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BTG (BPAC11) ainda avalia Digimais, mas compra pode mudar de formato após operação da PF

Negociação pelo banco ligado a Edir Macedo passou a depender de nova estrutura, aval do FGC e leitura mais cautelosa sobre riscos regulatórios, contábeis e judiciais.

por João Souza
06/07/2026 às 20h20
em Empresas
Banco Digimais - Gazeta Mercantil

O BTG Pactual (BPAC11) ainda não fechou a porta para uma eventual compra do Banco Digimais, mas a operação passou a depender de um desenho muito mais defensivo depois da ofensiva da Polícia Federal contra a instituição financeira. O caso deixou de ser apenas uma negociação entre comprador e vendedor e passou a testar a capacidade do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e do Banco Central de viabilizar uma solução de mercado para um banco sob investigação.

A transação, se avançar, dificilmente seguirá o formato originalmente discutido. A investigação da PF, as dúvidas sobre a real situação patrimonial do Digimais, a necessidade de um processo competitivo e a participação do FGC tornam a operação mais sensível para todos os envolvidos. Para o BTG, o ponto central agora é saber se os riscos do ativo são mensuráveis, isoláveis e aceitáveis.

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Em manifestação enviada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o BTG afirmou que acompanha as notícias sobre o Digimais e que poderá avaliar a participação em um eventual processo competitivo aprovado e acompanhado pelo FGC. O banco também destacou que nenhuma das condições necessárias para a conclusão da operação havia sido cumprida.

A postura pública é cautelosa. O BTG evita anunciar desistência, mas também não assume compromisso definitivo. Na prática, preserva a opção de disputar o ativo se a estrutura econômica, jurídica e regulatória for considerada adequada.

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Digimais vira caso de reestruturação bancária

O Digimais é uma instituição financeira de menor porte, com atuação em crédito e financiamento de veículos. Em abril, o BTG havia comunicado a assinatura de documentos que previam valor de referência e condições para uma eventual aquisição da totalidade das ações do banco.

A estrutura inicial funcionaria como uma espécie de proposta de referência, conhecida no mercado como stalking horse. Nesse modelo, um interessado apresenta uma oferta inicial, que serve de base para um processo competitivo. Outros potenciais compradores podem apresentar propostas, e o objetivo é buscar uma solução que preserve valor e reduza perdas.

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Esse desenho, porém, ficou mais difícil depois da Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação elevou a percepção de risco sobre o Digimais e obrigou compradores, reguladores e o FGC a reavaliar premissas.

Em operações bancárias, o comprador não analisa apenas carteira de crédito, base de clientes ou canais de distribuição. Ele precisa medir também passivos ocultos, contingências regulatórias, risco reputacional, qualidade dos ativos e eventual responsabilidade sobre fatos anteriores ao fechamento da transação.

No caso do Digimais, essa avaliação ficou mais complexa.

O caso em números

A negociação envolve alguns pontos que explicam por que o caso passou a ser acompanhado de perto pelo mercado financeiro:

  • BTG Pactual (BPAC11): potencial interessado na aquisição;
  • Banco Digimais: instituição de menor porte, com atuação em crédito e veículos;
  • FGC: peça central para eventual suporte financeiro e desenho da operação;
  • CVM: órgão ao qual o BTG prestou esclarecimentos sobre a negociação;
  • R$ 670 milhões: valor citado nas medidas de bloqueio e sequestro autorizadas no âmbito da investigação;
  • Kroll: empresa contratada para avaliar o balanço do Digimais;
  • Safra: banco que teria analisado informações no dataroom, mas sem avançar na disputa.

Esses elementos mostram que a eventual compra não depende apenas de preço. Depende de confiança nos números, apoio institucional e blindagem jurídica suficiente para que o comprador não assuma riscos imprevisíveis.

FGC passa a ser o centro da negociação

O papel do FGC é decisivo porque o fundo pode apoiar soluções de mercado para instituições financeiras em situação adversa, desde que a alternativa seja menos custosa e menos arriscada do que uma eventual liquidação.

Esse ponto é essencial para entender o caso Digimais. Se o FGC concluir que uma transferência de controle reduz perdas e preserva a estabilidade do sistema, a operação pode ganhar sustentação. Se entender que o risco jurídico, patrimonial ou reputacional é elevado demais, a negociação perde força.

As regras do fundo foram modernizadas em 2026, ampliando o espaço para apoiar transferências de controle ou operações envolvendo ativos e passivos de instituições associadas em dificuldade reconhecida pelo Banco Central. A lógica é permitir soluções privadas antes que a situação de um banco problemático se deteriore.

Mas há uma diferença importante entre apoiar uma reestruturação bancária convencional e participar de uma operação envolvendo uma instituição sob investigação policial. Nesse segundo cenário, qualquer suporte financeiro pode ser questionado posteriormente, especialmente se surgirem divergências sobre balanço, ativos, passivos ou responsabilidade de antigos administradores.

Por isso, a tendência é que o FGC seja conservador. O fundo precisa calcular se participar da operação reduz o custo potencial de uma crise bancária ou se apenas transfere risco para sua estrutura.

Operação da PF aumentou desconto exigido pelo risco

A Operação Miragem mudou o preço econômico do Digimais. Mesmo que o valor nominal de referência continue sendo discutido, o risco percebido aumentou.

A Polícia Federal apura suspeitas de gestão fraudulenta e possíveis irregularidades relacionadas à situação financeira da instituição. Informações divulgadas pela Reuters apontaram que a investigação teria como base relatórios do Banco Central sobre suposta manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios.

A investigação incluiu mandados de busca e apreensão e autorização para bloqueio e sequestro de bens e valores de até R$ 670 milhões.

Esse tipo de evento altera diretamente a lógica de compra. Para o BTG, a pergunta deixa de ser apenas quanto vale o Digimais em condições normais. Passa a ser quanto vale o banco depois de descontados riscos contábeis, regulatórios, judiciais e reputacionais.

Se os passivos forem previsíveis, a operação pode ser precificada. Se forem incertos, o comprador tende a exigir desconto, garantias, retenção de pagamento ou uma estrutura que separe ativos bons de passivos problemáticos.

BTG pode exigir novo desenho

Caso o negócio avance, é provável que o formato seja diferente do inicialmente previsto.

A primeira mudança possível é uma revisão do valor de referência. Com maior risco percebido, qualquer comprador tende a exigir um preço mais baixo ou mecanismos de ajuste após a conclusão da due diligence.

A segunda é a inclusão de proteções contratuais mais robustas. Isso pode envolver indenizações, garantias, retenção de parte do pagamento, cláusulas de saída e segregação de responsabilidades sobre contingências anteriores à compra.

A terceira é um desenho menos amplo do que a aquisição integral simples. Em casos bancários sensíveis, compradores podem preferir assumir carteiras, ativos específicos ou blocos operacionais, evitando exposição irrestrita ao passivo histórico da instituição.

A quarta é uma dependência maior do FGC e do Banco Central. Sem um desenho regulatório claro, dificilmente uma transação envolvendo um banco sob investigação avançará com segurança suficiente.

Safra analisou, mas não avançou

O interesse de outros bancos mostra que o Digimais chegou a despertar atenção no mercado. Segundo informações publicadas pelo Valor, instituições como o Safra chegaram a acessar o dataroom do banco, mas não avançaram nas negociações.

A leitura é relevante. Quando um banco entra em dataroom, ele passa a examinar documentos financeiros, jurídicos, operacionais, contábeis e regulatórios. Se, após essa etapa, decide não seguir, o sinal para o mercado é que o risco pode não compensar o retorno esperado.

A contratação da Kroll para avaliar o balanço reforça essa preocupação. Em uma operação bancária sob investigação, a qualidade das informações contábeis passa a ser tão importante quanto o valor dos ativos.

Por que o caso importa para o mercado financeiro

O caso Digimais importa porque pode indicar como o sistema financeiro brasileiro lidará com bancos de menor porte em situação de estresse.

Após episódios recentes de crise em instituições financeiras, o mercado passou a observar com mais atenção a atuação do FGC, do Banco Central e de compradores privados em soluções de reestruturação. A ideia é evitar liquidações custosas e preservar a confiança no sistema.

Mas esse modelo só funciona quando três condições estão presentes: informação confiável, risco precificável e segurança jurídica. Se uma dessas bases falha, a solução de mercado fica mais difícil.

Para o BTG, uma eventual aquisição pode representar oportunidade de comprar ativos financeiros, carteiras ou base de clientes com desconto. Para o FGC, a decisão envolve comparar o custo de apoiar uma transferência de controle com o custo potencial de uma deterioração maior. Para o Banco Central, o objetivo é preservar a estabilidade do sistema e evitar contágio reputacional.

Próximos passos da negociação

A operação depende agora de três frentes. A primeira é a avaliação independente da real situação do Digimais. Sem clareza sobre balanço, qualidade dos ativos, passivos e contingências, qualquer proposta tende a carregar desconto elevado.

A segunda é a posição do FGC. Se o fundo não aceitar participar da estrutura, o desenho original perde sustentação. Se aceitar discutir uma solução, o negócio poderá ser remodelado.

A terceira é a decisão do BTG. O banco deixou claro que poderá avaliar a oportunidade caso um processo competitivo seja lançado, mas não assumiu obrigação de seguir adiante.

Até lá, a eventual compra do Digimais seguirá como uma das negociações mais sensíveis do setor financeiro em 2026. O ativo ainda pode ser disputado, mas o cenário atual indica que qualquer avanço exigirá preço mais conservador, garantias adicionais e aval regulatório robusto.

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