A Chilli Beans vai alterar sua estrutura de comando em meio a uma reorganização financeira que já levou a companhia a negociar com bancos, reforçar garantias de uma operação de dívida e enfrentar questionamentos de investidores sobre suas demonstrações financeiras. André Dela Togna assumirá em 1º de outubro como co-CEO da varejista, trabalhando ao lado do fundador Caito Maia. A empresa afirma que o objetivo é avançar em uma negociação amigável com credores para alongar vencimentos e reduzir o custo das dívidas e nega que esteja discutindo um pedido de recuperação judicial.
A chegada do executivo ocorre em um momento no qual documentos do mercado de capitais permitem reconstruir parte da evolução financeira da companhia. A Mustang 25 Participações, holding vinculada às operações da Chilli Beans, informou dívida bruta de R$ 216,1 milhões ao final de 2023. Em 2024, o valor aumentou para aproximadamente R$ 290 milhões, avanço de 34,2% em um ano. Os números de 2024 apresentados na documentação da oferta eram gerenciais e não auditados.
Em 2025, a Mustang buscou recursos no mercado por meio de uma operação de securitização estruturada pela VERT Companhia Securitizadora. Foram colocadas 100 mil debêntures de R$ 1 mil cada, totalizando R$ 100 milhões. Os títulos são lastreados em notas comerciais emitidas pela própria Mustang e vencem em janeiro de 2029.
A operação passou a ocupar papel central na situação financeira do grupo em 2026. Em abril, a VERT convocou os debenturistas para discutir se deveria ocorrer o vencimento antecipado das notas comerciais porque a Mustang não havia enviado as demonstrações financeiras anuais auditadas referentes a 2025. A ausência dos documentos também impediu a verificação dos índices financeiros previstos nos contratos da emissão.
Dívida bruta cresceu 34% antes da captação de R$ 100 milhões
O prospecto utilizado na captação de 2025 oferece uma fotografia detalhada da evolução do passivo da Mustang. A dívida bruta passou de R$ 66,8 milhões em 2021 para R$ 158,2 milhões em 2022 e chegou a R$ 216,1 milhões em 2023. Em 2024, alcançou R$ 289,96 milhões.
A trajetória representa crescimento de mais de quatro vezes em apenas três anos. Parte dessa leitura, contudo, precisa considerar os ativos financeiros disponíveis. O documento indicava dívida líquida ajustada de R$ 26,5 milhões em 2024, contra R$ 58,8 milhões em 2023. A relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda também caiu de 0,69 vez para 0,22 vez naquele intervalo.
O indicador ajustado utilizado pela companhia descontava da dívida bruta caixa, equivalentes de caixa, aplicações financeiras, recursos restritos e contas a receber. Por isso, a diferença entre dívida bruta e dívida líquida é expressiva e impede tratar o passivo bruto isoladamente como medida suficiente da solvência da companhia.
Ainda assim, o cronograma apresentado na oferta mostrava concentração relevante de vencimentos. A documentação previa aproximadamente R$ 154,3 milhões em amortizações em 2025, R$ 66,2 milhões em 2026, R$ 44,4 milhões em 2027 e R$ 10 milhões em cada um dos dois exercícios seguintes. O prazo médio da dívida era de 28 meses, com custo médio correspondente ao CDI acrescido de 5% ao ano.
Esse perfil ajuda a explicar por que o alongamento de vencimentos passou a ser um dos principais objetivos declarados pela administração. Mesmo empresas com operação rentável podem enfrentar dificuldades quando parcelas relevantes da dívida vencem em intervalos curtos e o refinanciamento ocorre a custos elevados.
Debênture de 2025 vence em 2029 e paga DI mais 3,9%
A nova captação foi estruturada para ampliar o prazo de parte das obrigações. A 10ª emissão da VERT, lastreada nas notas comerciais da Mustang, possui vencimento em 29 de janeiro de 2029 e remuneração correspondente a 100% da taxa DI acrescida de juros de 3,9% ao ano.
A emissão começou com valor nominal de R$ 100 milhões. Cada debênture tinha valor inicial de R$ 1 mil e a totalidade de 100 mil papéis prevista na oferta foi colocada no mercado. A operação foi registrada automaticamente na Comissão de Valores Mobiliários e destinada a investidores qualificados.
O modelo adotado significa que a VERT emitiu os títulos aos investidores e utilizou os recursos para adquirir notas comerciais da Mustang. Os créditos decorrentes dessas notas passaram a funcionar como lastro econômico das debêntures. A VERT, portanto, é a emissora formal dos papéis, enquanto a Mustang é a devedora da obrigação que sustenta a estrutura.
Também foram constituídas garantias relacionadas aos recebíveis da operação. Documentação registrada em Barueri mostra cessão fiduciária de direitos creditórios decorrentes da exploração comercial de lojas Chilli Beans, incluindo recursos provenientes de vendas realizadas por cartões de crédito, débito e instrumentos semelhantes.
Na estrutura original, recursos equivalentes a pelo menos 5% do saldo devedor das debêntures deveriam transitar pela conta vinculada prevista nos documentos. Esse tipo de mecanismo aumenta a proteção dos credores, porque parte dos fluxos financeiros do negócio fica vinculada ao serviço da dívida.
Falta de balanço auditado levou credores a discutir vencimento antecipado
O sinal mais concreto de aumento da pressão financeira apareceu neste ano. Em 17 de abril, a VERT publicou edital convocando os debenturistas para assembleia em 7 de maio.
A ordem do dia era direta: os investidores deveriam decidir se aceitariam não decretar o vencimento antecipado das notas comerciais mesmo diante do descumprimento de uma obrigação prevista nos contratos. A Mustang não havia enviado as demonstrações financeiras anuais auditadas de 2025, situação que também impedia a apuração dos índices financeiros utilizados para acompanhar a operação.
O vencimento antecipado é um mecanismo contratual que pode transformar uma dívida com pagamentos distribuídos ao longo de vários anos em uma obrigação imediatamente exigível quando ocorre determinado evento de inadimplemento. Sua eventual aplicação pode produzir pressão elevada sobre a liquidez de uma companhia, especialmente quando envolve um valor relevante em relação ao caixa disponível.
A convocação, por si só, não significa que a dívida tenha sido declarada vencida. O documento oficial comprova que os credores foram chamados a deliberar sobre a manutenção da operação e sobre a concessão de prazo adicional para apresentação das demonstrações financeiras.
A distinção é importante diante das informações que circularam nesta segunda-feira sobre a possibilidade de recuperação judicial da Chilli Beans. Os documentos consultados mostram uma companhia submetida a renegociação financeira e obrigações contratuais relevantes, mas não comprovam a existência de um pedido de recuperação judicial protocolado.
Chilli Beans nega recuperação judicial e diz negociar com bancos
A companhia reagiu às informações publicadas nesta segunda-feira afirmando que não existe discussão sobre um eventual processo de recuperação judicial. Segundo a Chilli Beans, as conversas em andamento são amigáveis e envolvem bancos credores.
O objetivo declarado é alongar os prazos de pagamento e reduzir os juros. A empresa relacionou diretamente a contratação de André Dela Togna a esse projeto de reorganização, afirmando que o executivo assumirá como co-CEO para apoiar operacionalmente Caito Maia.
A divisão de responsabilidades deverá preservar Maia em posição central. O fundador pretende concentrar maior atenção em clientes e franqueados, enquanto o novo executivo reforça o acompanhamento da reorganização financeira e da administração cotidiana da companhia.
A estratégia é distinta de uma recuperação judicial. Em uma renegociação privada, empresa e credores podem alterar vencimentos, taxas, garantias e demais condições sem necessidade de um processo judicial coletivo. A recuperação judicial, por sua vez, ocorre sob supervisão do Judiciário e segue as regras da Lei nº 11.101 para reorganização das obrigações abrangidas pelo procedimento.
Existe também a recuperação extrajudicial, instrumento previsto na mesma legislação, no qual a empresa negocia um plano diretamente com determinadas classes de credores e pode posteriormente buscar sua homologação judicial. A Chilli Beans não informou ter apresentado plano dessa natureza.
Valor de R$ 600 milhões ainda não aparece em documento financeiro oficial
Reportagens publicadas nesta segunda-feira mencionaram estimativas segundo as quais o endividamento do grupo teria alcançado aproximadamente R$ 600 milhões no fim de 2025. Esse número, porém, não aparece nos documentos primários localizados durante a apuração e não foi confirmado pela companhia em sua manifestação.
Por essa razão, o valor não pode ser tratado como dívida oficialmente divulgada. O último número documental comparável encontrado na operação de mercado de capitais é a dívida bruta de R$ 289,96 milhões referente a 2024, acompanhada do alerta de que os dados daquele exercício ainda eram provenientes de informações gerenciais não auditadas.
A ausência das demonstrações financeiras auditadas de 2025, posteriormente registrada no edital da assembleia de debenturistas, torna ainda mais relevante essa diferença. Sem o balanço completo, não é possível determinar apenas pelos documentos públicos consultados quanto o endividamento efetivamente avançou ao longo do último exercício.
É possível confirmar, entretanto, que a estrutura financeira se tornou mais complexa. Além do passivo existente em 2024, houve a captação de R$ 100 milhões em 2025, e investidores chegaram a discutir formalmente consequências contratuais relacionadas à falta das demonstrações auditadas.
Próximo teste será transformar negociação em novo perfil de dívida
A Chilli Beans afirma que a operação comercial segue apresentando sinais positivos. Em sua manifestação, a companhia declarou ter registrado resultado recorde no último Dia dos Pais e projetou crescimento de 10% neste ano. Também informou preparar novos lançamentos, parcerias com marcas de moda e iniciativas regionais.
Esses indicadores comerciais, porém, não substituem a necessidade de equacionar o passivo financeiro. Para uma rede apoiada fortemente em franquias, a capacidade da holding de administrar seus vencimentos pode influenciar investimentos, abastecimento, expansão, marketing e suporte oferecido aos franqueados.
A entrada de Dela Togna em 1º de outubro estabelece um novo marco para a reorganização. A prioridade será converter as negociações atualmente descritas como avançadas pela empresa em condições de dívida compatíveis com a geração de caixa e com a manutenção das operações.
Até que novos documentos financeiros sejam disponibilizados, há duas conclusões sustentadas pelas fontes primárias: a Chilli Beans enfrenta uma renegociação relevante de seus compromissos financeiros e os credores de uma emissão de R$ 100 milhões já foram obrigados a discutir formalmente um descumprimento contratual relacionado às demonstrações de 2025. Ao mesmo tempo, não existe confirmação documental de que a companhia tenha apresentado pedido de recuperação judicial, possibilidade que a própria empresa nega.









