A LVMH, maior grupo de luxo do mundo, encerrou a sessão de 15 de setembro de 2026 com valor de mercado em torno de €201 bilhões, depois de ver sua ação cair para perto de €406. A cifra representa uma redução superior a €250 bilhões em relação ao pico de aproximadamente €454 bilhões alcançado em abril de 2023, quando o grupo se tornou a primeira empresa europeia a ultrapassar a marca de US$ 500 bilhões em capitalização. Na comparação entre os dois momentos, a perda é de cerca de 56%.
A retração também alterou a posição da companhia no mercado acionário europeu. A LVMH deixou de ser a empresa de maior valor da Bolsa de Paris e foi ultrapassada pela L’Oréal, cuja capitalização chegou a cerca de €203 bilhões em 15 de setembro. Foi a primeira vez desde 2017 que uma companhia não ligada diretamente ao setor de luxo assumiu a liderança da praça francesa.
A dimensão da queda fica mais clara quando o movimento da ação é separado do desempenho operacional. O papel da LVMH atingiu máxima de €904,60 em 2023, segundo dados da própria empresa baseados na Euronext. No fechamento de 15 de setembro de 2026, a ação estava próxima de €406, o que corresponde a uma perda de aproximadamente 55% desde o recorde.
Queda das ações supera a deterioração dos resultados
O mercado reprecificou a LVMH em velocidade maior que a retração da operação. A receita do grupo passou de €86,15 bilhões em 2023 para €84,68 bilhões em 2024 e €80,81 bilhões em 2025. No intervalo de dois anos, a redução foi de 6,2%. Já o lucro das operações recorrentes caiu de €22,80 bilhões em 2023 para €19,57 bilhões em 2024 e €17,76 bilhões em 2025, retração de aproximadamente 22% em dois anos.
A diferença é relevante porque mostra que a queda de valor de mercado não pode ser explicada apenas por uma redução proporcional dos resultados. A capitalização recuou cerca de 56% desde o pico de 2023, enquanto a receita acumulou queda bem menor no período de 2023 a 2025. Ao mesmo tempo, o lucro operacional caiu em ritmo mais acelerado, pressionado principalmente pelo desempenho de moda e artigos de couro e por efeitos cambiais.
Uma conta simples ajuda a dimensionar a mudança na percepção dos investidores. A capitalização de €454 bilhões observada em abril de 2023 equivalia a cerca de 5,3 vezes a receita anual registrada naquele ano. Com aproximadamente €201 bilhões de valor de mercado e a receita de €80,8 bilhões de 2025 como referência, a relação cai para cerca de 2,5 vezes. Não se trata de um múltiplo de avaliação completo, porque não incorpora dívida, caixa, lucro futuro ou outras variáveis, mas a comparação mostra o tamanho da compressão sofrida pela precificação das ações.
Moda e artigos de couro concentram parte da pressão
A principal divisão do grupo, Fashion & Leather Goods, ajuda a explicar por que o mercado reduziu sua disposição de pagar pelos papéis. O segmento, que reúne Louis Vuitton, Christian Dior, Celine, Loewe, Fendi, Loro Piana e outras marcas, faturou €37,77 bilhões em 2025, queda de 8% em relação a 2024 em termos reportados e de 5% em base orgânica. O lucro das operações recorrentes caiu 13%, para €13,21 bilhões.
O segmento foi responsável por cerca de 47% da receita total da LVMH em 2025. Também representou aproximadamente 74% do lucro operacional recorrente do grupo naquele ano, considerando a divisão entre os principais negócios. Essa concentração ajuda a explicar por que o desempenho de algumas das marcas mais relevantes tem peso desproporcional na percepção dos investidores.
Em 2025, a retração não ficou restrita à moda. Wines & Spirits registrou queda de 9% na receita e de 25% no lucro operacional recorrente. Perfumes & Cosmetics teve redução de 3% na receita, enquanto Watches & Jewelry recuou 1%. Em contrapartida, Selective Retailing, que inclui operações como a Sephora, manteve receita praticamente estável e apresentou crescimento de 28% no lucro operacional recorrente.
A própria LVMH relacionou parte da desaceleração em bebidas à perda de força da demanda observada desde 2023, enquanto as tensões comerciais também afetaram mercados relevantes para a companhia. Na moda e artigos de couro, a empresa apontou melhora no segundo semestre de 2025, mas reconheceu que a comparação com 2024 havia sido favorecida pelo forte fluxo de compras de turistas, especialmente no Japão.
2026 trouxe sinais de recuperação, mas não de reversão completa
O quadro mais recente é menos negativo do que o observado ao longo de 2025. No primeiro semestre de 2026, a LVMH registrou receita de €38,64 bilhões, queda de 3% na comparação reportada com o mesmo período do ano anterior, mas crescimento orgânico de 2%. No segundo trimestre, o crescimento orgânico acelerou para 3%. O lucro das operações recorrentes ficou em €8,69 bilhões, 4% abaixo do primeiro semestre de 2025, enquanto o lucro líquido atribuível ao grupo permaneceu praticamente estável, em €5,70 bilhões.
A geração de caixa também ofereceu um contraponto à queda do lucro operacional. O fluxo de caixa operacional livre chegou a €4,1 bilhões no primeiro semestre, alta de 2% sobre o mesmo período de 2025. A dívida financeira líquida caiu 19%, para €8,25 bilhões, enquanto o patrimônio líquido avançou para €69,69 bilhões.
O movimento mais importante apareceu justamente em Fashion & Leather Goods. A receita da divisão caiu 5% no primeiro semestre de 2026 em termos reportados, mas a variação orgânica ficou em -1%. No segundo trimestre, o segmento voltou a registrar crescimento orgânico, de 1%, depois de retração de 2% no primeiro trimestre. O resultado das operações recorrentes da divisão, entretanto, ainda caiu 7% no semestre, para €6,20 bilhões.
Outros negócios apresentaram desempenho melhor. Watches & Jewelry teve crescimento orgânico de 9% no primeiro semestre e de 11% no segundo trimestre. Selective Retailing avançou 5% no semestre e 6% no segundo trimestre, enquanto Wines & Spirits registrou expansão orgânica de 5% no período e também no segundo trimestre.
Estados Unidos e Ásia passaram a ser centrais na recuperação
A geografia também mudou de peso na leitura dos resultados. No primeiro trimestre de 2026, a LVMH afirmou que os Estados Unidos tiveram início de ano positivo, enquanto a Ásia, excluindo o Japão, apresentou forte crescimento. A empresa informou ainda que as tendências asiáticas vinham melhorando desde o segundo semestre de 2025.
No primeiro semestre, a companhia voltou a destacar a aceleração dos negócios nos Estados Unidos e a melhora na Ásia, além da resistência da Europa. O desempenho mostra uma recuperação desigual entre regiões, em vez de uma retomada homogênea do consumo global de produtos de luxo.
Esse ponto é relevante para a LVMH porque o grupo não depende de uma única categoria de produto. O portfólio reúne moda, vinhos e destilados, perfumes e cosméticos, relógios e joias e varejo seletivo. A diversificação reduz o impacto de uma crise localizada, mas também faz com que movimentos distintos entre categorias e mercados apareçam simultaneamente nos resultados consolidados.
A recuperação de 2026, portanto, ainda convive com uma base de comparação enfraquecida. A companhia entrou no ano depois de registrar, em 2025, sua segunda queda consecutiva de receita anual e uma redução de 9% no lucro das operações recorrentes. Ao mesmo tempo, preservou margem operacional de 22% e encerrou 2025 com €11,33 bilhões em fluxo de caixa operacional livre, 8% acima do ano anterior.
O mercado passou a exigir uma trajetória mais previsível
O que mudou para a LVMH entre 2023 e 2026 não foi apenas o nível dos resultados, mas também a expectativa embutida no preço das ações. Em 2023, a companhia combinava expansão de vendas, forte crescimento do lucro e uma percepção particularmente positiva sobre a recuperação do consumo de luxo, sobretudo na Ásia. Naquele ano, a receita avançou para €86,15 bilhões e o lucro das operações recorrentes chegou a €22,80 bilhões.
O ambiente posterior foi diferente. Em 2024, a receita caiu 2% e o lucro operacional recorrente recuou 14%. Em 2025, nova queda levou a receita para €80,81 bilhões e o lucro recorrente para €17,76 bilhões. A empresa continuou altamente lucrativa e geradora de caixa, mas passou a operar com uma taxa de crescimento menor do que aquela embutida nas cotações do auge.
Ao mesmo tempo, a LVMH manteve investimentos e continuou concentrando esforços no fortalecimento das marcas. No primeiro semestre de 2026, Bernard Arnault destacou a renovação criativa de algumas maisons, o desempenho das novas lojas da Louis Vuitton em Pequim e Seul e o avanço de linhas da Tiffany & Co. e da Bulgari. A empresa também apontou a evolução de Sephora e a recuperação de champanhe e conhaque como fatores positivos.
A próxima referência objetiva para o mercado será a divulgação da receita do terceiro trimestre, prevista no calendário corporativo para outubro. Até lá, o principal ponto de acompanhamento será verificar se o crescimento orgânico observado no segundo trimestre se sustenta por mais de um período e se Fashion & Leather Goods consegue transformar a estabilização das vendas em recuperação de lucro.
Fontes:
LVMH – resultados do primeiro semestre de 2026, receita, lucro, fluxo de caixa, dívida e desempenho por divisão
LVMH – indicadores financeiros de 2023 a 2025 e resultados consolidados por segmento
LVMH – resultados anuais de 2025 e desempenho regional e operacional
LVMH – dados históricos da ação e capitalização de mercado, com informações da Euronext
Euronext – cotações e informações de mercado da ação LVMH
Reuters – dados de mercado de 15 de setembro de 2026 e ultrapassagem da LVMH pela L’Oréal em capitalização








