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Impactos da Vitória de Donald Trump na Economia Global e no Brasil

por Gabriel Monteiro
06/11/2024 às 09h13
em Economia
Ouro Fecha Em Alta E Renova Máxima Histórica Com Expectativas Sobre Juros - Gazeta Mercantil

Donald Trump foi eleito o 47º presidente dos Estados Unidos nesta quarta-feira (6), derrotando a democrata Kamala Harris, atual vice-presidente do país. A vitória do republicano representa uma mudança significativa para a economia global e para o mercado brasileiro, principalmente em setores como agronegócio, mineração e siderurgia. O resultado da eleição gerou forte reação entre investidores e já influencia projeções sobre o desempenho do mercado financeiro, que tende a reagir às políticas econômicas protecionistas defendidas por Trump.

Propostas Econômicas Protecionistas e Efeitos no Mercado

A nova agenda de Trump se destaca pela forte inclinação ao protecionismo. O presidente eleito fez uma campanha pautada na redução de impostos para grandes corporações e no apoio ao setor de óleo e gás. Além disso, ele pretende aumentar as tarifas de importação, especialmente para produtos chineses, com a intenção de estimular a produção interna americana e reduzir a dependência do mercado externo. Uma das promessas mais impactantes é a elevação das tarifas de importação sobre produtos chineses, que podem chegar a 60%.

Leia também: Pablo Marçal admite que vídeo com Trump foi gravado antes da posse.

Para o mercado global, essa postura traz uma série de desafios e oportunidades. Idean Alves, especialista em mercado de capitais, avalia que as mudanças promovidas por Trump podem ter impacto direto em países emergentes, como o Brasil. Segundo Alves, a implementação de políticas que favorecem a demanda por commodities, como alimentos e minérios, beneficiaria países exportadores de matéria-prima, e o Brasil está entre os principais parceiros comerciais dos EUA nesse sentido.

Oportunidades para o Agronegócio e Mineração

O setor de agronegócio é um dos principais beneficiados pela vitória de Trump. A guerra comercial com a China, intensificada durante o primeiro mandato do republicano, abriu espaço para que produtos brasileiros, como grãos e carnes, ganhassem espaço no mercado chinês. Carolina Bohnert, sócia da The Hill Capital, explica que empresas brasileiras de agronegócio podem se beneficiar da continuidade desse cenário. “Empresas como SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3) podem observar uma alta na procura por grãos nacionais, principalmente se os Estados Unidos mantiverem restrições aos produtos chineses”, pontua.

Além do agronegócio, o setor de mineração e siderurgia também deve ser favorecido. A Gerdau (GGBR4), que possui uma presença expressiva nos Estados Unidos, tende a lucrar com as tarifas adicionais sobre o aço chinês, que valorizam o preço do aço no mercado americano. A empresa já é apontada como uma das beneficiadas pela reeleição de Trump, conforme relatado pela XP Investimentos. Com uma operação consolidada nos Estados Unidos, a Gerdau está protegida de eventuais sanções comerciais aplicadas sobre a China.

A Situação da Vale e os Desafios no Comércio de Minério de Ferro

A situação da Vale (VALE3), uma das principais mineradoras do mundo, é mais complexa diante das novas políticas protecionistas de Trump. Felipe Sant’ Anna, especialista em mercado da Star Desk, alerta que a Vale pode enfrentar dificuldades caso o presidente americano intensifique a taxação sobre o aço e outros produtos chineses. A China é o principal destino do minério de ferro brasileiro, e qualquer impacto nas tarifas comerciais que desestimule o consumo de produtos chineses também afeta a demanda pela commodity exportada pelo Brasil.

No entanto, Sant’ Anna destaca uma possibilidade de compensação: “Se os Estados Unidos reduzirem as compras da China ou elevarem os preços dos produtos chineses, pode haver uma oportunidade para que a Vale expanda suas vendas para outras regiões, incluindo o próprio mercado americano.”

Valorização do Dólar e Impacto nas Empresas Exportadoras

A valorização do dólar é outro ponto importante para o mercado financeiro brasileiro. Empresas brasileiras com receita em moeda estrangeira, especialmente em dólar, podem ver suas ações valorizarem diante da força cambial projetada para os próximos anos. A Braskem (BRKM5), por exemplo, deve sentir os efeitos positivos dessa valorização, uma vez que boa parte de suas receitas é dolarizada.

As empresas de frigoríficos brasileiras, como Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3), também estão bem posicionadas para aproveitar a valorização do dólar e as possíveis restrições comerciais impostas por Trump aos produtos chineses. Ambas possuem grande penetração no mercado americano e, com a taxação de produtos importados da China, podem ver um aumento na demanda por carne brasileira nos Estados Unidos.

Impactos no Mercado Doméstico: Setor de Varejo e Juros Altos

No entanto, nem todos os setores devem se beneficiar do novo governo americano. O cenário de juros altos, que tende a se estender, pode impactar negativamente empresas voltadas ao mercado doméstico, especialmente as do setor de varejo. Renan Silva, economista-chefe da Bluemetrix Asset, observa que o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos pode pressionar o mercado brasileiro, tornando o crédito mais caro e afetando o consumo local.

“O mercado considera que Trump pode promover alguns movimentos inflacionistas, o que levaria a uma permanência das taxas de juros elevadas por mais tempo. Isso é preocupante para setores como o varejo, que dependem de taxas de crédito mais acessíveis para estimular o consumo”, explica Silva.

Política Internacional: Relação com China, Brasil e o Papel dos EUA

Na esfera internacional, a vitória de Trump pode impactar as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Brasil, além de moldar a política externa americana de forma mais incisiva em relação à China e à Venezuela. As tensões comerciais com a China tendem a se intensificar, e essa postura mais agressiva pode empurrar o Brasil a estreitar relações com os chineses, caso a parceria econômica com os Estados Unidos se torne inviável.

Além disso, a administração Trump adota uma postura rígida em relação à Venezuela, o que pode colocar o Brasil em uma posição delicada, uma vez que o país mantém uma posição mais neutra quanto ao governo de Nicolás Maduro. Com a reeleição de Trump, o Brasil pode precisar equilibrar suas relações comerciais e diplomáticas com ambas as potências.

Reflexos para Investidores Brasileiros

A vitória de Donald Trump já começou a mexer com as expectativas do mercado financeiro brasileiro. Para investidores, os setores de commodities, agronegócio e mineração se apresentam como modelos de crescimento, enquanto setores voltados para o consumo interno devem enfrentar desafios. À medida que o novo governo americano adota políticas protecionistas e reforça as tarifas comerciais, o Brasil deve estar atento às oportunidades e aos riscos para seus principais mercados de exportação.

A tendência é que, com a continuidade do protecionismo americano, o Brasil mantenha um papel importante no fornecimento de commodities para o mercado global, especialmente se a demanda por produtos chineses se mantiver em alta. No entanto, a capacidade de adaptação às novas políticas e o equilíbrio das relações diplomáticas serão fundamentais para que o Brasil aproveite as oportunidades econômicas que surgem com a reeleição de Trump.

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