FAB confirma gasto de R$ 345 mil em operação para buscar ex-primeira-dama do Peru
A confirmação do gasto de R$ 345.013,56 pela FAB em uma operação de transporte internacional reacendeu um intenso debate político e administrativo sobre o uso de aeronaves oficiais para fins humanitários, diplomáticos e estratégicos. A informação, revelada pela própria Força Aérea Brasileira em resposta a um requerimento de informação enviado ao Ministério da Defesa, detalha que a missão foi realizada para transportar a ex-primeira-dama peruana Nadine Heredia, que solicitou asilo político ao governo brasileiro em abril de 2025. O episódio, que rapidamente ganhou repercussão no Congresso Nacional e nas redes sociais, abriu mais um capítulo das disputas em torno da política externa e das decisões humanitárias adotadas pelo governo federal.
Segundo o documento encaminhado ao parlamento, a operação da FAB foi autorizada a partir de solicitação formal da Presidência da República, com encaminhamento pelo Ministério das Relações Exteriores. A aeronave utilizada foi o jato E-135 Shuttle (VC-99C), matrícula FAB 2560, que partiu de Brasília rumo a Lima, no Peru, com uma escala técnica em Cuiabá. O deslocamento ocorreu entre 15 e 16 de abril, dois dias após o pedido de asilo feito pela ex-primeira-dama peruana.
Os dados tornados públicos mostram que a maior parte do custo total — R$ 318.009,20 — correspondeu a despesas logísticas, como combustível, manutenção, depreciação e horas de voo. Outros R$ 7.547,62 se referem a diárias da tripulação e R$ 19.456,74 foram destinados ao pagamento de taxas aeroportuárias, incluindo handling, pouso e serviços operacionais. A equipe responsável pela missão era composta por seis militares: três pilotos, um mecânico e dois comissários.
O caso foi levado ao conhecimento público por meio de um requerimento de informação apresentado pelo deputado Marcel van Hattem (RS), líder do partido Novo na Câmara. A divulgação desencadeou forte reação entre parlamentares da oposição, que argumentam que o gasto representa uso inadequado de recursos públicos. A solicitação de informações ao Ministério da Defesa tinha como objetivo justamente esclarecer a natureza, os custos e os responsáveis pela autorização da missão. Ao confirmar que a Presidência da República foi a autora da demanda, o documento reforçou o teor político do embate.
Contexto diplomático e implicações políticas
O caso envolvendo a FAB se insere em um contexto mais amplo das relações entre Brasil e Peru. Nos últimos anos, o cenário político peruano tem sido marcado por disputas judiciais e tensões internas, com inúmeras investigações afetando figuras públicas de alta projeção. Nadine Heredia, ex-primeira-dama e alvo de processos no seu país, solicitou asilo político ao governo brasileiro sob o argumento de perseguição política. O pedido foi enviado pelo canal diplomático competente e analisado pela Presidência da República de acordo com protocolos internacionais e dispositivos legais que regem concessões de asilo.
Ao autorizar a missão da FAB, o governo brasileiro enquadrou a operação no compromisso histórico do país com acordos internacionais de direitos humanos, nos quais o Brasil figura como signatário. A concessão de asilo, prevista em tratados internacionais como a Convenção de Caracas, costuma envolver procedimentos logísticos especiais — entre eles, o transporte seguro da pessoa protegida. Esse tipo de operação não é inédito no âmbito da política externa brasileira, mas cada episódio costuma gerar controvérsias devido ao envolvimento de recursos públicos, especialmente quando o beneficiado é figura politicamente sensível.
A decisão do Palácio do Planalto, porém, encontrou forte resistência na oposição. Parlamentares críticos ao governo afirmam que a operação extrapolou os limites de razoabilidade do gasto público. A discussão, no entanto, não se restringe à legalidade da decisão: envolve aspectos diplomáticos, interpretações divergentes sobre o alcance da política de asilo e disputas políticas que refletem a polarização atual do país.
Para além do campo político, especialistas apontam que o uso da FAB em operações dessa natureza está previsto no escopo das atribuições das Forças Armadas, que incluem missões logísticas aéreas envolvendo interesses estratégicos, diplomáticos ou humanitários. A controvérsia, portanto, gira em torno da legitimidade da decisão presidencial e da necessidade de transparência e proporcionalidade nos custos.
A operação e os detalhes da missão
O documento enviado ao parlamento descreveu a operação de forma minuciosa. A aeronave E-135 Shuttle utilizada pela FAB é frequentemente empregada em missões oficiais, transportes de autoridades e deslocamentos estratégicos. O voo partiu de Brasília no dia 15 de abril, realizou escala técnica em Cuiabá para reabastecimento e seguiu até Lima, no Peru, retornando ao Brasil no dia 16.
Todos os custos foram discriminados em três categorias principais:
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Custos logísticos: R$ 318.009,20
– combustível
– manutenção
– depreciação
– horas de voo
– serviços técnicos operacionais -
Diárias da tripulação: R$ 7.547,62
– hospedagem
– alimentação
– deslocamentos internos -
Taxas aeroportuárias: R$ 19.456,74
– handling
– taxas de pouso e permanência
– tarifas administrativas e operacionais
No total, a operação da FAB resultou em gasto de R$ 345.013,56.
A equipe envolvida incluiu três pilotos — necessários para longos deslocamentos internacionais, nos quais o esgotamento físico pode comprometer a segurança operacional — além de mecânico e dois comissários. O efetivo empregado reflete protocolos de segurança rígidos adotados pela Força Aérea para missões internacionais.
A reação do Congresso e o uso político do relatório
A resposta oficial da FAB ao requerimento de informação rapidamente se tornou combustível para debates no Congresso. Parlamentares da oposição alegam que o gasto representa mordomia diplomática custeada pelo contribuinte. Parlamentares governistas, por outro lado, argumentam que o uso da aeronave em missões de asilo é prática comum e amparada por tratados internacionais.
A divergência se intensificou após declarações de deputados que criticaram duramente a autorização presidencial. Para a oposição, a operação simboliza desperdício de recursos e suposta “flexibilização” das fronteiras diplomáticas brasileiras em casos envolvendo figuras estrangeiras investigadas por corrupção.
Integrantes da base governista rebatem afirmando que o direito ao asilo está previsto em normas internacionais e que a política externa brasileira historicamente reconhece a proteção humanitária como princípio estruturante. Assim, o envio da aeronave da FAB seria desdobramento natural dessa diretriz.
O custo da diplomacia e o debate sobre o uso das aeronaves oficiais
O episódio reacendeu um tema que volta e meia ressurge no cenário político: quanto custa manter aeronaves oficiais à disposição da União. Em operações internacionais, os custos tendem a ser elevados, especialmente quando envolvem longas distâncias, tripulação especializada e taxas aeroportuárias em moeda estrangeira.
Especialistas em administração pública estimam que voos de aeronaves militares — sobretudo jatos executivos utilizados pela FAB — custam, em média, dezenas de milhares de reais por hora de voo. Isso ocorre devido ao conjunto de despesas agregadas, como manutenção preventiva, combustíveis de aviação e desgaste estrutural.
Nesse sentido, o valor de R$ 345 mil não é considerado excepcional para uma operação internacional de ida e volta. Ainda assim, o gasto se tornou foco de oposição por envolver uma figura estrangeira e uma decisão diretamente associada ao presidente da República. Assim, ganhou contornos políticos que ultrapassam os dados técnicos apresentados pela FAB.
Asilo político e protocolos internacionais
A operação também reacendeu discussões sobre o funcionamento da política de asilo no Brasil. O país tradicionalmente adota postura aberta à concessão de asilo e refúgio, sendo reconhecido por organismos internacionais como nação comprometida com direitos humanos. A autorização de uso da FAB em casos excepcionais costuma ocorrer quando há risco iminente à segurança do solicitante, complicações diplomáticas no país de origem ou impossibilidade de deslocamento seguro por meios comuns.
Embora esse procedimento não seja cotidiano, há precedentes. Em anos anteriores, aeronaves oficiais foram utilizadas para missões humanitárias, repatriações, resgates em zonas de conflito, atendimento a brasileiros retidos em áreas de desastre natural e apoio a estrangeiros sob proteção diplomática.
No caso de Nadine Heredia, as circunstâncias específicas do pedido de asilo levaram o Ministério das Relações Exteriores a considerar a operação como necessária. A FAB, por sua vez, tomou todas as providências logísticas decorrentes de ordens emanadas pela Presidência e pela pasta responsável pelas relações internacionais.
A divulgação dos custos da operação da FAB escancarou mais uma disputa entre governo e oposição em um ambiente político já polarizado. Por um lado, a Força Aérea cumpriu rigorosamente uma determinação legal, alinhada a práticas diplomáticas internacionais. Por outro, a oposição enxerga na operação um símbolo de gasto exagerado e desconectado da realidade social do país.
Independentemente da discordância política, o caso levanta discussões importantes: a transparência de gastos militares, o papel da FAB em operações diplomáticas, a lógica do asilo internacional e os limites do uso de recursos públicos para ações humanitárias. Em um cenário de intensa vigilância pública sobre os gastos governamentais, episódios como este tendem a ganhar peso e projeção, influenciando tanto o debate público quanto a relação entre poderes.
O fato é que a missão da FAB seguirá como referência nos debates sobre uso de aeronaves militares para fins diplomáticos. O relatório enviado ao parlamento cumpre o papel institucional de esclarecer os detalhes técnicos e administrativos. O desdobramento político, no entanto, ainda deve reverberar por semanas — ou meses — em um ambiente congressual historicamente sensível a temas que envolvem custo público e política externa.









