questão para as próximas semanas deixa de ser a confirmação do quinto corte consecutivo e passa a ser a existência de espaço para prolongar o ciclo. O Copom não fechou essa possibilidade, mas também não assumiu compromisso com uma nova redução. A decisão de novembro dependerá de quanto da desinflação recente será persistente, de como se comportarão as expectativas e de até que ponto a desaceleração da atividade continuará avançando sem nova pressão sobre os preços.
Fontes:
Banco Central do Brasil – histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom e trajetória da Selic nas reuniões de 2025 e 2026
Banco Central do Brasil – comunicado da decisão do Copom de 16 de setembro de 2026 e avaliação dos riscos para a inflação, atividade econômica e próximos passos da política monetária
Banco Central do Brasil – calendário do Copom, data da próxima reunião, divulgação da ata e do Relatório de Política Monetária
Banco Central do Brasil – pesquisa Focus de setembro de 2026 com projeções para inflação, PIB e taxa Selic
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IPCA de agosto de 2026 e evolução recente da inflação ao consumidor
Federal Reserve – decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto de 16 de setembro de 2026 sobre a taxa de juros dos Estados Unidos









