As criptomoedas deixaram de ser um produto concentrado em investidores de alta renda, programadores e usuários habituados a corretoras especializadas. Cerca de 29 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais afirmam já ter investido em criptoativos, o equivalente a 17,2% dessa população, segundo a 2ª Pesquisa Nacional das Criptomoedas, realizada pela Paradigma Education em parceria com o Datafolha. O levantamento mostra que a disseminação ocorreu principalmente entre pessoas de renda média e baixa e, em uma mudança relevante para a estrutura desse mercado, através dos aplicativos de bancos tradicionais.
Entre aqueles que declararam já ter investido em criptomoedas, 77,6% têm renda de até três salários mínimos, enquanto 89,4% recebem até cinco salários mínimos. Os números contrariam a imagem do investidor cripto como alguém necessariamente de renda elevada e mostram que a adoção dos ativos digitais avançou justamente em uma parcela da população que possui menor capacidade financeira para absorver grandes perdas.
A pesquisa foi realizada presencialmente entre 11 e 14 de maio de 2026, com 2.004 entrevistados de 16 anos ou mais em 137 municípios das cinco regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para o total da amostra, com nível de confiança de 95%. O levantamento considera pessoas que já investiram, o que não significa necessariamente que todas mantenham criptomoedas atualmente.
Cerca de 22 milhões de investidores em cripto ganham até três salários mínimos
A dimensão dos percentuais ajuda a mostrar a mudança de perfil. Aplicados ao universo estimado de 29 milhões de pessoas que já investiram em criptomoedas, os 77,6% com renda de até três salários mínimos equivaleriam a aproximadamente 22,5 milhões de brasileiros.
No grupo que recebe até cinco salários mínimos, a equivalência chega a cerca de 25,9 milhões de pessoas. Os valores são aproximações obtidas a partir das proporções da pesquisa, e não uma contagem individual da população, mas permitem dimensionar a concentração dos investidores nas faixas de menor renda.
Essa característica muda parte da discussão sobre o crescimento do mercado. Quando a exposição a um ativo de elevada volatilidade alcança milhões de pessoas com renda limitada, educação financeira, transparência sobre riscos e qualidade da informação deixam de ser preocupações restritas ao mercado especializado.
O Banco Central passou a submeter as prestadoras de serviços de ativos virtuais a um arcabouço regulatório próprio. Entre as regras estão requisitos para autorização de funcionamento, controles internos, critérios de oferta de ativos e mecanismos de separação entre os criptoativos pertencentes às empresas e aqueles mantidos em nome de clientes. A regulamentação também prevê políticas específicas para custódia e mecanismos de prova de reservas.
Dois em cada três brasileiros já conhecem criptomoedas
A disseminação vai além de quem efetivamente colocou dinheiro nesse mercado. A pesquisa aponta que 66,4% dos brasileiros conhecem criptomoedas, percentual equivalente a aproximadamente dois de cada três integrantes da população pesquisada.
A taxa avançou 10,1 pontos percentuais em relação à edição anterior do levantamento. Pela base populacional implícita nos dados da pesquisa, essa diferença representa aproximadamente 17 milhões de pessoas que passaram a conhecer o tema em cerca de 15 meses.
O salto é estatisticamente relevante. Uma alta de 10,1 pontos percentuais é cinco vezes maior do que a margem de erro de dois pontos indicada para o levantamento, ainda que comparações entre edições dependam também da manutenção da metodologia amostral.
O Bitcoin (BTC) continua sendo praticamente sinônimo de criptomoeda para a maior parte da população. Ele é conhecido por 60,7% dos brasileiros, enquanto o Ethereum (ETH) aparece com 11,1%. O Drex, projeto de infraestrutura financeira digital desenvolvido pelo Banco Central, é citado por 10,3%.
A relação entre os números é reveladora. Se 66,4% conhecem criptomoedas e 60,7% conhecem Bitcoin, isso significa que o conhecimento sobre BTC corresponde a aproximadamente 91% do universo representado pelas pessoas que dizem conhecer o mercado cripto, quando se comparam diretamente os dois percentuais. A associação entre a classe de ativos e sua maior moeda continua, portanto, muito forte.
Cripto já supera ações com ampla margem entre brasileiros
O levantamento estima que 17,2% da população com 16 anos ou mais já investiu em criptomoedas. A proporção é superior aos 7,4% que declararam investimento em ações, diferença de 9,8 pontos percentuais. No ponto central das estimativas, isso significa uma taxa de participação em cripto aproximadamente 2,3 vezes maior do que em ações.
A comparação com CDBs e títulos públicos precisa de mais cautela. Esses investimentos aparecem com 15,1%, diante dos 17,2% registrados para criptoativos. Embora a estimativa central coloque criptomoedas à frente, a diferença é de apenas 2,1 pontos percentuais, praticamente equivalente à margem de erro de dois pontos da pesquisa. Por isso, os números não permitem tratar essa pequena vantagem como uma distância estatisticamente inequívoca.
Já a diferença em relação às ações é muito mais ampla.
O dado também precisa ser interpretado levando em conta a pergunta realizada. A pesquisa considera quem já investiu em cada classe, e não necessariamente o número de investidores que possui cada ativo atualmente ou o volume financeiro mantido em carteira. Uma pessoa que comprou R$ 50 em Bitcoin há alguns anos e depois vendeu pode estar dentro do primeiro grupo, enquanto o patrimônio investido em outras categorias pode ser muito maior.
Bancos substituem corretoras como caminho de entrada
Talvez a transformação mais relevante mostrada pela pesquisa esteja no canal utilizado para comprar criptomoedas. Entre os investidores entrevistados, 83% afirmam já ter utilizado o aplicativo do próprio banco para acessar criptoativos. Apenas 20% mencionam corretoras especializadas.
Aplicado, novamente, ao universo estimado de 29 milhões de pessoas que já investiram, o percentual dos bancos equivaleria a aproximadamente 24 milhões de brasileiros. Como um mesmo investidor pode utilizar mais de um canal, os grupos não devem ser somados.
Há poucos anos, comprar Bitcoin normalmente exigia abrir conta em uma exchange, transferir dinheiro e lidar com uma interface diferente daquela utilizada para pagamentos e investimentos tradicionais. A entrada dos grandes bancos e plataformas financeiras reduziu essa barreira.
O ativo digital passou a aparecer na mesma tela em que o usuário consulta saldo, faz Pix, compra CDB ou investe em fundos. Essa mudança de distribuição ajuda a explicar como uma tecnologia inicialmente associada a ambientes especializados conseguiu alcançar parcelas tão amplas da população.
A evolução regulatória também aproxima os dois mundos. O Banco Central definiu em 2025 regras para prestadores de serviços de ativos virtuais e passou, em 2026, a aprofundar os requisitos prudenciais aplicáveis ao setor. A partir de 2027, essas sociedades passarão a observar exigências adicionais de capital, gerenciamento de riscos e divulgação de informações, em transição definida pelo regulador.
Popularidade cresce, mas 77% ainda consideram cripto difícil
Conhecer não significa compreender. Entre os brasileiros que afirmam conhecer criptomoedas, 77% ainda consideram a tecnologia complexa. Entre aqueles que nunca investiram, 42% dizem que não entendem suficientemente o tema para realizar uma aplicação.
É um contraste importante. O mercado conseguiu ampliar fortemente sua exposição à população, mas parte significativa do público ainda não se considera tecnicamente preparada para utilizá-lo.
Ao mesmo tempo, quase 60% das pessoas que conhecem criptomoedas dizem acreditar que elas podem ser uma boa forma de diversificar investimentos. Entre jovens de 16 a 24 anos, esse percentual sobe para 78%.
A resposta mede a percepção dos entrevistados e não significa que a classe seja adequada para todos os perfis. Criptoativos podem apresentar variações bruscas de preço, riscos tecnológicos e características distintas entre os milhares de ativos disponíveis no mercado.
Centro-Oeste salta de 47% para 72,8% de conhecimento
Regionalmente, o maior avanço ocorreu no Centro-Oeste. A parcela da população que conhece criptomoedas chegou a 72,8%, após crescimento de 25,8 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
A conta indica que o conhecimento na região estava próximo de 47% na edição anterior. Em aproximadamente 15 meses, portanto, a parcela que declara conhecer cripto passou de menos da metade para quase três quartos da população pesquisada.
O Centro-Oeste também aparece com maior familiaridade com temas ligados à autocustódia e com ativos como Tether e Drex, segundo a pesquisa.
O avanço da Tether e de outras stablecoins merece atenção porque os dados tributários mostram que elas assumiram um papel diferente daquele tradicionalmente associado ao Bitcoin. A Receita Federal informou em julho que stablecoins já respondiam por cerca de 80% do volume de criptoativos declarado no Brasil, após terem representado apenas 3,5% em 2019 e alcançado, em determinados períodos, mais de 90%.
Isso sugere duas frentes distintas no mercado brasileiro. Uma é formada pelo investimento e pela exposição a ativos como Bitcoin. Outra envolve moedas digitais vinculadas ao dólar ou a outros ativos, utilizadas também para movimentação de recursos e proteção cambial.
Receita amplia rastreamento das operações com criptoativos
O crescimento da adoção ocorre simultaneamente à ampliação do controle regulatório e tributário.
As operações realizadas a partir de julho de 2026 passaram a ser informadas à Receita Federal dentro da DeCripto, nova obrigação instituída pela Instrução Normativa nº 2.291. O sistema substitui e amplia a estrutura anterior de coleta de informações e adapta o Brasil ao padrão internacional Crypto-Asset Reporting Framework, desenvolvido pela OCDE.
Na prática, a popularização das criptomoedas está sendo acompanhada por sua progressiva incorporação ao sistema financeiro formal. Bancos passaram a vender os ativos, o Banco Central criou regras específicas para as empresas do setor e a Receita ampliou o monitoramento das operações.
A combinação desses movimentos ajuda a explicar por que o investidor de criptomoedas de 2026 é diferente daquele de poucos anos atrás.
Ele não necessariamente utiliza uma corretora estrangeira, domina conceitos de blockchain ou possui renda elevada. Pode receber até três salários mínimos, comprar uma pequena quantidade de Bitcoin dentro do aplicativo bancário e nunca retirar o ativo para uma carteira própria.
É justamente nesse ponto que a pesquisa revela sua principal mudança estrutural. O mercado cripto brasileiro não apenas cresceu. Ele atravessou a fronteira do nicho.
Com cerca de 29 milhões de pessoas que afirmam já ter investido, aproximadamente 22,5 milhões delas concentradas na faixa de até três salários mínimos e quase dois terços da população declarando conhecer o tema, a discussão sobre criptomoedas deixou de ser apenas sobre tecnologia ou especulação financeira.
Passou a ser também uma discussão de mercado de massa, distribuição bancária, educação financeira e regulação.
Fontes: Paradigma Education e Datafolha — 2ª Pesquisa Nacional das Criptomoedas; Banco Central do Brasil — regulamentação das sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais; Receita Federal — dados sobre operações com criptoativos e implementação da DeCripto.









