Os Estados Unidos e o Brasil estão em negociações para fechar um acordo federal sobre cadeias de suprimento de minerais críticos, confirmou o Encarregado de Negócios americano Gabriel Escobar nesta quarta-feira (18), em São Paulo — mas o avanço da parceria estratégica entre as duas maiores economias das Américas acontece sob a sombra de um desgaste diplomático que expõe as fragilidades da relação bilateral e coloca em risco um fluxo potencial de bilhões de dólares em investimentos para o território brasileiro.
O cenário é paradoxal: ao mesmo tempo em que Washington sinaliza interesse genuíno em diversificar o acesso global a minerais críticos — reduzindo a dependência das cadeias dominadas pela China —, uma sequência de atritos institucionais entre Brasília e a embaixada norte-americana transformou o que poderia ser um momento de aproximação histórica em um episódio de tensão diplomática com consequências ainda imprevisíveis para a agenda econômica do governo Lula.
A corrida global por minerais críticos e o peso estratégico do Brasil
Para compreender o que está em jogo nessas negociações, é necessário entender o contexto geopolítico que as molda. Minerais críticos — categoria que inclui lítio, nióbio, cobalto, manganês e as chamadas terras raras — são insumos essenciais para a transição energética global. Estão presentes em baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores e sistemas de defesa de alta tecnologia. Quem controla o acesso a essas cadeias de suprimento detém uma vantagem estratégica que vai muito além do campo econômico — adentra o terreno da segurança nacional.
A China entendeu essa equação antes dos demais. Ao longo das últimas três décadas, o país construiu uma posição dominante no processamento de terras raras, controlando hoje mais de 80% da capacidade global de refino desses minerais. Mesmo quando os depósitos estão fisicamente em outros países, é frequentemente na China que o minério bruto é transformado em insumo industrial utilizável. Washington vem tentando desmontar esse monopólio desde o governo Trump — e acelerou a estratégia no governo Biden, com instrumentos como o DFC (Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e o banco EXIM, que já somam US$ 600 milhões investidos no Brasil.
O Brasil reúne atributos que o tornam um ativo singular nessa disputa. O país possui reservas expressivas de nióbio — da qual o Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais conhecidas —, além de depósitos relevantes de lítio, grafite e terras raras. O estado de Goiás, em particular, concentra parte significativa desse potencial: é sede da Serra Verde, única empresa a produzir terras raras comercialmente no Brasil, com apoio americano, e possui reservas de lítio que despertam atenção crescente de investidores internacionais.
As autoridades norte-americanas identificaram mais de 50 projetos de mineração em território brasileiro que poderiam reforçar os esforços internacionais de diversificação do fornecimento. O potencial de investimento, segundo a embaixada dos EUA, é medido em bilhões de dólares — cifra que, no atual contexto fiscal do Brasil, representa não apenas oportunidade econômica, mas também um vetor de pressão política nas negociações.
O fórum de São Paulo e o acordo com Goiás que irritou Brasília
Foi justamente em São Paulo, na sede da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio), que o episódio mais recente desta tensão se materializou. O Fórum Brasil-Estados Unidos sobre Minerais Críticos, organizado pela embaixada americana, reuniu investidores norte-americanos e empresas brasileiras do setor — com a presença de nomes como Citi e Anglo American. O objetivo declarado era fomentar conexões de negócios e sinalizar ao mercado o apetite americano pelo potencial mineral brasileiro.
O problema: representantes do governo federal brasileiro não compareceram. A justificativa oficial foi um conflito de agenda — mas nos bastidores, o contexto é bem mais complexo e politicamente carregado.
Antes mesmo do fórum, Gabriel Escobar assinou, em cerimônia separada, um acordo de cooperação diretamente com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado — adversário político declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um dos nomes cotados para desafiar o petista nas eleições de 2026. O acordo prevê cooperação em mapeamento do potencial mineral, conexão de mineradores locais com tecnologia norte-americana, aprimoramento regulatório e desenvolvimento de capacidades completas de processamento em solo goiano — incluindo separação de terras raras, metalização, produção de ligas e fabricação de ímãs permanentes de neodímio.
Para autoridades federais, a iniciativa foi interpretada como uma manobra deliberada de Washington para contornar o governo central e construir uma relação direta com um aliado político da oposição. “A medida foi vista como uma tentativa de contornar o governo federal”, relatou uma autoridade brasileira que acompanha o processo, em condição de anonimato. O sinal político enviado por essa leitura é corrosivo para qualquer negociação federal: ao legitimar um governador de oposição como interlocutor preferencial em uma pauta estratégica, Washington — ao menos na percepção de Brasília — estaria interferindo indiretamente na dinâmica política interna brasileira.
O episódio Bolsonaro e a sequência de atritos institucionais
O nível de desconforto entre os dois governos já era elevado antes mesmo do fórum de São Paulo. Na semana anterior ao evento, um funcionário americano solicitou autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso. O pedido foi interpretado pelo governo brasileiro como uma tentativa de ingerência em assuntos internos — e Brasília respondeu de forma contundente: barrou a entrada do enviado, alegando “falseamento” dos motivos da visita.
A sequência de eventos gerou um nível de constrangimento diplomático suficiente para motivar o cancelamento formal da participação de autoridades federais no fórum da embaixada — um gesto que, em linguagem diplomática, equivale a uma sinalização de desagrado sem o custo de uma ruptura aberta.
Há ainda outro episódio que ilustra a fragilidade das tratativas. Segundo três fontes ouvidas pela agência Reuters, as autoridades brasileiras receberam em fevereiro uma proposta de memorando de entendimento sobre minerais críticos — mas o documento enviado pelos EUA parecia ser uma cópia de proposta anteriormente enviada a outro país, incluindo o nome errado no texto. O erro foi corrigido posteriormente, mas o deslize deixou uma impressão negativa e alimentou percepções de que o Brasil não estava sendo tratado com a devida prioridade pela administração Trump.
O nó do processamento doméstico e a posição brasileira nas negociações
Por trás dos atritos diplomáticos, há uma questão econômica central que estrutura a posição brasileira nas negociações: o processamento doméstico dos minerais. Para o governo Lula, exportar minério bruto para ser processado no exterior — seja nos EUA, na Europa ou na própria China — representa uma oportunidade perdida de agregação de valor, geração de empregos qualificados e desenvolvimento industrial de longo prazo.
Avançar no processamento doméstico é descrito por um funcionário do Ministério do Comércio Exterior como “uma prioridade” do governo. Não se trata de posição negociável: qualquer acordo sobre minerais críticos que não contemplar o desenvolvimento de capacidade industrial em solo brasileiro dificilmente terá adesão do Palácio do Planalto.
Essa exigência coloca os negociadores americanos diante de uma tensão real. Washington quer acesso garantido às cadeias de suprimento de minerais críticos — mas nem sempre está disposta a transferir tecnologia de processamento avançado, que representa parte significativa do valor estratégico desses acordos. Países como o Chile e a Argentina, que assinaram acordos similares com os EUA, enfrentaram versões distintas desse dilema.
O acordo com Goiás, paradoxalmente, aponta para um caminho de solução: ao incluir explicitamente o desenvolvimento de capacidades de processamento em solo goiano — separação de terras raras, fabricação de ímãs de neodímio —, o documento sinaliza que Washington está, ao menos em tese, disposta a aceitar a lógica de agregação de valor local. Se essa disposição se confirmar nas negociações federais, um dos principais obstáculos brasileiros à assinatura de um memorando poderá ser removido.
Trump, Lula e a reunião que não aconteceu
As negociações sobre minerais críticos estavam inseridas em um contexto político mais amplo: a expectativa de uma reunião entre o presidente Lula e o presidente Donald Trump em Washington, prevista para ocorrer neste mês de março. O encontro, que poderia dar um impulso decisivo às tratativas bilaterais e eventualmente ancorar a assinatura de um acordo federal sobre minerais, foi adiado.
Os motivos são de natureza internacional e doméstica simultaneamente. No plano externo, o conflito envolvendo EUA e Israel com o Irã alterou a agenda de Trump e reduziu o espaço político para compromissos diplomáticos com países da América Latina. No plano bilateral, o acúmulo de atritos — o episódio Bolsonaro, a interpretação negativa do acordo com Caiado, o memorando com nome errado — criou um ambiente desfavorável para um encontro de cúpula que exigiria a entrega de resultados concretos.
O adiamento não significa ruptura. As negociações sobre minerais críticos continuam, segundo Escobar, com o escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) como interlocutor central. Mas o timing importa: cada mês de impasse é um mês em que outros países avançam na construção de acordos com Washington — e eventualmente se posicionam de forma mais vantajosa para capturar os investimentos americanos que o Brasil também cobiça.
Entre Goiás e Brasília: o risco de uma estratégia americana que fragmenta o interlocutor
O movimento americano de avançar acordos com estados federados enquanto as negociações federais emperram não é exclusividade da relação com o Brasil. Trata-se de uma estratégia conhecida — e com riscos para ambos os lados. Para os EUA, negociar com governadores de oposição pode gerar acordos de menor alcance jurídico e maior fragilidade institucional, uma vez que iniciativas estratégicas de escala nacional exigem, em última instância, a participação do governo federal.
Para o Brasil, o risco é diferente: a fragmentação da interlocução enfraquece o poder de barganha do governo central e abre espaço para que estados entrem em competição entre si para atrair investimentos americanos, eventualmente oferecendo condições fiscais e regulatórias mais favoráveis ao custo de menor retorno ao erário nacional.
A questão regulatória é outro nó. O arcabouço legal brasileiro para concessão e exploração de minerais críticos ainda carece de clareza em alguns pontos, especialmente no que diz respeito ao licenciamento ambiental de projetos de grande escala em biomas sensíveis. Qualquer acordo federal que envolva aumento significativo da produção mineral precisará enfrentar esse desafio — e a velocidade com que o Brasil conseguir avançar nessa agenda regulatória pode ser determinante para o interesse dos investidores americanos.
O relógio da geopolítica não para: o que está em jogo para o Brasil
A janela de oportunidade para o Brasil na corrida global por minerais críticos é real, mas não permanente. A estratégia americana de diversificação de cadeias de suprimento está sendo executada simultaneamente em múltiplas frentes — com países africanos, com parceiros asiáticos como Japão, Austrália e Índia, e com vizinhos latino-americanos. O Brasil compete nesse cenário com suas reservas excepcionais, mas também carrega o peso de uma burocracia regulatória complexa, instabilidade jurídica percebida por investidores externos e, agora, um momento de atrito diplomático que não contribui para a imagem de parceiro confiável e previsível.
A disputa geopolítica em torno dos minerais críticos é, em última instância, uma disputa sobre qual modelo de desenvolvimento industrial prevalecerá nas próximas décadas. O Brasil tem a matéria-prima. Os EUA têm o capital e a tecnologia. A China tem a cadeia de processamento consolidada. O acordo que eventualmente sair das negociações entre Brasília e Washington — se sair — determinará em qual desses polos o Brasil se posicionará de forma estrutural, com consequências que se estenderão muito além dos mandatos dos líderes que hoje sentam à mesa.
Escobar resumiu a posição americana com pragmatismo: “Temos uma proposta para um acordo em nível federal. Estamos discutindo, tivemos algumas discussões preliminares, mas ainda estamos esperando.” A espera, por ora, corre por conta de ambos os lados.










