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FIFA amplia receitas recordes na Copa de 2026 e reforça poder de Infantino apesar de sequência de controvérsias

Mesmo pressionada por críticas envolvendo decisões esportivas, influência política e governança, a FIFA caminha para registrar arrecadação histórica de cerca de US$ 9 bilhões com a Copa do Mundo de 2026, fortalecendo a posição de Gianni Infantino às vésperas de uma nova eleição.

por João Souza
07/07/2026 às 12h49
em Negócios
Fifa Amplia Receitas Recordes Na Copa De 2026 E Reforça Poder De Infantino Apesar De Sequência De Controvérsias-Gazeta Mercantil

Getty Images

A Copa do Mundo de 2026 chega à reta decisiva cercada por debates sobre integridade esportiva, interferência política e decisões controversas da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Ainda assim, os questionamentos não alteraram o principal resultado para a entidade: a edição disputada nos Estados Unidos, México e Canadá deverá se tornar a mais lucrativa da história, consolidando o poder político e financeiro do presidente Gianni Infantino.

A expectativa é que a organização arrecade aproximadamente US$ 9 bilhões diretamente com o torneio, cerca de US$ 2 bilhões acima do registrado na Copa do Catar, em 2022. O crescimento decorre da ampliação do número de seleções participantes, do aumento da comercialização de direitos de transmissão, da expansão dos contratos de patrocínio e do maior potencial de receitas provenientes dos estádios.

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O desempenho financeiro reforça uma característica que vem marcando a gestão de Infantino desde sua chegada ao comando da entidade em 2016: transformar a expansão comercial do futebol em principal instrumento de fortalecimento político dentro da FIFA.

Ao mesmo tempo, a organização enfrenta um dos períodos mais delicados sob o ponto de vista institucional. Durante o torneio, críticas envolveram o elevado preço dos ingressos, decisões disciplinares consideradas controversas, questionamentos sobre critérios adotados pela arbitragem e a proximidade do dirigente com lideranças políticas, especialmente o presidente norte-americano Donald Trump.

Embora esses episódios tenham provocado reações de dirigentes, atletas, juristas e autoridades europeias, o impacto prático sobre a estrutura política da FIFA permanece limitado.

Expansão comercial amplia influência da entidade

A edição de 2026 representa uma mudança estrutural no modelo econômico da Copa do Mundo.

Pela primeira vez, o torneio reúne 48 seleções, contra 32 participantes nas edições anteriores. A alteração ampliou significativamente o número de partidas, abriu novos mercados consumidores e aumentou a exposição comercial da competição em praticamente todos os continentes.

Para patrocinadores globais, emissoras de televisão e plataformas digitais, a expansão significa mais inventário publicitário, maior audiência acumulada e novas oportunidades de ativação de marcas.

Na prática, a FIFA monetizou praticamente todas as frentes possíveis do evento.

Além dos contratos tradicionais de mídia e patrocínio, cresceram as receitas relacionadas à hospitalidade corporativa, experiências VIP, licenciamento de produtos oficiais, alimentação nos estádios e programas comerciais desenvolvidos para parceiros internacionais.

O movimento confirma uma estratégia adotada por Infantino desde o início de sua gestão: ampliar continuamente os ativos comerciais administrados pela entidade, reduzindo a dependência exclusiva dos direitos de transmissão.

Dinheiro fortalece apoio das federações nacionais

O crescimento da arrecadação também amplia a capacidade financeira da FIFA para distribuir recursos às suas 211 associações filiadas, fator considerado decisivo para a estabilidade política da entidade.

Nesta edição, a premiação total alcançou US$ 871 milhões, estabelecendo novo recorde para a competição.

Cada seleção participante recebeu pelo menos US$ 12,5 milhões, independentemente do desempenho esportivo, enquanto campanhas mais longas elevaram significativamente os repasses.

O caso de Cabo Verde ilustra essa mudança. A campanha histórica da seleção africana proporcionou uma receita superior a US$ 21 milhões, valor equivalente a aproximadamente 0,75% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Para diversas federações de pequeno e médio porte, os recursos distribuídos pela FIFA representam parcela relevante de seus orçamentos anuais, financiando centros de treinamento, categorias de base, programas de desenvolvimento e infraestrutura esportiva.

Essa política de redistribuição financeira ajuda a explicar por que grande parte das confederações mantém apoio consistente à atual administração, mesmo diante das críticas recorrentes sobre governança.

Copa movimenta economias locais e amplia receitas do setor privado

Os efeitos econômicos da competição ultrapassam os cofres da FIFA.

Empresas responsáveis pela operação dos estádios, alimentação, bebidas, turismo, hotelaria, transporte e entretenimento registram aumento significativo de receitas durante o torneio.

Levantamento citado pelo Bank of America aponta que, entre 10 e 21 de junho, os gastos realizados por meio de cartões de crédito e débito cresceram 6,3% nas cidades que receberam partidas da Copa em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Entre turistas vindos de outras localidades, a expansão das despesas chegou a 16,7%, refletindo o impacto direto da competição sobre o comércio e os serviços locais.

Outro indicador chama atenção para o elevado nível de consumo dentro das arenas esportivas.

Em alguns estádios, o gasto médio dos torcedores com alimentação e bebidas aproximou-se de US$ 100 por pessoa, quase o dobro da média registrada em partidas da NFL, principal liga esportiva dos Estados Unidos.

O resultado evidencia que a Copa deixou de ser apenas um evento esportivo para se consolidar como uma plataforma global de entretenimento e consumo, capaz de movimentar cadeias econômicas inteiras durante várias semanas.

Críticas à governança contrastam com desempenho financeiro

Embora a expansão comercial tenha consolidado a capacidade de geração de receitas da FIFA, a edição de 2026 também expôs questionamentos sobre a condução institucional da entidade.

Um dos episódios mais controversos ocorreu após a suspensão do atacante norte-americano Folarin Balogun. A decisão de permitir que o jogador voltasse a atuar depois de pressão atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou críticas de juristas especializados em direito esportivo, dirigentes e ex-atletas.

Para especialistas, o caso extrapolou a discussão sobre uma punição disciplinar e passou a levantar dúvidas sobre a independência das decisões da entidade.

O advogado britânico Nick De Marco, especialista em direito esportivo, afirmou que o episódio colocou em debate a própria autoridade regulatória da FIFA e a credibilidade das regras aplicadas durante a principal competição do futebol mundial.

As críticas ganharam repercussão principalmente na Europa, onde parlamentares e personalidades ligadas ao esporte defenderam mudanças na condução da entidade. Entre as manifestações de maior repercussão esteve a do ex-treinador do Liverpool, Jürgen Klopp, que questionou publicamente a aproximação entre Infantino e Trump e afirmou que episódios dessa natureza colocam em risco a confiança no torneio.

Apesar da repercussão, a eliminação dos Estados Unidos nas quartas de final reduziu a pressão sobre o caso, que perdeu espaço na cobertura internacional à medida que a competição avançou.

Reeleição de Infantino encontra ambiente favorável

No plano político, o cenário permanece amplamente favorável ao atual presidente da FIFA.

Infantino deverá disputar um novo mandato durante o 77º Congresso da entidade, previsto para o início de 2027, em Rabat, no Marrocos. Até o momento, não há adversários formalmente inscritos para a eleição.

Cada uma das 211 associações nacionais filiadas possui direito a um voto, sistema que historicamente favorece dirigentes capazes de ampliar programas de financiamento e investimentos destinados às federações.

Nos últimos meses, confederações da Ásia, África e América do Sul manifestaram apoio público à continuidade da atual administração. O respaldo dessas regiões representa uma parcela significativa do colégio eleitoral e reduz consideravelmente a possibilidade de mudanças na liderança da entidade.

A estratégia de ampliar os recursos distribuídos aos países-membros consolidou uma base política robusta para Infantino. Na prática, o crescimento das receitas comerciais fortalece também sua capacidade de manter programas de desenvolvimento esportivo, infraestrutura e incentivo às federações nacionais.

Expansão da Copa fortalece modelo de negócios da FIFA

Além da arrecadação recorde, a Copa de 2026 serviu como teste para um novo modelo de crescimento da FIFA.

A ampliação para 48 seleções aumentou o número de partidas, expandiu mercados consumidores e elevou o potencial de receitas em praticamente todas as linhas de negócio da entidade. O sucesso comercial tende a reforçar a estratégia de crescimento dos próximos torneios, incluindo novas edições do Mundial de Clubes e futuras expansões das competições organizadas pela federação.

Ao mesmo tempo, a organização amplia sua dependência de um equilíbrio delicado entre interesses econômicos e credibilidade esportiva.

Especialistas apontam que o fortalecimento financeiro não elimina desafios relacionados à governança, transparência e independência das decisões disciplinares. Em um ambiente esportivo cada vez mais globalizado e bilionário, preservar a confiança de atletas, torcedores, patrocinadores e governos torna-se um ativo tão importante quanto os contratos comerciais.

Próximos passos para a entidade

Com os estádios mantendo elevada ocupação, audiência global robusta e receitas acima das expectativas, a FIFA deve encerrar a Copa de 2026 apresentando o torneio como um sucesso operacional e financeiro.

A combinação entre crescimento da arrecadação, ampliação da distribuição de recursos às federações e apoio político majoritário coloca Gianni Infantino em posição confortável para buscar seu terceiro mandato consecutivo.

Ainda assim, os episódios envolvendo interferência política, decisões disciplinares e críticas à governança indicam que o próximo ciclo da entidade será acompanhado por uma cobrança crescente em relação à transparência institucional. O desafio da FIFA passa a ser demonstrar que a expansão econômica do futebol pode caminhar lado a lado com a preservação da integridade esportiva — condição considerada essencial para sustentar a legitimidade da organização no longo prazo.

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