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Empresas de bens de consumo ainda protegem o investidor em um mercado em mudança?

por João Souza - Repórter de Negócios
23/12/2025
em Business, Destaque, News
Empresas De Bens De Consumo Ainda Protegem O Investidor Em Um Mercado Em Mudança? - Gazeta Mercantil

De fraldas a chocolate: investir em empresas de bens de consumo ainda protege o investidor em um mercado em transformação

Durante décadas, investir em empresas de bens de consumo foi quase um reflexo automático em momentos de turbulência econômica. Quando a volatilidade aumentava, juros subiam ou crises globais ameaçavam os mercados financeiros, o investidor buscava refúgio em companhias ligadas a alimentos, produtos de higiene, limpeza e itens essenciais do dia a dia. A lógica sempre foi simples: mesmo em crises, as pessoas continuam comendo, limpando a casa, comprando fraldas e cuidando da higiene pessoal.

No entanto, o cenário que se desenha para os próximos anos, especialmente a partir de 2026, levanta uma questão central para o mercado: as empresas de bens de consumo ainda cumprem esse papel defensivo ou o investidor precisa rever essa estratégia? Mudanças estruturais no comportamento do consumidor, avanços tecnológicos e novas dinâmicas competitivas colocam essa tese sob pressão.

O papel histórico das empresas de bens de consumo como porto seguro

A história recente do mercado financeiro mostra por que as empresas de bens de consumo sempre foram vistas como ativos defensivos. Em momentos de quedas acentuadas das bolsas, essas companhias costumam sofrer menos do que empresas ligadas ao crescimento econômico ou à inovação tecnológica.

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Isso ficou evidente em grandes crises do mercado global. Durante o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000, na crise financeira internacional de 2008 e até na correção severa de 2022 provocada pela inflação global e pelo aperto monetário, ações de empresas ligadas a alimentos e produtos essenciais apresentaram desempenho relativo superior ao dos índices gerais.

O motivo é estrutural. Essas companhias operam com demanda mais previsível, fluxo de caixa recorrente e menor sensibilidade ao ciclo econômico. Mesmo quando o consumidor aperta o orçamento, ele não deixa de comprar comida, papel higiênico, produtos de limpeza ou itens básicos de higiene.

A mudança de cenário após anos de desempenho fraco

Apesar desse histórico, as empresas de bens de consumo passaram por um período prolongado de desempenho inferior ao mercado. Nos últimos três anos, enquanto índices amplos como o S&P 500 acumularam ganhos expressivos, muitas dessas companhias registraram perdas relevantes.

Esse descolamento ocorreu em um ambiente marcado pela forte valorização de ativos ligados à tecnologia, inovação e inteligência artificial. Enquanto investidores direcionavam capital para empresas de crescimento acelerado, o setor de bens de consumo ficou em segundo plano, pressionado por margens menores, aumento de custos e mudanças no comportamento do consumidor.

Agora, com a tese de investimento em tecnologia perdendo parte do fôlego e o mercado voltando a discutir proteção e previsibilidade, o setor volta ao radar — mas em um contexto bem diferente do passado.

Alimentação mais saudável e novos hábitos pressionam o setor

Um dos maiores desafios atuais para as empresas de bens de consumo está na transformação dos hábitos alimentares. A busca por uma alimentação mais saudável, menos processada e com menor teor calórico tem impactado diretamente fabricantes tradicionais de alimentos embalados.

Além disso, a popularização de medicamentos para emagrecimento, que deve se intensificar em 2026 com novas formulações e maior acesso, tende a reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados. Esse movimento afeta especialmente empresas com forte exposição a snacks, doces, cereais açucarados e produtos altamente calóricos.

Essas mudanças estruturais fazem com que o caráter defensivo do setor não seja mais homogêneo. Algumas empresas conseguem se adaptar melhor ao novo perfil do consumidor, enquanto outras enfrentam dificuldades crescentes para manter volumes e margens.

Marcas próprias ganham espaço e mudam a dinâmica competitiva

Outro fator que pressiona as empresas de bens de consumo é o avanço das marcas próprias dos grandes varejistas. Após anos de inflação alimentar elevada, muitos consumidores passaram a priorizar preço, substituindo marcas tradicionais por produtos mais baratos oferecidos por redes varejistas.

Esse movimento beneficia gigantes do varejo e reduz o poder de precificação das indústrias. Para recuperar participação de mercado, muitas empresas tradicionais têm recorrido a promoções e cortes de preços, o que compromete margens e enfraquece o desempenho financeiro no curto e médio prazo.

O resultado é um ambiente mais competitivo, em que a simples força da marca já não garante fidelidade automática do consumidor.

Por que o desempenho defensivo tem sido mais curto

Mesmo quando as empresas de bens de consumo apresentam desempenho superior em momentos de estresse do mercado, esse movimento tem se mostrado cada vez mais breve. Após quedas acentuadas das bolsas, o capital costuma retornar rapidamente para ativos de maior risco, limitando o período de valorização dessas companhias defensivas.

Isso exige do investidor uma abordagem mais estratégica e menos automática. O setor ainda pode oferecer proteção, mas não de forma indiscriminada.

Seleção criteriosa: onde ainda há valor estrutural

Diante desse novo cenário, investir em empresas de bens de consumo exige uma análise mais profunda dos modelos de negócio. Companhias mais bem posicionadas são aquelas que se beneficiam de tendências de longo prazo e têm menor exposição às mudanças negativas do comportamento alimentar.

Empresas ligadas a produtos usados no preparo de alimentos em casa, por exemplo, tendem a mostrar maior resiliência. O aumento do hábito de cozinhar, especialmente entre consumidores mais jovens, cria oportunidades para negócios que oferecem ingredientes, temperos e soluções associadas a refeições mais frescas e personalizadas.

Outro ponto positivo é quando o produto representa uma parcela pequena do orçamento familiar. Nesses casos, o consumidor tende a ser menos sensível a preço, garantindo volumes mais estáveis.

Diversificação geográfica como fator de proteção

Uma estratégia relevante dentro do universo das empresas de bens de consumo é a diversificação geográfica. Companhias com receitas distribuídas globalmente ficam menos dependentes do ciclo econômico de um único país.

Além disso, mercados emergentes e regiões fora dos Estados Unidos podem apresentar dinâmicas de consumo diferentes, compensando eventuais quedas em economias mais maduras. Essa característica reduz riscos e aumenta a previsibilidade dos resultados.

Empresas com presença global também conseguem se beneficiar de variações cambiais e de custos de insumos, o que pode melhorar margens em determinados momentos do ciclo econômico.

Produtos domésticos e de cuidados pessoais ganham relevância

Dentro das empresas de bens de consumo, um segmento que segue relativamente protegido das mudanças nos hábitos alimentares é o de produtos domésticos e de cuidados pessoais. Itens como detergentes, fraldas, papel higiênico e produtos de higiene continuam sendo consumidos independentemente de tendências nutricionais.

Embora também enfrentem concorrência de marcas próprias, essas empresas não lidam diretamente com a substituição motivada por preocupações com saúde ou emagrecimento. Isso garante uma base de demanda mais estável.

Nesse segmento, o investidor encontra companhias com fluxo de caixa previsível, forte geração de dividendos e menor volatilidade, características valorizadas em períodos de incerteza econômica.

Preço importa mais do que nunca

Um ponto central na análise das empresas de bens de consumo é o valuation. Após anos de pressão sobre os resultados, algumas companhias passaram a negociar a múltiplos mais atrativos em comparação à média histórica.

Isso cria oportunidades pontuais, especialmente para investidores de longo prazo dispostos a tolerar períodos de desempenho moderado em troca de estabilidade e previsibilidade. No entanto, é fundamental diferenciar empresas com desafios temporários daquelas presas em armadilhas estruturais de valor.

Bens de consumo ainda protegem, mas não todos

A conclusão que se impõe é clara: as empresas de bens de consumo ainda podem funcionar como proteção em um mercado turbulento, mas não de forma automática ou generalizada. O setor deixou de ser um bloco homogêneo e passou a exigir escolhas seletivas.

Empresas adaptadas a novas tendências, com portfólios diversificados, presença global e produtos essenciais continuam oferecendo abrigo relativo ao investidor. Já aquelas excessivamente expostas a hábitos de consumo em declínio enfrentam riscos crescentes.

Para quem busca defesa em um cenário de incerteza econômica, o setor segue relevante — desde que analisado com rigor, visão estratégica e foco no valor estrutural de longo prazo.

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