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Brasil concentra 60% dos dividendos da América Latina; Vale (VALE3) impulsiona pagamentos

Companhias brasileiras distribuíram US$ 6,3 bilhões no primeiro trimestre de 2026, acima do resultado de México e Chile; mineração ganhou espaço, enquanto recompras de ações perderam força no mercado global.

por Alice Nascimento
21/07/2026 às 18h56
em Mercados
Brasil Concentra 60% Dos Dividendos Da América Latina; Vale (Vale3) Impulsiona Pagamentos - Gazeta Mercantil

O Brasil respondeu por quase 60% dos dividendos distribuídos pelas empresas da América Latina no primeiro trimestre de 2026, consolidando-se como o maior mercado pagador da região. As companhias brasileiras entregaram aproximadamente US$ 6,3 bilhões aos acionistas entre janeiro e março, em um período marcado pelo aumento dos lucros corporativos e pela contribuição de grandes grupos dos setores de mineração, energia e serviços financeiros.

Os números fazem parte da primeira edição do Global Dividend and Buyback Index, elaborado pela Janus Henderson. O levantamento ampliou o tradicional acompanhamento de dividendos da gestora e passou a incluir também as recompras de ações, oferecendo uma leitura mais abrangente sobre a parcela do capital devolvida aos investidores pelas maiores companhias abertas do mundo.

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Em termos subjacentes, os dividendos pagos no Brasil cresceram 9,6% em comparação com o primeiro trimestre de 2025. Esse cálculo exclui distorções provocadas por variações cambiais, alterações nas datas de pagamento e distribuições extraordinárias, permitindo uma comparação mais próxima do desempenho recorrente das empresas.

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Na América Latina, os pagamentos alcançaram aproximadamente US$ 10,5 bilhões. O Brasil ficou à frente do Chile, onde os dividendos somaram cerca de US$ 2 bilhões, e do México, que registrou distribuições de US$ 1,4 bilhão.

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Brasil concentra seis de cada dez dólares distribuídos

A participação brasileira revela o peso das companhias listadas na B3 dentro do mercado de capitais latino-americano. A Bolsa brasileira reúne empresas de grande porte em setores caracterizados por forte geração de caixa e políticas recorrentes de remuneração dos acionistas.

Mineradoras, bancos, produtoras de petróleo, companhias elétricas e grupos de infraestrutura figuram historicamente entre os principais distribuidores de dividendos e juros sobre capital próprio no país.

O crescimento subjacente de 9,6% observado no primeiro trimestre ficou abaixo do avanço de 15% registrado pela América Latina como um todo, mas ocorreu sobre uma base brasileira significativamente maior.

O resultado também foi superior à expansão global dos dividendos em termos nominais. No mundo, as companhias acompanhadas pelo índice distribuíram US$ 424,5 bilhões nos três primeiros meses de 2026, com crescimento de 10,1% sobre o mesmo período do ano anterior.

A comparação exige cautela porque o dado brasileiro subjacente elimina efeitos cambiais, extraordinários e de calendário, enquanto a variação global de 10,1% representa o crescimento nominal em dólares.

Ainda assim, os dois indicadores mostram que os pagamentos permaneceram resistentes mesmo diante dos juros elevados, das tensões geopolíticas e das dúvidas sobre o ritmo de crescimento das principais economias.

Vale amplia remuneração aos acionistas

A Vale (VALE3) esteve entre as companhias que deram sustentação ao volume distribuído no Brasil.

A mineradora pagou R$ 3,581771057 por ação no primeiro trimestre de 2026, ante aproximadamente R$ 2,66 por papel no período equivalente de 2025. A comparação representa um crescimento próximo de 34,5% na remuneração unitária.

O valor pago neste ano foi composto por duas modalidades de proventos. Em 7 de janeiro, a empresa distribuiu R$ 1,244102486 por ação na forma de dividendos.

Em 4 de março, a Vale pagou R$ 0,768133538 por ação em dividendos e outros R$ 1,569535033 por ação em juros sobre capital próprio.

A distinção é importante porque nem todo o montante de R$ 3,58 pode ser classificado tecnicamente como dividendo. Parte da remuneração ocorreu por meio de juros sobre capital próprio, modalidade sujeita a retenção de Imposto de Renda conforme as regras aplicáveis ao beneficiário.

No primeiro trimestre de 2025, a companhia havia pago R$ 2,141847479 por ação em dividendos e R$ 0,520530743 em juros sobre capital próprio, totalizando R$ 2,662378222 por papel.

Vale desembolsa US$ 2,7 bilhões no trimestre

Os resultados financeiros da Vale mostram a dimensão do pagamento dentro da estrutura de capital da companhia.

A mineradora informou que desembolsou US$ 2,7 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio no primeiro trimestre de 2026. O pagamento foi um dos fatores que elevaram a dívida líquida expandida para US$ 17,8 bilhões ao fim de março, crescimento de US$ 2,2 bilhões em relação ao trimestre anterior.

A saída de recursos foi parcialmente compensada pela geração operacional de caixa. A Vale registrou Ebitda proforma de US$ 3,9 bilhões, avanço de 21% em comparação com o primeiro trimestre de 2025.

O fluxo de caixa livre recorrente alcançou US$ 813 milhões, aumento de US$ 309 milhões na comparação anual. A companhia também destinou US$ 74 milhões à recompra de aproximadamente 4,98 milhões de ações durante o período.

Os números mostram que a Vale combinou diferentes formas de retorno ao acionista. Além dos dividendos e juros sobre capital próprio, a empresa reduziu a quantidade de ações disponível por meio de seu programa de recompra.

Mineração lidera crescimento mundial dos dividendos

O desempenho da Vale ocorreu em um trimestre especialmente favorável aos pagamentos do setor de materiais básicos.

Os dividendos distribuídos por empresas desse segmento cresceram 47,1% em relação ao primeiro trimestre de 2025, o maior avanço entre todas as indústrias analisadas pela Janus Henderson.

A gestora atribuiu parte desse desempenho à demanda por minerais considerados estratégicos para a expansão de data centers, semicondutores, redes elétricas e projetos relacionados à inteligência artificial.

Cobre e lítio estão entre os insumos necessários para a construção da infraestrutura tecnológica e energética associada a esses investimentos. A expansão das encomendas e as perspectivas de consumo ampliaram a geração de caixa e a capacidade de distribuição de determinadas produtoras.

Esse movimento não significa que todas as mineradoras tenham apresentado resultados semelhantes. Os pagamentos continuam condicionados aos preços de cada commodity, ao volume produzido, aos investimentos, à dívida e à política de remuneração adotada por cada companhia.

Na América Latina, porém, a presença de grandes produtores de minério de ferro e cobre fez com que a mineração tivesse papel relevante no crescimento dos proventos.

México e Chile completam o grupo dos maiores pagadores

As companhias mexicanas distribuíram aproximadamente US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre.

O Grupo México, conglomerado com operações em mineração, transportes e infraestrutura, apresentou crescimento subjacente de 36,4% nos dividendos, segundo o levantamento.

No Chile, as distribuições chegaram a cerca de US$ 2 bilhões. O mercado chileno também possui forte exposição à mineração, especialmente ao cobre, além de empresas relevantes dos setores financeiro, energético e de infraestrutura.

Somados, Brasil, Chile e México concentraram a maior parte dos dividendos pagos na América Latina no início do ano.

A distribuição regional cresceu 15% em termos subjacentes, ritmo superior ao avanço verificado no Brasil. A diferença foi influenciada pela base de comparação e pelo comportamento de algumas das principais empresas dos mercados mexicano e chileno.

Recompras somam US$ 1,1 bilhão na América Latina

Enquanto os dividendos avançaram, as recompras de ações permaneceram mais limitadas na região.

As empresas latino-americanas destinaram aproximadamente US$ 1,1 bilhão à aquisição de papéis de própria emissão no primeiro trimestre, valor equivalente a pouco mais de 10% dos dividendos pagos no período.

Uma recompra ocorre quando a companhia utiliza recursos disponíveis para adquirir suas próprias ações no mercado. Os papéis podem ser mantidos em tesouraria, empregados em programas de remuneração de executivos ou cancelados posteriormente.

O procedimento reduz a quantidade de ações em circulação quando os papéis são cancelados e pode elevar, de forma proporcional, a participação dos acionistas que permanecem na empresa.

O efeito econômico, entretanto, é diferente do dividendo. Na distribuição de proventos, o investidor recebe diretamente um valor proporcional à sua posição acionária. Na recompra, o benefício potencial depende do impacto da operação sobre a quantidade de ações e sobre o valor dos papéis.

Dividendos globais superam US$ 424 bilhões

No mercado mundial, as companhias distribuíram US$ 424,5 bilhões em dividendos entre janeiro e março, crescimento de 10,1% sobre o primeiro trimestre de 2025.

As recompras de ações alcançaram US$ 425,7 bilhões e ficaram ligeiramente acima dos dividendos em valores absolutos. O montante, no entanto, recuou 3,1% na comparação anual.

Os dados apontam uma divergência na política de retorno de capital. Os dividendos continuaram crescendo, enquanto as empresas passaram a adotar maior seletividade na aquisição de ações próprias.

Os juros elevados aumentam o custo do capital e podem levar as companhias a preservar recursos. As incertezas comerciais, os conflitos geopolíticos e os investimentos necessários em tecnologia e infraestrutura também influenciam a decisão de executar recompras.

Como esses programas são mais flexíveis, as empresas podem reduzir ou interromper as aquisições sem produzir o mesmo sinal negativo normalmente associado ao corte de um dividendo recorrente.

Bancos lideram dividendos e recompras

O setor financeiro foi o maior distribuidor mundial no primeiro trimestre.

Bancos, seguradoras e outras instituições financeiras pagaram US$ 90,8 bilhões em dividendos. O segmento também liderou as recompras de ações, com US$ 110,7 bilhões destinados à aquisição de papéis próprios.

A capacidade de distribuição depende dos lucros, da qualidade das carteiras, das exigências de capital e das regras estabelecidas pelos órgãos reguladores.

Quando uma instituição possui capital acima dos níveis considerados necessários para sustentar suas operações e absorver riscos, parte do excedente pode ser devolvida aos acionistas.

No Brasil, o sistema financeiro possui grande representatividade na B3. Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) estão entre as companhias tradicionalmente acompanhadas por investidores interessados em proventos.

Dividendos dão sinal mais estável que recompras

A Janus Henderson considera que dividendos e recompras devem ser analisados separadamente, embora ambos representem formas de retorno ao acionista.

Os dividendos normalmente decorrem de decisões de longo prazo dos conselhos de administração e precisam estar amparados pela expectativa de geração sustentável de caixa.

Uma redução inesperada pode ser interpretada como sinal de piora financeira ou de menor confiança da administração nos resultados futuros.

As recompras possuem caráter mais discricionário. A companhia pode ampliar as aquisições quando considera suas ações descontadas ou quando possui excesso de liquidez, mas também pode suspender o programa diante de uma deterioração econômica.

Essa flexibilidade transforma a recompra em uma espécie de amortecedor financeiro. Já o dividendo recorrente tende a funcionar como um compromisso mais duradouro com os acionistas.

Gestora projeta avanço de 8,3% em 2026

A Janus Henderson estima que os dividendos globais crescerão 8,3% em 2026, acima dos 6,8% registrados no ano anterior.

Para as recompras, a expectativa é de queda de 1,1%, depois da expansão de 6,1% verificada em 2025.

A projeção para os dividendos está apoiada na resistência dos lucros corporativos. Os principais riscos estão relacionados à permanência dos juros em patamares elevados, às tensões geopolíticas e às pressões enfrentadas por setores dependentes do consumo.

No Brasil, a continuidade dos pagamentos dependerá da geração de caixa das empresas, do comportamento das commodities, do custo do crédito e das decisões de investimento.

O resultado do primeiro trimestre coloca o país em posição de destaque na remuneração dos acionistas da América Latina, mas não garante que o mesmo ritmo será mantido nos próximos períodos. Pagamentos extraordinários, oscilações cambiais e mudanças nos resultados podem alterar a comparação ao longo do ano.

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