A Empiricus incluiu a Direcional (DIRR3) no lugar da Cyrela (CYRE3) em sua carteira de dividendos para agosto de 2026, formada por oito ações negociadas na B3 e distribuídas em parcelas iguais de 12,5%. A mudança foi feita depois de a Direcional acumular queda de 19,8% em julho, movimento que, na avaliação da casa, abriu uma nova margem de segurança para o papel. O portfólio tem dividend yields projetados entre 4,8% e 10,4%, com a Petrobras (PETR4) no topo das estimativas.
A substituição desfaz a alteração realizada um mês antes. Em julho, a Empiricus havia retirado a Direcional e incluído a Cyrela para aumentar a exposição a uma eventual melhora do ambiente macroeconômico. Agora, a correção das ações da construtora voltada à habitação popular levou a casa a retomar uma tese mais vinculada ao Minha Casa, Minha Vida e à capacidade de geração de caixa e dividendos da companhia.
Além da Direcional, a carteira de dividendos da Empiricus reúne Axia Energia (AXIA3), B3 (B3SA3), Itaú Unibanco (ITUB4), Multiplan (MULT3), Petrobras (PETR4), Telefônica Brasil (VIVT3) e Vale (VALE3). A alocação igual reduz a dependência formal de uma única empresa, embora o conjunto ainda permaneça exposto a riscos comuns, como juros elevados, desaceleração econômica, preço das commodities e incertezas fiscais e eleitorais.
Os percentuais divulgados são projeções anuais de dividend yield, indicador que relaciona os dividendos e outros proventos esperados ao preço da ação. Não representam pagamento de dividendos assegurado em agosto nem promessa de rentabilidade. O valor efetivamente recebido pelo acionista depende dos resultados, das decisões de cada companhia sobre distribuição de dividendos e da cotação usada no cálculo, enquanto o retorno total também incorpora a valorização ou a queda dos papéis.
Queda de 19,8% reabre espaço para a Direcional
A volta da Direcional à carteira de dividendos da Empiricus é sustentada por uma combinação de preço mais baixo e atividade operacional ainda robusta. Segundo a casa, a ação passou a negociar a 5,9 vezes o lucro estimado para 2026, com retorno em dividendos projetado de 7%. A tese também considera o método construtivo padronizado da companhia, voltado a ganhos de escala. O múltiplo menor, porém, não elimina os riscos próprios da construção civil, como crédito, custos, execução das obras e velocidade de comercialização.
A prévia operacional divulgada pela Direcional em 8 de julho mostrou vendas brutas de R$ 2 bilhões no segundo trimestre, o maior volume trimestral da história da companhia. As vendas líquidas somaram R$ 1,7 bilhão, alta de 5% ante os três primeiros meses do ano, enquanto o Valor Geral de Vendas lançado alcançou R$ 2,1 bilhões, avanço de 8% na comparação anual e de 105% sobre o primeiro trimestre.
O documento, ainda com números não auditados, informou geração de caixa contábil de R$ 130 milhões e geração operacional de R$ 80 milhões entre abril e junho. No primeiro semestre, os lançamentos totalizaram R$ 3,1 bilhões, 9% acima do mesmo período de 2025, e as vendas líquidas chegaram a R$ 3,2 bilhões, crescimento de 8%. Esses dados ajudam a explicar por que a correção foi interpretada pela Empiricus como oportunidade e como possível suporte aos dividendos.
Há, ainda assim, sinais que exigem acompanhamento. A velocidade de vendas consolidada ficou em 23% no segundo trimestre, abaixo dos 26% registrados um ano antes. A marca Direcional, concentrada nas faixas atendidas pelo Minha Casa, Minha Vida, apresentou índice de 24%, enquanto a Riva, voltada à média renda, ficou em 21%. O estoque terminou junho avaliado em R$ 5,6 bilhões, correspondente a 14,7 mil unidades, variável relevante para caixa e dividendos.
Petrobras lidera as projeções de dividendos e dividend yield
Na carteira de dividendos da Empiricus, a Petrobras aparece com yield estimado de 10,4%, o maior entre os oito ativos. Itaú e B3 têm projeção de 7,7% cada; Axia Energia, de 7,5%; Vale, de 7,2%; Telefônica Brasil, de 7,1%; Direcional, de 7%; e Multiplan, de 4,8%. Como todos os papéis recebem peso de 12,5%, a seleção não concentra a alocação na companhia com a taxa projetada mais alta.
O número atribuído à Petrobras deve ser lido à luz da volatilidade do petróleo, dos investimentos previstos pela estatal, da necessidade de caixa e das regras de remuneração aos acionistas. Um barril mais caro pode fortalecer receitas e fluxo de caixa, mas também pressiona combustíveis e inflação, com efeito indireto sobre juros e atividade. Na Vale, o pagamento de dividendos depende, entre outros fatores, do minério de ferro, da demanda chinesa, do câmbio, dos volumes produzidos e dos desembolsos de capital.
Os demais ativos distribuem a exposição entre crédito e serviços bancários, volumes negociados na Bolsa, telecomunicações, energia elétrica e shopping centers. Itaú e B3 são mais sensíveis, por canais diferentes, ao ciclo econômico e aos juros; Telefônica Brasil oferece receitas recorrentes; Axia Energia — denominação adotada pela antiga Eletrobras — atua em geração e transmissão; e Multiplan depende de aluguéis, ocupação e consumo. A combinação equilibra fontes de caixa e dividendos, mas não impede que um choque macroeconômico atinja vários papéis simultaneamente.
Inflação e Selic definem o valor relativo dos dividendos
A leitura mais favorável da inflação ajudou a recompor parte do interesse por ações de dividendos em julho. O IPCA-15 avançou 0,06% no mês e acumulou 4,52% em 12 meses, abaixo dos 4,80% observados até junho. No Relatório Focus de 24 de julho, a mediana das estimativas para o IPCA de 2026 recuou pela quarta semana consecutiva, de 5,15% para 5,12%, embora continuasse acima do teto de tolerância da meta.
A Selic está em 14,25% ao ano após o corte de 0,25 ponto percentual decidido pelo Comitê de Política Monetária em junho. A Empiricus trabalha com nova redução de 0,25 ponto na reunião de 4 e 5 de agosto, movimento compatível com a mediana de 14% indicada pelo Focus para o fim de 2026. O Banco Central, contudo, afirmou que os próximos passos dependerão dos dados e destacou riscos de alta para os preços, capazes de alterar a tese de dividendos.
Para uma carteira de dividendos, a trajetória dos juros opera em duas direções. Taxas menores podem elevar o valor presente dos lucros futuros, reduzir o custo de capital e tornar as ações relativamente mais competitivas diante da renda fixa. Esse efeito tende a favorecer empresas domésticas, como Direcional, B3 e Multiplan. Se a inflação voltar a acelerar e interromper os cortes, os múltiplos podem permanecer comprimidos, ao mesmo tempo que títulos públicos continuam oferecendo concorrência elevada aos proventos das companhias.
Ibovespa reage, mas ambiente continua seletivo
O Ibovespa encerrou julho aos 177.999 pontos, com alta de 3,47%, interrompendo uma sequência de quatro meses de perdas. A recuperação deu suporte ao reposicionamento em ações de dividendos, mas não apagou a volatilidade do período. Na avaliação da Empiricus, a valorização mensal foi intensa diante da melhora ainda limitada dos fundamentos, embora o desconto dos preços continue oferecendo oportunidades para empresas capazes de preservar caixa e lucro.
A casa calcula que o Ibovespa negociava a 9,6 vezes o lucro projetado quando Petrobras e Vale são retiradas da conta. O recorte procura evitar que os múltiplos baixos das duas grandes exportadoras distorçam a leitura do restante do índice. Ainda assim, preço baixo não é catalisador por si só: a reprecificação depende do comportamento da inflação, do avanço do ciclo de cortes da Selic, dos resultados corporativos e da percepção dos investidores sobre a política fiscal e as eleições de 2026.
O exterior adiciona uma camada de risco. Em 29 de julho, o Federal Reserve manteve os juros dos Estados Unidos entre 3,5% e 3,75% ao ano, mas três integrantes votaram por uma alta de 0,25 ponto. A dissidência reforçou a possibilidade de uma política monetária mais dura se a inflação norte-americana continuar acima da meta de 2%. Juros mais altos nos Estados Unidos podem atrair capital para ativos em dólar e reduzir o fluxo destinado a mercados emergentes, inclusive o brasileiro.
Pesos iguais distribuem riscos entre oito empresas
O investidor também precisa separar dividend yield de qualidade empresarial. Uma taxa projetada pode subir porque os dividendos aumentaram, mas também porque a ação caiu. Distribuições extraordinárias podem elevar o indicador em um exercício sem se repetir no seguinte, e empresas que investem mais podem pagar menos mesmo com resultados sólidos. Por isso, a estratégia da casa combina rendimento esperado com geração de caixa, balanço, vantagem competitiva e preço, em vez de ordenar os papéis apenas pelo percentual de dividendos.
Agosto testará parte dessa construção. A decisão do Copom, a sequência dos balanços do segundo trimestre, o comportamento do petróleo e as novas leituras de inflação poderão alterar tanto as projeções de lucro quanto o valor de mercado das ações. No caso da Direcional, a atenção ficará sobre margens, conversão de vendas em caixa e desempenho da Riva; na Petrobras e na Vale, produção, preços e política de remuneração continuarão no centro das avaliações.
A troca da Cyrela pela Direcional representa, assim, um ajuste tático baseado na relação entre preço e fundamentos, e não uma garantia de que o papel recuperará a queda de julho. A carteira de dividendos da Empiricus entra no mês com yields projetados relevantes, mas submetidos a variáveis que nenhuma empresa controla isoladamente. O resultado para o acionista dependerá da capacidade de cada companhia transformar lucro contábil em caixa distribuível sem comprometer investimentos, dívida e crescimento.








