O Banco Digimais, controlado por Edir Macedo, aplicou R$ 271,4 milhões no Fundo Betel, veículo cuja carteira estava concentrada em antigos certificados de ações do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses documentos físicos, conhecidos como cártulas, deixaram de representar participação societária depois da incorporação do banco catarinense pelo Banco do Brasil, em 2008. Receita Federal e Tesouro Nacional alertam oficialmente que os papéis remanescentes têm apenas valor histórico.
O valor atribuído ao Betel chama atenção pela dimensão em relação ao Digimais. Os R$ 271,4 milhões equivalem a cerca de 82% do patrimônio líquido de R$ 330,9 milhões registrado pela instituição financeira em junho deste ano. Dados mais recentes do fundo também mostram patrimônio na casa dos R$ 271 milhões e apenas um cotista.
Documentação encaminhada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) à CPI do Crime Organizado do Senado indicava o Digimais como único cotista do Betel até janeiro de 2026. O banco, porém, afirma que o fundo deixou de integrar seu portfólio em outubro de 2025. A diferença entre as duas informações deixa em aberto quando ocorreu a saída da instituição, quem adquiriu as cotas e por qual valor a eventual transferência foi realizada.
Fundo tinha praticamente todo o patrimônio concentrado nos ativos do Besc
O Betel foi constituído em abril de 2025 e inicialmente usava a denominação PNG International Bank. Dois meses depois, em junho, ocorreu uma emissão de cotas adquiridas pelo Digimais e o fundo passou a adotar o nome atual.
A partir de julho de 2025, registros da carteira passaram a indicar a presença dos ativos relacionados ao antigo Besc. O patrimônio permaneceu próximo de R$ 271 milhões durante o período seguinte. Em julho de 2026, o fundo declarou patrimônio líquido de R$ 271,03 milhões, praticamente estável em relação aos R$ 271,38 milhões registrados um ano antes.
O Betel era administrado pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, posteriormente denominada CBSF DTVM, e gerido pela Reag Portfólio Solutions. A estrutura fazia parte do conjunto de fundos sobre os quais a CPI do Crime Organizado solicitou à CVM informações a respeito dos beneficiários finais.
Em março, o Senado aprovou requerimento para que CVM, Banco Central, Receita Federal e Anbima identificassem os beneficiários de fundos exclusivos ou restritos vinculados, administrados ou geridos pelo Banco Master ou pela Reag. A CVM respondeu formalmente ao pedido em abril.
Os ativos presentes no Betel têm origem em certificados físicos de ações do Besc. Quando o banco catarinense foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, seus acionistas receberam ações eletrônicas do BB em substituição às participações que possuíam.
Os documentos físicos, entretanto, não precisaram ser devolvidos. Com isso, permaneceram em circulação cártulas que originalmente representavam ações, mas que já haviam sido substituídas por registros eletrônicos.
Uma cartilha oficial de combate a fraudes publicada pela Receita Federal, com participação do Tesouro Nacional e de outros órgãos públicos, afirma que os antigos papéis perderam seu valor societário. O documento registra que nenhum ex-acionista do Besc ficou sem a possibilidade de se tornar acionista do Banco do Brasil e alerta para tentativas de negociar essas cártulas por valores elevados como se ainda representassem direitos econômicos.
CVM já apura operações com cártulas do Besc
O uso desses certificados em fundos de investimento já é objeto de procedimento sancionador na CVM. O processo administrativo 19957.015036/2022-31 apura operações realizadas por fundos com cártulas do antigo Besc e envolve, entre os acusados, a Reag Asset Management.
Informações encaminhadas pela própria CVM à Câmara dos Deputados mostram que o inquérito administrativo já foi concluído com apresentação de acusações e que o processo está em fase de julgamento pelo colegiado da autarquia.
Demonstrações financeiras arquivadas na CVM mostram que outros fundos administrados ou geridos pela Reag também carregaram esses papéis. Em um dos casos, auditoria de um fundo registrou que ações do antigo Besc haviam sido avaliadas com base em laudo que atribuiu R$ 75 a cada papel. O auditor chamou atenção para a baixa liquidez e para as incertezas relacionadas à precificação desses ativos.
A presença das cártulas em diferentes estruturas financeiras ganhou relevância após as investigações sobre fundos relacionados ao Banco Master. As autoridades apuram operações nas quais ativos de difícil precificação teriam sido utilizados em estruturas que elevaram o patrimônio contábil de determinados fundos.
Isso não permite concluir que o investimento do Digimais no Betel tenha obedecido à mesma finalidade. Até o momento, não há informação pública de que a Polícia Federal tenha apontado especificamente a aquisição das cártulas pelo Betel como parte de uma fraude praticada pelo Digimais.
A coincidência está no tipo de ativo e na presença da Reag na administração ou gestão dos veículos envolvidos. Essa relação acrescenta uma nova frente de atenção às operações do Digimais no momento em que a própria instituição já é investigada por suspeitas relacionadas à forma como determinados ativos foram registrados em seus demonstrativos financeiros.
Operação Miragem investiga demonstrativos do Digimais
O banco é alvo da Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal em 23 de junho para apurar possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo.
A Justiça autorizou ainda a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões.
Segundo a Polícia Federal, relatórios produzidos pelo Banco Central apontaram indícios de que demonstrativos contábeis e registros regulatórios teriam sido manipulados para ocultar a situação financeira do banco e aparentar solvência perante os órgãos de controle. A investigação também analisa operações consideradas suspeitas envolvendo empresas relacionadas à instituição.
Os fatos estão sob apuração e não representam conclusão de culpa. Entre os crimes investigados estão gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em demonstrações contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela legislação do sistema financeiro.
O Digimais informou, quando a operação foi deflagrada, que permanecia à disposição das autoridades e colaboraria com as investigações.
A identificação do Betel adiciona uma operação de R$ 271,4 milhões ao conjunto de ativos que podem ser confrontados com a situação patrimonial da instituição. Não há, porém, informação pública de que a Polícia Federal tenha incorporado especificamente o fundo ou suas cártulas ao objeto formal da Operação Miragem.
Prejuízo de R$ 581,4 milhões supera patrimônio líquido do banco
Os dados financeiros mais recentes mostram uma deterioração acentuada do resultado do Digimais. O banco encerrou o primeiro semestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 581,4 milhões, ante lucro de R$ 42,1 milhões no mesmo período do ano passado.
O patrimônio líquido ficou em R$ 330,9 milhões em junho, enquanto os ativos totais somavam aproximadamente R$ 9,85 bilhões. As captações estavam em R$ 8,7 bilhões e a carteira de crédito, em aproximadamente R$ 1,5 bilhão.
O prejuízo acumulado nos primeiros seis meses do ano equivale a aproximadamente 176% do patrimônio líquido existente ao final de junho. Entre dezembro de 2025 e junho de 2026, o patrimônio caiu de R$ 787,3 milhões para R$ 330,9 milhões, redução de R$ 456,4 milhões, ou cerca de 58%.
Outro indicador que chama atenção é o Índice de Basileia. Em junho, a taxa estava negativa em 4,62%. O indicador relaciona o capital disponível de uma instituição financeira aos riscos assumidos em suas operações e é utilizado pelo Banco Central na supervisão prudencial.
O Digimais apresentava Patrimônio de Referência negativo em aproximadamente R$ 442,6 milhões naquele mês, segundo os dados prudenciais do Banco Central. O resultado ajuda a dimensionar a pressão sobre a estrutura de capital da instituição no mesmo período em que avançam as investigações sobre seus demonstrativos financeiros.
Nesse quadro, os R$ 271,4 milhões atribuídos ao Fundo Betel equivalem a aproximadamente quatro quintos do patrimônio líquido atual do Digimais. A comparação não significa que o valor do fundo tenha produzido as perdas do banco, mas mostra a dimensão do investimento em relação à capacidade patrimonial hoje registrada pela instituição.
Permanece sem esclarecimento público a cronologia completa da participação do Digimais no Betel. O banco sustenta que deixou o investimento em outubro de 2025, enquanto informações encaminhadas pela CVM ao Senado apontavam participação posterior. A identificação do comprador das cotas, do valor da operação e da forma como os ativos foram contabilizados após a eventual saída pode esclarecer a trajetória dos R$ 271,4 milhões investidos no fundo.
Fontes:
Comissão de Valores Mobiliários – informações encaminhadas à CPI do Crime Organizado sobre beneficiários de fundos vinculados ou administrados pela Reag e registros de fundos de investimento
Senado Federal – Requerimento 253 de 2026 e registros dos documentos enviados pela Comissão de Valores Mobiliários à CPI do Crime Organizado
Comissão de Valores Mobiliários – Processo Administrativo Sancionador 19957.015036/2022-31 sobre operações com cártulas do antigo Besc
Banco Central do Brasil – dados prudenciais e contábeis do Banco Digimais referentes a junho de 2026
Polícia Federal – informações oficiais sobre a Operação Miragem e os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional sob investigação
Banco Central do Brasil – ato de liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antiga Reag Trust
Receita Federal e Tesouro Nacional – cartilha de combate a fraudes e esclarecimentos sobre as antigas ações em cártula do Banco do Estado de Santa Catarina










