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Tesouro Direto tem queda nas taxas após Selic cair para 13,75% ao ano

Prefixados e títulos atrelados ao IPCA recuaram após a decisão do Copom, enquanto o Fed elevou os juros americanos para a faixa de 3,75% a 4%.

por Camila Braga
17/09/2026 às 11h50
em Mercados
Tesouro Direto Tem Queda Nas Taxas Após Selic Cair Para 13,75% Ao Ano-Gazeta Mercantil

As taxas oferecidas pelo Tesouro Direto recuaram na manhã desta quinta-feira (17), um dia depois de Banco Central e Federal Reserve adotarem movimentos opostos na política monetária. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. Nos Estados Unidos, o Fed elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4%, na primeira alta desde julho de 2023.

O ajuste ocorreu antes da abertura dos mercados nesta quinta-feira e alterou principalmente as taxas de negociação dos papéis prefixados e dos títulos atrelados à inflação. Às 9h22, o Tesouro Prefixado 2029 oferecia 13,81% ao ano, ante 13,89% no fechamento da quarta-feira. O Prefixado 2032 passou de 14,24% para 14,15%, enquanto o Prefixado com Juros Semestrais 2037 caiu de 14,30% para 14,19%.

Leia também: Selic a 13,75%: veja quanto rendem CDI, IPCA+, CDB, LCI e LCA.

Nos papéis indexados ao IPCA, o movimento também foi de redução. O Tesouro IPCA+ 2032 passou de IPCA mais 7,68% para IPCA mais 7,61%. O IPCA+ 2040 recuou de 7,31% para 7,26%, enquanto os títulos com vencimentos em 2050 e 2060 passaram a oferecer taxas reais de 7,19% e 7,18%, respectivamente.

A queda dos juros negociados no mercado ocorre mesmo com o aperto monetário americano porque os preços dos títulos incorporam expectativas sobre a trajetória futura dos juros, inflação, câmbio, risco fiscal e prêmio exigido pelos investidores. A decisão do Fed, por sua vez, adiciona uma variável externa que limita parte do efeito positivo do corte brasileiro sobre a curva de juros doméstica.

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Corte brasileiro reduz custo marginal dos títulos

O Copom aprovou por unanimidade uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic e levou a taxa básica ao menor nível desde o início do atual processo de flexibilização. Desde março, foram cinco cortes sucessivos, que retiraram 1,25 ponto percentual da taxa anterior de 15%.

A redução desta semana corresponde a uma queda relativa de cerca de 8,3% em relação ao nível de 15% que vigorava antes do início do ciclo. Apesar disso, a taxa nominal brasileira permanece muito acima do nível dos juros americanos, mesmo depois do movimento do Fed.

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A diferença entre a Selic de 13,75% e o limite superior da taxa americana, agora em 4%, é de 9,75 pontos percentuais. Considerando o limite inferior do intervalo dos Fed Funds, de 3,75%, o diferencial chega a 10 pontos. O número ajuda a dimensionar por que o corte brasileiro não elimina, por si só, o prêmio de juros dos ativos domésticos.

A sinalização do Copom também foi relevante. O Banco Central manteve a indicação de cautela diante de um ambiente externo incerto e afirmou que continuará acompanhando a evolução da inflação, da atividade econômica, da política fiscal e das condições financeiras. A decisão não estabeleceu compromisso prévio com novos cortes.

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O cenário para os próximos meses, portanto, permanece dependente dos indicadores que serão conhecidos antes da próxima reunião. O mercado vinha trabalhando com a possibilidade de encerramento do ciclo em 13,75%, embora existam avaliações distintas entre as instituições financeiras sobre a possibilidade de novas reduções.

Taxas reais recuam apesar da alta do Fed

A reação dos títulos indexados ao IPCA mostra que o mercado não tratou as decisões de Brasil e Estados Unidos de forma isolada. O rendimento real do IPCA+ 2032 caiu sete pontos-base na manhã desta quinta-feira. O mesmo tipo de redução ocorreu, em menor intensidade, em papéis de vencimentos mais longos.

A queda das taxas implica movimento inverso nos preços dos títulos já emitidos. Quando a taxa de mercado exigida pelo investidor diminui, o preço de negociação de um título existente tende a subir para que seu retorno corresponda à nova referência. Por isso, a redução das taxas tem efeito diferente para quem compra um papel naquele momento e para quem já possuía o ativo e observa sua marcação a mercado.

O comportamento recente da curva reforça esse efeito. Em 9 de setembro, por exemplo, o Tesouro Prefixado 2029 estava perto de 13,82%, enquanto o Prefixado 2037 com juros semestrais estava em 14,17%. Na mesma data, o IPCA+ 2032 oferecia 7,73% ao ano acima da inflação.

Em comparação com os níveis informados nesta quinta-feira, o IPCA+ 2032 recuou 12 pontos-base desde 9 de setembro. No caso do Prefixado 2037, a taxa estava em 14,17% na semana passada e passou a 14,19% nesta quinta, mostrando que a reação não é linear em todos os prazos. A estrutura a termo continua refletindo diferentes percepções para inflação, fiscal, câmbio e política monetária.

O movimento também aparece em dados recentes do mercado secundário. O Tesouro IPCA+ 2032 permanecia na casa de 7,61% de juro real nesta quinta-feira, enquanto outros títulos indexados ao IPCA apresentavam taxas próximas, com diferenças determinadas pelo prazo e pelas características de cada papel.

Fed eleva juros e reduz espaço para alívio global

Enquanto o Brasil prossegue no processo de redução da Selic, o Federal Reserve adotou direção oposta. O FOMC decidiu elevar os Fed Funds em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4%, afirmando que a inflação continua elevada e que a decisão contribui para a convergência ao objetivo de 2%. A atividade econômica americana foi descrita como sólida, com consumo doméstico resiliente, produtividade forte e investimento robusto.

A alta representa uma mudança importante na trajetória recente dos juros americanos. O movimento anterior havia mantido a taxa no intervalo entre 3,50% e 3,75%, enquanto a decisão de setembro marcou o primeiro aumento desde julho de 2023. O comando do banco central americano está atualmente com Kevin Warsh, que presidiu a reunião do FOMC.

Além do aumento imediato, as projeções divulgadas pelo Fed colocaram no radar a possibilidade de novo aperto monetário ainda neste ano. Parte dos integrantes do mercado americano passou a considerar que a inflação ainda exige uma política monetária restritiva por mais tempo, em contraste com o ciclo brasileiro de cortes.

Essa divergência influencia a precificação dos ativos brasileiros porque juros maiores nos Estados Unidos podem aumentar a atratividade relativa dos títulos denominados em dólar e elevar a exigência de remuneração para ativos de países emergentes. O efeito, contudo, depende também da trajetória cambial, do risco fiscal e das expectativas de inflação de cada economia.

Inflação, atividade e risco fiscal entram na precificação

A decisão brasileira ocorre em um momento no qual a inflação corrente apresenta melhora, mas continua acima da meta central de 3%. A política monetária brasileira trabalha com um conjunto de riscos que inclui expectativas de inflação desancoradas, comportamento dos preços de serviços, mercado de trabalho e condições fiscais. O próprio Banco Central vinha destacando esses fatores em seus documentos de política monetária ao longo do ano.

O Relatório de Política Monetária de junho já mostrava que o cenário projetado exigia uma trajetória mais elevada de juros do que a prevista anteriormente. Naquele momento, o caminho incorporado ao cenário do Banco Central apontava para uma Selic de 13,75% no fim de 2026, enquanto as projeções de inflação permaneciam acima da meta.

A materialização desse nível de Selic antes do fim do ano reduz parte da surpresa positiva que poderia ocorrer caso a taxa caísse abaixo desse patamar. Na prática, o mercado passa a concentrar sua atenção menos no tamanho do corte já realizado e mais na duração dos juros em nível restritivo e no comportamento das variáveis que determinarão os próximos passos.

É nesse ponto que a reação dos títulos longos ganha importância. Papéis com vencimentos mais distantes incorporam expectativas para vários anos, e não apenas para a próxima reunião do Copom. Por isso, uma queda de poucos pontos-base nas taxas longas pode refletir mudança nas expectativas sobre inflação e prêmio de risco sem significar necessariamente que o mercado esteja antecipando uma sequência de cortes.

Próxima reunião será acompanhada por mercado e eleições

A próxima reunião ordinária do Copom está prevista para novembro, já depois do calendário eleitoral de outubro. O intervalo até o encontro deverá concentrar dados de inflação, atividade econômica, mercado de trabalho, câmbio e condições financeiras, além da evolução do cenário externo. O calendário oficial do Banco Central prevê a reunião do comitê em 3 e 4 de novembro.

Até lá, a curva de juros deverá continuar incorporando novas informações. Uma parte das instituições consultadas pelo mercado vê estabilidade da Selic em 13,75% até o fim do ano, enquanto outras análises admitem espaço para novas reduções. A divergência decorre principalmente da combinação entre desaceleração da atividade, inflação ainda acima da meta, ambiente externo mais restritivo e incertezas associadas à política fiscal e ao período eleitoral.

Para os títulos do Tesouro, a principal consequência do movimento desta quinta-feira está na redução das taxas exigidas pelo mercado em diferentes vencimentos. Nos papéis prefixados, o recuo chegou a 11 pontos-base no título com vencimento em 2037. Nos títulos indexados ao IPCA, as taxas reais também diminuíram, sobretudo no vencimento de 2032.

A combinação entre corte da Selic e alta dos juros americanos, portanto, produz um mercado de renda fixa no qual os movimentos não dependem apenas da decisão brasileira. A trajetória da inflação, o prêmio de risco doméstico, o comportamento do câmbio e a política monetária dos Estados Unidos permanecem determinantes para a formação das taxas dos títulos públicos nos próximos meses.

Fontes:

Banco Central do Brasil – comunicados e histórico das decisões do Copom, calendário de reuniões e Relatório de Política Monetária de 2026

Federal Reserve – comunicado do FOMC de 16 de setembro de 2026 e decisão sobre a taxa de juros dos Estados Unidos

B3 – cobertura da decisão do Copom e informações sobre a taxa Selic

 

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