Uma disputa financeira entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e seu antigo sócio Alexandre Ferreira Dias Santini trouxe à tona registros envolvendo presentes de alto valor, supostos encontros privados com garotas de programa e uma alegada articulação para tratar de interesses particulares no Supremo Tribunal Federal (STF). As informações integram reportagem publicada nesta terça-feira, 29 de setembro, pelo PlatôBR, baseada em mensagens de WhatsApp, documentos, áudios e fotografias guardados pelo empresário durante os anos em que manteve uma relação próxima com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O material reúne episódios ocorridos principalmente entre 2022 e 2023, quando a amizade entre os dois se deteriorou após o encerramento da sociedade na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., empresa responsável por uma franquia da Kopenhagen que funcionava no BarraShopping, no Rio de Janeiro. Santini passou a cobrar valores que considerava devidos pelo parlamentar e, durante o conflito, compartilhou parte dos registros com pessoas próximas ao senador.
Entre os documentos apresentados pelo veÃculo estão uma nota fiscal referente à compra de um relógio Rolex de R$ 305 mil, emitida em nome do advogado Alan Belaciano, comprovantes de despesas pessoais atribuÃdas a integrantes do cÃrculo de Flávio e conversas nas quais Santini afirma conhecer uma suposta intermediação do parlamentar em assunto relacionado ao gabinete do ministro Kassio Nunes Marques.
A reportagem também descreve episódios da vida privada do senador, incluindo encontros com garotas de programa que teriam sido organizados pelo ex-sócio. A eventual origem dos recursos utilizados nessas ocasiões e a participação individual dos envolvidos, contudo, não foram demonstradas por uma investigação independente divulgada até o momento.
As informações devem ser distinguidas quanto ao seu alcance: os documentos apresentados pelo PlatôBR registram pagamentos, conversas e alegações, mas não constituem, isoladamente, comprovação de que os fatos mencionados configuraram crimes ou de que houve favorecimento em decisões do poder público.
Relatos sobre festas privadas e mensagens enviadas à mulher do senador
Segundo a investigação jornalÃstica, Alexandre Santini organizava encontros privados com garotas de programa durante o perÃodo em que mantinha amizade com Flávio Bolsonaro. Parte dessas reuniões teria ocorrido no hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, além de outros locais utilizados pelo grupo.
Em mensagens atribuÃdas ao ex-sócio, ele aparece negociando com uma mulher responsável por organizar esses encontros, mencionando a presença de amigos e solicitando discrição. O material incluiria fotografias e registros de conversas que, posteriormente, teriam sido apresentados a Fernanda Bolsonaro, esposa do senador.
A divulgação das informações no ambiente familiar ocorreu quando a relação comercial entre Flávio e Santini já estava comprometida. Conforme o PlatôBR, o ex-sócio passou a procurar Fernanda para relatar episódios envolvendo o parlamentar e, simultaneamente, tentar obter uma solução para as pendências financeiras decorrentes da antiga sociedade.
A reportagem afirma que os encontros teriam sido custeados com recursos cuja origem levanta questionamentos. Entretanto, a existência de mensagens sobre a organização das reuniões não demonstra, por si só, de onde vieram os pagamentos nem estabelece eventual utilização de dinheiro público.
O desdobramento mais documentado dessa parte da controvérsia é uma mensagem de WhatsApp atribuÃda a Flávio Bolsonaro, enviada a Santini após a crise familiar. No texto, o senador manifesta arrependimento por escolhas anteriores, pede que o empresário interrompa os contatos com sua esposa e afirma que pretende preservar a famÃlia.
O conteúdo não especifica quais episódios motivaram o arrependimento. Por isso, embora tenha sido apresentado na reportagem original como parte do contexto dos encontros privados, não constitui uma confirmação expressa de cada uma das alegações feitas pelo ex-sócio.
A exposição dessas informações também coloca em evidência o uso de registros pessoais durante uma disputa financeira. O material teria circulado entre interlocutores de BrasÃlia enquanto Santini procurava obter um acordo com o antigo parceiro comercial.
Rolex de R$ 305 mil e despesas pagas por pessoas próximas
A reportagem apresenta ainda documentos relacionados ao pagamento de despesas pessoais de Flávio Bolsonaro por integrantes de seu cÃrculo de relacionamentos durante o governo de Jair Bolsonaro.
Um dos registros envolve a aquisição de um Rolex Submariner Date de ouro branco, comprado em 10 de fevereiro de 2022 por R$ 305 mil. A nota fiscal foi emitida em nome do advogado Alan Belaciano, apontado pela investigação como responsável pela compra do relógio destinado ao senador.
Belaciano também aparece associado a pagamentos superiores a R$ 90 mil referentes à aquisição de equipamentos de academia instalados na residência de Flávio, em BrasÃlia. Esse episódio já havia sido divulgado anteriormente e recebeu manifestação pública do parlamentar.
Na ocasião, Flávio afirmou que os equipamentos tinham sido comprados por um amigo de longa data na condição de empréstimo pessoal, cujo valor estava sendo quitado. A explicação representa a versão apresentada pelo senador sobre a transação e deve ser considerada separadamente das novas alegações reunidas pelo PlatôBR.
O material divulgado nesta terça-feira acrescenta relatos sobre outras despesas supostamente custeadas por pessoas próximas, incluindo reparos na residência, aquisição de um televisor de 75 polegadas e pagamentos relacionados à frequência do casal a uma academia.
A relevância dessas informações ultrapassa o valor dos bens mencionados porque envolve possÃveis transferências de benefÃcios privados entre um agente polÃtico e pessoas com interesses profissionais ou comerciais em órgãos públicos.
Entretanto, para determinar eventual irregularidade, seria necessário esclarecer a natureza de cada pagamento, a existência de empréstimos ou reembolsos, a relação entre os responsáveis pelas despesas e o parlamentar, além de identificar possÃveis contrapartidas relacionadas ao exercÃcio de funções públicas.
A emissão de uma nota fiscal em nome de terceiro comprova uma aquisição, mas não esclarece automaticamente todas as condições de sua posterior transferência ao beneficiário indicado pela reportagem.
Mensagem menciona suposta intermediação com Kassio Nunes Marques
O ponto de maior interesse institucional da reportagem envolve uma conversa ocorrida no final de 2023, quando Santini ainda cobrava de Flávio Bolsonaro uma solução para o encerramento da sociedade comercial.
Em uma mensagem encaminhada ao senador, o empresário afirma ter conhecimento de uma suposta atuação de Flávio junto ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, para tratar de interesses de um cliente que possuÃa processo no gabinete do magistrado.
De acordo com o relato, o advogado Alan Belaciano estaria acompanhando o assunto. Santini também menciona a organização de um jantar com a participação do chefe de gabinete do ministro.
A mensagem não identifica o cliente, o número do processo ou a decisão judicial que poderia estar relacionada à alegada aproximação. Tampouco foram apresentados elementos independentes que confirmem a realização da intermediação ou a participação efetiva de Nunes Marques nas circunstâncias narradas pelo empresário.
Segundo o PlatôBR, Flávio respondeu ao ex-sócio no mesmo dia e propôs uma reunião em seu gabinete, em BrasÃlia. O conteúdo do encontro não foi divulgado.
Posteriormente, Santini comunicou a interlocutores que a disputa estava encerrada. A sequência temporal demonstra que houve uma retomada do diálogo após a mensagem envolvendo o ministro, mas não permite concluir quais foram os termos de eventual acordo ou estabelecer uma relação comprovada entre a alegação e uma providência tomada pelo STF.
A informação merece atenção pela natureza institucional da suspeita. O acesso de terceiros a integrantes de tribunais superiores, quando relacionado a processos de interesse privado, exige transparência quanto às circunstâncias de eventuais reuniões e ao respeito às regras processuais.
Até a publicação dos relatos consultados nesta terça-feira, não havia comprovação pública independente de que Kassio Nunes Marques tivesse praticado qualquer ato irregular relacionado ao episódio descrito pelo ex-sócio.
Disputa por R$ 1,47 milhão começou após encerramento de franquia da Kopenhagen
A origem do conflito está na sociedade mantida por Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., responsável por uma unidade da Kopenhagen inaugurada em 2015, no BarraShopping.
A chocolateria foi mencionada nas investigações conduzidas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro sobre o suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários do antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa fluminense, conhecido como caso das rachadinhas.
O Ministério Público investigou a hipótese de utilização de movimentações financeiras relacionadas ao estabelecimento para ocultar recursos. Entretanto, a denúncia foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em maio de 2022, após decisões do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal que invalidaram elementos probatórios utilizados na acusação.
Em 2026, a Justiça também rejeitou uma tentativa de retomada do caso. Portanto, as suspeitas relacionadas à antiga chocolateria não podem ser apresentadas como crimes judicialmente comprovados ou como uma investigação criminal atualmente em andamento contra o senador.
A disputa societária, por sua vez, ganhou um capÃtulo próprio em 2023. Em 28 de setembro daquele ano, Santini encaminhou uma notificação extrajudicial ao gabinete de Flávio cobrando aproximadamente R$ 1,4 milhão.
Em novembro, a cobrança foi levada à Justiça, alcançando R$ 1,47 milhão. O empresário alegava desequilÃbrio na distribuição dos lucros, diferenças relacionadas à venda do negócio e despesas empresariais que teria arcado individualmente sem receber o correspondente reembolso.
A documentação apresentada na época apontava R$ 876,8 mil relativos à alegada distribuição desigual de resultados, R$ 172,7 mil referentes à venda do empreendimento e R$ 423,8 mil em despesas que Santini afirmava ter suportado além de sua responsabilidade.
Flávio Bolsonaro negou dever dinheiro ao antigo sócio. A cobrança integra uma controvérsia patrimonial entre os dois e não equivale, por si só, à comprovação das demais acusações posteriormente divulgadas.
Willer Tomaz aparece nas tentativas de acordo entre os ex-sócios
Outro personagem mencionado no material é o advogado Willer Tomaz, que teria participado das tentativas de negociação para encerrar a disputa financeira.
Segundo as mensagens reproduzidas pelo PlatôBR, o escritório de Tomaz procurou os representantes de Santini em 2023, informando atuar em nome de Flávio Bolsonaro. As conversas buscavam estabelecer condições para uma solução consensual das pendências relacionadas à antiga chocolateria.
Santini chegou a cobrar uma resposta definitiva por intermédio de Fernanda Bolsonaro. Em uma das mensagens, afirmou que as negociações estavam sendo sucessivamente adiadas e que, na ausência de entendimento, seus representantes adotariam outros procedimentos.
O envolvimento de Tomaz é relevante para reconstruir a tentativa de composição extrajudicial, mas sua participação profissional nas negociações não demonstra envolvimento nas demais condutas atribuÃdas aos antigos sócios.
O advogado possui relações conhecidas com integrantes do cÃrculo polÃtico de Flávio Bolsonaro e já foi mencionado em outras investigações de repercussão nacional. Esses episódios, contudo, devem ser analisados individualmente, sem estabelecer conexões criminais automáticas entre procedimentos distintos.
O que está documentado e quais pontos ainda dependem de esclarecimento
A publicação do PlatôBR reúne informações de naturezas diferentes: uma sociedade empresarial cuja existência é documentada, uma cobrança financeira judicializada em 2023, comprovantes de aquisição de bens e mensagens privadas contendo relatos sobre situações pessoais e possÃveis articulações institucionais.
A principal distinção está entre aquilo que os registros efetivamente demonstram e as conclusões atribuÃdas a eles pelos envolvidos. A nota fiscal do relógio identifica a compra e seu responsável formal; a alegação de que o bem foi entregue ao senador depende da análise dos demais registros. Da mesma forma, a mensagem que cita Kassio Nunes Marques comprova a existência de uma afirmação atribuÃda a Santini, mas não estabelece a ocorrência de interferência judicial.
Quanto aos encontros privados, sua relevância pública estaria especialmente relacionada à eventual identificação de recursos de origem irregular ou de benefÃcios concedidos por pessoas com interesses perante o poder público. A vida Ãntima dos envolvidos, isoladamente, não comprova irregularidade administrativa ou penal.
Em manifestações anteriores sobre a disputa financeira, Flávio Bolsonaro negou as acusações do ex-sócio e afirmou que os relatos eram infundados. Sobre a aquisição dos equipamentos de academia, apresentou a explicação de que se tratava de um empréstimo pessoal.
Na reportagem publicada pelo UOL na manhã desta terça-feira, o veÃculo informou ter procurado Flávio Bolsonaro, Alexandre Santini, Alan Belaciano e o gabinete de Kassio Nunes Marques, sem obter respostas até aquele momento. Não havia sido identificada manifestação especÃfica e atual dos citados sobre o conjunto integral das novas revelações.
Os documentos divulgados recolocam em discussão as relações mantidas por pessoas próximas ao antigo núcleo presidencial, os pagamentos de despesas privadas de agentes públicos e as circunstâncias de eventuais contatos envolvendo autoridades judiciais. A confirmação de possÃveis irregularidades dependerá da verificação da autenticidade integral dos registros, da identificação dos pagamentos e de esclarecimentos dos envolvidos.






