Endereços de criptomoedas associados a atividades ilícitas receberam cerca de US$ 154 bilhões em 2025, valor equivalente a aproximadamente R$ 800 bilhões, em um avanço de 161% sobre o ano anterior, segundo levantamento da Chainalysis. O crescimento foi impulsionado principalmente pela evasão de sanções internacionais, pela profissionalização das redes de lavagem de dinheiro e pela expansão de estruturas criminosas que passaram a utilizar serviços próprios para movimentar ativos digitais em escala global.
O número representa um recorde para o mercado ilícito de criptomoedas, mas não deve ser interpretado como dinheiro movimentado exclusivamente por facções ou organizações criminosas tradicionais. A estimativa inclui valores recebidos por entidades sancionadas, governos e agentes estatais que tentam contornar restrições financeiras, além de golpes, roubos, mercados clandestinos, tráfico de drogas e serviços especializados em lavagem de dinheiro.
A maior parcela do aumento veio de operações ligadas à evasão de sanções. Segundo a Chainalysis, entidades e jurisdições submetidas a restrições internacionais receberam aproximadamente US$ 104 bilhões em criptoativos durante 2025, alta de 694% em relação ao ano anterior.
A expansão mostra que as criptomoedas deixaram de ser usadas apenas em operações criminosas isoladas e passaram a integrar estruturas financeiras mais sofisticadas. Redes internacionais oferecem atualmente conversão de moedas, transferência entre blockchains, pulverização de recursos, contas de passagem e retirada de valores em dinheiro ou ativos tradicionais.
O Brasil aparece com destaque nesse cenário por possuir o maior mercado de criptomoedas da América Latina. Entre julho de 2024 e junho de 2025, endereços e serviços ligados ao país receberam US$ 318,8 bilhões em ativos digitais, quase um terço de todo o volume registrado na região.
Esse dado corresponde ao mercado brasileiro total, incluindo negociações legítimas, investimentos, pagamentos e transferências. Ainda assim, o tamanho e a liquidez do ecossistema tornam o país relevante para autoridades que acompanham lavagem de dinheiro, evasão de divisas e movimentações ligadas ao crime organizado.
Evasão de sanções responde pela maior parte do salto
O avanço para US$ 154 bilhões foi provocado principalmente pelo crescimento das transações envolvendo governos, empresas, bancos, exchanges e pessoas submetidas a sanções econômicas.
A utilização de ativos digitais permite que determinados agentes movimentem recursos fora de parte da infraestrutura financeira tradicional, composta por bancos correspondentes, sistemas internacionais de pagamento e instituições sujeitas a regras de bloqueio.
Em 2025, a evasão de sanções impulsionada por Estados movimentou aproximadamente US$ 104 bilhões. O valor representa mais de dois terços do volume ilícito identificado pela Chainalysis durante o ano.
A Rússia e o Irã aparecem entre os principais focos de atenção. Os dois países enfrentam restrições impostas pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outras economias, o que aumenta o interesse por sistemas alternativos de pagamento.
Uma das estruturas mais relevantes foi a stablecoin A7A5, vinculada ao rublo. O ativo digital processou US$ 93,3 bilhões em menos de um ano, funcionando como ponte para empresas e intermediários russos acessarem mercados internacionais.
As stablecoins são criptomoedas desenvolvidas para manter valor próximo ao de uma moeda convencional ou outro ativo. Sua estabilidade relativa, liquidez e facilidade de transferência tornaram esses instrumentos particularmente úteis para pagamentos internacionais.
O uso estatal de criptomoedas muda a escala do problema. Em vez de operações fragmentadas conduzidas apenas por hackers ou traficantes, o mercado passa a incluir infraestruturas criadas para atender interesses econômicos e geopolíticos.
Redes chinesas controlam parte relevante da lavagem
Outro fenômeno identificado pela Chainalysis é o crescimento das chamadas redes de lavagem de dinheiro operadas em língua chinesa, conhecidas pela sigla CMLNs.
Essas estruturas oferecem serviços financeiros clandestinos para traficantes, fraudadores, operadores de cassinos ilegais, organizações criminosas e agentes interessados em ocultar ou transferir recursos.
As redes chinesas processaram US$ 16,1 bilhões em 2025, o equivalente a aproximadamente US$ 44 milhões por dia. A Chainalysis identificou mais de 1.799 carteiras ativas vinculadas a esse ecossistema.
Ao longo dos últimos cinco anos, essas redes passaram a responder por cerca de 20% da lavagem conhecida de criptomoedas. A expansão foi significativamente mais rápida do que o crescimento dos fluxos ilícitos direcionados às exchanges centralizadas.
A operação costuma envolver diferentes prestadores especializados. Alguns recebem os ativos, outros os transferem entre blockchains, misturam os recursos, convertem stablecoins ou organizam a retirada em moeda convencional.
Essa divisão de funções aproxima o modelo das estruturas empresariais. Em vez de um único grupo controlar todo o processo, existe uma cadeia de fornecedores que oferece lavagem de dinheiro como serviço.
A profissionalização torna a investigação mais complexa. O dinheiro pode passar por dezenas de carteiras, protocolos descentralizados, pontes entre redes e exchanges localizadas em diferentes países antes de chegar ao beneficiário final.
Lavagem em blockchain supera US$ 82 bilhões
O volume movimentado especificamente pelo ecossistema de lavagem de dinheiro em blockchain superou US$ 82 bilhões em 2025, segundo a Chainalysis.
Esse recorte é diferente dos US$ 154 bilhões recebidos por todos os endereços classificados como ilícitos. A lavagem corresponde à etapa posterior, na qual criminosos e outros agentes tentam ocultar a origem, a propriedade ou a destinação dos recursos.
Em 2020, o mercado conhecido de lavagem em blockchain movimentava cerca de US$ 10 bilhões. O salto para mais de US$ 82 bilhões em cinco anos mostra como a infraestrutura se tornou mais acessível, diversificada e líquida.
A expansão também acompanha o amadurecimento do mercado legítimo. Quanto maior o número de exchanges, protocolos, stablecoins e redes disponíveis, maior a quantidade de caminhos que pode ser explorada para movimentar dinheiro.
A transparência das blockchains, no entanto, cria um elemento que não existe com a mesma intensidade no dinheiro em espécie: a maioria das transações permanece registrada de forma permanente.
Empresas de inteligência conseguem analisar os caminhos percorridos pelos ativos, agrupar carteiras, identificar padrões e associar endereços a entidades conhecidas.
O desafio surge quando os recursos passam por serviços de mistura, moedas de privacidade, plataformas sem controle adequado ou redes mantidas em jurisdições com pouca cooperação internacional.
Golpes e fraudes roubam US$ 17 bilhões
Além da evasão de sanções e da lavagem, golpes e fraudes continuaram entre as principais fontes de criptomoedas ilícitas em 2025.
A Chainalysis estima que aproximadamente US$ 17 bilhões foram roubados por meio de fraudes durante o ano. O crescimento foi associado à industrialização das operações criminosas e ao uso de inteligência artificial.
Golpistas passaram a empregar vídeos manipulados, vozes clonadas, perfis falsos e mensagens personalizadas para se passar por executivos, instituições financeiras, autoridades, familiares ou celebridades.
As fraudes de personificação cresceram de forma particularmente acelerada. Em muitos casos, as vítimas são induzidas a transferir criptomoedas para carteiras controladas pelos criminosos sob a promessa de investimento, liberação de prêmio ou solução de problema inexistente.
Também ganharam espaço as plataformas falsas de investimento. O usuário acompanha durante semanas um saldo fictício crescer em um aplicativo ou site, mas descobre que não consegue retirar os recursos quando tenta realizar o saque.
A inteligência artificial reduziu o custo de produção dessas fraudes. Um mesmo grupo consegue criar milhares de mensagens, imagens, identidades e interações em diferentes idiomas.
Segundo a Chainalysis, operações com uso de inteligência artificial apresentaram rentabilidade 4,5 vezes maior do que golpes tradicionais.
Brasil lidera mercado latino-americano de criptoativos
O Brasil recebeu US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025, consolidando-se como o maior mercado da América Latina.
O volume corresponde a quase um terço de toda a atividade regional registrada em blockchain. A movimentação inclui operações realizadas por investidores individuais, fundos, empresas, bancos, exchanges e plataformas de ativos digitais.
O crescimento brasileiro é sustentado pela ampla adoção de stablecoins, procura por investimentos, remessas internacionais e integração crescente entre instituições financeiras tradicionais e empresas de tecnologia.
O Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários, a Receita Federal, a Polícia Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras acompanham a evolução do setor e os riscos associados.
O mercado brasileiro não deve ser confundido com o fluxo ilícito global. Os US$ 318,8 bilhões representam toda a atividade recebida pelo país, enquanto os US$ 154 bilhões correspondem a endereços ilícitos identificados mundialmente.
A relevância do Brasil decorre justamente da combinação entre escala, liquidez e conexões internacionais. Grandes mercados podem ser usados tanto por investidores legítimos quanto por agentes interessados em integrar recursos ilegais ao sistema financeiro.
PCC e grupos transnacionais usam ativos digitais
Investigações brasileiras já identificaram o uso de criptomoedas por organizações como o Primeiro Comando da Capital, o PCC, além de grupos estrangeiros com presença na América Latina.
Os ativos digitais podem ser empregados para pagamentos internacionais, compra de mercadorias ilegais, transferência de valores entre países e ocultação de patrimônio.
A Chainalysis cita ainda o Tren de Aragua, organização criminosa de origem venezuelana que expandiu sua presença por diferentes países da região.
A utilização de criptomoedas não substituiu totalmente o dinheiro em espécie, empresas de fachada, imóveis, joias e outros instrumentos tradicionais de lavagem. Os ativos digitais passaram a funcionar como mais uma camada dentro de estruturas financeiras diversificadas.
Uma organização pode receber dinheiro em espécie, convertê-lo em stablecoins, enviá-lo para outro país e posteriormente adquirir bens ou moeda convencional.
A velocidade das transferências e a possibilidade de operar durante 24 horas tornam os criptoativos atraentes para grupos que precisam mover valores entre diferentes jurisdições.
Ao mesmo tempo, as transações deixam rastros permanentes. A identificação das carteiras e dos beneficiários pode permitir o bloqueio ou a apreensão dos recursos quando há cooperação entre autoridades e plataformas.
Stablecoins ganham espaço nas operações ilegais
As stablecoins assumiram papel central no ecossistema ilícito porque oferecem menor volatilidade do que criptomoedas como bitcoin e ether.
Um criminoso que mantém valores em bitcoin está sujeito a fortes oscilações de preço. Já ativos vinculados ao dólar preservam melhor o poder de compra durante o processo de transferência e lavagem.
Essas moedas também costumam apresentar alta liquidez e são aceitas em diferentes exchanges, plataformas e redes blockchain.
O crescimento das stablecoins levou emissores e autoridades a reforçar mecanismos de bloqueio. Empresas responsáveis por determinados ativos conseguem congelar unidades vinculadas a endereços incluídos em sanções ou investigações.
Essa possibilidade cria uma disputa entre criminosos e autoridades. Enquanto as organizações buscam novas redes, serviços e moedas, investigadores tentam identificar os fluxos antes que o dinheiro seja convertido ou pulverizado.
A adoção de stablecoins por empresas e consumidores legítimos também dificulta respostas excessivamente amplas. Reguladores precisam combater operações ilícitas sem impedir usos legítimos da tecnologia.
Blockchain facilita transferência, mas também deixa rastros
A percepção de que criptomoedas são completamente anônimas não corresponde ao funcionamento da maior parte das blockchains.
Redes como Bitcoin e Ethereum mantêm registros públicos das transações. Qualquer pessoa pode verificar o envio dos ativos, o valor movimentado e os endereços envolvidos.
O que não aparece automaticamente é a identidade real do proprietário de cada carteira. Essa informação pode ser obtida quando o endereço interage com uma exchange, instituição financeira ou plataforma que realiza identificação de clientes.
Ferramentas de análise também agrupam endereços e reconhecem padrões de comportamento. Dessa forma, investigadores podem reconstruir redes de pagamentos mesmo anos depois das transações.
A principal dificuldade está nos serviços que ocultam a origem dos fundos, nas negociações realizadas diretamente entre pessoas e nas plataformas localizadas em países que não cooperam com investigações.
Criminosos também utilizam múltiplas redes e pontes entre blockchains para dificultar o acompanhamento. Cada transferência aumenta o volume de dados que precisa ser analisado, mas não necessariamente elimina o rastro.
Crescimento do crime pressiona regulação brasileira
A escala das transações ilícitas amplia a pressão por regras mais rígidas para exchanges, bancos, fintechs e prestadores de serviços com ativos virtuais.
No Brasil, a regulação busca estabelecer requisitos de autorização, governança, identificação de clientes, segregação patrimonial e prevenção à lavagem de dinheiro.
As plataformas deverão monitorar operações incompatíveis com o perfil dos usuários, comunicar movimentações suspeitas e manter registros capazes de auxiliar investigações.
O desafio é acompanhar um mercado que funciona globalmente. Uma carteira pode ser criada em poucos minutos, enquanto uma plataforma pode manter estrutura jurídica em um país e servidores em outro.
A cooperação internacional se torna indispensável para identificar beneficiários, congelar valores e obter informações mantidas por empresas estrangeiras.
O crescimento das operações ilícitas também pode elevar os custos de conformidade para o setor. Exchanges precisarão investir mais em tecnologia, equipes especializadas e análise de risco.
Ao mesmo tempo, controles mais fortes podem aumentar a confiança de investidores institucionais e aproximar os criptoativos do sistema financeiro tradicional.
Recorde ilícito coloca Brasil no centro do combate financeiro
O salto para US$ 154 bilhões mostra que o uso criminoso de criptomoedas entrou em uma nova fase. A atividade passou a incluir não apenas golpes e mercados clandestinos, mas infraestruturas sofisticadas ligadas a Estados, redes internacionais de lavagem e organizações transnacionais.
O Brasil ocupa posição relevante nesse cenário por liderar o mercado latino-americano e receber US$ 318,8 bilhões em ativos digitais no período analisado.
O volume brasileiro não representa dinheiro ilícito, mas evidencia a dimensão do ecossistema que autoridades e empresas precisam supervisionar.
A combinação entre mercado amplo, uso crescente de stablecoins e conexões com o sistema financeiro internacional aumenta a responsabilidade de exchanges, bancos e órgãos públicos.
Para investidores, a expansão do crime reforça a necessidade de utilizar plataformas autorizadas, verificar a origem das ofertas e desconfiar de promessas de retorno garantido.
Para as autoridades, o desafio será impedir que a inovação financeira se transforme em infraestrutura permanente de lavagem, fraude e evasão de sanções.
O registro público das blockchains oferece uma vantagem investigativa, mas o volume, a velocidade e a internacionalização das operações exigem cooperação e tecnologia em escala semelhante à adotada pelas redes criminosas.











